2010/11/28

JCP - 30 anos


João (Carvalho) Pina, artista da fotografia, repórter internacional, de momento a viver em Paris, foi surpreendido por uma partida do tempo que corre. Fez 30 anos. Numa emergência assim, não hesitou. Para grandes males grandes remédios. Correu a Lisboa, e reuniu os amigos, em conselho, no LEFT, ali a Santos. Apanhados desprevenidos, sem saberem ao certo que remédio ou estratégia aconselhar, para os 15 anos que ainda lhe restam de juventude, levantaram alto as flutes de champanhe e cantaram os parabéns antes de as despejarem.

Os convivas de primeira geração, findo o dia e alta a noite, foram paulatinamente retirando, abrindo espaço à juventude, mas não sem lhe recomendar todas as cautelas que a profissão exige, especialmente no Afeganistão, em teatro de guerra, por onde tem andado.

Casamento em estado de sítio: 27 de Novembro de 1975

27 de Novembro de 1975, era o dia há muito marcado para o meu casamento. Mais precisamente para a oficialização do meu casamento com a Maria Machado, com registo fixado para as 11 horas, na Conservatória da Avenida Guerra Junqueiro. Na realidade já estávamos "casados" de facto que não de registo em conservatória, desde 1968, na clandestinidade.

O caso não mereceria mais reparo que não o próprio a tal circunstância não fora estarmos apenas dois dias após o confronto militar de 25 de Novembro, que tolheu o passo à revolução, iniciada em 1974 e que ainda mantinha muito incerto o futuro do país e também o futuro e a segurança do PCP e dos seus dirigentes.

Eu estava em local secreto - numa casa da Rua Óscar Monteiro Torres - numa reunião do "comité militar" com Álvaro Cunhal, Jaime Serra e Ângelo Veloso.

No restaurante Ginjal, em Cacilhas. 27 Nov 1975, a olhar para Lisboa, há 2 dias em estado de sítio. 

Estava já combinado que me ausentaria, por pouco tempo, para o programado registo. Numa corrida à conservatória, por acaso, apenas a uns 500 metros de distância, casámo-nos, registámos o filho, com um ano e meio de idade e "legitimámos" a filha com cinco anos. Num ai-Jesus, voltei à reunião, deixando a meio um sermão da conservadora, que condenava a minha pressa e o "pouco respeito por acto tão sagrado para uma família. Que tempos estes!". 

Eis, pois, um casamento em estado de sítio.

Talvez por isso mesmo e sabendo que o registo estava marcado há muito e que eu não teria tais dotes de premonição que tivesse adivinhado um golpe militar em 25 de Novembro, Cunhal observou com um sorriso: gabo-te a pachorra teres decidido casar numa situação destas!
Os choques político-militares entre as forças que favoreciam as transformações revolucionárias e as que lhes queriam pôr fim culminaram com os confrontos na madrugada de 25 de Novembro de 1975 que deram a vitória a estas últimas. Durante esse dia o Presidente da República declarou o estado de sítio e o PCP viveu o dia sob a ameaça de um grande perigo. As forças vitoriosas iam do PS à extrema direita e não era certo em que mãos acabaria o poder. Receava-se que o PCP pudesse ser ilegalizado, ou que algum grupo terrorista de extrema direita, desses que organizaram atentados e incendiaram sedes do PCP, da CGTP e de outros partidos de esquerda desencadeassem acções terroristas contra as sedes ou os dirigentes do partido.

A direcção do PCP tomou medidas para resguardar, numa clandestinidade provisória, utilizando casas de recuo e reuniões fora das sedes, os seus principais dirigentes que continuavam, no entanto, em redobrada actividade.

Foi assim que na sede do Comité Central, na Av António de Serpa, ao Campo pequeno, em Lisboa, por essas 8 horas da noite de 25 de Novembro apenas estavam além dos "serviços mínimos" dois membros do comité central, Georgette Ferreira e o autor desta memória. Dela ainda ouvi: "ai miguinho" não me posso demorar". Tenho reuniões com o sector operário da cintura oriental de Lisboa. Também não me demorei em sair. O meu trabalho era precisamente entre os oficiais das Forças Armadas. Segui para uma ronda por unidades militares de Lisboa que incluiu o Depósito Geral de Material de Guerra em Beirolas e o Ralis, em cuja parada me cruzei com civis fardados de camuflado, ex-militares mobilizados de emergência e sem despacho do Estado Maior que o momento não era para tal e onde se realizou um plenário de militares da unidade, ao qual assisti, entre outros civis, de variegadas sensibilidades de esquerda.

