2009/05/09

Tarrafal: Simpósio com ex-presos políticos de Cabo Verde, Angola, Guiné Bissau e Portugal.


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É a apresentação de um documento sob a forma de livro que pode ser folheado página a página. Contém as conclusões do Simpósio, a intervenção do 1ºM de Cabo Verde, a intervenção da Ministra da Cultura de Angola e a intervenção de Raimundo Narciso do Movimento Não Apaguem a Memória!
Para abrir o livro um clic sobre a imagem. Clic na seta à direita e à esquerda e folheia-se o livro. Se não se ler bem um clic na imagem amplia-a. A ampliação pode ser regulada num cursor que surge ao cimo da imagem.

No Tarrafal Simpósio com tarrafalistas de Portugal, Cabo Verde, Angola e Guiné Bissau

Imagens do antigo campo de concentração do Tarrafal (CCT), criado pelo regime fascista-colonialista de Salazar, na Ilha de Santiago em Cabo Verde, obtidas durante o Simpósio Internacional sobre o CC T (28 de Abril a 1 de Maio de 2009)promovido pela Fundação Amílcar Cabral com o patrocíonio do Presidente da República de CV Comandante Pedro Pires, e a colaboração da Fundação Mário Soares e outras fundações e associações de Angola e Guiné.







Estiveram presentes várias dezenas de ex-presos políticos de Cabo Verde, da Guiné e de Angola (presos na "2ª vida" do CC T, de 1961 a 1974, só para presos políticos das ex-colónias portuguesas) e um de Portugal, Edmundo Pedro, um dos dois sobreviventes da "1ª vida" do CCT, só para presos políticos portugueses de 1936 a 1954.






Participaram o ministro da Cultura e o da Educação de Cabo Verde, a ministra da Cultura de Angola, o ministro da Cultura da Guiné. O Simpósio foi aberto com uma intervenção do 1ºM de CV e encerrado com um discurso de Pedro Pires, Presidente da República de CV. Esteve presente também a embaixadora de Portugal em Cabo Verde.
Notada a ausência de qualquer ministro português. Já em Portugal procurei saber porquê. O Governo não recebeu nenhum convite. O convite foi feito pelo PR de Cabo Verde ao PR Português e...
O Governo português tinha participado, aliás, no financiamento da recuperação do campo do Tarrafal através da Secretaria de Estado da Cooperação. Houve falha de comunicação ou a falta de percepção de que PR e Governo português sendo órgãos distintos e de famílias políticas distintas podem ter dificuldades de comunicação...

O Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires.

Participaram no Simpósio ex-presos políticos tarrafalistas que vieram a exercer ou exercem altas funções no Estado ou são representantes da intelectualidade (Poetas, escritores, professores universitários) de Cabo Verde, Guiné Bissau ou Angola.


O Poeta Mário Fonseca (Cabo Verde), o Embaixador Manuel Pacavira (Angola), jovem do protocolo do Simpósio.

Luandino Vieira, à direita



De frente Álvaro Dantas Tavares representante da Presidência da República de CV na organização do Simpósio. De Costas Alfredo Caldeira da Fundação Mário Soares


Por Portugal participaram, Mário Soares, em representação da sua Fundação que foi, aliás, responsável pela exposição do Simpósio organizada por Alfredo Caldeira, Edmundo Pedro, 9 anos preso no Tarrafal, o historiador e deputado Fernando Rosas, a historiadora Irene Pimentel, a jornalista (e membro da direcção do NAM) Diana Andringa, o presidente da direcção do Movimentpo Não Apaguem a Memória!-NAM (que laboriosamente e muitas lacunas vai colocando a notícia neste blog ), o presidente da URAP Aurélio Santos, o representante do PCP, Domingos Abrantes, e outros colaboradores da FMS e do NAM.


O ex-presidente da República de Portugal Dr. Mário Soares


O historiador Fernando Rosas, vendo-se na mesa a Ministra da Cultura de Angola.

No fim do Simpósio foi organizada uma visita ao cemitério, em homenagem aos ex-terrafalistas mortos no CCT. Raimundo Narciso e Aurélio Santos representaram Portugal colocando uma coroa de flores e pronunciando uma breve alocoção.
O Governo de Cabo Verde vai consagrar o CCT património Nacional de Cabo Verde mas pretende que seja também reconhecido como Património da Humanidade.
Do documento de conclusões do Simpósio (encontra-se na íntegra assim como algumas intervenções no Simpósio no post acima sob a forma de livro) transcrevo as seguintes recomendações:

· Destapar e colocar em espaço de memória os outros “Tarrafais” espalhados pelo mundo, e em particular nos países integrantes da CPLP, tais como Ilha das Galinhas, na Guiné-Bissau, Campos de S. Nicolau, Missonbo e Colónia Penal do Bié, em Angola, Machava, em Moçambique, Vikeke e Ataúro, em Timor-Leste, e Tarrafal de S. Nicolau, em Cabo Verde;

· Manifestar o seu repúdio pela crescente utilização de campos de concentração e de tortura em conflitos recentes;

· Legislação apropriada e multinacional (Portugal, Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau) para garantir o carácter perene da importância do Campo de Concentração do Tarrafal, para que o seu destino não dependa das vicissitudes e vontades circunstanciais dos respectivos governos;

· Assegurar a integridade das instalações de Campo, tal como se encontravam no momento da sua libertação;

· Que o Campo se torne um espaço de memória de todos aqueles que aqui sofreram, fazendo dele um espaço memorial da conquista da Liberdade;

· Que seja criado, dentro do Campo de Concentração do Tarrafal, um Museu da Resistência e da Liberdade;

· Que se crie dentro do Campo um Centro Internacional de pesquisa da Luta pelas Independências;

· Criar no espaço envolvente do Campo, áreas dedicadas às Crianças e à Juventude para que elas possam apreender melhor a História;

· Criar nos terrenos adjacentes ao Campo valências capazes de assegurar a sustentabilidade do Campo;

· Inserir nos compêndios escolares mais matérias sobre a História e as Lutas de Libertação Nacional dos nossos países;

· O Simpósio apela aos governos de Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau e Portugal para que assegurem os encargos de edificação e manutenção do Campo de Concentração do Tarrafal como Memorial da Luta comum dos nossos povos.

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Abaixo mais fotografias do CCT preparado para o Simpósio. Ter em conta que o actual CCT é o de 1961-1974, que fez adaptações ao que vigorou até 1954. Assim por exemplo a célebre câmara de tortura "frigideira" desapareceu. As suas funções passaram a ser executadas noutra construção a que os africanos chamaram "Holandinha". Porquê tal nome? Porque havia muitos emigrantes na Holanda e a ida para o cela do castigo, uma "emigração" para o sofrimento.







E também imagens da belíssima praia do Tarrafal.


2009/04/12

RN no colóquio sobre o Tarrafal na AR

Mas que é isto? É uma nova forma de ver um documento. Folheando-o. Para isso é necessário um clic sobre a imagem e depois mais um clic na seta à direita da página para ir folheando. Pode ampliar o texto se não estiver muito legível. O segredo é um clic sobre a imagem e em cima pode ampliar a imagem a seu gosto. Depois escape para fechar. Entre sem medo e domine estas tecnologias simples da web.

Para usar esta técnica nos seus documentos ou livros que queira publicar vá a http://issuu.com/ inscreva-se, faça o upload de um documento que tenha no seu computador ou que esteja disponível na net. Preencha o formulário que lhe pedem quando faz o upload. Estude a coisa, é simples. Por fim clic em embed. Oferecem-lhe então um código. Copie-o e coloque-o no seu post mas atenção na área do html. E já está. Você não é menos que eu e a mim ninguém explicou nada.

2009/03/22

Jaime de Magalhães Lima Mascarenhas

Morreu, na 6ª feira, dia 20 de Março, às 23 horas, com 65 anos, no IPO, acompanhado pela filha, Helena, e a companheira, Ana, pouco depois de pôr em ordem planos de quem preza a vida e não se resigna a morrer.
Foi cremado hoje, às 14h e 30 m, no cemitério do Alto de São João. Aonde acompanharam o féretro muitos dos seus familiares e amigos. Estes de muitas origens. Dos seus muitos interesses. Profissionais, políticos, culturais.
No momento da partida da urna, no crematório, um amigo, de amizades que vinham dos tempos do exílio em Paris e do Maio de 68, pronunciou para todos nós a sua despedida que era também a nossa. Não foram palavras circunstanciais num acto formal. Foram palavras espontâneas que evocavam o grande Homem, o Amigo exemplar, que ele foi. O homem abnegado, frequentador da utopia que se expressa na ajuda ao seu semelhante, na solidariedade (nele tão natural) para com todos os que à sua volta com ele conviviam ou trabalhavam.
Era neto de Jaime Magalhães Lima, filósofo e ensaísta e sobrinho-neto de Sebastião Magalhães Lima grande figura de intelectual e revolucionário da República e Grão Mestre da Maçonaria (Grande Oriente Luzitano).
Jaime Mascarenhas era Matemático. Era Director no Instituto de Informática do Ministério das Finanças. Tinha, como informático, uma carreira muito auspiciosa e bem remunerada na IBM, em Paris, que trocou pelo regresso rápido ao Portugal novo saído do 25 de Abril, de 1974 para dar a sua contribuiçãso cívica à revolução que virava de pernas para o ar o Portugal o antigo. O Portugal colonial e da ditadura salazarista de botas e atacadores, retrógrado, bisonho e clerical. Depois quando tudo acalmou e se percebeu que o "Céu" não estava ali à mão, Jaime voltou à Matemática aplicada à informática outra das suas paixões, no ministério das Finanças.
Ontem, quando alguns dos amigos de Jaime Mascarenhas se davam a conhecer a amigos de outras latitudes intelectuais do largo leque dos seus interesses e amizades que à casa mortuária da Igreja de S. João de Deus acorreram ao último adeus, fiquei a saber que muitos deles eram seus colegas de trabalho. De equipas de trabalho actuais ou antigas na informática do MF. Quem não conhecesse o Jaime ficaria impressionadíssimo com os penhorados elogios que ali à volta todos (e eram muitos) queriam dar. À sua capacidade profissional, ao gestor de equipas, à sua capacidade de todos agregar com "savoir faire", com calor humano, nos objectivos profissionais do seu Insttituto de Informática. E alguns diziam como ele tinha sido o seu "professor" e o "chefe" sempre disponível a ajudar alguém da equipa aflito com algum problema maior. E de como era capaz de passar o fim de semana a estudar um problema para na 2ª feira "desenrascar" um colega que lhe pedira socorro. E como todos queriam pertencer à sua equipa. E como estava sempre a par "como se não tivesse aquela idade" dos últimos desenvolvimentos da informática. E de como descobriram com surpresa que afinal não era apenas na Matemática e na Informática que era um grande senhor. Era de Política, de História ou de qualquer dos muitos saberes que fazem de um técnico um homem de cultura.Claro que adorava a filha Lena, também ela Matemática, filha da minha irmã Helena, e os dois netinhos que, com 2 e cinco anos, suponho, ainda não se preocupam muito com o futuro informático da Humanidade nem com o uso que da Web 2 ela faça.

2009/03/08

O Negacionismo


Os comandos neste monitor são mesmo para usar. No Lado direito do quadrado pode arrastar o cursor de alto a baixo e fica logo a saber o que há. Mas pode optar por um clic no botão rectangular à direita e em abaixo para abrir tudo. Em baixo à esquerda o comando permite ampliar e diminuir a imagem. Por fim para sair disto não se esqueça: tecla escape.

Etiquetas:

A crise do subprime


Aparece o link e não o vídeo do Youtube directamente porque algo que não consegui ainda identificar me está a impedir de fazer o upload. Em alternativa fica o boneco.

2008/11/13

AGUSTINA

Ultrapassei os primeiros escaparates e as segundas prateleiras com o lixo editorial. Capas exotéricas, resplandescentes de sóis matinais, mistérios anunciados. O azulão e a capa limpa atraíram-me. Só depois vi que era da Agustina Bessa-Luís. A Corte do Norte. Suécia, Dinamarca, ou czares? Li a primeira página e sem ver mais, sem saber do que tratava, sem leitura de recensões, decidi comprar, ali, no acto. Uma página inteira de escrita como esta quase paga um livro. E quem escreve assim uma página muitas outras terá escrito lá para diante.

CAPÍTULO I


“João Gomes, conhecido por «Trovador», que casou no Funchal com a filha dum companheiro de Gonçalves Zarco, foi homem de cuidados e suspiros. Além de vereador da Câmara em 1472, entrou na abundante polémica do Cancioneiro Geral acerca de quem melhor ama: se o que cuida ou o que suspira. Isto não impressionava se não fosse a elegância das trovas, dignas dum pajem do Livro do Infante D. Henrique, que, pelo que se diz, ele foi. João Gomes da Ilha teve a sorte de produzir bons versos, decerto antes que o cargo de juiz ordinário lhe embotasse a veia poética. «Da lembrança do passado / com desejo do futuro / em o tear do cuidado / se tece mui restorçado / terçopelo verde escuro.»
Esta é uma primeira definição de saudade de que a ilha gasta há séculos. Porque de penar airoso é o coração do insular e nisso doutorado; «sentido com desejar em que a esperança cabe», é como João Gomes explica o limbo das paixões e cuidado manso que outra cousa não é senão saudade. Para entender esse romance é preciso entender a linguagem nobre que foi prelúdio de poesia mística castelhana. Mas que nos portugueses se chamou «aquele cuidado esquivo / que não dá mais que sofrer / ao coração cativo, / no qual eu morrendo vivo, / em grado de bem querer».
Deixando as trovas e os trovadores, que à Madeira vieram com outras vontades e ilusões, como a de casar e refinar a cana-de-açúcar em que a Flandres se afreguesou, vamos a outros campos romanescos. A Madeira tem plantações de romance, como de bananais e vinha jacquet. É um nunca acabar de personagens, situações, vidas e histórias, que não se entende o silêncio das letras acerca delas."

2008/11/01

TARRAFAL uma prisão dois continentes

No dia 29 de Outubro, das 9h e 30m às 20h, decorreu na Assembleia da República, um colóquio comemorativo do 72º aniversário da abertura do Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. A assistência encheu o anfiteatro logo desde início e a sessão decorreu com a seguinte ordem de trabalhos:
A intervenção do ministro da Justiça encontra-se disponível no portal do ministério e também aqui. A intervenção de Raimundo Narciso pode ser lida aqui.


O presidente da AR, Jaime Gama, ofereceu um almoço no restaurante dos deputados aos participantes do colóquio.












O ministro da Justiça, Alberto Costa, ofereceu no Centro de Estudos Judiciários, um jantar aos participantes do colóquio.

PINTAR a MEMÓRIA (da sede da PIDE)

Em 5 de Outbro de 2008 o Movimento Não Apaguem a Memória comemorou o seu 3º aniversário com a pintura de um painel gigante na Rua António Maria Cardoso em Lisboa em frente da antiga sede da PIDE.
Objectivo: Conclamar o apoio da opinião pública para a realização junto daquele muro de um memorial às vítimas da PIDE.
O painel foi pintado por 16 finalistas da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa sob a orientação do professor Lima de Carvalho.
O filme foi realizado por Jorge Martins da direcção do NAM.

2008/10/06

Não Apaguem a Memória

No dia 5 de Outubro, entre as 15 e as 18 horas, na Rua António Maria Cardoso, em frente ao local da antiga sede da PIDE, 16 finalistas da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa pintou uma tela gigante, com o apoio de um seu professor, para sensibilizar a opinião pública para o objectivo do Movimento Não Apaguem a Memória - NAM de criar no muro ali situado um memorial às vítimas da PIDE/DGS.
Juntaram se à iniciativa cerca de uma centena e meia de apoiantes do NAM.


















2008/08/05

José Brandão. Mais um livro.

José Brandão é meu amigo mas a razão que o traz hoje aqui não é essa mas a publicação, de mais um livro, agora mesmo, (Editora Prefácio). A Introdução ao livro diz-nos quantos mortos, feridos , estropiados, doentes a guerra ceifou entre os militares portugueses em cada uma das guerras coloniais, na de Angola, Guiné e Moçambique, e faculta entre a muita informação outros interessantes números, cada um encerrando uma tragédia em Portugal e abrindo portas para outras infindáveis tragédias, em África, entre os que defendiam a libertação das suas terras. A Introdução do livro está aqui abre o apetite ao mais fastiento e já me decidiu: vou, sem dúvida, comprá-lo.

José Brandão começou por ser operário, foi dirigente sindical e é um autodidacta. Mas foi também um lutador contra a ditadura e foi preso pela PIDE que o acusou de pertencer à ARA. Chegou ao tribunal para julgamento, com uma sentença de uma mão cheia de anos de prisão, já lavrada pela PIDE/DGS no dia... vá, adivinhem... no dia 25 de Abril de 1974!

2008/08/03

A tragédia do Sebastião Correia, a teoria da relatividade e a dupla natureza dos ratos.


Sebastião Correia, tem 26 anos é natural da freguesia de Santa Marinha de Chorense, arcebispado de Braga é filho do cirurgião António Correia e de Maria Carvalha. É mascate que o mesmo é dizer que é vendedor ambulante de bugigangas ou coisas de maior valor e está casado com Luísa Teresa da Conceição. Está ou estava porque depois casou com a Inácia Maria. Longe da terra, no Brasil lá no Recife. E, é claro, para tanto falsificou papéis. Rapazes, cabeças no ar, perdem-se de amores e fazem o que não devem. Ai a juventude de agora…
Mas a vida é mais complicada do que parece a esta estouvada juventude e o Sebastião foi apanhado e levou com um processo em cima:

Crime/Acusação: bigamia, falsificação de documentos.”

O que me levou a escrever esta notícia foi a desproporção da sentença. O crime da sentença é muitíííííííísimo maior que o crime do réu.

“Sentença: auto-de-fé privado de 20/12/1784. Abjuração de leve, ser açoitado publicamente, degredo por cinco anos para as galés, penitências espirituais, pagamento de custas.O réu encontrava-se preso no aljube de Olinda, bispado de Pernambuco. Data da prisão: 31/08/1784”

Tinha-me esquecido de advertir que tudo isto se passou já há um certo tempo. Ainda o Brasil era “uma província ultramarina”, colónia, colónia, que nessa altura ainda Salazar estava para nascer e não era preciso atirar areia à cara dos portugueses e à cara da ONU com essa coisa de “províncias ultramarinas”. Colónia era colónia e com muita honra (deles). Portanto Brasil ainda estava muito longe do Brasil de Lula da Silva e o tribunal de comarca, da Relação e do Supremo era a Santa Inquisição.

“açoitado publicamente, degredo por cinco anos para as galés, penitências espirituais, pagamento de custas”

Deus!!! a avaliar pelos seus representantes na colónia do Brasil, era na altura, muito pouco indulgente. Era ainda aquele Jeová velho rancoroso e despeitado por já não ser jovem nem poder conquistar nenhuma Inácia Maria. E daí… talvez até Deus nem soubesse de nada e fosse tudo obra daqueles malvados dominicanos da PIDE da Inquisição.
A violência bruta daquele tempo, o desprezo pela pessoa humana… mas o ponto é outro e onde eu queria chegar era aqui: ao problema do espaço e do tempo. Como tudo isto se passou há muito tempo temos de contextualizar e considerar que aqueles açoites em público aplicados ao Sebastião Correia e os incríveis cinco anos de trabalhos forçados nas galés, o pagamento das nunca esquecidas custas além de tormentos ou penitências espirituais, foram uma pena muito razoável e bem aceite pela opinião pública que ainda não usufruía da Internet.
O Tempo! Mas tempo é espaço e vice-versa. Todos sabemos, mais ou menos, que as categorias de espaço e tempo foram correlacionadas já faz um certo tempo (ou espaço?), lá pelo fundo do século XX e a relação entre elas traduzida em fórmula matemática pelo simpático e distraído judeu alemão Einstein o que, se mais não tivesse feito, o tornaria no génio que ninguém poderá deixar de admirar mesmo que nunca tenha subido os Himalaias da Física ou da Matemática.

O tempo é espaço. Ora não aconselho ninguém, especialmente em férias, a ir rever a teoria da relatividade pois bastar-lhe-á a rápida explicação, a bem dizer um exemplo, que grátis aqui ofereço para se perceber a lei de forma simples. O tempo é espaço porque para encontrar aquele tempo de açoites, galés e pior, basta deslocar-se no tempo? não, no espaço. Vá ali à terra dos talibãs, ou a certos países africanos, sem ofensa para África ou, esmiuçando, a certas aldeias remotas ou bairros degradados da grande e Ocidental Civilização e lá encontra o que se encontrava ao virar da esquina no Rossio ou no bispado de Pernambuco em 1784, a 224 quilómetros de distância 224 anos antes.

Porquê toda esta conversa fiada? Ora porque fui calmamente passear aos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo que repousam agora no moderno edifício da cidade universitária em Lisboa. Passeio-me por lá num agradável exercício lúdico mas sem deixar a quietude do meu escritório e o rumorejar álacre das buganvílias da minha varanda, graças ao mundo virtual que a Internet nos traz a casa com um clic do rato. Bicho, aliás, que nos últimos tempos tenho vindo a encarar com alguma bonomia.

Para ver o proc. 7039 - Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, basta fazer copy e past do enedereço que se segue que por ser muito extenso o Blogger se recusa a meter discretamente num link.

http://ttonline.iantt.pt/dserve.exe?dsqServer=calm6&dsqIni=Dserve.ini&dsqApp=Archive&dsqCmd=Show.tcl&dsqDb=Catalog&dsqSearch=((text)='aljube')&dsqPos=100

2008/07/13

Sentencia Juicio Von Wernich

Ver post abaixo sobre este tema.

Sentencia Juicio Von Wernich

Tenho o hábito de me comprometer com trabalhos que no conjunto exigem de mim não o milagre da multiplicação dos pães mas o milagre da duplicação das horas. Se acham que isto é uma forma de me desculpar por não colocar aqui nem um mísero post desde Janeiro... acertaram.

E a explicação para o recomeço é esta: num esforço hercúleo para abrir um pequenino espaço na balbúrdia de papéis que viceja pela superfície da minha secretária fui lendo e rasgando, lendo e atirando para o lixo, papéis atrás de papéis, excepto uns que para meu tormento se rebelam e... conservo. O último papelinho renitente tinha sentenciado a lápis e letra miudinha "o que é mais grave não é o padre Christian von Wernich ter participado no assassínio de 6 argentinos, vários sequestros e nas torturas a 41 presos e em consequência ter sido, depois de muitos e muitos anos de generoso e conciliador perdão, condenado a prisão perpétua (2007-10-09), o que é mais grave, dizia eu, é ter tido sempre o apoio e a protecção da Igreja que até o escondeu numa aldeia remota do Chile para fugir à justiça". O padre era capelão militar confessava as vítimas católicas e entregava aos torturadores as informações obtidas em confissão. Outras vezes fazia o gosto ao dedo e torturava até à morte. Para bem dos mortos e glória de Deus (se é que alguma vez pensara em Deus).

Rasguei o papel mas depois os pedaços juntaram-se no que reconheci acto milagroso e a mão de Deus. Onde é que isto vinha escrito, interroguei-O. Talvez por não estar em Sua plena Graça fui ao Google que nisto de milagres pede meças ao mais sábio Deus.
O assunto apaixonou a Argentina e até a restante América cristianizada a fio de espada e golpe de canhão por portugueses e espanhóis, que sofreu a onda de ditaduras militares (Brasil, Chile, Argentina, Paraguai (a deste era uma ditadura ancestral), Bolívia, Colombia, etc, mais ou menos fascistas dos anos 70/80 do século passado.

O Padrinho de tais ditaduras que causaram muitas dezenas de milhar de assassínios e centenas de milhar de seviciados, perseguidos e desterrados por quererem liberdade e mais independência nacional foi o paladino dos direitos humanos... nas ditaduras comunistas, Kissinger secretário de estado de Nixon e depois do impeachment deste, na sequência do Whatergate, de Gerald Ford. A barbárie era repugnante as torturas e outros crimes eram requintados. Desde levarem os presos de avião para os atirarem ao mar depois de convenientemente torturados, até ao roubo de filhos aos presos para, com outra identidade, serem criados (noutra cultura política) por sicários da ditadura, respeitabilíssimas famílias católicas, com suficientes teres e haveres, para uma educação como deve ser.
Sobre a matéria podem consultar o Globo, ou aqui na Procuradoria Geral da República do Brasil, ou num site ateista:
"En Argentine, de 1976 à 1983, l'armée impose un régime barbare et 30 000 personnes "disparaissent". 30 000 assassinats perpétrés après les tortures les plus sauvages..." "Qual foi então o papel da Igreja Argentina? Um número resume o conjunto da obra de Emilio Mignone em 80 membros do corpo episcopal argentino só 4 bispos protestaram contra os militares. Foi um apoio de 95% da hierarquia católica aos golpistas..."

ou, como contraponto, num sítio que defende o padre condenado, a Igreja Argentina, os militares golpistas e toda a sua redentora acção conta o "comunismo diabólico":

"Um fato insólito, perverso e demoníaco acaba de ocorrer na Argentina, com a condenação à prisão perpétua do Padre Christian Federico Von Wernich, pelo “crime” de ter sido durante a ditadura dos anos 70-80 Capelão da Polícia de Buenos Aires. Este caso arrasta-se há 4 anos, desde os quais o Padre Von Wernich esteve preso mesmo antes do julgamento, na penitenciária Marcos Paz.

2008/01/12

Passa por mim no Rossio


Passo por ali todos os dias. Excepto quando vou pela Praça da Figueira e apanho a outra entrada do Metropolitano. Passo por ali todos os dias mas nem sempre lá está. Ou nem sempre reparo.
Entre o que acabo de fazer, dois quarteirões atrás, no escritório sempre igual e o que planeio para as horas que me restam, quando chegar a casa, avanço contra o mar de gente que se atropela e, pensamento errando por largo, não vejo caras e não vejo corações. Por isso talvez ela lá esteja mais vezes. Talvez lá esteja todos os dias. Entre as montras faiscantes da Camisaria Moderna e os apelos da última moda exibidos pela Primaz, ela está, encostada ao umbral, em cantaria, do número 113, da Praça de D. Pedro IV. O Rossio.

Não sei o que se passou mas hoje dei por mim parado, a olhar, quase inconveniente, empurrado pela onda humana que desliza alhe­ia, insensível, fugindo cansada para casa.

Parei. Voltei atrás. Fingi observar as camisas, os pulóveres, da Primaz. E olhava aquela mulher.

Era uma mulher. Seria uma mulher? Pensamentos desordenados, sentimentos opostos, piedade, revolta... olhava a mulher disfarçadamente e olhei à volta, também.

A mulher, a velhinha, era cega, como se via pela bengala meio caída que só os cegos usam. Tinha pendurada ao pescoço uma tabu­leta. Andei para trás e para a frente, "a ver as montras", até conseguir ler as letras encarnadas em fundo branco de madeira: ajudem-me sou ceguinha e sofro do coração. Estava sentada, caída, num tripé de lona velha, corcovada, quase um novelo, tombada sobre a direita, rente ao chão. Não se via. Ninguém a via. Por isso tocava uma campainha. Tocava com mão pouco segura, aos soluços, desesperadamente, uma sineta que atraía ( não atraía...) as atenções.
Agora me lembro melhor... aquele som..., aquele som agreste da campainha! agora me lembro que a "via" mais vezes. Olhei à volta. Reconfortei-me. Parado, como eu, com o espanto no olhar e um estertor na alma, estava ali, também, especado, um homem. Olhei de novo a velha que não parava de badalar sem resultado visível a estridente sineta. Virei-me então para o homem, cúmplice, para lhe dizer com um olhar, vejam isto! ao que pode chegar um ser humano! porque era disso que se tratava. Um ser humano! E naquela torrente de homens e mulheres que apressada, a um metro, corria, ninguém parava, ninguém se indignava, ninguém congeminava em revolta, deitar governos a baixo, esventrar a ordem social que permite isto, despejar o mundo em toalha limpa e, peça sobre peça, encaixar tudo de novo, sem exploração do homem pelo... sem afinal...