Foi neste ambiente de pré-guerra civil que, em paz, me casei. Salvo aquela reunião que tive de interromper para ir à Conservatória do Registo Civil tudo sucedeu dentro da mais regular normalidade.

A cerimónia a que a conservadora emprestou a devida solenidade, teve alguns momentos incomuns. Quando a Senhora me perguntou pela profissão declinei "funcionário de partido político". Objectou que isso não era profissão. Garanti-lhe que que fazia parte das novas profissões surgidas com a revolução. Contrariada teve de aceitar porque lhe não dei outra.

A seguir ao casamento fez-se o já acima referidos registo do filho e a "legitimação" da filha. Legitimação? Na clandestinidade conseguimos, no meio de peripécias várias (descritas aqui) registar o bebé no nosso nome verdadeiro apenas com o meu bilhete de identidade verdadeiro mas já caducado que obviamente não usava na clandestinidade, porque a Maria só possuía documentos falsos, com nomes falsos, tudo falso! No entanto, por não estarmos casados, a filha só pôde ser registada, durante a ditadura, como filha ilegítima. Era o máximo que Salazar e a Igreja do cardeal Cerejeira permitiam. Resignámo-nos na esperança de que um dia a legitimaríamos.
Agora, dois dias após do golpe do 25 de Novembro de 1975, neste importante momento das nossas vidas, tivemos o amparo dos padrinhos, o Ernâni Pinto Bastos e a Maria do Céu Monteiro. Finda a reunião do comité militar a que rapidamente voltara, "noivos" e padrinhos fomos a Cacilhas, ao restaurante do Ginjal, almoçar e observar, da outra margem, Lisboa em estado de sítio".

2010/10/29

Debbie Harry? "Eh pá ela é linda, linda de morrer" dizia-me ele, aí pelos anos 70 ou 80


Debbie Deborah Ann "Debbie" Harry (Miami, 1 de julho de 1945) é uma cantora e compositora de punk rock/new wave dos Estados Unidos da América. Tornou-se famosa quando vocalista e líder com Chris Stein da banda de new wave Blondie. Deborah fez posteriormente carreira a solo como cantora, e também como atriz, em mais de 30 filmes.
Li por aí algures que Madona, afirmava que Debbie tinha sido o seu ídolo e fonte de inspiração .

"Linda, loira e polémica, a cantora Debbie Harry era considerada, nos anos 70 e 80, a mais cool, sexy, hype, jet-setter, style, up-to-date e todos estes adjetivos em inglês usados para designar gente sensual, moderna e antenada. A mulher que todas as outras queriam imitar, e que todos os homens queriam ter." Conversa da Globo e com aquele "antenada" brrrr.  [Aqui]

As  imagens podem ser tomadas como um exercício de crueldade mas representam apenas o retrato do caminho que não conseguimos evitar.
(Isto foi escrito em 2010. Estava aqui no blog, subterrâneo, em forma de rascunho, esquecido ou sem "pinta" para merecer publicação

2010/10/26

Hoje,a esta hora, há 40 anos

Contra a ditadura fascista,  contra a guerra colonial, pela democracia, pela liberdade, lutávamos então.
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Hoje, a esta hora, neste momento, há quarenta anos, entrei para o carro do António Pedro Ferreira e... os dados estavam lançados. Agora ou tudo corria bem ou ...  Toda a planificação do Comando Central, Jaime Serra, Chico Miguel e este, que vos conta isto... todo o meticuloso trabalho de preparação, técnico e de organização tinha sido adequado e perfeito ou... Estarão todos nos locais marcados para o encontro à hora certa? Sem falha, sem medo (medo não faz mal desde que controlado)? O António Pedro Ferreira estava, já estou no carro dele, e o António João Eusébio, e o Manuel Policarpo Guerreiro e o Carlos Coutinho e o Gabriel Pedro? Estes dois  que constituem o comando e vão com duas poderosíssimas minas sabotar o mais moderno transporte de mercadorias para as guerras coloniais, o navio Cunene. Estarão todos? Ninguém arranjará uma desculpa para faltar? Não. Ninguém falhou. Estavam todos. À hora certa,  no seu local combinado. Cada um no seu sítio e um a um, a cada um distribuí a  sua tarefa. Gabriel Pedro, com 70 anos, sim com SETENTA  anos, estava ali como o mais jovem de nós e ele tinha a tarefa mais delicada pois tinha de roubar o barquito a remos, ali nas barbas dos guardas fiscais, para ir com o Carlos Coutinho e as cargas explosivas, já engravidadas para explodir às 5h da madrugada, cinco quilómetros a remar, Tejo abaixo desde Cabo Ruivo até à Rocha de Conde de Óbidos.
Estavam todos à hora certa no sítio certo. Ninguém faltou. Nem o barquinho a remos nem o grande navio Cunene e às 5h, sem vítimas, o cais e Lisboa,  ali à volta, acordaram.
Ia eu com medo, assustado, a pensar no perigo? Nem eu nem nenhum de nós tinha vagar ou disposição para isso. Só o objectivo, a missão a cumprir nos absorvia, totalmente, com o seu irresistível apelo.
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Mais? No site sobre o livro da ARA e em particular nos extratos do livro.

2010/06/29

Evocada a memória de 1500 espanhóis fuzilados por Franco no cemitério de Almudena em Madrid

"20 artistas y 20 familiares de víctimas han leído esta mañana en el cementerio madrileño de La Almudena, frente a la tapia donde fueron fusilados, los nombres de 1.500 asesinados durante el franquismo. Durante más de una hora y media recordaron en voz alta a quienes murieron "por defender la legalidad", según ha señalado el actor Alberto San Juan. "No hemos venido a llorar sobre su recuerdo", quiso aclarar Marcos Ana, el preso que más tiempo pasó en las cárceles franquistas, 23 años, "sino para demostrar nuestro compromiso con los ideales que les quitaron la vida". [ Mais em El País]



"Na longa lista de vítimas evocadas em voz alta, uma a uma, havia muitas com o mesmo apelido que davam conta do extermínio que o regime de Franco levou a cabo família a família. Irmãos, pais, e filhos foram fuzilados contra o muro do cemitério de Almudena (Madrid) no qual ainda se podem observar o impacto das balas e que esta manhã (20/06/2010) se encheu de cravos vermelhos."

Ver também aqui Contra La Impunidad ou aqui
Sites Não Apaguem a Memória ; Memoria Historica

2010/05/31

Teixeira Gomes - que a ditadura quis apagar da memória dos Portugueses

O João Maria Freitas Branco faz o favor de ser meu amigo e eu sou amigo dele. Não dessas "amizades" de Facebook, busca inglória de promoção pífia. Mas porque somos amigos? Por um conjunto de pequenas razões coladas ao longo do tempo que juntas  formam uma razão grande. E será certamente por isso que ele é meu amigo. Mas se sou amigo dele por essas muitas pequenas razões sou-o também por uma outra Razão Grande. É que o João é um filósofo (como ele, amigo da verdade, se auto-intitula) mas um filósofo da racional Razão.  Por isso o seu blog, a não perder de vista, não podia ter outro nome: RAZÃO

Vem tudo isto a propósito do seu último post sobre Teixeira Gomes que ninguém conhece porque a retrógrada parceria Salazar - Cerejeira tentou e quase conseguiu apagá-lo da memória dos Portugueses.
Diz o João Maria: "Nenhum português que se preze de ser homem ou mulher de cultura pode permitir-se ignorar a esplêndida prosa literária do Teixeira Gomes. Portanto, saúdo aqui o competente e abnegado esforço do Vítor Wladimiro Ferreira, do Urbano Tavares Rodrigues e da Helena Carvalhão Buescu, esperando que o projecto editorial se conclua com sucesso.

Aqui fica a referência bibliográfica para que os leitores/seguidores deste blog possam encontrar-se com Teixeira Gomes:

TEIXEIRA-GOMES, Manuel: Obras Completas, anotadas por Urbano Tavares Rodrigues, Helena Carvalhão Buescu e Vítor Wladimiro Ferreira, prefaciadas por Urbano Tavares Rodrigues, Volumes I e II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Câmara Municipal de Portimão, Lisboa, 2009.