Virei-me para o homem. Mais alto do que eu. Vestia com gosto. Calças de flanela bege a condizerem com uma camisola de malha castanha e um agradável lenço de seda ao pescoço. O homem - não acreditei - passado aquele momento de incredulidade inicial e perce­bendo melhor o exótico, mesmo o ridículo, da mulher da campainha, quando a esposa, ou namorada a sair da casa de modas já a ele se chegava, riu-se, riu-se, riu-se francamente, com gosto. E olhava-me para que risse. Talvez da boa ideia da sineta. Talvez da coleira com a tabuleta de pau. Talvez porque a velha estava tão inclinada para o chão que parecia cair. Ou porque tocava irregular mas desesperadamente a campainha e nem uma única pessoa deitava uma moeda no mealheiro a tiracolo levan­tado desajeitadamente com a outra mão cega.

Meti-me então rapidamente na multidão. E foi provavelmente o homem, aquele homem, estrangeiro, talvez sem culpa, mas desapiedado ou inconsciente que me obrigou a registar, ainda que só mental­mente, enquanto vinha, sardinha em lata e absorto, no Metro, isto que agora aqui vos conto.

25 de Outubro de 1991.

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O título é o de uma peça da autoria de La Féria levada à cena no Teatro D. Maria II, em Lisboa (estreia em 16 de Maio de 1991). Foi um espectáculo de retumbante sucesso a que uma certa Lisboa acorria entusiasmada, trepidante e frívola, a divertir-se. Foi por isso e pelo contraste, que escolhi o título da peça para título deste conto. Relato exacto de algo que presenciei ali, entre a Camisaria Moderna e a Primaz, encostada ao umbral em cantaria do número 113, da Praça do Rossio.
Trabalhava então num escritório na Baixa e o Rossio atravessava-se no meu caminho, diariamente, entre a estação do Metro e a Rua dos Fanqueiros. E aquela mulher ali. Sem incomodar ninguém sem que ninguém se incomodasse.

2007/12/22

Prémio Pessoa 2007


O Pémio Pessoa foi este ano atribuído a Irene Flunser Pimentel, historiadora que recentemente publicou um estudo sobre a polícia política PIDE.
"Irene Pimentel é, de acordo com o comunicado do júri, "uma das figuras mais notáveis da actual historiografia portuguesa". Com recentes trabalhos publicados em 2007 sobre a história da PIDE, a Mocidade Portuguesa Feminina, os judeus em Portugal e a história das organizações femininas do Estado Novo, Irene Pimentel estuda "temas difíceis e polémicos".
Os seus livros, afirma o júri, "nunca negam adesão à causa das liberdades e dos direitos humanos, num esforço de rigor intelectual e objectividade académica".
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Irene Flunser Pimentel: 57 anos, licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, em 1984. Concluiu o mestrado em História Contemporânea (variante Século XX) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese Contributos para a História das Mulheres no Estado Novo. É investigadora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa...
...

É autora dos seguintes livros: História das Organizações Femininas do Estado Novo, "Textos relativos a Portugal" in Contai aos Vossos Filhos. Um Livro sobre o Holocausto na Europa, 1933-1945, de Stéphane Bruchfeld e Paul A. Levine, Fotobiografia de Manuel Gonçalves Cerejeira, Fotobiografia de José Afonso e "A PIDE/DGS, 1945-1974".

O Prémio Pessoa é um dos importantes galardões do país, atribuído anualmente a uma figura de nacionalidade portuguesa com "intervenção relevante na vida científica, artística ou literária". [link]

2007/10/07

Não Apaguem a Memória


O Movimento não Apaguem a Memória (NAM) assinalou a passagem do 2º aniversário da sua criação, que teve lugar no dia 5 de Outubro, com um novo impulso às principais iniciativas em curso. Para isso pediu audiências às entidades com elas relacionadas, o Presidente da Assembleia da República, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o Ministro da Justiça.

A primeira ocorreu no dia 4 de Outubro tendo o dr. Jaime Gama recebido uma delegação do NAM da qual fizeram parte, a dr.ª Maria Barroso, o arquitecto Nuno Teutónio Pereira, a socióloga Lúcia Ezaguy Simões e eu próprio. No encontro participou também o pesidente da 1ª Comissão Parlamentar - Direitos, Liberdades e Garantias - deputado Osvaldo de Castro.

Esta audiência destinava-se a conhecer o ponto da situação relativa à Resolução parlamentar que vincule o Estado português ao “Dever de Memória” e a pedir a urgência possível na sua aprovação.

Ao Presidente da Assembleia da República foi entregue o seguinte memorando das diligências do NAM agora promovidas:

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! nasceu de uma acção de protesto realizada no dia 5 de Outubro de 2005 por um grupo de cidadãos indignados com a demolição do antigo edifício-sede da polícia política portuguesa, a PIDE, e sua substituição por um condomínio fechado, sem que nele figurasse uma menção à memória do sofrimento causado pelo regime ditatorial, que vigorou durante quase 50 anos, aos portugueses que lutaram pela liberdade e ali foram submetidos a interrogatórios, vexames e tortura.

Desta iniciativa cívica resultou um vasto movimento de cidadãos, democrático, plural e aberto, motivado pela exigência da salvaguarda, investigação e divulgação da memória da resistência antifascista. Este Movimento considera ser responsabilidade do Estado a preservação condigna desta memória para o que lhe incumbe tomar iniciativas e apoiar outras que lhe sejam propostas e considere adequadas.

Pese embora a intensa mobilização cidadã, as diversas audiências havidas com representantes de todos os grupos parlamentares, com membros do Governo e com vereadores da Câmara Municipal de Lisboa, é forçoso admitir que o Movimento está longe de ter alcançado os resultados possíveis dois anos após a sua criação, nomeadamente nos casos que a seguir se mencionam.

Assembleia da República:O conjunto de acções levadas a cabo pelo Movimento culminou com a entrega, na Assembleia da República, de uma petição nacional que reuniu 6.007 subscritores – entre eles os antigos Presidentes da República, Jorge Sampaio e Mário Soares – e que foi objecto de debate parlamentar no passado dia 30 de Março.A petição deu origem a dois projectos de Resolução parlamentar e espera-se a aprovação de uma resolução que recomende um conjunto de medidas, de ordem política e jurídica, passíveis de criar condições para a concretização da memória da resistência à ditadura e da liberdade conquistada em Abril de 74.

Câmara Municipal de Lisboa:As negociações com vista à constituição de um espaço museológico no edifício ex-Sede da PIDE/DGS, em Lisboa, apesar do promotor imobiliário ter disponibilizado um espaço no futuro condomínio da Rua António Maria Cardoso e das diversas reuniões havidas do Movimento com a anterior vereação do Urbanismo e da Cultura da Câmara Municipal, não lograram qualquer resultado.A expectativa do Movimento é de que a nova Presidência da CML retome, o mais breve possível, este processo negocial, de forma a estabelecer bases sólidas para a elaboração do projecto arquitectónico e museológico já em discussão. Este projecto conta com a colaboração de um grupo técnico de arquitectos, designers e historiadores que apoiam esta iniciativa e do qual fazem parte, entre outros, o designer Henrique Cayatte e os arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Raul Hestnes Ferreira.

Ministério da Justiça:A promessa do Ministro da Justiça, em audiência havida com o Movimento, de ceder as instalações da antiga cadeia do Aljube criou a expectativa da criação do Museu da Resistência e da Liberdade que venha a constituir-se como importante centro dinamizador, em articulação com universidades e outras instituições e organizações que desenvolvem relevante actividade neste domínio. No entanto não foram ainda tomadas medidas no sentido da concretização desta expectativa.É nossa expectativa de que, a curto prazo, tendo em conta a audiência para o efeito já acordada, o Senhor Ministro da Justiça dê início a este processo.

No momento em que comemora dois anos de existência, o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! Apela aos poderes públicos para que seja dado andamento a estas iniciativas e se mantenha aberto ao diálogo relativamente a outras iniciativas que lhe sejam colocadas.Passadas mais de três décadas após o derrube da Ditadura e a instauração da Democracia, urge adoptar medidas que tornem efectiva a preservação da memória da resistência e da liberdade conquistada pelo povo português em Abril de 74.

Lisboa, 5 de Outubro de 2007

2007/08/30

Histórias do Sol nascente



Uma leitora do Puxa Palavra enviou-nos esta fotografia com o título O acordar do estádio e explica que este é o estádio do Odivelas e aquele um Sol que terá pernoitado pelo Parque das Nações e se levanta por detrás da Alta de Lisboa.

_______________________


Aproveito a fotografia e a mensagem, acrescento-lhe mais alguma coisa e fica feito o post para o Memórias.

Entre o estádio e o Sol, num baixio invisível na fotografia, corre a Ribeira de Odivelas que em 1967, num outro 25 de Novembro, saltou as margens, avalanche de água e lodo, derrubou e matou. os Bombeiros Voluntários de Odivelas recolheram 64 cadáveres de habitantes ribeirinhos. Gente de poucos haveres, a dormir em casebres, meios escondidos em terras de ninguém, apanhados pela torrente e a escuridão da noite. Salazar tomou medidas drásticas à altura da tragédia deu ordens severas à censura para, nas notícias, não deixar passar nem mortos nem feridos. A ordem (fascista) foi mantida.

Mas a ribeira em si não é má e no seu quotidiano serviu dedicadamente com seu fio de água, desde a fundação, em 1295, o mosteiro de S. Dinis, casa das freiras bernardas, da Ordem de Cister. "As residentes eram filhas da nobreza, que não casavam por não disporem de bens, quando a família não lhes atribuía um dote. Não estando prometidas em casamento a algum nobre, as raparigas recolhiam à sombra protectora dos mosteiros, enriquecidos com as doações dos reis e dos nobres, para aí levarem uma vida segura, em termos económicos."

O tempo foi dando as suas voltas ao mosteiro, distante de Lisboa bem uma hora a cavalo e no reinado de D. João V o Magnânimo, um rei tão piedoso quão concupiscente e desprezível, a vida tinha outra animação dada pelas sortidas noturnas de fidalgos em visita a noviças e freiras mais maduras. O exemplo vinha de cima pois a Madre Paula era nem mais nem menos que a célebre amante do rei, de quem chegou a ter um filho para logo ser desprezada. A missa era ouvida pelo rei e por esta duvidosa "rainha" de uma câmara que se abriu para a frente para o púlpito da igreja, para a hóstia e o cálice e para trás, para o lupanar. Costumes da época. Nada de dramático afinal.

"Em 1834 extinguiram-se as ordens religiosas, durante a Monarquia Constitucional, e em 1902 o convento foi entregue ao infante D. Afonso que nele promoveu a instalação do actual Instituto de Ensino." Colégio interno para filhas de militares.

À tarde, 1971, com sol, o jardim do mosteiro era muito aprazível, pelo silêncio bucólico, pela restrita frequência de dois ou três idosos, um cão e dois gatos das casinhas de rés-do-chão circundantes. Os plátanos de braços retorcidos e torturados por podas a preceito, o coreto, o fio de água a fingir de cascata e na outra ponta do largo um cafézinho minúsculo, sem frequência certa nem suficiente. E nós. Eu a Maria e a Leonor com 2 anos. Era a nossa praia, o nosso cinema, o nosso centro comercial. E mesmo assim só a certas horas e de longe em longe. Mas só até 1972 porque a PIDE/DGS interessada, vá-se lá saber porquê, na minha presença não achou nada de mais interessante que colocar a minha fotografia nos jornais e na televisão e pedir que, por desconhecer a minha morada, alguém lhe desse qualquer pista para poder chegar à conversa comigo. A fotografia era antiga, os leitores de jornais e espectadores de televisão, estavam lá agora dispostos a fazer o trabalho da PIDE, nós lemos as notícias e vimos as imagens. Apenas deixámos de ir ao jardim. E preferir a noite ao dia para saídas de casa.

Nada de dramático afinal. Eram os costumes da época. Que acabariam em 1974.

2007/05/26

Carlos Brito. Fugiu!...

...da prisão do Aljube, faz hoje 50 anos. A Júlia Coutinho conta o caso no seu blog "as causas da Júlia" e transcrevo-o [aqui]

2007/05/15

Núcleo museológico do "Posto de Comando do 25 de Abril

No passado Sábado, pelas 10 horas um grupo de 30 "defensores da memória" visitou o núcleo muzeológico do "posto de comando do 25 de Abril" no quartel da Pontinha, regimento de engenharia nº1 em 1974. Foi uma iniciativa do grupo de trabalho Roteiros da Memória, do movimento Não Apaguem a Memória, em que participo, dinamizado entre outros por Jorge Martins, licenciado em História e principal obreiro da iniciativa e deste núcleo museológico.
Sobre a visita escreveu o jornalista José Teles, membro do movimento e aqui apresento alguns extractos do seu relato (integral aqui) que inclui a saborosíssima conversa telefónica entre os ministros da Defesa e do Exército da ditadura.

Diz José Teles da visita e do "posto de comando":

“Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas… – uma memória discreta, como deve ser. Mas insuficiente.
Estivemos lá. Lá onde o 25 de Abril se coordenou e decidiu. Regimento de Engenharia 1, na Pontinha, ao tempo uma discreta arrecadação militar pouco utilizada no meio do aquartelamento, hoje pouco mais do que isso, como vamos contar. Mas foi a “sala de operações” do movimento que derrubou a Ditadura, já lá vão 33 anos. Um local para lembrar o sucesso da Revolução dos Cravos. Para gozo e fruição do Povo como nós.

[relatos do levantamento militar]

25ABR74, das 03H05 às 04H20: temos a RTP connosco, o Mónaco caiu. México conquistado sem incidentes – é o Rádio Clube ocupado, já temos emissor. É nosso o Canadá – o Quartel-General passa para os revoltosos. Nova Iorque nas mãos do Povo – é o Aeroporto da Portela sob controlo.
...
RE 1, 25ABR74, 03H15: Palavra de honra? Isso é porreiro, pá! Exultante pela facilidade da ocupação da Emissora Nacional, o capitão Frederico Morais, do CTSC, liga para o PC: – Daqui Maior de Lima 18. Informo ocupámos Tóquio sem qualquer incidente. – OK. Parabéns e um abraço. Do outro lado, o cap Morais não pousa o telefone, hesita e insiste: – Alô, Óscar. Peço informe se estamos sós ou se já houve outras ocupações. – Afirmativo quanto à segunda parte da pergunta. Não estão isolados: Mónaco e México já caíram nas nossas mãos. A “seca linguagem das transmissões militares” cede perante a boa notícia: – Eh pá! Palavra de honra? Isso é porreiro, pá! – Ok, aguentem firme. Está tudo a correr bem.
...


E sobretudo como este? Ouçam bem (ah se houvesse gravação, uma reconstituição, o texto deste diálogo, nas paredes nuas do auditório, por exemplo!):

RE 1, 25ABR74, 03H16: Está tudo sossegado, senhor ministro… Os homens do MFA na EPTm interceptam e transmitem para o posto de comando esta conversa entre Silva e Cunha, ministro da Defesa, e o general Andrade e Silva, do Exército, o celebrado vencedor do golpe das Caldas um mês antes.



– Está, senhor general? Daqui ministro da Defesa.
– Como está, senhor ministro?
– Então ainda a trabalhar a uma hora destas?
– É verdade. É que tenho de me deslocar ao Alentejo e não estarei cá todo o dia, pelo que estou aqui a arrumar os papéis.
– Alguma coisa no Alentejo?
– Não, nada de importante. Mas interessa-me sobretudo ir até Beja, onde vou assistir a uma transmissão de comando e inspeccionar a Companhia de Ordem Pública. O comandante que lá está é muito amigo do homem do monóculo, a quem telefona muitas vezes. Por isso mandei mobilizá-lo para o Ultramar e coloquei lá outro de confiança, que hoje toma posse.
– Óptimo. E como é que está a situação? Corre tudo bem?
– A situação está sem alteração e perfeitamente sob controlo. Peço-lhe que não se preocupe, pois está tudo sossegado e não há qualquer problema em qualquer ponto do País. Se houvesse alguma coisa, era evidente que eu não ia hoje ao Alentejo, não acha?
– Claro, claro, só perguntei para ir para casa dormir descansado. Então não o maço mais. Boa viagem pelo Alentejo.

Comentário de Otelo:




“ Eram três horas e dezasseis minutos. Tínhamos na mão três objectivos fundamentais para a informação pública e o QG/RMP, raras eram as unidades do Exército que em todo o território não rolavam na estrada ou estavam prestes a fazê-lo, havia vários quartéis onde os comandantes se encontravam detidos ou tinham a sua acção neutralizada, e… os mais altos fresponsáveis militres do velho regime preparavam-se para dormir, tranquilos, as horas a que se sentiam com direito!”


Ainda assim o que está [no núcleo museológico] vale uma visita – palavra de repórter! A sala de operações tem em tamanho natural as estátuas dos “sete magníficos”, em cera e em acrilíco, nos locais que ocuparam naquela noite:
· Otelo Saraiva de Carvalho, major de artilharia, no seu blusão de cabedal, de pé, junto ao mapa de 1973 do Automóvel Clube de Portugal


– “especial para sócios” – onde ia colocando as bandeirinhas assinalando os avanços de cada coluna militar pelas estradas do País.
· Amadeu Garcia dos Santos, tenente-coronel de transmissões, sozinho numa mesa, às voltas com os seus rádios, antenas e telefones.
· Fisher Lopes Pires, tenente-coronel de engenharia, com um telefone de discar, como eram todos naquele tempo, sempre com o cachimbo na boca, dizem os cronistas.
· Sanches Osório, major de engenharia, enviado por Vítor Alves como representante do Estado-Maior naquele grupo de comando, à esquerda de Lopes Pires, tomando notas.
· Luís Macedo, capitão de engenharia, responsável pela segurança do edifício, que protegeu com um perfeito “black-out”, com cobertores nas janelas, e organizara rondas permanentes no exterior: de pé, na única estátua de cera.
· Hugo dos Santos, major de transmissões, sozinho, ao lado, numa pequena mesa, com vários rádios.
· Vítor Crespo, capitão de fragata, de pé junto à porta do fundo, em uniforme de gala, azul-escuro, com botões dourados e o boné branco dos dias de festa Junto às paredes, armários, tão austeros como as mesas, com brochuras e encadernações, de ordens de serviço do quartel e outros documentos.
...

Resta referir que, no final da visita, Raimundo Narciso fez uma interessante exposição sobre a vida na clandestinidade que viveu durante muitos anos, onde se encontrava no dia 25 de Abril, precisamente no que é hoje o Concelho de Odivelas, e Jorge Martins, em nome do Movimento, referiu os objectivos inerentes ao espaço visitado: Preservar a Memória do local em que na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 foram dadas as directivas para que a Revolução fosse um êxito.

José Teles

(Imagens obtidas aqui e aqui )

2007/04/26

Portugal, Lisboa. Revolução de 25 de Abril de 1974

2007/04/04

Capela do Rato - 1972

A luta de um grupo de católicos, de que os presentes na fotografia faziam parte, assumindo-se nessa condição, contra a guerra colnial e contra a ditadura, foi em 1972 muito importante, por mostrar que Marcelo Caetano e o regime fascista contava com a oposição de uma parte significativa dos crentes católicos. [Ver um relato dessa luta no blog "Não Apaguem a Memória"]

2007/03/21

De que se fala quando se fala em Salazar?

Agora, quando a propósito do concurso da RTP, tantos querem branquear o regime fascista (mesmo que atípico) de Salazar (vide o Diário de Notícias de hoje) é muito oportuna esta interessantíssima memória do salazarismo do engenheiro e professor catedrático (jubilado) do IST, António Brotas. Dedico-a em especial aos jovens que, mesmo que bem intensionados, falam de Salazar sem saberem bem do que falam.



SALAZAR E AS ELEIÇÕES


Agora que Salazar parece em vias de ganhar pela primeira vez uma "eleição", e logo contra o Afonso Henriques, convém lembrar como eram as votações quando ele era vivo.
No que diz respeito à aprovação da Constituição de 1933, foi simples. As abstenções contaram a favor. A maioria foi esmagadora. Os portugueses nem precisaram de sair de suas casas para exprimir a sua "vontade".
Nas eleições legislativas o método também era infalivel. Nas eleições de 1957, por exemplo, Lisboa, na véspera da eleição, os responsáveis pelas mesas eleitorais foram chamados ao Governo Civil onde receberam a indicação do resultado da votação do dia seguinte com uma margem de erro de 2 %. Assim, na freguesia de São João da Pedreira o resultado devia ser 56 ou 57 %.
No dia seguinte houve guarda republicanos que andaram pelas mesas de voto a levar pacotes de votos de "guardas que estavam de piquete", que foram metidos nas urnas pelos presidentes das mesas. Mas isto teve uma relativa pouca importância.
Perto do fim, depois de assegurada a ausência de testemunhas inconvenientes, os elementos das mesas multiplicaram o número total de eleitores por 0,57 e dividiram o resultado pelo número de páginas dos cadernos eleitorais. Tiveram, assim, o número de eleitores de cada página que "deviam votar".
Procederam, então, sem se preocupar em lançar votos nas urnas, à operação de "compor os cadernos eleitorais", descarregando conscenciosamente nos dois cadernos o conveniente número de eleitores que "tinham" votado. A operação foi acompanhada de comentários do tipo: " Este é comunista, mas desta vez vai votar no governo".
Depois, enviaram para o Governo Civil um documento a dizer: "Percentagem de eleitores: 57 %." Mas não se ficaram por aqui: abriram as urnas, contaram os votos, e enviaram para o Governo Civil um outro documento a dizer. " Percentagem real de eleitores, tantos por cento" .
No caso concreto de uma mesa, a percentagem real de eleitores, incluindo os votos dos "guardas de piquete" e 50 votos riscados foi de 28 %, mas os elementos da mesa enviaram um documento a dizer que a "percentagem real", era de 30 %. É provavel que, quando chegasse ao Salazar, esta percentagem já fosse um bocadito mais alta.
Fui testemunha parcial destes factos em 1957. Uma outra testemunha foi o escritor Luis Pacheco a quem envio, 50 anos depois, as minhas saudações e que devia ser agora ouvido. Como comentador da "eleição de Salazar" e porque pode confirmar factos importantes para esclarecer um país que, 30 anos depois do 25 de Abril, ainda está muito mal informado.
Que, ao falar nas eleições do "antigamente", ainda fala em chapeladas, como se a fraude "dos guardas que estavam de piquete" e de uns tantos legionários fosse a mais importante. Salazar era muito mais subtil. Quarenta anos depois de morto, ainda engana o país.
E não só. Quando em Novembro de 1957 cheguei a França vi que os jornais franceses analisavam a situação portuguesa a partir do resultado de 57% de votos obtidos pelo governo nas últimas eleições legislativas.
António Brotas

2007/03/19

Passar a Fronteira a Salto (1)

Vou deixar-vos aqui, em episódios, um relato na primeira pessoa, de "Carlos" que me autorizou a sua publicação.


Na serra de Montezinho

Eram duas horas da manhã e estava escuro como breu. As sombras movediças dos arbustos recortadas no horizonte pareciam pessoas ou animais a aproximarem-se e desconfortavam mais os dezanove anos da Ana do que os meus vinte e oito já tidos por bastante adultos. Estávamos no meio de uma serrania inóspita, entre Bragança e a raia de Espanha, sentados no chão e encostados a um cômoro de terra e urzes. Recostámo-nos para descansar pois o passador disse-nos que ia demorar. Fora buscar um carro para nos aproximar da fronteira que, apesar da marcha forçada de mais de três horas, ainda estava longe. O frio, apesar de estarmos no verão, fazia má companhia. Por isso, sem cerimónias, abraçámo-nos, aconchegámo-nos e enfrentámos mais seguros e quentes a incerteza da noite que tínhamos pela frente.
Conhecia-a desde a manhã, num encontro no Porto, em que me foi recomendado tomar conta da camarada, como competia à minha idade de maior experiência.

Estávamos em Agosto de 1966, um mês depois do meu encontro com Ângelo Veloso que restabeleceu a minha ligação à direcção do PCP, depois dos nove meses de clandestinidade em autogestão a que me vi obrigado na sequência da prisão de Rogério de Carvalho, meu “controleiro”.

Cabe dizer, num parêntesis, que Rogério de Carvalho apesar das torturas a que foi submetido pela PIDE não entregou nenhum segredo nem nenhum militante à polícia. Desde início decidiu que “não falava” com a PIDE. Uma atitude simples. Mas que só alguns conseguiram manter. Era-se levado até à beira da morte e só renunciando à vida era possível não ceder.
Eu e dezenas de outros militantes ficámos a dever então a nossa liberdade a Rogério de Carvalho. Só alguns, talvez algumas centenas, entre dezenas de milhar de prisioneiros torturados pelas polícias políticas do salazarismo, em meio século, conseguiram vencer essa prova que era afinal a fonte, quase exclusiva, das informações que davam à PIDE a possibilidade de conhecer e prender os que lutavam.

Íamos passar a fronteira a salto a caminho da União Soviética e

se esta era a minha segunda ida a Moscovo era, no entanto, a minha primeira saída do país sem passar pelo posto fronteiriço. Ia frequentar um curso político. Aprofundar os conhecimentos teóricos do comunismo, conhecer o socialismo real e esperar que a organização do PCP em Lisboa recuperasse da vaga de prisões e ficasse a saber quem estava ou não estava “tocado” pela PIDE..
A Ana também ia para a União Soviética mas não sabia ao certo o objectivo. Disseram-lhe que iria frequentar um curso do partido mas não sabia de que curso se tratava. Nem podíamos, sem infringir as regras conspirativas, discorrer sobre tal matéria. O segredo foi desvendado em Paris. Levávamos o mesmo destino. E a nós, em Moscovo, haveria de juntar-se a "Leonor" uns 15 dias mais tarde

O passador não era nosso conhecido. Em geral era alguém de confiança do partido, sem ser seu membro e que estava ali, na sua profissão, para ganhar o seu dinheiro. Fora-

me apresentado pelo camarada Manuel da Silva, na esquina duma rua do Porto para nos podermos identificar em Bragança, ao fim do dia, em frente da igreja matriz.
— Poucas conversas — era a recomendação que ele me dera e provavelmente ao passador também.
Este era um homem de meia idade, enxuto de carnes e aspecto indefinido. Meio rural meio citadino. Esgalgado. De fugir à polícia, observei para a Ana, devagarinho. Duas ou três frases, foi tudo quanto lhe ouvi durante os trajectos citadinos e a longa marcha pelos caminhos agrestes da serra. De tempos a tempos, na montanha, fazia altos, mais para nosso descanso que dele. O passador sentava-se ou esperava de pé, não ao nosso lado como seria urbano e natural mas um pouco afastado como era talvez adequado para evitar conversas que, mesmo involuntariamente, acabam muitas vezes por denunciar identidades.
Manuel da Silva era o verdadeiro nome do funcionário do partido que veio ao meu encontro no Porto. Não nos conhecíamos e o seu nome só o vim a conhecer na primeira sede do Comité Central, em 1974, na Avenida António de Serpa, em Lisboa.
Manuel da Silva tinha então 54 anos de idade e vivia na clandestinidade há vinte anos. Como a Revolução demorou ainda oito anos chegou à democracia com o recorde de vinte e oito anos consecutivos na clandestinidade sem ser preso.
Foi responsável por tipografias, a elaboração técnica e a distribuição da imprensa clandestina. Agora era responsável pelo aparelho de fronteira para as entradas e saídas clandestinas de funcionários do partido. Alto, magro, prático e afável no trato.