Urbano Tavares Rodrigues:
«Um dos produtos mais acabados e originais,
sem par ao nível do estilo, da literatura portuguesa de sempre.»
____________________
Sobre Teixeira Gomes - 7º presidente da 1ª República, de 1923 a 25, ver aqui na Wikipédia.

2010/05/09

A Mulher na Espanha Franquista



Um clic na imagem abre-lhe o "livro" que revela o lugar que o franquismo e a Igreja católica reservavam à mulher, em Espanha. Foi apenas há meio século atrás. Nada de muito diferente das concepções mais reaccionárias do actual Islão.
(Para folhear o livro, depois do 1º clic na imagem, um clic com o rato nas setas da esquerda ou da direita a meia altura da página).

Mais completo aqui ou aqui

2010/04/27

Para Memória Futura


Sinalizar a sede da PIDE


De acordo com o programa da inauguração da placa de sinalização da PIDE/DGS na Rua António Maria Cardoso em Lisboa, realizou-se um cortejo que partiu dos paços do concelho da CML onde usaram da palavra a vereadora da Cultura Drª Cartarina Vaz Pinto e pela Associação Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! - NAM o Professor Jorge Martins, membro da direcçaõ do NAM, que ao longo do mini-roteiro o animou e ofereceu de modo impressivo uma informação histórica da ditadura e do dia 25 de Abril de 1974 relacionada com os locais do percurso.

Após o descerramento da Placa, usaram da palavra Raimundo Narciso pelo NAM, José Manuel Tengarrinha, Edmundo Pedro e Helena Pato na qualidade de ex-presos políticos e lutadores anti-fascistas e o Presidente da CML Dr. António Costa.

O mini-roteiro e o acto final tiveram uma significativa participação de umas 150 a 200 pessoas
 

2010/03/31

Susana de Sousa Dias - Grande Prémio do festival "Cinéma du Réel"

"Não foi o filme a vencer cá o DocLisboa, o grande evento português para o documentário, - diz Vanessa Rato no Público de 29.03.2010 -  mas foi o filme a ir "lá fora" e a voltar a casa com o Grande Prémio do festival Cinéma du Réel (Paris), um dos mais importantes do mundo. Estamos a falar de "48", de Susana de Sousa Dias, uma aproximação de 93 minutos ao que foram os anos da ditadura fascista portuguesa e ao que esta implicou para os que lhe resistiram."
Vi o filme "48" num seminário organizado pelo Movimento Não Apaguem a Memória! em cooperação com o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES)- delegação de Lisboa, e realizado na suas instalações no Picoas Plaza.CES em 5 e 6 de Março deste ano (foto à esquerda) Fiquei vivamente impressionado com esta longa metragem de Susana de Sousa Dias tanto mais quanto à partida, sabendo do que se tratava, me parecia muito difícil "agarrar" o espectador durante uma hora e meia.  É uma obra de arte densa de dramatismo. Tanto mais cativante quanto austera nos meios. É importante que chegue ao grande público.

Em Paris não pouparam, justamente, elogios a "48".

Ousado e com conteúdos históricos fundamentais: talvez todos os alunos devessem ser obrigados a ver o filme de Susana de Sousa Dias (Enric Vives-Rubio)
ou
Estamos a falar, também, daquele que foi "provavelmente o mais ousado e vanguardista" objecto cinematográfico a passar pela edição de 2009 do Doc (palavras de Novembro último de Sérgio Tréfaut, o director do festival).

Voltemos ao texto de Vanessa Rato no Público:

... "O que é que posso dizer? Estou muito contente. É isso, basicamente", dizia ontem ao P2 a realizadora. "Posso acrescentar que fiquei muito surpreendida com a muito boa adesão não só de profissionais -o júri, claro, outros realizadores... - mas também do público, em geral. Não é um filme, à partida, muito fácil."

Com dezenas de entrevistas a antigos prisioneiros da polícia do regime, a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), em "48" Susana de Sousa Dias optou por uma montagem livre do seu material, uma montagem mais poética e de estrutura mais minimalista do que a norma tradicional do cinema directo: usou apenas a voz das entrevistas, sobrepondo-a à imagem do desfilar das fotografias tiradas pela PIDE aos seus prisioneiros - preto e branco, frontal e perfil.

Um dos momentos: o rosto de uma mulher de sorriso aberto; um estalo de resistência num lugar de sofrimento - "Nunca lhes daria o gosto de me verem com cara de sofrimento", diz uma das vozes off.