Por qualquer razão que não cheguei a conhecer a minha saída do país sofreu uma paragem nos arredores do Porto. Só parti a caminho da fronteira dois dias depois e nesses dias fiquei numa casa clandestina que tinha exactamente a serventia de "hotel" para quem ia para o estrangeiro de salto e não tinha as ligações montadas para seguir de imediato para a raia de Espanha. Questões de coordenação.
O Manuel da Silva levou-me para os arredores do Porto de táxi, depois fiz um percurso num outro automóvel, de algum camarada, onde entrei e segui de olhos fechados talvez uma meia hora ainda que me tenha parecido muito mais porque sem paisagem o tempo alonga-se.
O nosso trajecto continuou depois a pé numa zona de pinhal ao encontro de outro funcionário que nos ia albergar em sua casa, durante os dois dias.

O funcionário em questão era afinal meu conhecido. Era nem mais nem menos o meu ex-colega e amigo do Instituto Superior Técnico que sete anos antes recolhera a minha assinatura para o abaixo-assinado que exigia a demissão de Salazar. Era o Armando Myre Dores que também interrompera o curso de engenharia para passar à clandestinidade, dois anos antes de mim. Foi uma surpresa agradável encontrar naquele difícil combate contra a ditadura alguém que nos permitia fazer a ponte da nossa vida actual para a vida normal que antes tínhamos.
Quando estávamos sós, o que afinal foi a menor parte do tempo, conversávamos sobre os amigos e velhos conhecidos, actualizávamos informações sobre as nossas vidas, o que se podia contar delas.
Estava com a companheira e um filho muito loiro que era a alegria da casa. Era o Eduardo mas não foi ali que soube o nome dele. Então, nem ele próprio podia saber como se chamava para que numa mudança de casa por razões conspirativas, tivesse também de, incompreensivelmente (para ele), de mudar de nome.



O caso da tia e da sobrinha

Uns quinze dias depois, outra clandestina, a “Leonor”, então com dezassete anos, haveria de fazer o mesmo percurso. Para ela também havia uma surpresa. Não encontrou um ex-colega da universidade, foi encontrar, sem que ninguém o suspeitasse, uma tia. A mulher do Armando era irmã da sua mãe. A Luzia não reconheceu a sobrinha que vira pela última vez sete anos atrás quando ela tinha apenas dez anos.
— Ai camarada tens uma voz mesmo igual à de uma pessoa minha conhecida. Mas também não me estou a lembrar de quem seja.
A Leonor reconheceu a tia imediatamente mas não se identificou sem saber se estaria proibida de o fazer tendo em conta as regras conspirativas da compartimentação. Ficou muito nervosa e sem ser capaz de recuperar rapidamente a serenidade. A tia, que não sabia que o era, julgava que o estado de incomodidade da sobrinha resultava, tendo em conta a sua aparente e real juventude, da pouca experiência da clandestinidade (ignorava que ela já levava quatro anos de vida clandestina). Então mimava-a e conversava com ela criando familiaridade.
— Que livro é este que andas a ler? — e folheou o livro da “Leonor”.
— Mas eu conheço esta letra! — disse num murmúrio ao observar uma folha de papel no meio do livro em que a “Leonor” fazia anotações, enquanto fazia um olhar de espanto para a “Leonor”.
Foi então aí que a sobrinha não resistiu mais à emoção.
— Mas então não vês que eu sou a tua sobrinha! — disse-lhe abraçando-a de lágrimas nos olhos.
As compartimentações e segredos na clandestinidade fraccionam as ligações e os conhecimentos. Alguns camaradas, nomeadamente do Secretariado do Comité Central, sabem que a Luzia, com os pseudónimos de Alda e de Filomena e aqui nesta casa com a falsa identificação de Maria Antónia Botelho é a companheira do Armando, de pseudónimo Mateus ou Castro ou Jerónimo e que dá pelo nome nesta instalação de Augusto dos Santos Botelho e que é tia da Maria Machado que usa o pseudónimo de Leonor. Mas no labirinto da clandestinidade o Manuel Rodrigues da Silva não sabe que a jovem funcionária que aí vem, da organização de Lisboa, é filha dum seu amigo que não vê há muitos anos e de cuja vida mais não soube. E menos sabia que ela era sobrinha da Luzia ou sequer que aquela companheira do Armando, que ele apenas conhece por Botelho e sabe ser nome falso, é cunhada do seu amigo Pulquério. Por isso de tanto se compartimentar e se esconder se podem pôr coisas a descoberto e apresentar a sobrinha à tia como se de duas desconhecidas se tratasse. E se não é o tom de voz que não engana, nem a letra que se reconhece, se não são as emoções que às vezes prevalecem, a tia não ficava a saber que tinha estado com a sobrinha. E a sobrinha tinha ficado o resto da vida arrependida de não ter tido aquela grande alegria de abraçar uma tia, que se encontra, na clandestinidade, por um acaso raro e incontrolado. Clandestinidade onde todos pertencem à mesma “família” mas... família mesmo é outra coisa.
Um ano depois casei com a Leonor e foi então que soube daquela proeza do acaso. E que a companheira do Armando na tal casa clandestina dos arredores do Porto era afinal tia dela.
Após dois dias em casa do Armando, falso Botelho, voltei ao Porto, guiado pelo Manuel da Silva, o mais clandestino dos clandestinos, onde me apresentou a Ana num encontro de rua e que agora estava ali comigo, entre penhascos, numa noite fria de verão.

Perdidos na Serra

Estávamos no meio duma daquelas serras cujo nome recitava na instrução primária, a Serra de Montezinho, entregues ao senhor Joaquim, nome que eu e a Ana lhe pusemos, baixinho, à distância de dez passos, com que sempre se nos adiantava. Não tínhamos bússola nem coordenadas que nos norteassem. Valia-nos naquelas primícias do nosso comunismo a absoluta e cândida confiança em tudo o que tivesse a mão do partido. Portanto ali estávamos sem réstia de insegurança, cabeceando, a tentar dormir um pouco, sem o agasalho sequer dum casaco, para em Espanha, daí a umas horas, não apresentarmos um aspecto demasiado tresnoitado e clandestino.
Como era de regra não levávamos nada connosco para o caso de alguém nos ver na zona raiana não pensar em emigrantes a dar o salto.
- Ah, não levam bagagem, é gente por aí em passeio!
Levávamos roupa de verão, e o que nos salvou, ou salvou a Ana, como adiante se verá, foi eu levar num pequeno embrulho, umas calças sobresselentes, por sinal bem finas, para ter melhor aspecto em Espanha.
Aí por essas três, três e meia da manhã, fomos acordados pela aproximação dum fantasma. Assim surgiu a nossos olhos estremunhados, o operativo e saltitante senhor Joaquim que alargava o olhar, sem nos ver, enroscados, ali no escuro. Conduziu-nos a um automóvel preto e antigo que, silencioso, de nós se aproximara. Dissemos boa noite ao condutor depois de entrar, mas não tivemos resposta. Como era tudo tão
estranho também não levámos a mal. Calados lá fomos até um cruzamento térreo, umas dezenas de quilómetros mais acima, mais dentro da serra, mais longe de qualquer sítio, para meu espanto, pois esperava ir até uma vilória ou aldeia ou o que quer que fosse de mais urbano. Despejados ali nada dissemos ao sair. Éramos carga clandestina. O passador tartamudeou qualquer coisa para dentro do carro que, tal como nos surgiu, silenciosamente se esfumou à distância. No escuro tinha o perfil dos táxis lisboetas dos anos cinquenta, Austins ou Morris pretos e altos, que cruzavam Lisboa em correria desabalada, em tempos de trânsito desafogado, fintando peixeiras de canastra à cabeça e pregão sonoro. Não ultrapassariam os cinquenta quilómetros por hora mas isso para as velocidades da época impressionava mais que os cem de agora.
Recomeçámos a longa marcha. O descanso nocturno entorpeceu-me as pernas mas o passo lesto do nosso guia não nos dava oportunidade para molezas. Depois de muito andar extinguimos o trilho que vínhamos percorrendo. De estrada passámos a caminhos e de caminhos a carreiros e agora tínhamos pela frente um campo pedregoso que pouco tempo depois se transformou em denso matagal. Depois de muito contrariar esta ideia que me matutava na cabeça fui forçado a concluir que estávamos perdidos. O passador acendia uma lanterna eléctrica despudoradamente, em campo aberto, espalhando labaredas faiscantes pela serra fora, denunciando-nos, sem se prevenir dos guardas fronteiriços.
— Está feito com a Guarda Fiscal, para abrir desta maneira as goelas à pilha, exclamei para a Ana, sem que ele me pudesse ouvir. Não lhe disse nada, apesar de achar excessivo tanto à-vontade. Continha-me. Afinal sabia lá eu as regras da passagem de fronteira a salto! O nosso guia procurava atinar com os caminhos enquanto nós balançávamos por cima do carrascal sem chegar com os pés ao chão. As folhas rijas e espinhosas dos carrascos arranhavam fundo as pernas tenras da Ana e foi aí que as minhas calças de reserva, apesar de finas, lhe valeram.
Começava a preocupar-me com a situação e a embrenhar-me em maus pensamentos quando fomos assaltados, por uma matilha de cães enfurecidos. Tenho de confessar que apanhei um grande susto. Não por ser do estilo medricas que mal vê um humilde e proletário rafeiro o toma imediatamente por temível fera. Mas pelo inesperado, porque eram grandes, porque eram uns quatro ou cinco, porque não os via bem, porque ladravam enfurecidos.
— Quem vem lá! Quem vem lá! — levantaram-se vozes, à mistura com o ladrar dos cães.
Estávamos agora num terreno liso, debaixo de grandes árvores que me pareciam castanheiros. Os homens estavam no chão enrolados em mantas a dormir e estava claro que se tratava de camponeses que dormiam ali para prosseguir os trabalhos do campo, manhã cedo.
— Chit! Chit! Aqui! Aqui! — respondeu aos cães o senhor Joaquim, ao mesmo tempo que batia com a mão na perna.
— É gente de paz, não há novidade, não há novidade — sossegou assim, os do chão, com voz firme de quem já está habituado a estes percalços, o nosso experiente companheiro.
Os camponeses calaram os cães e nós mal refeitos do susto lá seguimos na peugada do nosso perdido passador.

Em Puebla de Sanabria, do lado de lá

Ao clarear do dia atravessámos a rua de uma pequenina aldeia. Nunca cheguei a perceber se era portuguesa ou espanhola. As casas feitas de pedra sobre pedra, à vista, eram as de Trás-os-Montes, mas do outro lado da raia, em terras de Astúrias, também eram assim. Uma velhota que nos surpreendeu àquela hora matutina desabafou, meio português, meio galego, meio castelhano, mais para ela que para nós, com certeza habituada à passagem por ali dos emigrantes, a caminho das Franças, das Suíças e dos Luxemburgos.
— Ai coitadinha, tão nova e já nesta vida.
O que não diria ela se soubesse mesmo ao que íamos! A mim não ligou. Nem eu nem a Ana nos deixámos impressionar. A nossa vida era outra e bem boa. Éramos revolucionários! Cidadãos do Mundo Novo, da Sociedade do Futuro, construtores privilegiados do sistema socialista que haveria de substituir o capitalismo opressor e libertar a humanidade. Tínhamos a honra e privilégio de ser comunistas. O passador não nos ouviu. Nem nós abrimos a boca, mas se tivesse ouvido os nossos corações teria pensado que éramos muito novos e sabíamos pouco da vida. Muito novos! Tudo é relativo. Com a minha idade, 25 séculos antes, já Alexandre da Macedónia tinha conquistado um império do tamanho do mundo.
Eram quase oito horas, o nosso guia parou, dez metros à nossa frente, no meio duma comprida rua, praticamente deserta, duma povoação espanhola e virou-se para nós. Percebi que chegara ao fim a sua tarefa e estávamos perto de Puebla de Sanabria, a 40 quilómetros de Bragança, onde poderíamos apanhar o comboio que nos levaria para lá dos Pirinéus e das ditaduras ibéricas.
— Pronto — disse ele — a estação é lá ao fim. Um gesto vago apontava à esquerda e tanto podia ser já ali ao virar da esquina ou uns quilómetros adiante naquela direcção. Lá teria feito a sua ideia a nosso respeito e terá concluído, que não éramos nenhuns meninos de coro nem criancinhas para nos dar a papa na boca. Agora que nos desenrascássemos. Levantou a mão a meia altura. Avancei um passo para a apertar, mas não, não era isso, era um adeus lacónico, pois virou-se logo e lá foi, passada rápida, até à primeira viela em que deixou o nosso caminho.

2007/03/18

Coruche e Couço

Fotografias da visita a Coruche e ao Couço em 10 de Março de 2007, no âmbito da comemoração do Dia da Mulher promovida pelo movimento Não Apaguem a Memória.



Acto de "boas vindas" no anfiteatro da CM de Coruche vendo-se na mesa a antropóloga Paula Godinho com o seu livro Memórias da Resistência Rural no Sul - Couço 1958-1962 (Celta Editora Oeiras 2001), Maria Barroso, o presidente da CM de Coruche, Dionísio Mendes e Ana Gaspar.







No Couço junto ao monumento evocativo das lutas dos trabalhadores agrícolas contra a exploração e o fascismo.


2007/02/19

Portugal de há 50 anos (1)

Em 1960, Torres Novas tinha um quartel ocupado pelo Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2 que toda a gente conhecia por GACA 2.
E que era o GACA 2? Uns 500 homens, mais de metade deles envolvidos na instrução - uns 250 jovens, na maioria de origem rural, e uns 40 sargentos e oficiais quase todos milicianos, a ensiná-los. Um avantajado número de militares ocupado com os serviços e uma parte pequena verdadeiramente operacional e capaz de manejar as vetustas peças de artilharia pesada, prontas a fazer atravessar os céus e remotamente algum avião inimigo que se pusesse a jeito, com projécteis de 9 cm de diâmetro ou pronta a usar as peças anti-aéreas mais pequenas de 4 cm.


Capitão Virtuoso ao centro e os seus oficiais milicianos encarregados da recruta

O quartel com toda esta gente a comer, a beber, a fumar, a ir ao cinema, aos restaurantes, aos tascos, às tabernas e, com gana, à casa das putas, valia para a economia da vila tanto ou mais que toda a pequena indústria da região. Gastava-se o dinheiro do Zé sem que produzisse nada de verdadeiramente útil. O inimigo, o comunismo soviético, não passava cartão a Salazar e se mandasse aviões tinham que vir baixinho e muito devagar para, já não digo lhes acertarmos mas ao menos os assustar.

Depois de ter aprendido a defender a pátria em Vendas Novas, no ano anterior, na Escola Prática de Artilharia (EPA), onde tive de me apresentar interrompendo o curso em Lisboa; depois de ter aperfeiçoado a "arte da guerra" em Cascais, no Centro de Instrução de Artilharia Anti-Aérea e Costa, fui colocado naquela bonita vilória do alto Ribatejo, que então ainda não se sentia diminuida por não ostentar o título de cidade, para transmitir os meus noveis conhecimentos ao povo empurrado para as fileiras.



Oficiais milicianos no GACA 2, em 1960. Da esq. p. a dir, em 2º lugar
o autor do post, a seguir Ernâni Pinto Basto, em 4º lugar, só a
ver-se a cabeça, José Bernardino. Com um joelho em terra José de
Almada Negreiros (filho)
.

Às 8 horas em ponto os trinta recrutas vindos de todos o nosso Portugal, mas mais de Trás-os-Montes e Beira Alta - em três filas bem alinhadas eram apresentadas ao oficial miliciano pelo cabo miliciano que previamente ordenara "firme" e "sentido" em tom marcial: "fiiirme", "seeeeennnn-tap". O Aspirante a Oficial Miliciano (o primeiro grau da classe de oficiais) fazia a continência e mandava descansar com a ordem de "à vontade". Os "recrutas" ainda mal aprumados e pouco hirtos pela curta experiência castrense abriam as pernas, punham as mãos atrás das costas e ali ficavam a ouvir o futrica feito oficial a dar-lhes as primeiras explicações sobre as artes militares que ali se resumiam, nos primeiros tempos a bem marchar na parada e a ganhar reflexos de obediência instantânea às ordens que lhes dessem.

O 33, de nome Paulo e um excelente rapaz de uma terrinha de Trás-os-Montes a que se tinha acesso não por uma destas modernas auto-estradas em que Cavaco e Guterres gastaram o dinheiro com que deveriam, segundo as melhores opiniões, ter instruído o povo, mas por umas veredas só transitáveis de burro, muar ou a pé posto.
O Paulo ficou sob a minha directa protecção porque a sua excessiva falta de jeito para a "ordem unida" era motivo de troça da rapaziada que não respeitava atavismos, costumes ou atrasos regionais.
O 33 não conseguia marchar. Fazia-lhe confusão aquilo de os braços balançarem ao ritmo das pernas e tendia a atirar com os dois braços para a frente ou para trás ao mesmo tempo o que dava um ar desengonçado ao andar e pictoresco às nossas aulas. Também não conseguia saltar a pés juntos por cima de um muro com 50 cm de altura. E trazia uns grossos volumes a empanturrarem-lhe os bolsos das calças o que tudo junto tornava o nosso esforçado Paulo objecto de risota dos colegas fora das horas de instrução e dos olhares dos superiores. Isto de "superiores" era assim que se dizia. Agora lá se eram ou não resta averiguar.
Quando fazíamos os intervalos regulamentares de 10 minutos após os 50 de instrução o nosso 33 tirava dos bolsos um temível canivete e uma grossa bucha de pão caseiro que trouxera da terra com presunto e ali, sem mais cerimónias, compensava a magreza do rancho.
No final da recruta o 33 estava em forma. Não digo com a destreza e elegância de gazela mas marchava como os outros, saltava o muro e vencera o pavor que o cegava de ter de saltar para o galho, prova que desfeiteava muito peralvilho da cidade.



Parte dos recrutas do meu pelotão de instrução. O dono do blog
e comandante desta tropa é o 4º da esq.
Paulo à direita, em pé.

No fim de semana a Bateria (força de 120 homens de artilharia) oferecia 1 bilhete de cinema por pelotão (cerca de 30 recrutas ou praças) para o melhor recruta. Nem sempre me era fácil avaliar com rigor a quem dar o prémio. Mas o nosso Paulo ainda não estava no "pelotão da frente". Por isso, certa vez, atendendo aos seus notáveis progressos ofereci-lhe, pago por mim, um bilhete para o cinema.

Foi quase uma aventura para o nosso esforçado trasmontano. Assenta-te!! Gritavam os colegas ou outros torreenses das filas de trás. E ele nada, dois palmos de cabeça acima dos outros. Senta-te, insistiam já ameaçadores. Mas já estou sentado!... Oh camelo! roda o assento para baixo.

No intervalo da fita o 33 foi às casas de banho. O aparato era antigo. Ou moderno para a altura e ao lado dos urinois tinham colocado uns bidés que ali ficavam mais ou menos excedentários.
O Paulo viu os locais próprios para "verter águas" ocupados e não considerando os bibés menos próprios usou, sem a mais longínqua malícia, um destes para se aliviar. O drama é que teve o azar de na casa de banho ter entrado nada menos que o comandante, um ten-coronel, muito cumpridor, muito zeloso, e competente pelo menos na administração do quartel mas quanto a linguagem... o máximo de polimento que lhe emprestava era com máximas quarteleiras do género: "quando o general visita a unidade e passa revista o que é preciso é estar lavado por baixo" que era uma forma de dizer que queria casernas limpas, sem lixo nem pó debaixo dos beliches e tarimbas dos soldados, cozinha impecável e tudo no seu lugar.

Na segunda feira o capitão Virtuoso, comandante da 3ª bateria de instrução a que eu pertencia, chamou-me ao seu gabinete. "Dá licença meu capitão". Era eu, aprumado, em continência, depois de um forte bater de tacões à porta do gabinete. "Entre nosso aspirante. Sabe! Você tem lá um recruta, tenho aqui o número... é o 33, que vai ter de levar uma valente porrada. É uma ordem do nosso comandante. Apanhou-o na casa de banho do cinema, ontem, a mijar no bidé. Tem de levar uma porrada exemplar que não queremos aqui na terra má imagem do quartel."

Bom... se me dá licença eu vou falar com o nosso comandante. Já me contaram o que se passou. O 33 nunca viu um cinema e não faz ideia do que seja ou para que serve um bidé. Se me autorizar eu falo com o nosso comandante.

Livrei o Paulo de mais este apuro.

No fim da recruta recusei um presunto que me trouxe. Um presunto enorme e delicioso como depois comprovei. Ficou muito ofendido e disse-me que não podia aceitar a minha recusa. Seria uma ofensa não só para ele mas para os pais que tinham muita consideração por mim. Suponho que inventava. Os pais não tinham a mais ligeira ideia de quem era. Chegámos a um acordo. Eu ficava com uma parte e ele organizava com o resto uma festa com os colegas do pelotão a que eu assistiria.

2006/12/20

Para a Amparo imagens de Medellin, Colômbia

2006/12/07

Tribunal Plenário da Boa Hora

Em 2006-12-06, nas instalações do antigo Tribunal Plenário da Boa Hora, em Lisboa, foi descerrada uma lápide evocativa da "justiça" da ditadura fascista que funcionava às ordens da PIDE, evocativa dos que contra ela lutaram e dela foram vítimas. Na iniciativa do MOVIMENTO NÃO APAGUEM A MEMÓRIA e na presença do Ministro da Justiça e do presidente do Supremo Tribunal Constitucional, António Borges Coelho, historiador, ex-preso político, professor universitário jubilado, fez a primeira intervenção:



"Em nome das vítimas dos Tribunais Plenários, dos mortos e dos vivos, saúdo os juízes do Tribunal da Boa Hora que quiseram activar a memória dos tempos sombrios. As vítimas que represento foram neste local gravemente ofendidas na sua dignidade e no seu próprio corpo. Avivar, hoje e aqui, a memória constitui, pois, um acto necessário e exemplar de cidadania.

Os presos políticos, mulheres e homens, que durante dezenas de anos pisaram a barra deste tribunal, não eram gente vencida. Tinham experimentado os perigos da luta contra a ditadura e o rigor da vida clandestina. Tinham suportado a prisão, os espancamentos, a tortura da estátua, os meses de isolamento nos buracos do Aljube ou em Caxias. Muitas vezes chegavam aqui ainda com as marcas da tortura.

Esta sala, que foi do Tribunal Plenário, era previamente ocupada por agentes da polícia. Um deles escrevia o relatório pormenorizado da audiência e não se coibia de comentar a actuação dos próprios juízes. Mas a polícia não podia impedir a presença de assistentes incómodos. Desde logo, a dos advogados que gratuitamente e com elevado risco assumiam a defesa dos réus. Depois, a das testemunhas que louvavam a conduta ética dos acusados e por vezes defendiam a justeza das ideias que eles professavam. Algumas testemunhas saíam directamente da sala de audiências para o calabouço. E havia ainda os olhos e os ouvidos dos que conseguiam vencer a barreira.

Os “julgamentos” começavam com a entrada do Promotor e dos Juízes do Tribunal Plenário. Entravam sem venda nos olhos e sem balança. Sabiam ao que vinham: julgar mulheres e homens cujos processos tinham sido instruídos, não por juízes, mas por agentes e inspectores da polícia política. E de que crimes eram essas mulheres e homens acusados? Do crime de exprimirem por palavras e escritos o seu pensamento; do crime de exercerem a liberdade de reunião e de associação.
Os Tribunais Plenários integravam-se no sistema de terror, legitimando-o.

No decorrer da audiência os acusados acusavam. A televisão não estava lá para abrir uma janela para o mundo; a imprensa silenciava; o país seguia cabisbaixo. Mas as vozes daqueles que aqui se ergueram acusando ecoaram fundo no coração de muitos portugueses. Não vou referir nomes. Alguns têm o seu lugar na nossa história. Hoje lembro somente aqueles que acusaram e de que ninguém fala. Por vezes agredidos e empurrados para o calabouço.
Estas paredes assistiram a muita agonia, a opressão, a desprendimento total das coisas terrenas, a gestos comoventes de sacrifício e dedicação aos outros. Mulheres e homens que nada tinham senão os corpos e a mente indicavam com o seu sacrifício que há momentos em que é preciso dizer não para que a água da vida corra limpa.
Vinham de todas as camadas sociais mas predominavam os camponeses, os operários, os intelectuais e os jovens. Recordo-os a todos como pessoas nas suas diferenças sociais e políticas e queria com estas palavras erguer um longo mural que chamasse, um a um, todos os nomes.
Eles assumiam, letrados ou não, a dignidade antiga e quase sagrada de Sócrates perante os quinhentos juízes do tribunal de Atenas.

No final do espectáculo, o Tribunal Plenário condenava as vítimas a anos e anos de prisão, a que acrescentava as medidas de segurança de seis meses a três anos, renováveis tantas vezes quantas a polícia política decidisse com a dócil assinatura dos servidores do Plenário.

Renovo a saudação a todos quantos participaram nesta breve memória dos tempos sombrios. Mas as últimas palavras reservo-as para a primeira noite dos condenados depois da leitura da sentença: embrulhados nas mantas imundas, cortados da vida, sem outro futuro à vista que não o do cárcere e o da “fé”.

2006/12/06

Juizes da democracia branqueam juizes dos Tribunais Plenários

Na cerimónia promovida pela Associação Cívica NÃO APAGUEM A MEMÓRIA em 2006-12-06 (ver posts abaixo) será descerrada uma lápida evocativa dos Tribunais Plenários.

"O militar de Abril Martins Guerreiro explicou ao PÚBLICO [encontrei o link no Câmara Corporativa] que o Movimento apresentou uma proposta de texto para a lápide:

"Nesta sala do então Tribunal Plenário, entre 1945 e 1974, foram julgados inúmeros adversários e presos políticos da ditadura, acusados de "crimes" contra a segurança do Estado. "O tribunal não actuava com independência, aceitava e cobria as torturas e ilegalidades cometidas pela PIDE/DGS, limitava-se, salvo excepção, a repetir a sentença que a polícia política já tinha definido. Muitos juízes ignoraram e impediram os presos políticos de denunciarem as agressões e metódos da PIDE/DGS. A justiça e os direitos humanos não foram dignificados nem respeitados no Tribunal Plenário."

"Após negociação com o tribunal da Boa-Hora, através do juiz Carlos Berguette, o texto acabou por sofrer algumas alterações:

"Aqui funcionou o "Tribunal Plenário", onde, entre 1945 e 1974 - período da ditadura -, foram condenados inúmeros adversários do regime, acusados de crimes contra a segurança do Estado. A justiça e os direitos humanos não foram dignificados. Após o 25 de Abril de 1974 a memória perdura e a justiça ganhou sentido. À dignidade dos homens e mulheres aqui julgados por se terem oposto ao regime da ditadura."

Os juizes destes tribunais foram submissos executantes das ordens da PIDE e o 25 de Abril, mercê de ambiguidades do processo político de então, nunca chegou a responsabilizá-los pela sua cumplicidade com o terror fascista. Alguns juizes, hoje, em vez de se sentirem bem com a denúncia daquela situação parece que tentam encobri-la. Seria uma solidariedade corporativa comprometedora. Não sei se pensam que defendem a dignidade da Justiça tentando ocultar a indignidade dos seus colegas dos Plenários mas na realidade o que resulta é comprometer aquela com estes . Vergonha!

O último julgamento do tribunal plenário

"Na manhã do próprio 25 de Abril [de 1974], antes da consolidação do MFA, decorria, na Boa Hora, mais uma sessão do julgamento do caso da ARA (Acção Revolucionária Armada), organização afecta ao Partido Comunista. Foi o último processo a ser julgado naquele tribunal de execrável memória. Presidia o desembargador Fernando Morgado Florindo. Na sequência da ligação directa do Plenário com a PIDE, Morgado Florindo exarou um despacho, até agora inédito e que reproduzimos na íntegra:

"Tendo a Direcção-Geral de Segurança comunicado telefonicamente a impossibilidade de assegurar a condução dos réus a este tribunal, devido ao Movimento das Forças Armadas, adio "sine-die" o julgamento. "

In: DN de 25 de Abril de 1999, artigo de António Valdemar Bem informados do 25 de Abril... pela PIDE

Os Tribunais Plenários.


Gravura de Dias Coelho, assassinado por uma brigada da PIDE, numa rua de Lisboa, em 19 de Dezembro de 1961 [por gentileza da Fundação Mário Soares].

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! vai concretizar, em pedra e cal, um dos seus objectivos: assinalar para os presentes e vindouros que no Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, funcionou, de 1945 a 1974 um arremedo de justiça, designada por “tribunais plenários”.

Convém recordar que no dia 24 de Abril de 1974 ainda este sinistro tribunal (?) se reuniu e ordenou ao meirinho para trazer à sessão os acusados de “acções subversivas, visando o derrube do Estado Novo”. O meirinho respondeu que não havia acusados, a carrinha que os devia trazer da prisão de Caxias não chegara e, ao que constava, decorria uma revolução que tinha por objectivo libertar todos os presos políticos e derrubar definitivamente o Estado Novo.

Consta que os juízes arrumaram as becas, recolheram a penates e ficaram assolapados nas suas mordomias, aguardando que a situação se esclarecesse. Comportaram-se como o camaleão e, tal como ele, abocanharam a presa. Estes togados, que anos a fio tinham agido com baixeza moral e sido um exemplo de ignomínia para com a Justiça humana, conseguiram emergir do pântano da vileza e servilismo para, revestindo-se do manto do exercício irresponsável da lei, voltar a distribuir a Justiça dos códigos jurídicos. A maioria reformou-se por limite de idade, mas houve quem chegasse ao Supremo Tribunal, numa atitude de supremo desplante, que infelizmente nenhum colega de mister teve a justeza de denunciar publicamente.

Só agora, 32 anos passados, foi possível, graças a uma nova geração de magistrados, para quem a democracia é o regime natural das sociedades humanas, reabilitar a dignidades dos muitos resistentes que ali foram julgados e algumas vezes espancados pelos agentes da PIDE, a feroz polícia política do regime, no decorrer do próprio julgamento, perante a cúmplice passividade dos juízes (?) que presidiam à sessão.
A sentença vinha já inscrita na acusação instruída pela própria polícia política. Ela investigava, procedia à detenção, interrogava sem limite nem peias, instruía o processo e determinava a pena a aplicar, que os juízes (?) do tribunal plenário aplicavam com obediência canina – incluindo as “medidas preventivas”, que determinavam a prorrogação automática da pena, de seis em seis meses, se a PIDE o achasse conveniente para “a segurança do Estado”.

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! sente um legítimo orgulho em poder afirmar que esta denegação da Justiça, praticada num secular lugar de Justiça vai ser reparada, na medida simbólica que a história o permite.
No próximo dia 6 de Dezembro, pelas 17h30, na 6ª Vara Criminal do Tribunal da Boa-Hora, lugar de opróbrio para justiça portuguesa, pois aí funcionaram os famigerados tribunais plenários, vai ser descerrada uma lápide chamando à atenção do visitante para que ali, durante o regime ditatorial do Estado Novo, a dignidade dos homens e mulheres livres foi ultrajada por vis juízes e desprezíveis torcionários.
O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! considera um dever de memória a divulgação deste acto, por isso convida-vos a estar presentes na cerimónia de descerramento da lápide e a dar a divulgação que julgamos que este acto merece. Junto enviámos o programa da sessão que decorrerá a 6 de Dezembro próximo. "

PROGRAMA

2006/11/29

Almeida Santos: "Quase Memórias"


“Traição de Omar” faz correr lágrimas em Spínola”

(Excertos, 2.° volume, pp. 66-70)
In Público 2006-11-28

Na véspera da partida da delegação portuguesa que ia iniciar em Dar-es-Salam as negociações com uma representação da Frelimo [ 15 de Agosto de 1975] recebeu-se em Lisboa a notícia, de fonte militar, de que uma companhia das Forças Armadas portuguesas havia sido “emboscada e aprisionada” por forças da Frelimo, em Omar, no Norte de Moçambique, junto à fronteira com a Tanzânia.
Justamente indignado o Presidente Spínola exigiu que antes de dar inicio às negociações e como condição desse início a delegação da Frelimo apresentasse desculpas à delegação portuguesa, por essa traiçoeira atitude das suas forças.
Assim fizemos. Mas com surpresa nossa, Samora Machel começou por pretender desconhecer do que estávamos a falar:
– Emboscada de Omar?! Uma companhia aprisionada?!...
Por fim fez-se luz no seu espírito:
— O quê? Aquela “entrega” dos vossos soldados?
E voltando-se para um qualquer assessor da sua delegação:
— Traz a cassete...
Cassete? Íamos de surpresa em surpresa. Mas a verdade é que a misteriosa cassete veio, foi por nós ouvida, e ouvi-la ficou a constituir uma das maiores humilhações por que terá passado a delegação de um país.
O que nós ouvimos foi o registo sonoro de uma “entrega”, não apenas voluntária, mas insistentemente solicitada
-Vocês quem são?
(Veio a identificação.)
- E querem entregar-se porquê?
— Porque é hoje o dia! Porque vocês são os libertadores da nossa Pátria! Queremos entregar-vos as nossas armas!
Não garanto a exactidão das palavras — cito de memória — mas asseguro o sentido delas.
Seguiram-se os abraços, o “pega lá a minha arma, meu irmão”, etc., etc. É claro que não havia lugar a exigência de desculpas. Limitámo-nos a pedir uma cópia da cassete para em Lisboa documentarmos isso mesmo.
Mal chegados; a primeira coisa que o Presidente Spínola quis saber de nós foi se a Frelimo tinha ou não apresentado desculpas.
— Lamentamos informar que não era caso disso. Trazemos aqui uma cassete...
— Uma cassete?!
— É verdade! Uma cassete!
Logo se pediu um leitor de cassetes. Mas pouco depois de ter começado a ouvi-la, o Presidente mandou abruptamente desligar a maquineta. Manifestamente perturbado. Não sei se invento dizendo que vi brilhar, por detrás do seu inseparável monóculo, uma lágrima de comoção. Ou de raiva? Se aquilo era para ele o que era para mim, inveterado paisano, o que não seria para o lendário cabo-de-guerra?... (...)

2006/11/25

O que foi o 25 de Novembro de 1975?

O que se segue é uma adaptação de parte da entrevista que dei ao Público, em 21 de Novembro de 2000.
Nela procuro apresentar o confronto militar do 25 de Novembro como o culminar de um processo político e militar caracterizado pela sucessão de lances e respostas político-militares até um momento de máxima tensão e rotura. E não, portanto, um momento em que após maior ou menor preparação, os contendores em presença desencadeiam um golpe militar.

Ambas as partes consideram o confronto militar do 25 de Novembro um golpe da parte adversa. Os vencedores: PS, o centro e a direita com o Grupo dos 9 e os Comandos usam como argumento o facto de o 25 de Novembro ter sido desencadeado pela esquerda com os paraquedistas que foram na madrugada de 24 de Novembro ocupar as bases da Força Aérea em Tancos, Monte Real, Montijo e o Comando em Monsanto, Lisboa. Os vencidos: PCP, alguns partidos de extrema esquerda, a esquerda militar gonçalvista e a esquerda militar otelista alegam que esse movimento militar era um movimento defensivo face à informação de ataque iminente da Força Aérea que não havia um plano subsequente nem estado maior militar, institucional (Otelo deixou o COPCON, foi dormir e só reaparecu a 25 de tarde já o confronto mais ou menos decidido) ou paralelo ( o SDCI era um serviço de informações e sem condições de posto de comando) enquanto a parte contrária tinha um posto de comando e forças preparadas no Regimento de Comandos, reforçado com a chamada clandestina a fileiras de centenas de ex-comandos.

Do Público de 21 de Novembro de 2000:

RN: "... A minha leitura desses acontecimentos é que a ordem aos pára-quedistas para a ocupação das bases parte da esquerda militar e tem o aval do PCP. Mas o que se esquece é o contexto, o que se estava a passar no próprio regimento de pára-quedistas, e seus anntecedentes. O 25 de Novembro é só o culminar de uma situação, uma parada um pouco mais alta que o PCP e esquerda militar não conseguiram sustentar e que foi o momento em que as outras forças acharam que podiam fazer o contragolpe. Há uma sucessão de ofensivas e contra-ofensivas, desde Maio, da esquerda revolucionária e das forças que se lhe opõem.
Público: - Pode explicar melhor?
R. - A 19 de Maio, o PS abandona o Governo, a 8 de Julho há uma resposta da esquerda, sai o Documento-Guia Aliança Povo-MFA - que é uma proposta de estrutura de organização política que os adversários apelidavam, e bem, de um novo corporativismo. A 10 de Julho, há a tomada do jornal "República" e como resposta à efervescência revolucionária no mesmo dia a saída definitiva do PS do Governo. No dia 19 a manifestação do PS na Alameda e o pedido para que o primeiro-ministro Vasco Gonçalves se demita. A 8 de Agosto, a esquerda militar e o PCP conseguem impor o V Governo Provisório. Há logo uma resposta: vocês tomaram conta do Governo mas vamos esvaziá-lo de poder. A cúpula do MFA, onde o PCP tinha poder, é reduzida ao chamado directório, onde Costa Gomes, Otelo e Vasco Gonçalves não se entendem e a operação salda-se numa derrota da esquerda.
P.- Pelo meio aparece a FUR...
R.- A esquerda em desespero pela perda de influência de massas, já com os ataques às sedes do PCP, perda de influência militar e de possibilidades de aliança com o PS, cria a FUR [efémera e tácita aliança entre o PCP e forças "esquerdistas"], uma coisa inédita. Carlos Brito e eu passámos uma noite inteira a negociar com a esquerda revolucionária [no Centro de Sociologia Militar com a iniciativa e a presença de militares do MFA mais radical] num ambiente verdadeiramente surrealista. Nesta altura, foram criados no Porto os SUV por militantes do PCP e outros partidos de esquerda, que apareceram como resposta ao saneamento pela hierarquia tradicional, recentemente reposta pela substituição do brigadeiro Corvacho pelo brigadeiro Pires Veloso, dos membros das Assembleias de Dinamização de Unidade. Foi uma explosão, fez-se uma enorme manifestação de civis e soldados no Porto, outra em Coimbra e duas em Lisboa, algo que o PCP considerou que não era de condenar, mas de apoiar. A situação era, na realidade, já de desespero mas a comissão política do PCP avaliou em comunicado, erradamente, que se tratava de um novo fluxo revolucionário. A seguir, em Setembro, há outra resposta que é a assembleia do MFA em Tancos, e em resultado a esquerda militar foi saneada [dos órgãos político-militares e de comandos militares]. Vem o VI Governo provisório. Depois surge o AMI, grupo de intervenção militar influenciado pela direita, e há uma resposta da esquerda, a Rádio Renascença, reocupada por forças da esquerda radical. A 7 de Novembro, os oficiais pára-quedistas vão às instalações da Rádio Renascença e fazem explodir o emissor. Segue-se, a 8, a resposta dos sargentos e soldados pára-quedistas, que recusam a presença na unidade de Tancos do chefe do Estado-Maior da Força Aérea [Morais da Silva] e tomam conta da unidade. No dia seguinte, há a grande manifestação do Terreiro do Paço afecta às forças que se opõem ao processo revolucionário...
P. - Estava-se à espera de um pretexto, de uma casca de banana?
R.
- Todos os dias havia cascas de banana. A 10 de Novembro, o chefe do Estado-Maior da Força Aérea decide retirar os oficiais de Tancos [200?] e isso cria uma situação de sublevação em toda a unidade onde ficam 5 oficiais, os sargentos e as praças com um comando paralelo. A 12, há a manifestação e o cerco da Constituinte. Não quer dizer que as coisas estivessem programadas nos estados-maiores de um e outro campo em confronto. Havia os planos estratégicos: recuperar poder e avançar a revolução e, do outro lado, suster o processo revolucionário, institucionalizar a democracia representativa ou, para as forças de extrema-direita, aniquilar o PCP e instalar um poder musculado. Mas o dia a dia obrigava os estados-maiores políticos e militares a gerir o processo "desorganizado" por mil e uma força civil ou militar, política ou social que marcava o compasso da revolução. No dia 19, o chefe do Estado-Maior da Força Aérea ordena a dissolução da unidade, e dá ordem aos sargentos e oficiais milicianos e do quadro permanente desta unidade da Força-Aéwrea para regressarem às suas unidades de origem no Exército. mas eles não abandonam o quartel que passa funcionar em auto-gestão. No dia 20, o Governo auto-suspende-se.
P.- O golpe podia ter ocorrido aí?
R.-
A situação podia ter-se precipitado aí, podia ser essa a casca de banana, mas ainda não estavam maduras as condições. Em 21 de Novembro, há um juramento de bandeira revolucionário no Ralis [Regimento de Artilharia de Lisboa]. E a 23, há a luta pela conquista do batalhão de pára-quedistas que regressa de Angola. São militares que não viveram a revolução e desconhecem a "guerra" em que os para-quedistas, em Portugal, estão metidos. O bote da polícia marítima que faz o primeiro contacto com o navio que foi decidido não atracar ao cais leva um agente, um civil, do Chefe de Estado-Maior da Força Aérea com uma mensagem para entregar ao comandante da unidade o ten-coronel Almendra, a preveni-lo de que a unidade não vai para o quartel de Tancos e para não deixar entrar no navio os sargentos que iam no bote, agentes dos para-quedistas sublevados de Tancos que pretendiam ganhar a tropa para o seu lado. Depois, nesse mesmo dia, há um comício de apoio ao VI Governo em Lisboa.
No dia 25, a tropa pára-quedista está em polvorosa, foi-lhe cortada a água, a luz e a alimentação, acreditando em boatos de que agora é que os "contra-revolucionários" vão dar o golpe.
Nessa noite, há um estado-maior da esquerda militar, ainda pouco consolidado, no SDCI, que tem ramificações insuficientes no Copcon e está em contacto com os pára-quedistas. Corre o boato que a Força Aérea ia bombardear. Portanto isto é um pretexto melhor ou pior para os "páras" saírem. É uma medida excessiva, porque não corresponde a uma real força, nem do PCP, nem da esquerda militar que não tem comandantes, nem dispositivo suficiente. Sair com um aparato destes pode ser tomado como um acto de guerra. A direita estava preparada e viram que havia condições para dar o contragolpe. A seu lado têm a legitimidade institucional, têm o apoio do Presidente da República, o que foi decisivo. Do outro lado o que há? Há o desaparecimento do Copcon... "

2006/11/20

O Relatório de Krutchev , repercussões e actualidade"

Colóquio organizado pela Associação Renovação Comunista na Biblioteca Museu da República e da Resistência no dia 7 de Novembro de 2006
Participantes: Carlos Fidalgo – moderador, Carlos Brito, Fernando Rosas, Raimundo Narciso.

Intervenção de Raimundo Narciso:

...Nikita Krutchev conseguiu importantes vitórias mas as suas reformas revelaram-se insuficientes e falhou o intento de colocar o comunismo em boa via. Gorbatchov, 30 anos depois, diria que pegando no testemunho de Krutchev, fez nova tentativa com o mesmo objectivo e… com o mesmo resultado. Com ele fracassou a experiência soviética e o próprio país. Não estou certo que aqui os meus amigos renovadores do comunismo português tenham êxito maior mas apesar de tão temerária ambição desejo-lhes, sinceramente, o maior sucesso.


Funeral de Stáline. Da esq p a dir, 1º plano: Béria, Voroshilov, Krutchev.
Na noite de 24 de Fevereiro de 1956, Nikita Krutchev não quis deixar para o dia seguinte a leitura aos delegados do seu explosivo relatório, verdadeira bomba atómica política, com a qual queria mudar o rumo da União Soviética, exorcizar o seu passado e sem dúvida consolidar o seu poder. Uma reunião do Praesidium do CC realizada no decorrer do próprio congresso, na qual se discutiu a decisão de Krutchev de apresentar o relatório da denúncia do culto da personalidade e dos crimes de Stáline tinha revelado a forte oposição de um poderoso grupo de dirigentes, entre os quais, Molotov, Kaganovitch, Vorochilov.

...Uma das consequências da sua iniciativa viria a beneficiá-lo directamente. A partir de agora as diferenças de opinião, não aquelas que se cinjam à ideologia ou à orientação política mas aquelas que afectem a preservação do poder, deixavam de ser resolvidas com o fuzilamento de quem tinha menos força.

Lembremos que Nikita Krutchev já tinha resolvido com os seus aliados conjunturais o problema Béria.

...Quem era Krutchev, que se atrevia a abalar os alicerces do Estado totalitário e a deitar por terra a imagem do homem cuja evocação ainda, em 1956, fazia tremer os que com ele privaram de mais perto, aqueles que nos últimos tempos da vida de Stáline nunca sabiam se a sua chamada ao Kremlin lhes garantia o regresso a casa ou os destinava à prisão? Era um ucraniano inteligente, extrovertido, sagaz, de pouca cultura, de origem muito pobre a quem a revolução abriu caminho ao sucesso. Começou a trabalhar ainda criança como operário. Foi estudando aqui e ali até atingir o quarto ano de escolaridade e depois já adulto frequentou por insistência sua, nas oportunidades que lhe surgiam, cursos mais de formação profissional que de ciência pura.
Voluntário no Exército Vermelho, activista político e sindical inscreveu-se no partido bolchevique em 1918...

Em 1921/22, período de grande fome, já um quadro político do partido com importância local, trabalha numa mina. As condições de vida são tais que se não é socorrido pelo dono da casa onde partilhava um quarto – ironia do destino, um kulak - teria certamente morrido à fome. O que aliás viria a suceder mais tarde à sua primeira mulher. Fez uma carreira bem sucedida sob a protecção de Lazar Kaganovitch.
Subia a pulso, com uma fé inquebrantável no comunismo e a sua trajectória é paradigmática das oportunidades de ascensão criadas na nova ordem social às camadas mais despossuídas da sociedade.
Em 1934, Krutchev foi eleito delegado ao célebre XVII congresso que ficou conhecido como o “congresso dos vencedores”. E sofreu uma das primeiras machadadas na sua fé sem limites no partido. Kaganovitch já um dos poderosos dirigentes, do círculo próximo de Stáline pede-lhe a ele e outros novatos da sua confiança que na votação risquem o nome de Molotov e Voroschilov, porque era preciso garantir que Stáline fosse o mais votado.
Depois da morte do ditador veio a descobrir-se que ele tinha tido 260 votos contra e não os 6 que foram anunciados enquanto que o mais popular dirigente da época, Kirov tinha tido, de facto apenas 3 votos contra. (1)

...Quem era este “Nikita Krutchev que acabou por ir mais longe que os todos os seus colegas na via da desestalinização” pela “aceitação pessoal de enfrentar o seu passado de estalinista, por autêntico arrependimento, habilidade política, populismo específico,… vontade de voltar à legalidade comunista”?
Era um quadro político que da experiência comunista da Rússia só conheceu o estalinismo. Que em 1937 fora eleito, ou nomeado, 1º secretário do comité da região de Moscovo e discursava assim numa conferência pública:
“Os trotskistas levantam as suas mãos traidoras contra o camarada Stáline, Stáline a nossa esperança; Stáline o nosso desejo, Stáline: a luz da humanidade avançada e progressista. Stáline a nossa vontade, Stáline: a nossa vitória” (2)
...Quando o ditador morre Krutchev é a 5ª figura do poder tendo à sua frente e por esta ordem Malenkov, Molotov, Beria e Kaganovitch.
Após a morte de Staline o Praesidium do CC nomeou Malenkov chefe do Governo e 1º secretário do CC. Decidiram acabar com o lugar de secretário-geral que fora criado para Stáline e que foi depois recuperado por Brejnev. Começou a ser restabelecido o poder dos órgãos do partido, CC e Praesidium do CC sobre o todo poderoso serviço secreto (Krutchev diz nas suas Memórias a página 66 que havia 1 milhão de agentes) mas desde logo se iniciou a arrumação de poderes e hierarquias no Praesidium. Todos sentiam que a sua segurança era precária enquanto Béria, com o controlo dos serviços secretos, executante e cúmplice mais directo de Stáline em incontáveis crimes andasse por ali.
...Béria foi julgado com um julgamento farsa igual aos que ele organizava e com os mesmos resultados. Foi fuzilado.
O método de Stáline para lidar com os seus camaradas ou rivais acabou com a eliminação de Béria. A acusação usou ainda a retórica e utensílios legais do ditador e foi condenado como inimigo do povo, espião do estrangeiro e outras convincentes acusações do mesmo estilo.
Livre de Béria e dos seus colaboradores que, estes sim, foram apenas presos, o poder foi sofrendo ajustes e em Setembro de 1953, sete meses após a morte do ditador, o Praesidium eleva Krutchev a 1º Secretário do CC, cargo até aí acumulado por Malenkov com a presidência do Governo.

Consequências internacionais

A viragem da política soviética que o Relatório de Krutchev representou se foi grande no plano interno não foi menor no plano internacional.
A maior das suas consequências foi sem dúvida a tese sobre a possibilidade de coexistência pacífica entre Estados com sistemas económicos e sociais diferentes concretamente entre os Estados socialistas e os Estados capitalistas.
Um corolário deste princípio era a aceitação da possibilidade de se evitar a guerra entre os dois sistemas. Era uma nova orientação virada para a paz e o desarmamento que viria a tornar-se numa orientação duradoura da União Soviética apesar de não ter sido suficiente para evitar o crescente confronto entre os dois campos e a “guerra fria”.
Outra tese que não deixava de ter alguma relação com aquela foi a da possibilidade da passagem ao socialismo por diferentes vias entre elas a via pacíficaA alteração do rumo político relativamente a Stáline introduzida por Krutchev apesar de forte resistência do sector conservador e que vinha já dos anos anteriores ao XX congresso manifestou-se no restabelecimento das relações de amizade com Tito e a Jugoslávia na normalização das relações com a Áustria..
Com este país a União Soviética estabeleceu um tratado de paz, no âmbito das negociações com as potências vencedoras da 2ª GM e promoveu a desocupação militar em troca da sua neutralidade.

De acordo com os novos princípios apresentados no XX congresso Krutchev deu início a uma estratégia de distensão militar com os Estados Unidos, de reforço da paz mundial e pelo desarmamento.
As boas intenções chocaram no entanto com a realidade. O campo liderado pelos Estados Unidos não desistia do cerco, político, militar, económico e tecnológico e mantinha como ponto central da sua política a derrota da União Soviética e do comunismo. A situação era tal que em 1965 a ligação aérea entre Moscovo e Havana tinha de ser feita pela rota do pólo Norte e pelo Atlântico porque os aviões soviéticos das carreiras aéreas de passageiros não estavam autorizados a sobrevoar a Europa Ocidental.

A União Soviética não desistia, apesar do acento posto agora na diversidade de vias para ao socialismo entre elas a via pacífica como orientação para a luta dos partidos comunistas e outras forças contra o capitalismo, de se opor por todos os meios incluindo o da força armada à defesa dos regimes sob seu controlo na Europa de Leste.
O comprometimento das direcções partidárias e dos Governos da maior parte destes países, com purgas de sua iniciativa ou impostas por Stáline, era grande e a desestalinização não deixou de ser um processo dramático nalguns destes países.

As novas teses de Krutchev sobre a coexistência pacífica e a diversidade de vias para o socialismo acabaram por se chocar com as posições da China e contribuir, aliás como toda a política anti-estalinista de Krutchev, para o grande cisma comunista resultante do denominado diferendo sino-soviético.
Outro ponto culminante do confronto entre os dois sistemas mundiais e que levou o mundo, como nunca antes, nem depois, à beira da catástrofe nuclear foi a crise dos mísseis com armas nucleares em Cuba. Como se sabe a crise teve como desfecho, no fim de Outubro de 1962, o acordo com Kennedy pelo qual a União Soviética retirava os mísseis de Cuba e os EUA comprometiam-se a não invadir a ilha de Fidel Castro, que aliás se opôs ao acordo, e a retirar os mísseis norte-americanos apontados à União Soviética instalados na Turquia.
Este acordo saldou-se em termos de imagem num revés para Krutchev que aliado ao fracasso da sua política agrícola, o calcanhar de Aquiles de todos os Governos soviéticos, foi aproveitado para o seu afastamento em Outubro de1964.
No capítulo do desarmamento a política de Krutchev acabou por assinalar um êxito importante com a assinatura do Tratado de Moscovo de suspensão das experiências nucleares submarinas e na atmosfera em Agosto de 1963.

Repercussões em Portugal

A nova orientação de Krutchev contra o culto da personalidade de Stáline e o estalinismo em geral também não deixou de ter repercussões em Portugal ainda que relativizadas à condição de um partido que não só não está no poder como luta obrigado a duras condições de clandestinidade.
Na primeira reunião do CC do PCP realizada em Maio de 1956, três meses depois do XX congresso do PCUS, e depois no 5º congresso (Setembro de 1957, Estoril) vai triunfando, influenciada pelo XX congresso, uma orientação política de luta contra a ditadura fascista que substitui a via do levantamento nacional violento, o derrubamento do regime pela força, pela via pacífica. Ora um levantamento nacional pacífico ora através de eleições.
É de acordo com esta linha que em 1959 o PCP promoveu a “Jornada nacional pacífica pela demissão de Salazar”, após as eleições farsa de 1958, em que o general Delgado foi sem a mais leve surpresa “derrotado”. Essa jornada nacional pacífica incluía um abaixo assinado que por acaso também assinei e reuniu, se bem lembro, a assinatura de 402 corajosos portugueses seguramente tão descrentes da eficácia de tal exorcismo como eu.

Esta orientação “pacifista” para o derrubamento do regime do “Estado Novo” foi muito causticada por Álvaro Cunhal, após a sua fuga da cadeia de Peniche, em Janeiro de 1960, no documento O DESVIO DE DIREITA NO PCP NOS ANOS 1956-1959, e foi substituída no 6º congresso (Setembro de 1965, Kiev) pela linha que propunha a via insurreccional armada para o derrubamento da ditadura no célebre documento O RUMO À VITÓRIA.