"Os anos passam, mas as fotografias permanecem inalteradas, todas no mesmo formato. Por detrás destas imagens monocromáticas e monótonas, tristes e inertes, as vozes daqueles que, em tempos, foram fotografados relembram as suas memórias, os seus medos, as suas cicatrizes, as suas prisões e o abuso físico, a tortura, humilhações e prisão", "não se trata apenas da história secreta destas imagens, mas também do confronto entre o perpetrador e a sua vítima congelado para a eternidade", lê-se no texto assinado pelo realizador e crítico de cinema Yann Lardeau (Cahiers du Cinéma) com que o filme é divulgado no site do Cinéma du Réel.

Em Paris, a última sessão - de quatro - foi na sexta-feira. Mas uma exposição assim abre portas. Brasil, com o festival É Tudo Verdade (8 a 18 de Abril, no Rio e em São Paulo), estava já agendado desde o Doc, mas Paris trouxe convites, por exemplo, para Turim e a Nova Caledónia.

"Fico muito feliz também pelo filme: trata a nossa história recente, que não tem sido bem tratada e onde há muito trabalho a fazer", dizia a realizadora.
...
"Sérgio Tréfaut, falando em nome do Doc ..."Deve ser um combate difícil lançar "48" em sala, [para o circuito comercial] mas espero que consigamos, provavelmente com acordos e pontes entre o Instituto do Cinema e Audiovisual e o Ministério da Educação."
 "É um filme que deveria ser visto por todos os alunos do secundário. É um filme de construção extremamente elaborada do ponto de vista artístico. O seu conteúdo histórico é extremamente importante e rico, uma razão suplementar para que esteja em sala. Deveria ser de visionamento obrigatório para as cadeiras de História."
"48" é a segunda longa-metragem de Susana de Sousa Dias, depois do também premiado Natureza-Morta, realizado a partir de imagens de guerra, documentários de propaganda e fotografias de prisioneiros políticos também do Estado Novo.
Aos 48 anos, e professora do curso de Arte Multimédia da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, Susana de Sousa Dias é também autora da curta "Processo-Crime 141/53 - Enfermeiras do Estado Novo" (2000). Está actualmente em fase de montagem de "Luz Obscura".
"48" foi premiado por um júri constituído pelos realizadores Sólveig Anspach (Finlândia/EUA), Sepideh Farsi (Irão), Michaël Gaumnitz (França) e Bruno Muel (França) e, por fim, pelo director do festival Shadow, Stefan Mayakovsky (Holanda).

2010/03/17

A Placa evocativa dos mortos pela PIDE




De acordo com a intermediação da CML junto do GEF a placa em memória e homenagem aos quatro jovens mortos pela PIDE em frente à sua sede quando metralhou a manifestação espontânea e  pacífica que que se realizou no dia 25 de Abril de 1974, que tinha sido recolocada a um metro do chão foi subida em virtude dos protestos do NAM e de muitos outros cidadãos. Falta agora pintar as letras a preto como estavam para que os nomes não fiquem invisíveis.
Uma colocação mais criteriosa deveria colocá-la um pouco mais abaixo à altura em que estava no edificio que foi sede da PIDE e antes das obras que o transformaram em condomínio privado de luxo. (Mais fotografias aqui)

2010/03/13

Miguel Hernandez

Miguel Hernández é um grande poeta de Espanha. Nasceu em  Orihuela, um pequeno povoado levantino em 30 de octubre de 1910 e morreu em 1942 com 31 anos de idade. O pai contrariava a leitura não o deixou continuar os estudos e pô-lo a pastorear o rebanho de cabras da família. É um autodidata e a sua poesia inicialmente pouco interessante começa a ganhar asas no final dos anos 20 a ponto de se tornar um dos grandes poetas do país vizinho. Ofereceu-se para o exército republicano que combatia o golpe fascista e as tropas de Franco e nas trincheiras escreveu o belíssimo poema de amor reproduzido abaixo dedicado a Josefina Manresa com quem casara, em Março de 1937 e ao filho anunciado e cantado (1976) por Adolfo Cedrán, (video) ele também um lutador antifranquista (N.:1943). Derrotada a República, Miguel Hernandez tentou escapar aos assassínios em massa dos franquistas e fugiu para Portugal mas Salazar entregou-o piedosamente a Franco que o condenou à morte. Esta condenação foi depois comutada porque Franco receou outra campanha internacional de denúncia do fascismo franquista como a que ocorria em consequência do assassinato de Garcia Lorca. Os franquistas preferiram deixá-lo morrer na prisão não lhe dando cuidados médicos e deixando que a tuberculose substituisse o fusilamento.