Também estimulada pelo novo alinhamento com o PCUS de Krutchev se procurou identificar no PCP uma tendência para o culto da personalidade de Álvaro Cunhal, então preso, que viria a apagar-se, tal como nascera, sem grande ruído, por minguada consistência.

As repercussões do XX Congresso e de Krutchev à frente da URSS também se poderiam medir pelo desaparecimento dos malefícios da continuação do culto religioso de Stáline entre nós. Pelo menos a mim, tão pouco atreito a rezas, poupou-me o risco de ter de o incensar como “pai dos povos”.

Que futuro para o Socialismo?

Que espécie de socialismo é este? Não sou eu que interrogo. É Krutchev no fim da sua vida, em prisão domiciliária, relativamente benévola, nos arredores de Moscovo, na última página das suas Memórias. E continua: “o paraíso é um lugar para onde as pessoas querem ir, não é um lugar de onde se foge. Mas as portas deste país continuam fechadas e trancadas. Que espécie de socialismo é este? Que espécie de merda é esta se temos de manter o nosso povo agrilhoado? (1)

Isto remete-nos para outra ordem de questões e questões fundamentais.

O comunismo galvanizou milhões de pessoas porque oferecia um mundo melhor do que aquele que aos trabalhadores estava reservado pelo capitalismo. A difícil luta pelo socialismo e o comunismo tinha para lá do fim da exploração do homem pelo homem, das metas a cada um conforme o seu trabalho, ou no horizonte a cada um de acordo com as suas necessidades, para lá da conceptualização do fim da opressão e da alienação do homem, o socialismo tinha uma justificação imediata simples: uma vida melhor do ponto de vista material e espiritual para os trabalhadores e a população em geral.
A União Soviética e o “campo socialista” apesar de enormes realizações na industrialização do país, na educação, na saúde, na ciência, nas armamentos, na conquista do espaço, não conseguiu revelar-se no plano económico e nos ritmos de desenvolvimento, em especial nos desafios da sociedade pós-industrial, superior às sociedades capitalistas mais avançadas.

O homem que a retórica marxista-leninista considerava estar no centro de tudo. De toda a actividade económica, social e política, não passou no estalinismo de figura de estilo e depois um pouco melhor mas não o suficiente.
A Rússia em 1917 era um mar de camponeses saídos da servidão apenas há meio século donde emergiam algumas ilhas industrializadas e o calcanhar de Aquiles do poder soviético foi não ter conseguido nunca resolver satisfatoriamente, a não ser por pequenos períodos, os problemas económicos principalmente no âmbito da agricultura e dos bens de consumo corrente que garantissem uma qualidade de vida superior à dos trabalhadores dos países da Europa Ocidental ou dos EUA..
Daí que momentos de viragem tão dramáticos como os de 1927/28 com a imposição administrativa da colectivização e “deskulakização” dos campos, o saque do trigo e outros produtos aos camponeses, estejam ligados à incapacidade de abastecer o país com pão e produtos agrícolas, dificuldades que chegam até ao XX congresso e irão ciclicamente continuar.
Com Stáline e mesmo depois a economia foi dirigida por métodos administrativos até ao absurdo com a substituição das leis económicas pelo voluntarismo.
Krutchev tentou descentralizar a economia e atacar os problemas agrícolas mais urgentes, e retirar a economia do colete de forças administrativo e voluntarista mas não conseguiu encontrar a essência, as causas profundas dos insucessos nem um rumo coerente para os vencer.
A substituição de Krutchev em 1964 com um golpe palaciano que viria a ser repetido sem êxito – ou com excesso de êxito – contra Gorbatchov, em 1991, teve para além de motivações imediatas de âmbito político e luta pelo poder, causas mais profundas de ordem económicas e em especial a crise na agricultura com o desvanecimento das esperanças no celeiro das terras virgens, uma área de muitos milhões de hectares que não levou em conta as objecções dos cientistas soviéticos que já então adivinhavam o impacte ambiental negativo que levou rapidamente ao desastre.

Muitas questões coloca o XX congresso do PCUS aos comunistas mas muitas mais colocam as reformas de Gorbatchov e o fim da União Soviética precedido pelo fim do socialismo nos países da Europa do Leste e pelo que se passa na China, em Cuba ou na Coreia do Norte.
Teria sido possível avançar para uma sociedade verdadeiramente socialista persistindo na via de reformas encetada por Krutchev?
Teria sido possível a Gorbatchov com medidas mais ousadas ou cautelas mais previdentes encontrar uma saída diferente para a Rússia?



E os problemas nacionais que se dizia estarem resolvidos!? Tão insistentemente que dava que pensar. Seria consistente a tese de Lenine, de que o socialismo era possível vencer a partir do “elo mais fraco da cadeia dos países capitalistas na era do imperialismo”? A partir da Rússia atrasada contrariando a ideia de Marx de que a revolução só poderia triunfar a partir do conjunto dos países mais desenvolvidos do capitalismo?

Na minha opinião os impasses do socialismo real têm na sua base a incapacidade demonstrada para resolver as questões de desenvolvimento económico que possibilitassem um nível de bem estar maior e mais harmonioso, isto é com justiça social, superior ao capitalismo. Mas a chave para resolver este problema de fundo está, no meu modesto entendimento, na super-estrutura política, está na liberdade individual. A superação das dificuldades económicas pressupõe o contributo livre e criativo à escala de massas. Sem mais e melhor democracia sem mais e melhor liberdade individual do que aquelas que gozam as grandes massas da população nos países capitalistas, a sociedade que se quer socialista não poderá vencer.
Não sei se era possível equilibrar a defesa da liberdade e da participação democrática com a defesa do Estado do cerco e da guerra que lhe era movida pelo campo imperialista.
Por outro lado como é do conhecimento, não diria geral, porque não é, como se vê por aí, mas de conhecimento muito generalizado, os ideias progressistas de reforma social, chamemos-lhe socialismo, têm de abordar uma realidade social completamente distinta das dos tempos de Marx, Lenine, Krutchov, ou mesmo de Gorbatchov. E a utensilagem teórica se não dispensa o conhecimento crítico da História não pode ser a mesma para o comboio a vapor ou o motor eléctrico que para a do mundo globalizado, do conhecimento, da informação, da Internet do telemóvel. Não sei se a solução desponta dos estudos de Penin Redondo que tenho curiosidade em conhecer ou dos estudos de teóricos de vanguarda por esse mundo além. Para tantas dúvidas deixo o esforço das respostas aos renovadores comunistas portugueses que tiveram a amabilidade de me convidar.

Notas: Os títulos "Consequências internacionais" e "Repercussões em Portugal" não foram lidos no colóquio, como lá informei, devido à extensão do texto.

(1) - Memórias de Krutchov – As gravações da Glasnost – Editorial Inquérito (1990 by Jerrod Schecter), página 42.

(2) Le dossieer Russie 1 Marcel Liebman Edit. Marabout Université , com outros,1966, Editions Gerard& Cº Verviers. pág.165

Outras fontes consultadas:
Relatório de N. Krutchev ao XX congresso do PCUS. Editions Novosti, 1988.
Operações Especiais de Pavel Sudoplatov e Anatoli Sudoplatov. Publicações Europa- América 1994.
Let History Judge de Roy Medvedev – 1971, Editions Alfred A. Knopf.
Le Phénomène STALINE – vários autores soviéticos Editions NOVOSTI Moscovo 1988.
Historia de la URSS – Editorial Progresso Moscovo 1977. Vários autores.
O Livro Negro do Comunismo – Quetzal Editores Lisboa/1998

Imagens: 1ª - Da esquerda pora a direita, em primeiro plano Béria, Voroshilov (?) e Krutchev. 2ª Funeral de Stáline. 3ª Kamenev e Lenine, 4ª Bukarini. 5ª Stáline. 6ª Krutchev com Kenedy. 7ª Cartaz da grande "diva" Maya Plissetskaya. 8ª Estação do metropolitano de Moscovo, Komsomolskaya. 9ª Cartaz do Sputnik, o primeiro satélitre artificial da terra. 10ª Dias Lourenço, dirigente do PCP, que assistiu ao XX congresso do PCUS. 11ª Palácio dos Congressos no Kremlin XXVII Congresso do PCUS 12ª Vista da Torre Spasskaya do Kremlin de Moscovo com a igreja de São Basílio na Praça Vermelha, à esquerda.

2006/09/22

Com Álvaro Cunhal no funeral de Tito

Estive duas vezes na ex-Jugoslávia com Álvaro Cunhal. A primeira ainda antes de 25 de Abril de 1974, com a presença, também, na delegação do PCP, de Pedro Soares (falecido num acidente em 13 de Maio de 1975).
Mais tarde na era pós-Jusgoslávia estive mais duas vezes nesta zona dos Balkãs. Na Bósnia, de visita às tr0pas portuguesas e outra vez na Sérvia, partícipe de uma equipa internacional de fiscalização de umas eleições que foram dadas como livres e justas. Histórias para outra altura.
Na primeira visita, (encontrámo-nos em Belgrado. Eu ido clandestinamente de Portugal, Pedro Soares da clandestinidade na emigração, talvez de Roma e Cunhal julgo que de Paris) no decorrer do encontro com a delegação da Liga dos Comunistas da Jugoslávia Cunhal apresentou-me como um combatente da luta armada, na clandestinidade, em Portugal. Foi uma referência à ARA e creio que o fez ali atendendo à relevância dada pela Liga ao seu passado de luta armada contra Hitler durante a II Guerra Mundial.
A segunda visita teve lugar em Maio de 1980 e partimos, legais! de Lisboa. Cunhal conversou quase toda a viagem que fizemos de avião sobre histórias do seu passado na guerra civil de Espanha. Coisa rara falar de si.

O funeral de Tito foi uma das maiores concentrações de dirigentes políticos e chefes de Estado de todo o mundo. Para quem goste de números: 209 delegações de 137 países e segundo a Time: four Kings, 32 Presidents and other heads of state, 22 Prime Ministers, more than 100 secretaries or representatives of Communist or workers parties.
Estava a Senhora Tatcher, o vice-presidente dos EUA, Walter Mondale, com uma grande e vistosa delegação, Hua Guofeng, presidente da China, com não menos chineses, Breznev que já estava doente e envelhecido. Ia praticamente levado em braços por dois ajudantes e o único que teve de ser sentado num cadeirão para evitar os assentos baixos da grande tribuna, no jardim interior, junto ao mausoléu. Também se evidenciavam o rei de Espanha Juan Carlos e o chefe do Governo Adolfo Suarez, Arafat, Sadam Hussein, Kadafi e muitas figuras políticas de todo o mundo.
De Portugal lembro-me de ver o Presidente Eanes, o primeiro ministro Sá Carneiro, e creio que estavam também Mário Soares e Otelo, entre outros.

Recordo-me de seguir num carro oficial com Álvaro Cunhal, numa das avenidas de Belgrado, a alta velocidade, batedores com sirenes a fazerem um chinfrin incrível e afastarem todo o trânsito. Cunhal segredou-me: "vês! Eis um exemplo da arrogância do poder."
Uma das cerimónias fúnebres era o desfile no Palácio das Flores perante a urna de Tito com um minuto de silêncio e uma vénia. Não gosto muito de vénias e quando têm de ser feitas procuro evitar excessos. Em momentos como aqueles avançando lentamente com a fila inventamos maneira de passar o tempo e dei comigo a medir as flexões para ver se correspondiam à identificação política. Por exemplo, vaticinei Sá Carneiro a fazer apenas uma ligeira inclinação da cabeça mas enganei-me, não foi avaro na vénia.
Nestas cerimónias públicas, de políticos como de outras estrelas, percebe-se logo quem tem experiência ou é novato. São, por exemplo, aqueles momentos informais e sem arrumação protocolar na presença das sôfregas televisões e batalhões de fotógrafos. É ver os menos conhecidos a correrem para junto dos que atraem todas as atenções para também ficarem na fotografia.
Álvaro Cunhal conseguia não ser ignorado mas com tanto Chefe de Estado e de Governo nada que se parecesse com a atracção que suscitava nas reuniões restritas ao universo comunista.
Reparei na arte de, sem se dar por isso, Cunhal acabar por estar com muita frequência nos locais onde as luzes mais incidiam. Quase naif era o esforço de algumas figuras, muito importantes noutras circunstâncias e lugares mas que ali ficavam esquecidas, para se chegarem à frente ou cruzarem com estrelas de primeira grandeza para um efémero momento de glória.




Margaret Thatcher

Sadam Hussein

2006/08/04

Quatro casos de subversão da lei

Quatro histórias verdadeiras. Duas são dos tempos da (minha) clandestinidade. A primeira (1972) é transcrita do livro ARA, início do cap XII (Ed.D. Quixote,2000)


1972 - Sintra - O Almendra

"Almendra é pseudónimo. De momento não estou autorizado a revelar o nome. Hoje um conhecido artista, Almendra era o jovem estudante que estivera com Francisco Miguel* no curso militar de Moscovo, tinha 25 anos e estava casado com uma estrangeira a “Mary” que não quis deixar os seus pergaminhos revolucionários por mãos alheias e acompanhou o marido nesta corajosa e revolucionária aventura pela Liberdade do Povo Português. Nunca lho perguntei mas convenci-me que se inspirara no Che Guevara. Era uma mulher corajosa, simpática e bonita. Confirmei que não tinha razão um elemento do Partido Comunista Italiano que em Roma convictamente me tentava convencer que revolucionárias e bonitas não havia.
— Se são bonitas não vão para revolucionárias! Garantia-me.

A primeira casa ilegal alugou-a Almendra na Portela de Sintra onde fizemos algumas reuniões com a participação de Francisco Miguel e também de Joaquim Gomes** da Comissão Executiva do partido. Para o aluguer da casa e outras actos "legais" o Almendra necessitava de bilhete de identidade falso e em certo momento necessitou de abrir sinal num notário. Abrir sinal é registar a assinatura para posteriormente poder servir para autenticar outras assinaturas por comparação com aquela. Para bem se desembaraçar nesta operação que requeria duas testemunhas presenciais no cartório notarial de Sintra comuniquei-lhe a minha experiência na matéria.
— É muito simples — explicava eu ao Almendra— chegas lá olhas para as pessoas que estão por ali e é fácil identificares rapidamente as que estão no cartório como tu a tratar de qualquer assunto e as que estão por ali para servirem de testemunhas. São “testemunhas” de ofício e ganham um dinheirito que a falta de emprego lhes nega com o acto de garantiram ao notário, em tácita cumplicidade, que fulano de tal é mesmo fulano de tal porque o conhecem muito bem quer conheçam quer não conheçam.
— Mas estão nalgum local especial? Estão na sala de espera? Explica-me bem como é isso.
A sala de espera é apenas uma parte de uma sala grande dividida por um balcão. De um lado está o público do outro estão os empregados, uns a atender outros lá mais para trás a escrever à máquina. O notário, esse deve estar noutra sala e raramente aparece ao balcão.
— Então peço-lhes para serem minhas testemunhas?
— Isso mesmo. Testemunham de boa fé e com convicção que és quem não és como nos convém. Para eles tanto faz. Já estão ali para ser testemunhas. Passas-lhes uns vinte paus para as mãos, ficam todas contentes e confirmam logo que tu és o José Maria da Silva ou o Joaquim da Cunha Santos. Não lhes passa pela cabeça que és um clandestino nem ninguém ali sabe o que é isso.

Normalmente num clandestino a dar os primeiros passos na clandestinidade o estado de alma dominante perante situações novas é o medo, por isso reforçava o carácter banal e pacífico daquela transacção. Devo ter exagerado. O Almendra precisaria antes que eu o acautelasse. Chegou ao cartório notarial e não vendo lá ninguém com o ar de testemunha falsa como eu as retractei Almendra não esteve com meias cerimónias chegou-se ao balcão e interrogou a funcionária que estava mais próxima.
— Por favor sabe-me dizer quem são aqui as testemunhas? O que o Almendra foi dizer?! A senhora fez-se de novas e indignada vai de o admoestar, de ameaçar, que aquilo não era o da Joana, com ar assanhado. O Almendra terá feito cara de espanto, arrependimento, ignorância, pediu desculpa e serenou a impoluta funcionária que, bem impressionada pelo aspecto garboso do nosso guerrilheiro urbano, avaliou melhor a situação, recompôs-se e aproximando-se dele disse-lhe ao ouvido, já cúmplice, então não vê que são ali aqueles! E eram. E cumpriram honestamente a sua tarefa."

* - Francisco Miguel Duarte (Baleizão, 1907- Lisboa 1988) Operário. Membro do Comitá Central do PCP. 22 anos de prisão. 4 fugas (uma delas, em 1961, no carro blindado de Salazar, guardado na prisão de Caxias) Regressou à clandestinidade em 1969, por sua insistência, após alguns anos em Moscovo, para participar nas "acções especiais", na ARA)
** - Joaquim Gomes membro da Comissão Executiva do CC do PCP. (Marinha Grande 1917) operário vidreiro (aprendiz aos 6 anos). Preso 3 vezes fugiu 2.

1968 – Lisboa. Rua Veloso Salgado

Estava a viver na clandestinidade desde 1964 já tinha uma certa experiência desta forma de viver. Pouco apelativa, diga-se em abono da verdade.

Tocaram a campainha. Tocaram, tocaram, tocaram. Arre. A Maria, que ali era Helena, espreitou pelo óculo e perguntou o que era. Abra se faz favor. Desculpe mas estou só em casa não abro a porta a desconhecidos. Bem então vamos chamar a porteira. Vieram todos. Trocámos impressões e a Helena abriu. Somos fiscais da rádio. [Naquele tempo pagava-se um taxa pela posse de um aparelho de telefonia e apesar de raro, podia suceder aparecerem fiscais] A porteira foi-se embora. Pareceu-me que era melhor aparecer. Aaahh... estava a dizer que não abria… que estava sozinha afinal com o seu marido aqui!
A casa não estava boa para ser vasculhada pelos fiscais à procura de telefonias sem licença. O guarda-vestidos em vez de roupa escondia uma copiadora a stêncil, manual, grande e feia. As gavetas da mesa de cozinha estavam cheias de papéis uns já impressos outros por receber os gritos de revolta do povo trabalhador que estávamos incumbidos de reproduzir. O aparador da sala isso então é melhor nem contar. Até uma pistola de guerra tinha disfarçada de sapatos numa caixa própria para estes. Vou-lhes dizer que sim senhor, estávamos a ver se escapávamos. Tínhamos de facto uma telefonia que, como bons portugueses, tinha lá agora licença! Pensei ainda melhor. Vou mesmo dizer que tenho dois rádios, revelando franqueza e reduzindo à partida suspeitas de mais que um.
Pois é desculpe lá, tá a ver, olhe vou ser franco. Nós até temos dois. Aquela telefonia ali e um transístor que até vou buscar. Mas veja lá, agora uma multa, fica sempre mal.
Fui resoluto à carteira puxei de uma nota de 50 mil réis e dei-a delicadamente ao chefe dos fiscais. Fiquei para morrer. Então não é que me calha um fiscal sério, incorruptível?! Mas quem é que o Senhor julga que sou. Está a querer comprar-me? Mais isto, mais aquilo e eu ali - suponho que mais branco que o meu natural o que já não era pouco, estávamos neste sufoco ou impasse, eu sem estratégia que tivesse previsto tão imprevisível como reprovável atitude, quando o chefe (o que falava era o chefe, o outro coitado…) Olhe - e chamou-me para o lado como se a coisa ficasse mais limpa. Está a ver - e desembrulha-me um papel grande, maior que jornal, cheio de letras miudinhas que eu não tinha tenção de ler. Olhe aqui - e apontava com o dedo sapudo - está a ver aqui, dois aparelhos... ganho de comissão 60 escudos. Um banho de felicidade inundou-me de alto a baixo. Resplandecia disse-me depois a Maria que ali era Helena. Ah, pois com certeza, que estupidez a minha, e rapei de uma segunda nota de cinquenta. Aí o chefe praticamente tirou-me as notas da mão enquanto fingia perguntar ao colega o que é que acha… aqui estes senhores coitados também não são gente de posses… que é que acha está de acordo? O inferior só abanava com a cabeça num pró-forma enquanto o outro me instruía. Bem agora muito cuidado não diga nada a ninguém que eu já multei aqui um seu vizinho no prédio. Claro, claro, esteja descansado. Fica entre nós. Fechámos a porta aos bons fiscais, quase uns amigos, como quem afugenta a PIDE.


1956 - Torres Vedras

Estava à beira de uma das minhas mais sonhadas aventuras, partir às 13 horas e 50 minutos de Santa a Polónia, no Sud-Express, chegar à Gare de Austerlitz às 17 horas e trinta minutos do dia seguinte e... passar oito dias em Paris. Um hotel baratinho do Quartier Latin.

Miúdas francesas, livros proibidos pela PIDE, filmes sem os cortes da censura nas cenas de sexo, o Boulevard de Saint-Michel, o Boulevard Saint-Germain, dançar no Caveaux da Rue du Chat qui Peche, percorrer os alfarrabistas na margem do Sena, o Louvre, os impressionistas então no Jeu de Paumme.

No Governo Civil não se contentaram com o bilhete de identidade para o passaporte, exigiram uma certidão de nascimento. Fui à pressa a Torres, à Conservatória do Registo Civil. A mulher que me atendeu tomou boa nota do que lhe pedia e, ao que tinha a pagar acrescentou, venha cá daqui a três semanas. Três semanas? Três semanas... repetia eu alarmado - mas assim não posso ir a Paris. Expliquei meio escandalizado que era urgente. Urgentíssimo podia agora esperar esse tempo! Impassível a funcionária acrescentou: então assim é mais quinze escudos, pede urgência e é uma semana. Enquanto desembolsava mais aqueles escudos da urgência garanti à mulher que não podia ser. Que tinha vindo de propósito de Lisboa e tinha que partir hoje com a certidão. Já se afastava sem me responder quando a interpelei, desculpe, diga-me lá, que é que obriga a tanto tempo um simples papel com meia dúzia de linhas. Que operações é que necessita de fazer que levem oito dias. Ela então regressou ao balcão corrido, a madeira lustrosa dos muitos braços e cotovelos que por ali estadearam e disse-me descarada em surdina, leva meia hora se tanto. É ir ali buscar um dossiê e passar à máquina a sua certidão de nascimento. Ah - renasci de alívio. Então faça-me esse favor... mas ela não me deixou continuar e esclareceu - mas não posso fazer uma coisa dessas! Então ia lá agora ultrapassar as dezenas de pedidos que estão à sua frente. Cabra - rosnei para dentro - bem te percebo. Paris a esfumar-se e conclui pela necessidade de fazer o que tinha jurado nunca fazer. Escondi com o rabo de fora uma nota de vinte escudos na mão e em voz baixa e mansa informei-a que tinha a camioneta para Lisboa daí a uma hora. Uns dias depois parti em alvoroço, no Sud para Paris, com o Rui e o Laurentino

1946 - Na minha aldeia.

O Senhor Castanheira conversava com o meu pai e eu com 8 anos brincava com os filhos dele. Chamaram-nos para jantar e fiquei ali à espera que a conversa terminasse e o meu pai se fosse embora comigo pela mão. Era lusco-fusco e o que era só uma silhueta a trinta metros revelou-se ali ao pé já bem dentro da quinta, um homenzinho de chapéu na mão, uma reverência a cada passo de estudada aproximação. Dá-me vossa senhoria licença, senhor Castanheira? Ele fingia que não dava por ele e continuava a conversa com o meu pai. O homem pequeno fez mais uma vénia, curvou-se um pouco mais, baixou o chapéu na ponta da mão e pediu de novo licença. Que é? Diz lá depressa. Senhor Castanheira peço desculpa mas mandaram-me... o senhor sabe como é... e eu tenho de lhe entregar... peço desculpa... Cala a boca. E tirou-lhe de rompante o papel oficial com a multa que o outro segurava a medo entre os dedos. O Senhor Castanheira sem ler os dizeres da multa, levou a mão à carteira, puxou de duas notas que amachucou juntamente com o papel timbrado e atirou-as para o chão como quem atira uma pedra a um cão e voltou insensível a pegar na conversa que tinha com o meu pai.
O Senhor Castanheira ainda me pareceu, naquele momento, mais forte e maior do que já era para os meus oito anos de olhos assustados que, se não entendiam toda a extenção do que se passava, percebiam muito bem que o Senhor Castanheira era muito grande e o fiscal muito pequeno. Se o caso não me tivesse metido medo até me teria rido. É que o homem pequeno, o fiscal, ficou ainda mais pequeno agachado a apanhar o papel da multa e as notas e teve de dar uns passinhos corridos, quase de joelhos, porque o vento queria levar uma das notas de cinquenta mil réis. Uma nota que para ele era quase uma fortuna apesar de não chegar à quinta parte da multa. Mas tinha de a dividir com outros.

(O post foi corrigido em 3 de Setembro de 2006)

2006/07/08

Francisco Ariztia

Pintor chileno, radicado em Portugal, desde 1974, em cujo site [link] podemos ficar com uma ideia das suas belas pinturas, transbordantes de cor e poesia. Uma janela a revelar o homem de cultura e ideais humanistas.

2004


Acrílico s/ tela 50x50 cm

2003


"Hands up", acrilico s/ tela, 130x130cm galeria ARA, 2003.

2000




"Una vieja historia" díptico (as duas pinturas acima)acrilico s/ tela 300x150cm

1983


"La captura", acrílo s/ tela e lápis cera 130x130cm

1975


"Desde Quillota quitandome el sueno", acrílico s/ tela, 170x130cm

2006/07/01

NÃO APAGUEM A MEMÓRIA

Na concentração junto à ex-prisão do Aljube estiveram presentes ex-presos políticos que passaram por aquela prisão e muitos outros resistentes à ditadura alguns dos quais são figuras conhecidas da cultura, dos meios académicos, do Movimento das Forças Armadas, da política. Edmundo Pedro e António Borges Coelho evocaram a sua passagem pelo Aljube, o almirante Martins Guerreiro e Artur Pinto apresentaram uma perspectiva do Movimento. Entre os presentes estavam José Manuel Tengarrinha, Manuel Serra, Nuno Teotónio Pereira, o coronel José Fontão, Fernando Rosas, Mário de Carvalho, Garcia Pereira, Diana Andringa, Alfredo Caldeira, Fernando Vicente e Henrique de Sousa da Renovação Comunista.

Comunicado do Movimento Não Apaguem a Memória:

A cadeia do Aljube, instalada num edifício que resistiu ao terramoto de 1755, era a prisão utilizada pela PVDE/PIDE para encarcerar os presos políticos, no período da instrução do processo, conduzido por essa mesma polícia. Era nesse período de “instrução”, que podia durar até seis meses, que os presos eram interrogados, através de torturas, e submetido a rigoroso isolamento, potenciado pela escuridão, as estreitas celas tumulares e a péssima alimentação. A Reforma Prisional de 1936, pela qual, teoricamente, se devia reger a vida dos presos, sofria constantes atropelos nas cadeias políticas. Por exemplo, no Aljube, não havia qualquer local para recreio e as salas e celas eram impróprias para viver.


A «sala 2A» dessa prisão tinha uma só janela, gradeada e coberta por uma rede fina, com catres presos à parede durante dia, os quais, à noite tinham uma enxerga e duas mantas. Essa sala era, porém, bem melhor do que os catorze «célebres “curros” ou “gavetas” do Aljube», pequenas celas, «com cerca de um metro de largura, com catres basculantes, que, ao baixarem ocupavam todo o espaço, obrigando o preso a ficar sentado. Esses “curros” eram fechados por duas portas, uma gradeada e outra de madeira, normalmente fechada, apenas com um pequeno postigo, estando quase todo o dia mergulhadas numa semi-obscuridade.
Eram essas as instalações que a PIDE usava para manter os presos incomunicáveis, durante todo o período mais intenso dos interrogatórios, onde «a falta de luz estava associada a todo um quadro de tortura e de violência física e psicológica a que o preso estava submetido», conforme contou um ex-detido. Durante o primeiro período, o preso não tinha acesso a caneta, nem a lápis, nem a papel, nem a jornais, nem a livros, nem a relógio, nem sequer espaço para se mover. Havia ainda a cela disciplinar, n.° 14, onde o preso estava permanentemente às escuras, sem enxerga e, às vezes, a pão e a água.

No seu relato, o padre angolano Joaquim da Rocha Pinto de Andrade contou que, no Aljube, esteve encarcerado «numa enxovia estreitíssima, de um metro de largura por dois de comprimento, onde a luz e o ar entravam por um postigo de 15 x 20 cm., filtrados através de duas férreas portas, postigo, aliás permanentemente fechado». A «tarimba que lhe servia de cama era apenas provida de um enxergão sebento, duro como pedra, sendo proibido usar lençóis. «Sentado na tarimba, os joelhos roçavam a parede», isto tudo na penumbra. Devido a queixas várias, entre as quais da Amnistia Internacional, o Aljube acabou por ser fechado, em Agosto de 1965.
A cadeia do Aljube é pois um dos principais paradigmas e «ícone» da repressão exercida durante a ditadura salazarista/caetanista, pela PVDE/PIDE/DGS.
Por isso, o Movimento “Não apaguem a Memória!” considera que é um dos melhores locais para ser instalado um espaço museológico, sobre o que foi a violência do Estado Novo e da sua polícia política, mas também da luta contra a ditadura e pela liberdade.

Aljube: memórias de quem passou pela "mais
sinistra prisão do fascismo" [RTP on line]

"Tinha um botão no chão e jogava, mas quase não podia mexer as pernas", descreveu à Lusa o historiador e membro do movimento cívico "Não Apaguem a Memória!" que quer transformar a antiga prisão do Aljube num museu da resistência ao fascismo.
Na cadeia do Aljube, perto da Sé, onde agora funciona o Instituto de Reinserção Social, permaneciam os presos políticos que estavam a ser interrogados na sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso.
Encarcerado em 1956 durante seis meses nos "curros", que descreve como celas do comprimento do seu corpo e da largura do tronco "mais um braço estendido", Borges Coelho, então com 26 anos, entretinha-se os seus imaginários jogos de futebol.
O antigo preso político lembra as "mantas horrorosas, que não eram lavadas" e que "guardavam vestígios de esperma de vários presos, que se foram acumulando".
"No isolamento, o tempo escoa-se e nós vivemos unicamente da memória, que atinge níveis completamente incríveis", diz.
Acusado de pertencer ao PCP, "o que por acaso até era verdade", Borges Coelho não chegaria aos seis meses de isolamento, já que o seu débil estado de saúde, depois de recusar a "comida quase podre, intragável", obrigaria a um internamento na enfermaria da cadeia.
No meio das "piores recordações" que tem do Aljube, Carlos Brito, antigo dirigente do Partido Comunista Português e actual membro do movimento Renovação Comunista, guarda uma memória "muito positiva":
a do dia 25 de Maio de 1957, em que conseguiu fugir da cadeia, acompanhado por outros dois companheiros.
Depois de serradas as grades, os presos percorreram um algeroz "muito estreito" no último andar do edifício, "com grande dificuldade de equilíbrio", desceram a pulso um vão de seis metros por uma corda de lençóis, caminharam sobre dois telhados, saltaram as águas-furtadas e atingiram o chão com uma escada ali colocada.
"É a cadeia que simboliza a repressão da ditadura de uma maneira mais evidente e mais gritante. Por isso senti tanta alegria quando consegui fugir", descreveu à Lusa.
Naquele lugar, que recorda como a cadeia "mais sinistra", Carlos Brito esteve em três ocasiões distintas, entre 1957 e 1959, a maior parte do tempo "incomunicável e em isolamento".
Numa das vezes, após ter sido espancado, ficou durante dias "sem colchão nem cobertores nem qualquer espécie de agasalho, em cima de um bailique (tarimba) de madeira". "Ali se passaram dos momentos mais lancinantes. Lembro-me de ver companheiros que não conseguiram resistir e estavam ali à beira do suicídio", conta.
O historiador José Manuel Tengarrinha observou uma dessas situações: quando, em 1961, regressou de um interrogatório na sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, encontrou as manchas de sangue do seu companheiro de cela, que se suicidara cortando as veias.

Tengarrinha sublinha que o Aljube era "a pior prisão do fascismo", onde permaneciam "em condições indescritíveis" os presos políticos que se encontravam em fase de interrogatório.
"Era duríssimo", garante.
"As condições eram concebidas de propósito para desmoralizar os presos", afirma, lembrando a "angústia" que sentia quando ouvia a carrinha da PIDE a chegar, sem saber se seria o próximo a ser levado para "a António Maria Cardoso".
Nos "curros" durante um mês e meio, Tengarrinha, então com 30 anos, passava a tempo a fazer peças de damas com miolo de pão, que usava para jogar sozinho.
"Houve uma barata que entrou na cela. Conservei-a como uma amiga, uma companheira, o único ser vivo que estava ali comigo", conta.
A única vez que fumou foi durante o isolamento no Aljube, durante cerca de um mês, recorda o socialista José Medeiros Ferreira.
"Não podia ler, não podia sair da cela. Tinha uma grande variação: fumava às 09:00, às 10:00, às 11:00, às 12:00 e, no dia seguinte, às 09:30, às 10:30, às 11:30", descreve com alguma ironia.
O antigo ministro do PS esteve três meses no Aljube, entre 1962 e 1963, acusado de realizar "actividades subversivas contra a segurança do Estado".
O antigo preso afirma que "a maior violência do isolamento é em termos psicológicos", por não haver nada para fazer.
Naquele período, a sua única companhia eram as vozes de "uma menina que cantava canções populares e a de um preso que cantava o `Menina Estás à Janela`".
Mais tarde, na sala comum, Medeiros Ferreira e os companheiros "iam ao cinema" todas as noites, com cada preso a relatar aos outros um filme que tivesse visto.
Na primeira vez que foi preso no Aljube, em 1934, Edmundo Pedro tinha apenas 15 anos e chegou a partilhar uma cela com o seu pai. Voltaria àquela prisão mais duas vezes, a última já com 43 anos, após o assalto ao quartel de Beja, uma tentativa de golpe falhada ocorrida em 1961.
Edmundo Pedro, hoje com 87 anos, atribui à "determinação, à auto-confiança e à imaginação" a força para suportar o isolamento:
recordava os livros que tinha lido, fazia cálculos matemáticos.
Através de uma abertura de um dos "curros" onde permaneceu, conseguia ver a Sé, onde observava os pombos a fazer os ninhos, as pombas a ter os ovos, os borrachos a nascer.
Mais tarde, foi levado para outro "cubículo", ao lado do qual estava um companheiro com quem jogava damas, apesar da parede que os dividia.
"Riscávamos a tabela do xadrez no chão e depois, com um código de batidas na parede, fazíamos um jogo", afirma.
Apesar da dureza da cadeia, Edmundo Pedro acredita que "não há heróis".
"Perante as situações, as pessoas não têm outro remédio senão adaptar-se. Por duas ou três vezes ouvi pessoas a berrar, devem ter enlouquecido. Mas a maior parte das pessoas acaba por resistir".
(Outras fotografias do movimento não apaguem a memória. link)

2006/06/29

Cuidado com o buraco


Dizem que é o maior buraco feito pelo homem. Está na Sibéria Central, Rússia, junto à cidade de Mirna. Tem 1.250 metros de diâmetro à superfície. Descendo pela rampa, em caracol, gigantescos camiões (só visíveis à lupa) descem aos actuais 525 metros de profundidade para trazer terra.
Não têm terra cá em cima? Aquela tem diamantes. Por aí a baixo.
À volta está a cidade que se foi construindo à compita com o buraco. Estará pavimentada a diamantes?

Escalas





2006/06/23

Isabel Magalhães


Mar de Maio, 2004, acrílico sobre tela


Margens do Douro, 2002, 73 x 60 cms, acrílico s/tela


Broadway; 1995; 46 x 33 cm; óleo sobre tela

Obra de IM aqui e aqui

2006/06/04

O papa Bento XVI em Auschwitz

Vasco Pulido Valente, no Público de 2006-06-04, acha que o Papa andou mal ao "perguntar “onde estava Deus” e por que “ficou silencioso” [perante Auschwitz], quando a pergunta necessária e certa é, evidentemente, e ele não ignora: “onde estava a Igreja” e por que “ficou silenciosa”?"

Eis o texto de VPV:

"A viagem do Papa à Polónia acabou mal. Em Auschwitz, declarou que um “bando de criminosos” tinha subido ao poder à custa do povo alemão e “usara e abusara” dele como “instrumento” da “sua sede de poder e destruição”. Esta horrível tese absolve o povo alemão e, principalmente, a Igreja Católica Apostólica Romana dos crimes do nazismo. Comecemos pelo povo alemão. Hitler chegou ao poder em parte pelo voto e em parte com a ajuda da classe dirigente imperial, que execrava a República de Weimar. Por indicação do núncio Pacelli, a Igreja manifestou o seu júbilo e apoio, e aceitou dissolver o partido e os sindicatos católicos, como em geral qualquer associação de ca- rácter “político”. Logo depois, em Março de 1933, resolveu assinar uma concordata com Hitler (também com o patrocínio de Pacelli). Em 1934, Hitler mandou pessoalmente liquidar algumas centenas de pessoas na chamada “noite das facas longas”. Ninguém protestou. A Igreja, em especial, não protestou apesar de uma das vítimas ser o secretário-geral da Acção Católica e outra o director da Organização Desportiva Católica. Não se ouviu também um murmúrio contra a legislação anti- semita, nem na Alemanha, nem na Igreja. Só em 1937, a encíclica Mit Brennender Sorge de Pio XI condenou as “doutrinas raciais” de Hitler e se queixou do incumprimento da Concordata. Mas, no ano seguinte, a chamada “noite de cristal”, em que se queimaram sinagogas e se destruíram sistematicamente as lojas de judeus para não falar nos milhares de judeus que se mataram no meio da rua) tornou a não comover a Alemanha e a Igreja.

"Em 1939, Pio XII (Pacelli) nem sequer comentou a anexação da Checoslováquia ou a invasão da Polónia, dois países católicos. Por esta altura, já milhões de alemães conduziam uma guerra de extermínio no leste: do marechal ao soldado raso toda a gente sabia, e muito bem, o que andava afazer. Como o sabiam os milhões (tropas da SS e regulares, ferroviários, técnicos, burocratas) que juntaram os judeus da Europa inteira até ao último minuto da guerra e os levaram para os campos da morte. Um “grupo de criminosos” que “usou e abusou” de “um instrumento”? Que grande “grupo” e que extraordinário “instrumento”! Verdade que o Papa Ratzinger precisa de “acreditar” no absurdo para explicar a total abstenção da Igreja durante a Shoah. Sem essa hipocrisia, como poderia ele perguntar “onde estava Deus” e por que “ficou silencioso”, quando a pergunta necessária e certa é, evidentemente, e ele não ignora: “onde estava a Igreja” e por que “ficou silenciosa”?"

2006/05/29

Teresa Dias Coelho








Link para o sítio de Teresa Dias Coelho

2006/04/18

O POGROM DE LISBOA, EM 1506

Texto de Alexandre Herculano (1810-1877), historiador, escritor e poeta português, in História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1855).

"Era na Primavera de 1506. A irregularidade das estações nos dois anos antecedentes, irregularidade que se protraiu até ao ano seguinte, deu em resultado a fome. Ainda naquela época a falta de subsistências trazia, em regra, por companheiro um flagelo, então trivial, não só por esta, mas também por outras causas. Era a peste.
Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos. Faziam-se preces públicas, a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da Igreja de S. Estevão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas o povo implorava em gritos a misericórdia divina. No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada. No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha. Espalhou-se logo voz de milagre. Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente. Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira apenas nas imaginações encandecidas. Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor. No domingo seguinte ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores. Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre. A indignação dos crentes, excitada, provavelmente, pelos autores da burla, comunicou-se à multidão. O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado e queimado o seu cadáver. O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia!

O rugido do tigre popular não tardou a ressoar por toda a cidade. As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada. Seguiu-se um longo drama de anarquia. Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo. O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação, se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que desgrenhada, implorava piedade. Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados, e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo lavor. O grito de revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos. A ebreidade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite. Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas. Acima de quinhentas pessoas haviam perecido na véspera: neste dia passaram de mil. Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança covarde, a calúnia, a luxúria, o roubo. As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus. Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente diante dos assassinos que não eram circuncidados. As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos. Depois saqueavam tudo. Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta ou cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras. Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos. Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas às chamas. Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina. A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas. Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda vários deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas. (…) À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão asserenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.”

2006/03/31

O suave milagre de Santa Margarida

Miúdo, na aldeia, ouvir os mais velhos falar acerca da tropa e em especial sobre a ida à inspecção - dizia-se sortes, o Toino foi às sortes. E "sortes" porque havia sorteio e alguns livravam-se - ouvir, mais que ouvir bebíamos as palavras. E depois o sargento disse tira a porcaria das cuecas ou queres que te vá aí arrancar os cueiros. Estas e outras conversas verdadeiras ou inventadas maravilhavam-nos e até nos assustavam um pouco. Afinal só tínhamos 11 ou 12 anos e ainda faltavam uns seis ou sete para irmos, Cadete, em 1959
nós também, às sortes. E depois todos nos ríamos quando diziam o Jaquim tão fanfarrão... afinal tinha uma pichota que nem se via. E o Elias! É pá, agora é que se percebe o berreiro da Noémia na noite de casamento! Um chanfalho até ao joelho! Aquilo metia impressão. O sargento até rosnou este deve ter nascido nalguma cavalariça.

Agora estava eu ali, em Santa Margarida, na 3ª Divisão, a Divisão Nuno Álvares, orgulho da nação, em 1962, a responder ao chamamento da Pátria que requisitava os meus serviços neste momento em que os inimigos de Portugal assediavam Portugal em África e em que na Rádio se gritava, sincopadamente "Angola é nossa! É nossa! É nossa!" no programa "Rádio Moscovo não fala verdade", da Emissora Nacional.


Campo Militar de Santa Margarida.

estava no Campo Militar de Santa Margarida já como veterano e promovido a alferes. As primícias gastei-as em Vendas Novas, em 1959, como cadete. Cadete é aquele que, vindo da universidade, mas na fase de instrução não passa de um reles recruta, objecto de todos os caprichos do instrutor, para saber como é, para ganhar endurance, e para não se armar em doutor, intelectual e porras assim, depois de promovido, junto dos oficiais da Academia Militar . Mas cadete é também aquele instruendo que será daí a meses oficial que ganhará o direito a ter um impedido, um soldado feito seu criado, que lhe engraxa as botas, arruma o quarto, compra o tabaco e está ali sempre às suas ordens. E ao contrário do que se possa pensar o soldado-impedido não se sente, "criado" nem humilhado. Até prefere. Evita, os serviços de sentinela, de reforço, de faxina e se o oficial não é uma besta até pode ter alguns benefícios e bom trato. Chegado a oficial o cadete ganhará o direito a tratar com sobranceria, ou até com sadismo os soldados recrutas a si entregues para que deles “faça uns homenzinhos”. Ganhará o direito a frequentar a sala dos senhores oficiais e a ser tratado por Senhoria. Dá-me licença meu Aspirante, saiba Vossa Senhoria que ... em sentido e depois de bater a pala que é como quem diz depois de fazer a continência.
O segundo ciclo da instrução, dois meses e meio depois, já o fiz no CIAAC, em Cascais. A seguir o Exército mandou-me para o GACA 2, em Torres Novas. Aí sim, já feito Aspirante a Oficial Miliciano, isto é, oficial o que dá, da vida militar, uma perspectiva muito diferente!
Ninguém percebeu? Quer dizer Centro de Instrução de Artilharia Anti-Aérea e Costa e a outra sigla Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2. Grupo, porque se trata da arma de Artilharia. Porque se de infantaria se tratasse era batalhão e esquadrão no caso de cavalaria. É sempre bom aumentarmos a nossa cultura geral.
Contarei noutra altura essa inolvidável experiência de comandar homens. Conhecer jovens. As suas origens, os seus problemas, as suas vidas, as suas aspirações. Conhecer o país. O país dos homens e das mulheres. Na altura era só de homens. Há quem não aproveite esta rara oportunidade e trate os trinta soldados instruendos à sua conta como seres reduzidos a um número, que têm de aprender a marchar e a ser submissos perante os superiores. Deixo claro que, da minha experiência, concluí que os maus tratos ou formas menos dignas de tratar os soldados partiam em geral, não de oficiais do quadro permanente mas de alguns oficiais milicianos frustrados e de mau carácter.
Doze meses de serviço militar foi quanto me exigiram e logo me despacharam o que me fez muito jeito porque assim recomeçava sem grande perda de tempo a minha vida.
Não voltei ao logo ao Técnico em Lisboa, mas à Faculdade de Ciências, onde se podia fazer os três primeiros anos de engenharia no meio de imensas raparigas que rareavam indecentemente no IST.
Menos de um ano após, na sequência do início da guerra colonial, logo a Pátria requisitou de novo, a minha expertness militar e lá fui dar com os ossos na gloriosa Divisão Nuno Álvares. É talvez a partir daqui que passei a ficar um admirador do nosso antigo Condestável, um atrevido, corajoso, arrojado e meio doido, fidalgo de meia-tigela, desafiador de castelhanos, místico com visões de santos e do próprio Cristo, na origem da futura Casa de Bragança que viria a ser a mais importante Casa do reino e berço da quarta dinastia, de D. João IV a D. Manuel II.
Apesar dos apertos militares em Angola a minha vida ali era fidalga. No quartel-general não havia nada para fazer. A minha função era preencher um lugar orgânico bem determinado no organigrama da divisão. Oficial de operações. Deram-me uns manuais da NATO para traduzir e eu lá ia traduzindo, entre o almoço e o jogo de ténis com o chefe de estado-maior, entre umas braçadas na piscina do Campo de Santa Margarida ao fim da tarde e o jogo do King ou do póquer, na sala de oficiais, depois do jantar.
À quinta feira depois de almoço embarcávamos na carrinha para Lisboa que nem uns pardais em alvoroço, sequiosos de saias, que ali toda a semana, quando não quinze dias, se calhava um serviço ao fim de semana, só havia as das coronelas já completamente passadas aos nossos olhos então muito azougados e inexperientes.
Às vezes havia prestação de serviços de “intendência” mas isso era só para soldados. Os oficiais mesmo à fome, faziam má boca para aquilo. No meio dos pinhais ou numa arrecadação com vigilância à distância, uma que outra mulher de bom coração vinha por ali dar ânimo à tropa. Nos exércitos de quinhentos, seiscentos e depois, estas mulheres, as aguadeiras, seguiam em trupes, os exércitos e sem dúvida ajudavam-nos a manter senão a moral pelo menos o moral.

Em Santa Margarida, deitada de costas, de pernas abertas em cima dum cobertor a resguardar-lhe as viçosas nádegas do mato áspero, ali estava, numa tarde de Junho, mais uma vez, aquela alma benfazeja entre os 25 e os 35 anos. Por apenas vinte e cinco tostões à peça, que ali a clientala era de parcos haveres, aquela abnegada servidora do Estado prestava um meritório serviço público. Numa tarde despachava uns quarenta ou cinquenta sequiosos soldados formando bicha. O esquema organizativo, a rapidez e as moedas a crescerem, funcionava a seu favor porque se alguém se demorava com sofisticações despropositadas, logo os da fila, de arma em riste mas ainda embainhada, gritavam vá, vá, vá toca a andar, pá, que é isso agora!?


Alferes Miliciano no Quartel-General da 3ª Divisão, 1962

Mas o caso que eu queria contar era o seguinte: estávamos todos ali, no salão nobre do quartel-general a festejar qualquer coisa – havia sempre um pretexto honesto porque havia 900 contos (era dinheiro então) orçamentados para despesas de representação. Ora com a guerra colonial, os exercícios da NATO estavam suspensos mas não as despesas de representação. Na ausência das centenas de oficiais estrangeiros da Nato que anualmente estavam presentes em exercícios e festanças tínhamo-nos de nos sacrificar nós e cumprir escrupulosamente os orçamentos. Estávamos portanto ali umas dezenas largas de oficiais de todo o Campo a beber uns champanhes, a comer umas tapas com caviar, salmão e outras iguarias, enfim a festejar a Pátria enquanto não se malhava com o canastro em Angola! quando um estafeta me chega ali, eu de serviço por acaso, e me obriga a acorrer a uma qualquer emergência sem importância mas obrigatória.
Quando regresso e me dirijo, displicente, para uma mesinha de comes e bebes, reparo num sepulcral silêncio à minha volta, um silêncio que me fez parar e olhar em redor. Deviam ter combinado. Então o chefe de estado-maior, o ten-cor Guerra Júnior, na presença dos dois brigadeiros, dos comandantes e restante oficialagem do Campo, vira-se para mim e disse a modos que todos ouvissem bem "então afinal o nosso alferes Narciso é que é o comunista cá do Campo!" Julgo não ter sido fulminado por nenhuma síncope ou raio porque momentos depois dei por mim ainda ali especado mas… para morrer. Talvez fosse um instante mas na altura não fui capaz de avaliar. Na minha total estupefacção (porque o caso é que ainda que ninguém suspeitasse, não sendo eu "o" comunista lá do Campo era no entanto "um" dos poucos oficiais comunistas lá do Campo) comecei a pensar, julgo eu, que teria que dizer qualquer coisa. Ficar calado parecia-me pior. Mas dizer o quê? Sou sim senhor com muita honra? Era parvoíce e pouco engenho. Além de que, é claro... passavam-me a soldado e ia bater com os costados a Penamacor, ao batalhão disciplinar, ou talvez mais certamente ao forte de Caxias ou de Peniche, que a PIDE estava-se nas tintas para regulamentos da tropa. Juro que não sou e o meu Chefe é um grande mentiroso. Também não me pareceu resposta eficaz.

Deus Nosso Senhor ou a Virgem Maria ou o Santo Condestável, dada a nossa cumplicidade, socorreu-me naquele mortífero transe e pela minha boca disse descontraído: “ora meu chefe, se tivesse dito da maçonaria, então é que acertava!” Ainda eu ouvia assustado o resto das minhas palavras quando explode uma gargalhada geral que só a seguir percebi porquê. É que toda a gente sabia (menos eu) ou se não sabia pelo menos dizia que um dos brigadeiros era "irmão" e usaria o legítimo avental dos pedreiros livres nas cerimónias da praxe. O próprio chefe de estado-maior se virou para ele e riu a bom rir. Um milagre! Se há milagres aquilo foi um milagre! Milagre que ainda hoje, agradecido ao Condestável, recordo.

Artes plásticas e poesia



O poster é de Olbinski, como se percebe, mas o poema... esse é da minha amiga Monalisa, no Sítio da Saudade:

Se olhar para cima talvez ainda veja
Um resto do céu do dia de hoje

As tardes chegam depois
Cada vez mais tarde

E eu?

Saberei o caminho de novo?

Olbinski: "Homenagem a René Magritte"


René Magritte "A Assinatura em Branco"- 1965. [link]

Olbinski, Rafal  Posted by Picasa

Olbinski, Rafal

2006/03/29

O Museu Hermitage em S. Petersburgo

São Petersburgo. Vista da praça do palácio de Inverno (à direita), com o Edifício do Estado Maior General, à esquerda, integrado no complexo do Museu Estatal do Hermitage, constituído por 5 palácios.
Ao centro vista do Palácio de Inverno do lado da praça e em baixo vista do Palácio de Inverno do lado do Rio Neva.

O museu tem mais de 3 milhões de obras de arte, desde a pré-história aos tempos actuais e desde arte europeia, Médio e Extremo Oriente. [link]

S.Petersburgo, depois Petrogrado e a seguir à revolução de Outubro de 1917 Leninegrado, voltou ao nome primitivo após o fim da União Soviética e foi a capital dos czares até à revolução comunista.

É a segunda maior cidade da Rússia, depois de Moscovo. Foi fundada por Pedro, o Grande (1682-1725), para consolidar a conquista de território até ao mar com o objectivo de abrir à Rússia o caminho do Ocidente. Construída numa zona pantanosa, sobre 100 ilhas, no delta do Rio Neva, abre-se para o Golfo da Finlândia. Os canais e as 700 pontes estão na origem da designação de Veneza do norte.



Algumas obras de arte do Museu Hermitage


2006/03/11

Memórias da Guerra colonial

Marques Lopes, como muitos dos portugueses que hoje andam pelos sessentas, foi a África - no seu caso à Guiné-Bissau entre 1967 e 1969 - arrolado pelo serviço militar obrigatório para fazer a guerra aos povos das colónias portuguesas. Marques Lopes era alferes miliciano e foi ferido. Isso permitiu-lhe muitos anos depois de terminada a guerra ingressar no quadro permanente do Exército e seguir a carreira militar. Hoje é coronel reformado e membro da Associação 25 de Abril (secção do Porto).

Já aqui [link] publiquei um dramático testemunho seu da guerra colonial na Guiné e agora apresento outro que teve a gentileza de me enviar e que já foi publicado em dois muito interessantes sítios da rede, o Blog de Luis Graça & camaradas da Guiné [link] onde se facultam valiosos testemunhos da guerra colonial da Guiné e o site Guiné Bissau Contibuto - de Didinho onde podemos conhecer e amar a Guiné Bissau e o seu povo. Deste último site tirei as fotografias da Guiné que vão com o texto assim como a de Amílcar Cabral. Dele são estas palavras num curso de quadros da Guiné Bissau, em 1969, algum tempo antes de ser assassinado por um comando militar português, na sua residência, na Guiné Konacri.:

" ... jurei a mim mesmo que tenho que dar a minha vida, toda a minha energia, toda a minha coragem, toda a capacidade que posso ter como homem, até ao dia em que morrer, ao serviço do meu povo, na Guiné e Cabo Verde.