CANCION DEL ESPOSO SOLDADO
.
He poblado tu vientre de amor y sementera,
he prolongado el eco de sangre a que respondo
y espero sobre el surco como el arado espera:
he llegado hasta el fondo.
.
Morena de altas torres, alta luz y ojos altos,
esposa de, mi piel, gran trago de mi vida,
tus pechos locos crecen hacia mi dando saltos
de cierva concebida.
.
Ya me parece que eres un cristal delicado,
temo que te me rompas al más leve tropiezo,
y a reforzar tus venas con mi piel de soldado
fuera como el cerezo.
.
Espejo de mi carne, sustento de mis alas,
te doy vida en la muerte que me dan y no tomo.
Mujer, mujer, te quiero cercado por las balas,
ansiado por el plomo.
.
Sobre los ataúdes feroces en acecho,
sobre los mismos muertos sin remedio y sin fosa
te quiero, y te quisiera besar con todo el pecho
hasta en el polvo, esposa.
.
Cuando junto a los campos de combate te piensa
mi frente que no enfría ni aplaca tu figura,
te acercas hacia mi como una boca inmensa
de hambrienta dentadura.
.
Escríbeme a la lucha siénteme en la trinchera:
aquí con el fusil tu nombre evoco y fijo.
y defiendo tu vientre de pobre que me espera,
y defiendo tu hijo.
.
Nacerá nuestro hijo con el puño cerrado,
envuelto en un clamor de victoria y guitarras,
y dejaré a tu puerta mi vida de soldado
sin colmillos ni garras. ,
.
Es preciso matar para seguir viviendo.
Un día iré a la sombra de tu pelo lejano.
Y dormiré en la sábana de almidón y de estruendo
cosida por tu mano.
.
Tus piernas implacables al parto van derechas,
y tu implacable boca de labios indomables,
y ante mi soledad de explosiones y brechas,
recorres un camino de besos implacables.
.
Para el hijo será la paz que estoy forjando.
Y al fin en un océano de irremediables huesos
tu corazón y el mío naufragarán, quedando
una mujer y un hombre gastados por los besos.

Toda a poesia de Miguel Hernandez: [aqui]
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" En la primavera de 1939, ante la desbandada general del frente republicano, Miguel Hernández intenta cruzar la frontera portuguesa y es devuelto a las autoridades españolas. Así comienza su larga peregrinación por cárceles: Sevilla, Madrid. Difícil imaginarnos la vida en las prisiones en los meses posteriores a la guerra. Inesperadamente, a mediados de septiembre de 1939, es puesto en libertad. Fatídicamente, arrastrado por el amor a los suyos, se dirige a Orihuela, donde es encarcelado de nuevo en el seminario de San Miguel, convertido en prisión. El poeta -como dice lleno de amargura- sigue "haciendo turismo" por las cárceles de Madrid, Ocaña, Alicante, hasta que en su indefenso organismo se declara una "tuberculosis pulmonar aguda" que se extiende a ambos pulmones."
[Link]

2010/03/07

Chimamanda Adichie



Chimamanda Adichie é uma jovem escritora nigeriana da classe média que foi estudar para os EUA e conta para uma grande plateia de norte-americanos "O perigo da história única."
A bela mensagem de Chimamanda Adichie, é lúcida, é cativante e desmonta de forma arguta, contando a sua vida, os estereótipos da "história única", unidimensional, da cultura dominante, que  impedem os homem, as mulheres, de verem a "outra" mulher e o "outro" homem como homens e mulheres totais.

2010/02/03

Manuel Serra - a luta pela Liberdade


















Manuel Serra faleceu na 2ª feira e o seu corpo será incinerado hoje às 16 horas no cemitério dos Olivais.
Manuel Serra foi um dos grandes lutadores contra a ditadura. Esteve em 1961 na revolta da Sé e em 1962 na tentativa de Golpe de Beja no qual chefiava a componente civil enquanto o então capitão Varela Gomesa dirigia a componente militar.
Ludibriou a PIDE com fugas espectaculares mas acabou por passar cerca de 12 anos nas cadeias fascistas.
Foi na juventude dirigente da Juventude Operária Católica e a seguir à revolução de 25 de Abril de 1974 aderiu ao PS mas abandonou-o quase de seguida.
Dele ficou para os portugueses a imagem do revolucionário "romântico" e corajoso. Tinha 78 anos.