Eis o testemunho de A. Marques Lopes:

"Bonito! Os outros foram-se embora e aqui estamos, meia dúzia de mecos, no meio da bolanha. Tenho cada ideia, ás vezes... esta, então, de escolher a bolanha para descobrir se eles têm aqui uma base é do caraças. Que havia de fazer?... eles não nos deixaram aproximar mais por
outro lado... O que vale é que não perdi o quico. Sempre me dá jeito e vou já mergulhá-lo na água, para ficar com as ideias mais frescas... Sabe di más!... Como é que eu não perdi o raio do quico no meio desta baralhada toda?!... Tem estado agarrado à minha cabeça como qualquer coisa que é parte integrante de mim mesmo... mas não é, claro. No entanto, tenho-o enfiado na cabeça de tal modo que mais parece o contrário, parece que faz parte de mim.
Tenho que pensar para ver como nos vamos safar daqui. Por agora, é de aguentar. Aqueles gajos continuam a andar por aí, que eu bem os oiço, mas não os vejo, no meio destas cortinas de capim. Se eu não os vejo, eles também não me vêem a mim... mas, é melhor não me armar em avestruz e pôr-me mas é a pau! Há barulho de passos no carreiro e na clareira e oiço cortar ramos e bater no chão. Estão a montar armadilhas, com certeza. Com uma base aqui, era o que eu faria também, para prevenir novas aproximações. Não são parvos, não senhor... e isso não me ajuda nada, pois estou a sentir-me cada vez mais entalado. Mesmo que se vão embora daqui a bocado, não me atrevo a meter-me por esses caminhos. É mais que certo que vou topar com uma armadilha, e não me agrada nada... se não lerpei até agora, não será por minha vontade que isso vai suceder daqui para a frente.

É evidente que eles não podem armadilhar toda a zona... têm de garantir o regresso do grupo que foi até à margem do rio Gambiel. Deve haver, evidentemente, um caminho não armadilhado... mas como vou adivinhar qual é? Não me atrevo a voltar por aqueles que conheço, por onde vim até aqui, pois esses estão-no, com certeza... porque são os mais evidentes. Posso procurar outros... mas quem me garante que não vou pisar uma puta duma bailarina? Não me arrisco. Tenho de pensar noutra maneira de sair daqui. Mas como?... só se me armar em Tarzan de árvore em árvore, agarrado às lianas... Havia de ter piada!... De qualquer modo, nem isso pode ser, pois lianas... cá tem. Não vi lianas em lado nenhum deste matagal. Nos filmes é que elas estão ali, mesmo à mão de semear, no sítio exacto e necessário. Mas aqui, de facto, não há nada no seu lugar devido, para me facilitar a vida.
Já lá vai o tempo em que as coisas para mim eram fáceis. Em termos de garantia de subsistência, em termos de programação de vida. Quando eu estava nos padres. Tinha tudo. Pequeno almoço, almoço e jantar a horas certas, brincadeiras e estudos programados e dirigidos. Havia, apenas, que cumprir o regulamento e ser piedoso. Mas tinha um grande contra para mim: não se podia cometer pecados.(...) Não vou, agora, pensar nessas coisas, senão ainda me ponho aqui a rezar em vez de puxar pela cabeça e ver se nos safamos... O mapa, o mapinha que trago sempre comigo quando venho para estas coisas! Sou um gajo cumpridor das regras...Goza, goza, mas o facto é que o mapa me vai fazer jeito. Braima, dá-me aí o mapa. Sare Ganá... Sinchã Sutu aqui... a picada para sul e, aqui à direita, o desvio de Sare Madina... mais à frente... aqui está Sucuta, a bolanha e o rio Gambiel... que atravessámos com cuidado, por cima do troco submerso... avançámos por este carreiro... e aqui está Jobel... Sinchã Jobel, como vem aqui no mapa!... Aqui, no extremo da clareira, foi a emboscada... e cá está assinalado o palmeiral e, ao lado, a bolanha onde... por aqui, mais ou menos... estou com o cú de molho!... E estou mesmo todo encharcado, pés, botas, calças... Debaixo deste sol, o melhor seria estar só com a cabeça de fora, como as rãs. Mas não pode ser. Já não é mau ter o material ao fresco.
A nossa posição, pelo que estou a ver no mapa, não é famosa. A bolanha, que deve ter servido para as culturas de arroz de Jobel, vai até ao rio Gambiel, formando no encontro com ele um ângulo recto.

Portanto, segue paralelamente ao caminho por onde vim para chegar ao local da tabanca. Esta bolanha é uma espécie de braço do rio na época das chuvas, mas na época seca tem mais capim que água. Está à vista. Assim sendo, e se estou a ver bem, se regressarmos ao longo e por dentro da bolanha, vamos ter a umas centenas de metros mais a norte do sítio onde atravessámos o rio. E tem mesmo de ser assim. Não vejo outra alternativa mais segura. E também me parece que, se o local de atravessar o rio era aquele que me indicou o guia quando viemos para cá, é porque não havia outro mais acima. Não, não estou disposto a correr o risco de atravessar noutro sítio que não seja o que já conheço. Esta bolanha não a conheço e não tenho, portanto, outra alternativa senão ir por ela, com cuidado, só se tiver azar é que vou cair nalgum buraco. Mas, quando chegar ao rio, já sei que há um lugar seguro para passar, Sucuta. Temos de descer até lá. Um rio não é uma bolanha, para se ir assim à aventura.Tem que ser. Descemos a bolanha até ao rio e vamos passá-lo no mesmo sítio da vinda. O problema é que, se nos pomos agora a andar pela bolanha abaixo, caçam-nos que nem patos na água. Topam-nos no meio e é só apontar calmamente. Quer dizer que não posso largar daqui em pleno dia. Não tropeço numa mina nem caio num buraco, mas o mais certo é não dar dois passos sem levar uma rajada nas costas. Merda! Será que tenho mesmo de fazer isto à noite, cair num buraco e enfiar-me pelo rio dentro?... Puta de vida! Mas, não, não posso estar condenado, tem de haver uma saída. Deixa pensar mais um bocado. Vou refrescar os miolos outra vez... mais uma chapelada de água... Parece sopa, mas é mesmo boa! A vantagem de ter abancado neste charco é que tenho água para me refrescar, quanta quiser.
(...) A única possibilidade que temos de nos safar daqui é arrancar amanhã muito cedo. Às 5,30 já se começa a ver alguma coisa. Já podemos ir vendo onde pôr os pés e orientar-nos... além de que, segundo dizem os manuais, as sentinelas têm tendência para abrandar a vigilância pela madrugada e deixarem-se adormecer antes de despontar a aurora... Terá de ser nessa altura que vamos desandar daqui p´ra fora. E oxalá os gajos não tenham lido os manuais também!...
(...) Que calor infernal faz aqui no meio do capim! O sol e o ar quente entranham-se por entre os caules e permanecem também eles poisados sobre a água. Não há a mais leve aragem. A estagnação é total, na água e no ar. Afinal, não é nada bom estar aqui de molho... As rãs devem sentir-se melhor, com certeza, mas eu mais pareço uma azeitona em água parada, opaca e gordurosa.
Começo a ter sede. Não trouxe o cantil, pois não contava com esta variante no programa das festas. A estas horas já eu devia estar a comer um bom bife de vaca, isto é, um bife dos cornos da vaca... nesta terra parece que não há carne tenra. De qualquer modo, com batatas fritas e empurrado com cerveja, com muita cerveja, não há nada que não entre pelas goelas adentro. E cerveja não falta para a tropa.
Valha-nos isso... Afinal, lamento-me com sede, mas estou rodeado de água por todos os lados, como as ilhas. É só enfiar a cabeça no charco e abrir as goelas... Mas há por todo o tipo de bicharada. Eu seja cão se vou beber esta porcaria. Prefiro beber mijo.
Há vozes e barulho. O IN continua por aqui, a rebuscar no mato e a montar armadilhas. O tipo que eu vi com um penso no braço e companhia não vão largar tão cedo. Devem estar bastante confiantes, uma vez que não largam este sítio e não se preocupam com o barulho que fazem. Devem ter montado uma sentinela do lado de cá do rio. Sabendo de qualquer avanço, poderão organizar a defesa ou montar emboscadas com facilidade e segurança. Este local é de acesso muito difícil. Segundo o mapa, só de um lado é que não está cercado de matagal. É o lado da bolanha e do rio. E mesmo este é um bom bico d'obra. Tenho de aguentar e ver, pois eles não estão com vontade de se ir embora.
Relax e esquece o IN... O IN! Toda a gente usa isto. É mais fácil dizer IN do que "inimigo". Acho que é por isso que usamos estas abreviaturas... No entanto, tornando mais fácil a referência àqueles ou àquele de quem falamos, o "in" e o "turra" são, de facto,
(Continua aqui )

2006/02/23

Frida Kahlo no CCB, em Lisboa

De 24 de Fevereiro a 21 de Maio estarão em exposiçção no CCB em Lisboa, 26 obras provenientes do Museu Dolores Olmedo, no México, onde se encontra a maior colecção mundial da artista.
Esta exposição incluirá também uma colecção de fotografias e objectos pessoais pertencentes àquele museu mexicano e que oferecem um registo da vida da artista desde a infância até à sua morte.



Passados 52 anos sobre a sua morte, a pintura de Frida Kahlo (1907-1954) continua a despertar o interesse do público devido à sua arte controversa e à história da sua vida, marcada pelo sofrimento físico devido à doença e por amores difíceis.
Entre 1926, quando pintou o seu primeiro auto-retrato, e a sua morte, quase trinta anos depois, Kahlo produziu cerca de duas centenas de quadros.
A relação amorosa com o pintor muralista mexicano Diego Rivera despoletou ... (continua aqui)



Frida e Diego Rivera (seu marido)


Auto-retrato (dedicado a Trotsky, 1937)


As duas Fridas(1939. Divórcio de Rivera)


Raizes (1943)

A coluna partida (1944)

A Corçazinha

1949

2006/02/02

Woody Allen no seu melhor

O grande cineasta americano deixou o seu habitat de Manhattan e foi a Londres fazer Match Point. Um dos seus melhores filmes. Parece dominar Londres, as ruas, os parques e os abismos sociais tão bem como os ambientes de Nova York que nos tornou familiar.
Um drama moralmente incorrecto onde os críticos descobrem Fiodor Mikhailovitch Dostoievski, Ingmar Bergman e Alfred Hitchcock. Uma realização magistral.
A história é muito simples. Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers) é um irlandês pobre que chega a Londres para arranjar um job e tentar subir na vida. Dá lições de ténis a gente rica e aí conhece Tom Hewett (Matthew Goode) filho de um grande industrial (Brian Cox) que o introduz na sua requintada família. A irmã Chloe (Emily Mortimer) apaixona-se rapidamente por Chris. O pai que já sofreu o susto de ver fugir a filha com um qualquer, emprega o irlandês que, dadas provas de trabalho, rapidamente promove a lugar de topo. Entretanto Chris conhece a namorada de Hewett uma sedutora e sensual americana, eterna candidata a atriz, Nola Rice (Scarlett Johansson) por quem se apaixona perdidamente. Que fazer? (Interrogação histórica que já Lenin, noutro contexto, tinha em tempos colocado;-)Estatuto social ou o amor? Chris se se conforma provisoriamente (?) com o casamento com Chloe não deixa de se arrebatar crescentemente pela sensual Nola.
Depois Hoody Allen move esta gente rica e aquela gente pobre em volta uma da outra. Coloca em conflito o amor, a dignidade, a paixão com a ascensão social e a fortuna. O dinheiro e o amor. A fidelidade e a traição. A vida e a morte.
Hoody Allen aproveita para dizer de forma muito bem gizada e quase convincente que o destino de um homem não está na sua mão. Mas na sorte. No acaso. Uma aliança de ouro atirada ao rio pode bater esquivamente no parapeito metálico. E ficar por ali subindo de ricochete no ar, revolteando indecisa entre perder-se nas águas do rio ou tombar para o lado do passeio e salvar uma vida.
O filme desenvolve-se nos limites de uma história simples num crescendo de tensão entre opções que se excluem: a paixão e a fortuna. O bem e o mal. Até à explosão final.



Ficha do filme:
Data de estreia:2006-01-19
Título original:Match Point
Realização:Woody Allen
Elenco: Scarlett Johansson; Jonathan Rhys-Meyers; Emily Mortimer; Brian Cox; Matthew Goode; Penelope Wilton; Layke Anderson; Morne Botes; Ewen Bremner; Scott Hanay; Rose Keegan
Argumento:Woody Allen
Produção:Michael Dounaev; Stephen Tenenbaum; Jimmy de Brabant
Estúdios:British Broadcasting Corporation (BBC); Magic Hour Media; Thema Production; Invicta Capital Ltd.; BBC Films
Género:Drama / Thriller
Duração:124 min.
País:Reino Unido



IMAGENS DO FILME


Chris Wilton e Tom Hewett


Chris e Chloe


Nola Rice (no pub com Chris)


Chris (no pub com Nola)


Chris Wilton e o sogro


Chloe, Chris e Nola


C e N


C e N


C e N


Chris e a mulher Chloe

2006/01/29

54% de votos puseram Evo na presidência e a Bolívia no mapa

O turismo é que está cheio de esperança e o maior cartaz é Evo Morales, o presidente índio. (indígena é o nome politicamente correcto. Indio consideram eles que é apenas um erro de brancos que julgavam ter chegado à Índia quando afinal tinham chegado à América).
Anos e anos de instabilidade, golpes militares, rebeliões populares, 5 presidentes em quatro anos, quatro eleições em que nenhum partido tinha maioria e os presidentes surgiam em geral de coligações de partidos minoritários no parlamento, apadrinhados pela embaixada norte-americana, em La Paz, agora a Bolívia está em paz e é um país estável. Pensam alguns. Talvez a maioria indígena. A corrupta aristocracia branca não partilhará tal desígnio.
Evo Morales conseguiu colocar a Bolívia no mapa. Aconteceu o que nunca tinha acontecido. Na sua investidura estiveram 1.300 jornalistas estranjeiros (com a CNN a enviar imagens exóticas para todo o mundo) que assistiram às três investiduras: a primeira foi a investidura em Tiwanaku, como líder indígena de Bolívia e América Latina, uma espécie de entronização com os ritos das culturas Quechua, Aymara e Tiwanakota. (Foto)
Depois a investidura no congresso com a presença de dez presidentes entre os quais o do Brasil, Argentina, Venezuela e pela primeira vez na história da Bolívia do presidente do arqui-inimigo o Chile em missão de paz e cooperação.
E por fim a investidura popular ao encabeçar o desfile sindical e popular, em La Paz.
Antes da tomada de posse já o périplo internacional e o encontro com os respectivos chefes de Estado (em camisola ou em samarra!): começara a chamar a atenção para este ignorado, e paupérrimo país dos Andes. Foi Cuba, Venezuela, Espanha, Holanda, Bélgica, França, China, Africa do Sul, Brasil, Argentina.

Bolívia: a coca e o narcotráfico

"Como máximo dirigente de los cultivadores de coca de esta zona, Morales soportó durante años denuncias de sus adversarios sobre presuntos nexos con el narcotráfico. Ya en la base militar, el Presidente se dirigió a... Chimoré, donde la población de unas 20.000 personas le rindió una cálida acogida en medio de una fiesta popular. También custodiado por una guardia sindical, conformada por jóvenes cocaleros, el Jefe de Estado se trasladó al frente de una caravana de vehículos hasta el poblado vecino de Shinahota, donde una multitud de campesinos le esperaba para escuchar un mensaje sobre la nueva política antidrogas.
El Mandatario fue acompañado por el vicepresidente Álvaro García, el titular de la Cámara de Senadores, Santos Ramírez, y los ministros de Gobierno, Alicia Muñoz, y de Defensa, Walker San Miguel. AFP [link]
"En su primer discurso como Presidente de la República en el Chapare, la zona que lo vio nacer como dirigente cocalero, Evo Morales, puso en claro las líneas de su política de la coca. Ratificó “jamás” habrá coca cero, y que “el cato por familia no se negocia”, hasta que se realice el estudio de su mercado legal. Pero aseguró que el aporte será la racionalización de la producción de la hoja.
Ante cientos de cocaleros, en un encuentro que se realizó en la población de Shinahota, Morales señaló:
“La defensa de la coca nos hizo despertar. El MAS —su partido—, ha sido parido por ella... En nuestro gobierno jamás habrá la llamada coca cero. Tantos engaños de autoridades de gobiernos que pasaron por el Palacio (para lograr el objetivo establecido en la Ley 1008, que establece que la hoja es ilegal en el Chapare), fracasaron”.

Señaló que las fuerzas extranjeras que buscan coca cero también van a fracasar —EEUU, por ejemplo, condiciona su ayuda económica de más de 90 millones de dólares, a las labores de erradicación e interdicción en el trópico de Cochabamba—. “El estudio demostrará cuánta coca se va a producir en el país. El cato por familia no se negocia”, puntualizó.

En el 2004, el ex presidente Carlos Mesa aceptó que en el Chapare se cultivaran 3.200 hectáreas de coca, mientras se realizaba un estudio para determinar si la demanda lícita de la hoja para fines alimenticios, medicinales y rituales ha superado las 12.000 hectáreas previstas en la legislación.

Pero, informes oficiales mencionan que en Bolivia ya hay sembradas más de 27.000 hectáreas de coca, 10.000 de las cuales están en el Chapare y 17.000 en los Yungas, región donde sólo debían sembrarse las 12.000 legales.
En este punto, Evo Morales aclaró: “queremos aportar racionalizando la producción, luchando contra en narcotraficante y no contra el cocalero”.
Además, exhortó a las bases a que el control para evitar la producción excedentaria, estaría regido básicamente por los mismos dirigentes cocaleros.
´Ustedes compañeros son los responsables de respetar y hacer respetar los convenios acordados´,
expresó al insistir que lo contrario restará credibilidad a las bases cocaleras.

El Presidente exige control al cato de coca Una extensión de 40x40 metros por cada una de las 23 mil familias es todo lo que está permitido cultivar en el Chapare, hasta que se concluya el estudio del mercado legal. Pide que sus bases respeten los acuerdos.
La coca servirá, dijo, para el consumo, y también para la exportación e industrialización.
Como ejemplo, mencionó que en Argentina el consumo es legal, pero la importación es ilegal, “por eso trabajaremos para conseguir que nuestra coca sea exportada de manera legal”.

Y esa tarea estará asignada, afirmó Morales, a un nuevo viceministro, el ex alcalde de Villa Tunari, Felipe Cáceres. Además, el Presidente decidió cambiar el nombre de esa repartición, que antes era denominaba de Defensa Social, y que ahora se llamará Viceministerio de Coca y Desarrollo Integral.

Indicó también que la misión del Ministerio de Gobierno, que antes era un ente represor, será iniciar la despenalización de la coca.
“Compañeros, la despenalización no es el libre cultivo. Nosotros vamos a iniciar una campaña para sacar a la coca de la lista de venenos de las Naciones Unidas”.

Pidió a los cocaleros que lo convoquen si en algún momento ven que se “está equivocando”. Hay un congreso de las 6 federaciones del 11 al 14 de febrero. “Voy a asistir allá , para dar mi informe”, señaló. Redacción Cochabamba, AP y ANF [link]

2006/01/09

Inês Fontinha

"Não conheço nenhuma mulher que goste de ou queira ser prostituta" - diz a minha amiga Inês Fontinha, por quem temos todos uma dívida de gratidão, na entrevista da Renascença Diga lá Excelência transcrito no Público de 2006-01-09.
por Sofia Branco (PÚBLICO) e Paulo Magalhães (Rádio Renascença).

"Inês Fontinha, a convidada do programa Diga Lá Excelência, é directora de O Ninho, uma instituição particular de solidariedade social fundada em 1967. Esta madeirense de 62 anos, formada em Sociologia, nomeada para o Nobel da Paz, condecorada por Jorge Sampaio e homenageada pela Assembleia da República com o Prémio de Direitos Humanos trabalha há 30 anos na reinserção social das pessoas que se prostituem. "

PÚBLICO - Qual é o perfil da pessoa que se prostitui?
INÊS FONTINHA - Há um conjunto de factores que interagem entre si e não podemos isolar um, nem um tem mais peso do que o outro. Entre eles estão o trabalho infantil, a violação ou o abuso sexual na infância, o desamor.
O campo pró-legalização fala em histórias de vida "normais", de mulheres casadas, com filhos, muitas vezes com outras profissões, que optam pela prostituição. Esta opção parece-lhe totalmente descabida?
Parece-me uma análise incorrecta da realidade. Uma mulher que tem três ou quatro filhos, ganha o ordenado mínimo, tem uma renda de casa para pagar e o dinheiro acaba-lhe no dia 10 ou 15 pode prostituir-se para alimentar os filhos. Se falar com ela, vai perceber que ela não tem o plano de permanecer na prostituição, o projecto é sempre a saída.
O Ninho já lidou com sete mil mulheres. Não é uma gota de água, já que há quem aponte para a existência de 30 mil prostitutas?
Naturalmente. São números preocupantes... Dizem 30 mil e podem ser muitas mais. A prostituição em Portugal não está quantificada. O que interessa é tentarmos encontrar em conjunto soluções para esta situação. Quando vivemos numa sociedade que se diz moderna, pergunto por que é que o sexo pago ainda existe?
Por que existe?
Vivemos numa sociedade em que, apesar dos avanços no campo dos direitos das mulheres, muita gente ainda concorda com uma situação em que a mulher está completamente subalternizada ao homem, é um objecto, um instrumento de prazer do homem.
Há um estudo da Universidade do Minho que diz que os clientes são pessoas perfeitamente socializadas, "normais", sem comportamentos patológicos. Qualquer homem é um potencial cliente de prostituição?
O conhecimento que temos em relação aos clientes é indirecto, através das mulheres que acompanhamos. O que sabemos é que o cliente é proveniente de todas as classes sociais. Apenas o local onde procuram a mulher é diferenciado consoante o seu poder de compra, de um modo geral. Esse estudo também aponta para a legalização da prostituição, concedendo ao homem o poder legítimo de comprar o sexo a uma mulher.
Não é o poder legítimo de a mulher o poder vender?
Não. É o poder legítimo de o homem querer e poder comprar. Não conheço nenhuma mulher que goste de ou queira ser prostituta. Não conheço nenhuma família, por muito desorganizada que esteja, que tenha como projecto de vida para os seus filhos serem prostitutas ou prostitutos.
A Suécia penaliza desde há alguns anos os clientes. A solução poderia passar por aí em Portugal também?
Temos de reflectir muito sobre a nossa realidade. Estamos preparados para punir o cliente? A Suécia considera que a igualdade de género passa pela punição do cliente e esteve anos a preparar a opinião pública, tanto que hoje 80 e tal por cento da população são favoráveis a esta medida. É completamente diferente de Portugal, em que o cliente é rei e senhor. Não é ter uma lei apenas no papel, é para a fazer cumprir.
Não concorda com a legalização?
Não se legaliza algo que é contra os direitos humanos. O que não quero para mim, não quero para os outros.Acha que o vazio legal existente...Não há vazio legal. Temos um sistema abolicionista, que imperou na Europa durante muitos anos. Porquê este frenesim de alguns países europeus em legalizar a prostituição, dizendo que vão combater o tráfico? É falso, está provado! Legalizando a prostituição, fomenta-se o tráfico. A Holanda é um exemplo disso.
Mas o sistema actualmente existente em Portugal funciona?
Não funciona porque não existe vontade política de fazer prevenção nem de inserir as pessoas.
O que falta?
É necessário invertermos a política que temos neste momento. O ordenado mínimo não chega para uma mulher sobreviver sozinha com um filho, a habitação é um problema grave, as rendas vão aumentar... Há uma desigualdade profunda.
Encara sempre as prostitutas como vítimas?
Acho que lhes deveríamos dar um verdadeiro estatuto de vítima.
Mas isso não as menoriza, fazendo-as depender sempre de ajuda externa, negando-lhes a autodeterminação?
Não, de modo algum. Concordo que devemos dar poder às pessoas para decidirem da sua própria vida. No trabalho de rua que fazemos, elas desejam mudar a sua situação e dizem-nos muitas vezes que ficam mais um ano até resolverem os problemas e depois vão-se embora, mas passado um ano elas mantêm-se lá. Porque a desvalorização é profunda. Por isso, a ajuda externa é de extrema importância, para poder abrir portas e dizer: há esta possibilidade. O que falta são os apoios necessários para dar reais oportunidades às pessoas.
Centra-se na reinserção social. Como encara as declarações do secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Jorge Lacão, que afirmou, em entrevista ao PÚBLICO, que "a via da reinserção social é fictícia"?
Se disse isso, ignora o que é a reinserção social. Das sete mil mulheres que passaram pelo Ninho, 90 por cento estão integradas. Se 90 por cento estão integradas, não se aposta na reinserção? Não estou a perceber. É necessário é dar meios, isso sim. E O Ninho não tem, anda sempre à procura de meios.
Falamos sempre de mulheres no caso da prostituição. Há homens que vão ter com O Ninho?Alguns. A percentagem é pequena. Devido às carências, não temos resposta para essas pessoas.
A resposta é diferente para homens e mulheres, é isso?
A violência nos homens ainda é mais profunda.
Porquê?
Porque um cliente é sempre um homem... Eles contam coisas inimagináveis.
Nunca falam de clientes mulheres?
Não, não conhecemos essa realidade.
ão estão as pessoas que se prostituem mais protegidas se forem encaradas como trabalhadoras?
Vender o corpo é um trabalho? Fala-se muito em trabalho digno. Será que isto é um trabalho digno? A prostituição não é um trabalho. Ser penetrada 20 vezes ao dia é satisfatório para alguém? Estamos a falar em prostituição!
Trabalha no sentido de acabar com a prostituição um dia?
O Ninho é membro fundador de uma federação europeia para o desaparecimento da prostituição, criada porque a comunidade europeia está a ser pressionada pelo proxenetismo organizado no sentido da legalização.
Não é uma utopia querer acabar com a prostituição?
A nossa história é feita de utopias.



O Ninho vive do mesmo subsídio desde 1987

Como surgiu o problema da prostituição na sua vida?
Foi através de um amigo meu que dava apoio ao Ninho e me convidou a visitar a instituição. Era uma problemática que eu desconhecia, que estava muito longe de mim. Uma das coisas que mais me perturbou na altura foi ouvir as histórias de vida daquelas mulheres. Para mim foi uma tomada de consciência, a todos os níveis, mas fundamentalmente política.
Como lida com essas histórias complicadas no seu dia-a-dia?
Todos os dias vamos aprendendo coisas novas com as mulheres que estamos a acompanhar. Não podemos sofrer com elas mas compreender o sofrimento e minimizá-lo.
Lida da mesma maneira com cada uma das mulheres que lhe aparece?
Não. Cada situação é uma situação. E cada pessoa sente a sua situação de forma diferente. Na história de vida das mulheres que acompanhamos há factores comuns, de ordem psicológica e social. Não quero dizer com isto, de modo algum, que todas as pessoas que passaram por situações semelhantes irão prostituir-se amanhã ou daqui a um mês. Mas há uma subcultura de pobreza, em que as pessoas ficam vulneráveis, ficam fragilizadas e, portanto, são presas fáceis para o recrutamento.
Sente-se recompensada com os prémios que O Ninho vai tendo?
É sinal que o trabalho é reconhecido. Mas esses prémios não se traduziram em mais apoios. É um reconhecimento, e claro que isso é gratificante. Mas não passa de um reconhecimento.
De que vive O Ninho?
O Ninho tem atravessado dificuldades imensas. Vive de um subsídio mensal dado pela segurança social, que nunca foi actualizado desde 1987.