A fotografia, que copiei daqui  - onde se pode saber mais sobre a vida de Manuel Serra - é, conforme ali se menciona, de Rui Daniel Galiza e João Pina em Por teu livre pensamento. Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, Assírio & Alvim.

2010/01/31

Jô Soares no Aniversário de Álvaro de Campos

Jô Soares veio a Portugal e trouxe o seu espectáculo Remix em Pessoa.

 

ANIVERSÁRIO
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham de mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças,
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas)
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo
do alçado -,
As Tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje não faço anos.
Duro.
Somam-se-me os dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

[Álvaro de Campos]

2010/01/29

Em 1963 eram assim

Íamos jogar futebol ou acabáramos de jogar? Os outros não queriam perder o espectáculo de tais craques ou simplesmente acompanhavam amigos e namorados? Corria o ano de 1963, segundo as melhores avaliações, e o local é o campo de futebol da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Aquilo é que eram tempos...! É a lenga lenga do costume e a única razão para tais lamúrias é porque estávamos em melhor forma que agora. E tínhamos um mundo de promesas pela frente. Esse tal mundo não se revelou tão auspicioso para a humanidade quanto se desejava.
Destes 21 jovens 13, todos rapazes, são estudantes do IST. As raparigas dividem-se por Letras, Ciências e o último ano do liceu. Salvo melhor opinião que nestas coisas nunca se sabe tudo, há três pares de namorados. (Hetero. Que na altura, outra combinação... nem pensar em tal semelhante (publicamente). Homosexualidade era tabu, escândalo, talvez doença e perversão a pedir castigo) Dois casaram e continuam casados até hoje. Que botas de elástico, dirão os mais modernos. Para a moral daquela altura é virtude. Para os costumes de hoje é um escândalo. O outro par não chegou a casar. Ou melhor, cada um casou com outro ou outros parceiros, um de cada vez que a evolução dos costumes ainda não chegou a tanto.
É tudo gente das associações de estudantes. Nas aulas aprendem o ofício. Na Associação cultivam o espírito. E o corpo. Na Secção Cultural familiarizam-se com o mundo das artes plásticas, da música, da poesia, da literatura em geral. No CUJ convívem com o Jazz, no Cineclube Universitário absorvem a cultura que vem "lá de fora", progressista, a que passa no crivo da Censura Prévia da ditadura fascista (passe o termo, para os que se agoniam com ele ou para os preciosistas que acham que a nossa ditadura não é bem fascista, por não acompanhar o paradigma mussuliniano ou hitleriano. O nosso fascismo é beato, é rural, usa botas e reza o terço). Mas, dizia eu, quem se ficasse pelas aulas no IST seria engenheiro mas quase certamente não obteria a formação cultural e humanística dos associativos. E não se descurava a educação física nas aulas de ginástica três vezes por semana, nas equipas de andebol ou basquete. Duas mesas de ping-pong eram a delícia dos amantes da modalidade se bem que outros passassem o tempo de lazer a modularem as capacidades estratégicas no xadrez com a técnica da simplificação do magistral Capablanca, cubano e campeão mundial dos anos 20  ou a da complexização do não menos célebre campeão russo Alexander Alekhine.

Mas talvez a grande estrela dos saberes oferecidos pela Associação de Estudantes fosse a política exercitada nas assembleias gerais, nas reuniões culturais, nos convívios e por detrás das vistas públicas, nas reuniões clandestinas já a arriscar forte na luta pela liberdade, pela democracia. Muitos daqueles já frequentam o comunismo que oferecia Lenine, revolução e quase certamente  PIDE e prisão, Caxias ou Peniche.
Daquele simpático grupo pelo menos cinco rapazes conheceram a prisão e a tortura. Quatro tiveram de passar a viver na clandestinidade, dois e uma ou duas raparigas tiveram de seguir para o exílio.
Estão todos vivos excepto um. Descobriram - lhe um cancro. Daqueles fulminantes. Conviveu com a morte anunciada durante uns dois anos até que os médicos reconheceram que se tinham equivocado. Mas mais tarde, encontrando-se em Moçambique, um ataque de coração não lhe deu mais oportunidades. Era necessária uma intervenção cirúrgica urgente. O hospital competente mais próximo era  na África do Sul, e Africa do Sul não chegou a tempo. 
Médicos, engenheiros, professores, historiadores, políticos, empresários, jornalista da rádio e televisão, no masculino e no feminino.
Os vinte distribuem-se no espectro político pátrio pelo PCP (incluindo pelo menos dois dirigentes nacionais), pelo BE (um dos principais dirigentes), pelo PS (um dos quais foi ministro do primeiro Governo de Sócrates) e talvez, mas já poucos, pela ala mais à direita.
A movimentação da fotografia pelo "éter" da web deu origem a um outro movimento, este para juntar todos os ex-colegas numa nova fotografia, mas mais vestidinhos, de preferência num restaurante e se se achar conveniente um pouco desfocada.
Os promotores procuram identificar, na fila de pé, o 2º,  a 6ª e o 9º retratado, a contar da esquerda.
Alvíçaras a quem os identificar e deixar forma de contacto, na caixa de comentários.
[Um clique com o rato sobre a fotografia dá às raparigas um outro glamour e à imagem uma generosa ampliação].

2010/01/08

Fernando Rosas (deputado do BE) e a "Placa" na antiga sede da PIDE

ASSEMB LEIA DA REPÚB LICA
GPBE/AS
REQUERIMENTO Número /XI ( .ª)
PERGUNTA Número /XI ( .ª)
Assunto: Placa evocativa das últimas vítimas da polícia política do regime fascista, no edifício da antiga sede da PIDE em Lisboa
Destinatário: Ministério da Cultura
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República

Na antiga sede da PIDE/DGS, sita na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, foi edificado um condomínio de luxo “Paço do Duque”, tendo sido retirada das suas paredes a placa evocativa das últimas vítimas da polícia política do Estado Novo.
Saliente-se a invocação inscrita na placa evocativa da ocupação da sede da PIDE/DGS: «Aqui, na tarde de 25 de Abril de 1974, a PIDE abriu fogo sobre o povo de Lisboa e matou: Fernando C. Gesteira, José J. Barneto, Fernando Barreiros dos Reis, José Guilherme R. Arruda. Homenagem de um grupo de cidadãos. 25-4-1980»
No passado mês de Dezembro, a empresa GEF – Gestão de Fundos Imobiliários, S.A., responsável pelas obras, comprometeu-se a recolocar a placa no local original, avançando que a sua remoção apenas se tenha devido às obras de recuperação do edifício. Não obstante, a GEF assentou a placa evocativa num local diferente, sem qualquer visibilidade, num canto inferior do edifício, perto do chão e encoberta pelo estacionamento automóvel, tal como a fotografia, que
junto se anexa, demonstra.
A transformação do edifício símbolo da repressão, em abandono desde a revolução de 25 de Abril de 1974 e vendido para ser transformado em condomínio privado de luxo, é representativa da passividade perante a preservação da memória colectiva e de um dos locais mais paradigmáticos da ditadura fascista, na medida em que a promoção comercial dos apartamentos, disponível no site do empreendimento (www.pacododuque.com.pt) revela apenas a história dos
moradores nobres até ao século XVII, escondendo o passado recente da tortura e repressão do Estado Novo.
O Bloco de Esquerda considera que a memória colectiva deve ser assinalada nos seus locais próprios, sendo o edifício da antiga sede da PIDE um local de excelência da ditadura fascista, onde alguns resistentes lutadores da liberdade foram torturados e assassinados, pelo que a placa evocativa do assassinato dos quatro jovens a 25 de Abril de 1974 pela polícia política do Estado Novo deve regressar ao seu local de origem.
Atendendo ao exposto, e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o
Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda vem por este meio dirigir ao Governo, através do
Ministério da Cultura, as seguintes perguntas:
1. Tem o governo conhecimento da situação da placa evocativa das últimas vítimas da PIDE no edifício da antiga sede daquela polícia política?
2. Que medidas pretende o Governo alvitrar no sentido da colocação da placa evocativa no seu local original, em nome da preservação da memória colectiva do povo português?
Palácio de São Bento, 6 de Janeiro de 2010
O Deputado
Fernando Rosas