In SOLIDARIEDADE
...
"As histórias dramáticas destas mulheres não começam apenas quando entram para o mundo da prostituição, mas logo na infância, segundo Inês Fontinha, presidente da associação O Ninho, que apresenta números chocantes. Um inquérito feito a sete mil mulheres portuguesas acompanhadas ao longo de 10 anos denuncia que "cerca de 90 por cento das prostitutas foram vítimas de violação ou abuso sexual entre os oito e os 12 anos", afirmou a presidente da instituição que há 38 anos apoia as mulheres vítimas do submundo da prostituição... [link]

2005/12/04

"O frio é a minha morada"

Fotografia DN-Nuno Fox

Âgela Marques no DN, hoje. Mostra-nos a Lisboa que não vemos. Avenida Almirante Reis, Américo, 75 anos. Dorme sentado num caixote de papelão, com um cobertor a esconder a cara do frio. "Não quero nada... só quero abrir os olhos todos os dias de manhã."
Vivo "um dia, depois mais um dia, depois outro dia". Assim há 15 anos. "Antes disso, fui empregado no Banco Nacional Ultramarino."

A Guerra

Sinto-me como que desarmado - tão grande é a leviandade ou a estupidez ou a ausência de valores - sempre que vejo alguém fazer a apologia da guerra. Qualquer guerra. Colonial, imperialista, disputa de fronteiras, guerra civil. Excepto claro está, depois de esgotados todos os outros recursos, a guerra de libertação.
A guerra é sempre a máxima violência física e moral. É sempre o sofrimento máximo e a máxima tragédia. Veja-se o Iraque, o Vietnam, a Tchechénia, o Ruanda. Ou as guerras coloniais portuguesas.

Vem isto a propósito de um post de um amigo meu, Marques Lopes, num blog de ex-combatentes da guerra colonial, que descobri transcrito pelo João Tunes no Água Lisa. É um depoimento pungente e que nos conta um triste episódio de guerra que ceifou a vida de uma jovem guineense e perseguirá, traumático, por toda a vida o jovem alferes miliciano obrigado pelo colonial-fascismo português a "defender a pátria" na... Guiné Bissau.

A guerra na Guiné tornara-se muito perigosa com o crescente poder militar do PAIGC. O jovem miliciano já tinha sido ferido e estava de novo de volta à guerra. É uma manhã de Julho de 1967. Conduz pela mata o seu pelotão, perigos estão por todo o lado. Deparam com uma força inimiga! A tensão é grande mas é apenas uma escola do PAIGC no mato. Uma jovem professora talvez com 18 anos ensina Português a crianças guineenses. No quadro preto está escrito "um vaso de flores" e por baixo o desenho correspondente.

Surpreendida e assustada a professora lança mão da Kalachnikov pendurada no quadro. Marques Lopes grita-lhe "firma lá" ("está quieta aí"). O que se segue é o perigo, o susto, o medo, a raiva, o pânico. A guerra!

A jovem professora de Português caiu esventrada com uma rajada de metralhadora e Marques Lopes carrega há trinta e oito anos essa cruz.

Ele conta ainda algo mais. Algo terrível. Algo que exemplifica bem no que as guerras podem transformar os homens. Ele tem de impedir à pancada um soldado do seu pelotão (um rapaz vulgar de uma nossa qualquer aldeia) de violar a jovem agonizante.



Uma escola do PAIGC, na mata. ( 1970 ?)


Marques Lopes:

"...Desta vez, assim que pisei o aeroporto Osvaldo Vieira [Bissau, 1998], tive de levar as mãos ao peito para que o coração não me abandonasse. Por mais esforços, por mais conversas apaziguadoras, durante as quatro horas que durou a viagem, não consegui acalmá-lo nem convencê-lo de que era preciso dominar a ansiedade e moderar os desejos de ti. Perdido, cego de alegria e paixão, chegara a hora da realização do sonho de vários anos, depois de desvanecidos todos os fantasmas, é claro, porque, quando saí daqui a primeira vez, evacuado para o hospital, este coração estava enraivecido com vocês todos, que me tinham ferido e matado amigos meus.

Passados nove meses, aqui voltei, para continuar na guerra, é verdade, ainda confuso mas já sem ódio e desejoso de entender o que se passava.

Foi nessa minha fase, Professora, que nos conhecemos, quando dei contigo na tua escola de Samba Culo, naquela manhã de 7 de Julho [de 1967].

Da segunda vez que abandonei a Guiné e deixei a guerra, a minha vontade e empenho foi esquecê-la, varrer-vos a todos da minha memória, lavar as marcas do sangue dos meus amigos, do meu próprio, e também do vosso, banir o medo e o cansaço que se me entranhara na alma ao percorrer as matas deste chão que, agora, vê lá!, reguei com lágrimas de alegria e de saudade consolada.

Para aqui chegar, frequentei bares e prostitutas, acumulei sessões contínuas no Olímpia [cinema de Lisboa], fui estudante mas nunca acabei cursos, percorri a Europa, estive em Paris, no Quartier Latin das minhas leituras, Londres, vi a Royal Guard e a rainha, Roma, não vi o Papa porque estava de férias em Castelgandolfo, e vê lá que me atrevi a passar a cortina de ferro, em Praga, Moscovo, onde namorei uma soviética na Praça Vermelha, a tchetchena Aniuska, Leninegrado e Kiev, fui activista sindical e militante político, participei em primeiros de Maio, fiz trabalhos clandestinos e levei porrada da polícia, dormi em esquadras, casei-me, fiz filhos e apanhei bebedeiras, bati nos filhos e descasei-me, conheci muitas mulheres, fiz amor por todo o lado, levei muitas negas e passei noites de solidão, dormi em bancos de jardim e debaixo de árvores, mas nunca te esqueci, não houve prazer-anfetamina que cauterizasse esta memória em carne viva nem bebida que a afogasse, cansei-me da vida, como me cansara antes para não morrer, e pensei em matar-me. Mas, olha, não consegui, não por causa de Deus, pois nesse período nunca fui à missa e nunca me confessei. Não o fiz porque tinha começado a amar-te e não queria morrer sem voltar a ver-te, sem deixar de to dizer.(...)"

O post de Marques Lopes está [aqui] e a transcrição do JT [aqui].

2005/11/27

O 25 de Novembro de 1975 (2)

A entrevista propriamente dita, conduzida por José Manuel Barroso, que dei ao Diário de Notícias, no 20º aniversário do 25 de Novembro, está no post precedente, ali em baixo. Neste vão os comentários do entrevistador.
José Manuel Barroso é um especialista, investigador (quase historiador) que ano após ano, no DN, escalpelizou os meandros da revolução e conseguiu, a pulso, contra as meias verdades e os bem guardados segredos, da esquerda e da direita, expor à luz do dia os episódios e as motivações mais resguardadas da revolução e do 25 de Novembro em especial.


TEMA DE ABERTURA - DIÁRIO DE NOTÍCIAS, DOMINGO 26 DE NOVEMBRO 1995
memória do
25 DE NOVEMBRO

José Manuel Barroso

O Partido Comunista
a esquerda militar
e o 25 de Novembro



RAIMUNDO NARCISO deputado independente eleito nas listas do Partido Socialista no passado dia 1 de Outubro foi militante do Partido Comunista cerca de 30 anos, dirigente da ARA e do Comité Militar do PCP. Era ainda membro do seu Comité Central quando em 1991, abandona o partido, depois de um processo de divergências e de rotura que se acentua no XII Congresso em 1988. Com ele saem António Graça, Victor Neto, Pina Moura, José Barros Moura e José Luís Judas entre outros. Foi membro fundador da Plataforma de Esquerda. Esta é a primeira entrevista que concede sobre os tempos da revolução e o relacionamento entre o PC e os militares, aproximação a uma densa realidade, ela constitui, desde já, um documento indispensável para entender o período revolucionário e o 25 de Novembro de 1975.



A ENTREVISTA que se publica nas páginas seguintes passará a constituir seguramente um do mais importantes documentos até hoje publicados sobre o 25 de Novembro de 1975 e o processo revolucionário em curso nesse ano. Na entrevista que Raimundo Narciso concedeu ao DN não são feitas revelações de pormenor que nos permitam ir ao fundo do conhecimento sobre o papel do Partido Comunista Português nesse evento e sobre o seu relacionamento com a esquerda militar e o MFA. Mas, sem nunca ferir a lealdade e o respeito devidos a pessoas que fizeram um percurso comum, o entrevistado desfaz suficientemente a teia do pensamento e da acção do PCP, nos idos da Revolução, para permitir ao leitor atento tirar conclusões claras das suas respostas.

A entrevista de Raimundo Narciso tem a autoridade que lhe dá o facto de ele ter sido um importante dirigente do PCP, durante muitos anos, membro do seu Comité Central e do Comité Militar do partido — o que lhe deu a possibilidade de, como ele próprio diz, ter acompanhado e participado «em todos o acontecimentos decisivos da Revolução», incluindo o 25 de Novembro. A entrevista tem, também, a ousadia e a inteligência de facultar um conjunto de informações muito importantes sobre esses acontecimentos, por considerar que «vinte anos depois é tempo para disponibilizar todos os elementos aos historiadores», com excepção de alguns «segredos» que não são só seus.

Excepção feita a esses «segredos», Raimundo Narciso faculta-nos, assim, elementos suficientes para compreender quanto a actuação do PCP, junto dos militares, foi a consequência de um plano estratégico, pacientemente aplicado ao longo dos anos, incluindo os quase dois da Revolução. Fica claro, também, quanto o PCP utilizou os seus homens, no interior das casernas, para estar presente no 25 de Abril, para influenciar, por dentro, o MFA e o rumo dos acontecimentos — até aproximar a «revolução democrática e nacional» de Abril de 1974 da «revolução socialista», que na sequência do 11 de Março se toma possível. E a aplicação, sem temores, do programa do partido, fase por fase, exclusivamente dependente da «relação de forças» — até ao 25 de Novembro.

A «porta para o socialismo» (tal como o PCP o entendia, a partir da matriz soviética) que o 11 de Março abre — com as nacionalizações a reforma agrária e a recomposição favorável à esquerda revolucionária dos órgãos do poder político–militar - havia sido quase fechada pela resistência civil, com o PS de Mário Soares à cabeça, e pela resistência militar, liderada pelo Grupo dos Nove.

Tendo perdido, nesse «Verão quente», largo apoio social e poder nas instituições político-militares, o PCP e seus aliados querem recuperar posições institucionais e forçar um entendimento, no seio do MFA, para «derrotar a direita», sob pena de ser por ela mais tarde derrotado. Sem desistir do seu projecto nacional. O 25 de Novembro terá sido isso. Matéria que, naturalmente, fica para o final desta série de trabalhos.

O 25 de Novembro de 1975

Entrevista publicada a 26 de Novembro de 1995, conduzida por José Manuel Barroso.

Diário de NotíciasO 25 de Novembro foi um conjunto de sublevações miIitares coincidentes ou uma tentativa articulada para mudar a composição dos órgãos do poder a favor da esquerda militar e do PC?
Raimundo Narciso – O 25 de Novembro foi o momento em que a esquerda revolucionária, no plano militar, respondeu à última «provocação» do campo oposto com uma parada demasiado alta e que com espanto e desespero, verificou a seguir não estar em situação de sustentar.
Essa parada demasiado alta foi a ocupação das bases e do comando da Força Aérea, por parte dos pára-quedistas de Tancos, na madrugada de 25 de Novembro. Com essa medida os pára-quedistas respondiam à provocação do chefe do Eslado-Maior da Força Aérea, Morais e Silva, que actuando de acordo como Grupo dos Nove e o de militares mais à direita, seus aliados, ordenara a sua extinção.
Com esta medida, os «páras», a esquerda militar (EM) e a esquerda revolucionária em geral, não pretendiam desencadear a «mãe de todas as batalhas». Pretendiam «apenas» ganhar a importante batalha da substituição de Morais e Silva, no EMFA e no Conselho da Revolução, e se possível, na passada, conseguir a inversão do processo de constante perda de posições nos órgãos do poder político-militar, que ocorria desde a Assembleia do MFA de Tancos, em 6 de Setembro. E não era pouco. Para isso julgavam que podiam contar com Otelo e que conseguiriam, para o efeito, ganhar o Presidente da República, Costa Gomes, para o seu lado.
DN – E a força dos «páras» era suficiente?
RN - Para sustentar esta subida da parada não bastava que o Ralis e a EPAM accionassem, como o fizeram, o seu dispositivo de defesa (ou ataque?) era necessário que os fuzileiros com a sua formidável força de 12 companhias operacionais entrassem na dança. Não entraram, como se sabe.
As forças militares que se opunham ao projecto do PCP e ao prosseguimento do processo revolucionário, lideradas pelo sector moderado do MFA, os "Nove", conseguiram, neste contexto, a adesão do Presidente Costa Gomes para o seu plano e assim dispor do importante factor legalidade traduzido no controlo da cadeia de comando militar oficial.
Reunidas estas condições, os "Nove", onde pontificavam Vasco Lourenço e Melo Antunes mas também figurava Canto e Castro, juntamente com os seus aliados, desencadearam a ofensiva para a qual há um certo tempo se vinham preparando. Este agrupamento de forças militares, que não respondia só, nem principalmente, à linha de comando oficial que tinha Vasco Lourenço logo abaixo do PR, desferiu um golpe decisivo que pôs fim à revolução e minou de caminho o poder do próprio sector moderado do MFA, os "Nove".
DN - Mas os «páras» saíram às ordens do PCP, da esquerda militar, ou por sua própria iniciativa?
RN — Sobre o assunto dos pára-quedistas podia-lhe dar uma excelente «caixa» por que, acompanhei ou participei em todos os acontecimentos decisivos da revolução, incluindo este — acontecimentos que, por vezes, mudavam a situação hora a hora ou minuto a minuto. Mas mesmo se vinte anos depois, é tempo para disponibilizar todos os elementos aos historiadores não quero desvendar alguns segredos que não são só meus.
DN – A Direcção do PCP e os militares seus aliados acharam que era necessário avançar, para uma acção de força, nesse momento, para evitar que fosse submergida mais tarde por um golpe de direita?
RN — Acharam que era necessário fazer qualquer coisa para inverter a crescente perda de posições políticas e militares institucionais. Tinham perdido o Governo, tinham perdido quase toda a força de que dispunham no Conselho da Revolução. Até o incerto mas importante Otelo, comandante do Copcon, tinha sido neutralizado e substituído por Vasco Lourenço no comando da Região Militar de Lisboa, dois dias antes do 25 de Novembro, pelas forças adversárias. Estou convencido que a saída dos pára-quedistas não foi uma acção que fizesse parte de um plano de operações político-militar amadurecido. Tal como o campo contrário, a ala do MFA próxima do PCP estava a organizar-se para uma eventual futura confrontação militar mas não tinha ainda um comando, sistema de forças e dispositivo consistentes.
DN— A influência do PCP nos quartéis da área de Lisboa era suficiente para determinar o avanço ou recuo de um processo militar como o do 25 de Novembro? Passava-se o mesmo com os pára-quedistas de Tancos?
RN — É uma pergunta a dirigir ao PCP. Como observador posso concluir que essa influência em 25 de Novembro, foi a que se viu. Tanto em Lisboa como em Tancos. Em minha opinião, a influência do PCP, medida pelo número de militares do quadro permanente que lhe eram afectos ou próximos era muito pequena no 25 de Abril mas cresceu sempre até, ao 25 de Novembro.
Já entre, os milicianos, o PCP tinha, em 25 de Abril de 1974, uma grande influência. O papel dos oficiais milicianos na preparação e eclosão do 25 de Abril e em toda a revolução, cuja história está por fazer, foi importante. Pela, sua influência ideológica junto dos oficiais do QP e como seus auxiliares no comando de tropas. Os oficiais milicianos também tiveram um importante papel na derrota do 11 de Março e, posteriormente, nas assembleias e outras estruturas do MFA.



«Uma derrota relativa»


DN— Em termos políticos, o saldo do 25 de Novembro foi uma vitória ou uma derrota do PC e da esquerda militar?
RN – O 25 de Novembro foi uma derrota para o PCP e para a esquerda militar. Em todo o caso, foi apenas uma derrota relativa — devido ao papel moderador de Costa Gomes, Melo Antunes, Vasco Lourenço e, nalguma medida, de Ramalho Eanes, também.
Foi uma derrota porque o 25 de Novembro impediu o prosseguimento da revolução no sentido do projecto de sociedade do PCP e que, à parte as particularidades nacionais, era na essência, igual ao da sociedade comunista de Leste. Derrota por que afastou o PCP do Governo e de um modo geral dos órgãos do poder de Estado, porque impediu a estabilização de conquistas da revolução já adquiridas, tais como a Reforma Agrária, as nacionalizações, etc.
Para o PCP, o 25 de Novembro também pode ser considerado uma vitória no sentido em que uma pessoa que parte uma perna tem imensa sorte por não ter partido as duas.
Assim, o 25 de Novembro representa uma vitória parcial porque o PCP não foi ilegalizado e pôde viver em democracia, numa democracia que, como se sabe, o comunismo nunca facultou aos seus adversários.
DN — No Verão de 75, tendo a esquerda revolucionária sofrido grandes derrotas, porque avança o PCP para a agudização das lutas sociais e militares?
RN — O PCP tentou com a agudização de todo o tipo de lutas, fomentando umas, dando cobertura ou não se demarcando de outras, compensar o seu crescente isolamento político, social e militar e conduzir a revolução por aí fora. Caso República, cerco da Assembleia da República, manifestação dos SUV (Soldados Unidos Venceremos!).
É necessário, para compreender a situação, não esquecer a rede bombista e a vaga de assaltos às sedes do PCP, do MDP de sindicatos e outras organizações de esquerda, no Verão quente desencadeada pela extrema-direita. A 13 de Julho é assaltada e destruída a sede do PCP e da FSP em Rio Maior, a 16 assaltada a sede da Batalha, a 17 a do Cadaval, a 18 a da Lourinhã e assim até ao 25 de Novembro e depois.
DN — Tendo a revolução entrado em derrapagem e o PCP em perda de posições não deveria antes moderar a sua acção e aproximar-se do PS e do sector moderado do MFA?
RN — Uma particularidade do comunismo português na revolução do 25 de Abril, foi o PCP, muito cedo, pensar que podia dispensar o PS, na sua política de alianças. Para tanto utilizou a fórmula Aliança Povo-MFA em que o povo estaria suficientemente representado pelo PCP e o MDP ou, no Verão quente, em estado de desespero, também pelas outras organizações da FUR. Pareceu ao PCP que a aliança com a base social representada pelo PS poderia ser assegurada através do sector moderado do MFA complementada pela Intersindical.
O PCP reconhece, no plano teórico, no Verão de 75, a urgente necessidade de lutar pela unidade do MFA e de evitar a radicalização da luta que isole o PCP. É esse o resultado do debate havido na reunião do Comité Central em Alhandra, a 10 de Agosto, um dia depois da publicação do Documento dos Nove. Também o discurso de Vasco Gonçalves, em Almada, a l8 de Agosto é apreciado de modo negativo. O PCP esperava desta intervenção uma tentativa de aproximação aos "Nove" e o que saiu foi radicalização.
Curiosamente a par desta análise teórica a intervenção prática do PCP não vai no sentido de travar a radicalização das lutas, umas por si organizadas, outras pelos sectores da esquerda mais radical, outras espontâneas.

A «unidade de pensamento»

DN — Houve no PCP uma luta entre moderados e radicais face ao ritmo do processo revolucionário? Muitos militares, então próximos do partido, e alguns ex-militantes dizem ter ela existido.
RN — Que eu conheça não. Havia — e provavelmente continua a haver — dirigentes mais radicais e outros mais moderados. Isso acontece em todas as formações partidárias, mesmo que não seja reconhecido. Mas a liderança incontestável de Álvaro Cunhal não dava abertura para um debate que pudesse pôr em causa a sua orientação – e em risco a tão desejada «unidade de pensamento».

DN — Que representa a FUR no contexto do Verão quente de 1975?
RN — A necessidade de ocultar o crescente isolamento político do PCP resultante da crescente radicalização da sua acção política.
DN — O comportamento do PCP teve por objectivo um regime de matriz soviética ou democrática do tipo ocidental?
RN — Logo a seguir ao 25 de Abril e até ao auto-afastamento de Spínola, a preocupação fundamental do PCP era a consolidação do regime democrático do tipo ocidental. Depois do 11 de Março o PCP orientou a sua luta para as conhecidas «grandes conquistas da revolução».
No entanto, em momento nenhum, o PCP esquecia que o objectivo último da luta era o socialismo. Isso mesmo fazia questão de constantemente lembrar, internamente, aos militantes. Havia a fase da revolução democrática e nacional e a fase da revolução socialista. Mas a passagem de uma a outra fase não era tanto um questão de meses ou anos mas de relação de forças.
DN — Até que ponto PCP acompanha as movimentações da área militar?

RN — Não só acompanha como intervém, no sentido de influenciar os acontecimentos militares. Os próprios acontecimentos militares do 25 de Novembro não aparecem como um acto isolado, mas de sucessivas acções da esquerda militar, dos “Nove” e da direita — no sentido de cada um ganhar posições, para o seu lado. E havia o claro entendimento de um provável choque militar.
DN – Pode dizer-se haver uma clara aliança entre a esquerda militar e o PCP?
RN – Pode dizer-se, com clareza, que a esquerda militar foi-se constituindo como a expressão da influência militar do PCP no MFA.
DN — Havia, portanto um relacionamento constante, entre a direcção do PCP e a da esquerda militar?
RN – A esquerda militar era o sector do MFA que estava mais próximo do projecto político do PCP e o que melhor podia defender as suas posições no plano político-militar.
DN – Otelo foi uma cartada mal jogada, no 25 de Novembro?
RN—Foi uma cartada que não foi possível controlar, apesar de haver esperanças e esforços no sentido de o aliar à esquerda militar. Como se sabe, houve um período em que dirigentes do PCP se deslocaram com alguma regularidade ao Copcon para troca de opiniões políticas — e que não tinham outro objectivo que não fosse poder aproximar Otelo da posição do PCP, com vista a uma unidade entre o sector do Copcon e a esquerda militar.
DN — Quando foi compreendido por parte do PCP, que essa unidade não era possível?
RN — O 25 de Novembro comprovou, definitivamente, que o PCP não podia contar com Otelo Saraiva de Carvalho.
DN – O PCP tinha uma significativa influência, entre os graduados do corpo de pára-quedistas de Tancos?
RN – Tinha, sobretudo, uma grande influência entre os sargentos «páras». Foram públicas várias sessões de esclarecimento para sargentos da Força Aérea — que incluía, em especial, sargentos pára-quedistas – num cinema da região.
DN — Seria normal que militantes do PCP, sobretudo sendo militares, tomassem decisões de grande importância, no campo da acção, sem aviso ou consulta ao partido?
RN — Não era normal — mas, por vezes, sucedia.
DN—E no caso da saída dos «páras» de Tancos?
RN — O partido teve informação da movimentação dos «páras», ante destes terem saído.
DN — O «trabalho militar» do PCP constituía uma área de actuação privilegiada?
RN — A actividade e a atenção do PCP às Forças Armadas é uma orientação muito antiga. Seria de uma grande irresponsabilidade e negaria a natureza revolucionária do PCP se, numa revolução como a do 25 de Abril, não prestasse a maior das atenções aos militares.
DN— Quando, logo a seguir ao 25 de Abril, António Spínola não consegue um apoio claro dos militares do MFA, no final do plenário da Manutenção Militar (que precedeu a crise Palma Carlos) que análise fez o PCP?
RN — Considerou ser urgente a coordenadora do MFA se auto-institucionalizar e traduzir assim no plano institucional, o seu papel de verdadeiro autor do 25 de Abril.
Sabia-se que o «imparável» movimento popular antifascista, liderado pelo PCP não deixaria de influir muito o MFA, ou parte dele, no sentido da revolução.

O PCP e as eleições

DN — Houve debate Interno e divergências, no PC, sobre a realização de eleições para a Constituinte?
RN — A realização de eleições livres era um dos principais pontos do programa do PCP na clandestinidade — estávamos no fascismo, não no comunismo! Após o 25 de Abril, as eleições para a Constituinte era um objectivo a conquistar tanto mais importante quanto Spínola preferia um referendo que lhe conferisse poderes mais ou menos ditatoriais. Num encontro, em que participei, de uma delegação do PCP com elementos do MFA, suponho que em 1974, foi informalmente colocada a questão. Vasco Gonçalves que estava presente, respondeu que a data era um compromisso inalienável do MFA. Mais tarde, e em especial após o 11 de Março, surgiram dúvidas sobre a bondade de tal acto, a tão curto prazo. Mas foi assunto discutido à puridade.
No PCP, os resultados eleitorais das primeiras eleições livres, em 25 de Abril de 1975, eram aguardados ora com receio, porque comunismo e eleições eram coisas que nunca ligaram bem, ora com esperança. Neste caso, assente nos comícios sempre maiores do que os de qualquer outro partido, nas sondagens obtidas pelos camaradas em conversas de autocarro — ou, até, porque a gratidão do povo, de cuja representação julgávamos ter monopólio, não nos faltaria nesse momento.
As primeiras eleições, ao darem 12,5 por cento dos votos ao PCP e quase 38 por cento ao PS, revelaram um quadro de opções dos Portugueses completamente diferente do que era dado pelas mobilizações populares e foram um factor decisivo para a derrota a prazo do projecto do PCP.

2005/11/08

A gripe das aves




Como surpreende, melhor dizendo, maravilha, a diversidade do entendimento humano sobre a mesma realidade que a todos cerca. Não a existência de tal diversidade que a idade, seguindo-se à escola, a todos mostra. Mas a sua álacre manifestação em nossa presença.

Era para combinar um almoço mas a conversa resvalou para o pavor. Se acho que devemos tomar medidas desde já? mas que medidas? Pois... mas... o caso é que assim alguém da família vai morrer... de acordo com as estatísticas. Tentativas bem dirigidas para desviar. Então sempre é verdade que o Martinho já está mesmo separado da Sofia? E a Célia, a Célia! disse-me a Joana que vai mesmo abortar a Badajoz. Consegui. Consegui livrar-me da Teresa, do pânico, das aves, da gripe e sem dar fôlego, fingi que tinha acabado e pim na tecla vermelha.
Meia hora depois. Metropolitano. Linha azul. Sete e meia da tarde. Cada um consigo mesmo e aquelas duas, descuidadas ou sem cerimónia, a fazerem-se ouvir. Oh, oh, oh, então vou lá agora ligar a isso! Ora, ora, essa é boa! se se quisessem preocupar com epidemias preocupavam-se com a droga e com o álcool. Vê lá se falam em vacinas para isso! Mas... mas... Qual mas, oh oh, quais aves! quais gripe! vou lá agora acreditar nisso. Fizeram mas foi alguma vacina que não se vende e agora querem que a gente vá a correr comprá-la. Ná, ná, eu cá não, eu não...

Se isto é assim com as aves... com as aves... com as aves... que admiração uns serem pelo Soares e outros pelo Manel.

2005/11/01

O terramoto de Lisboa (3)

As Igrejas

"...ARRUINOU e destruiu o terramoto e incêndio a melhor parte da populosa cidade de Lisboa. O terreno destruído pelo fogo ocupou mais de uma légua de circunferência, pelo círculo que se descreve. Principiando da Igreja de São Paulo, decorreu por uma grande parte da marinha: desde esta igreja vem o círculo pelos Remolares, Corte-Real, Ribeira das Naus, Terreiro do Paço, Ribeira da Cidade, Cais de Santarém até ao Chafariz d’el-Rei; daqui sobe ...

Nesta circunferência destruiu o fogo inteiramente os bairros chamados da Ribeira, da Rua Nova e do Rossio, e grande parte dos bairros dos Remolares do Bairro Alto, do Limoeiro e de Alfama, que eram os mais ricos populosos dos doze em que então se dividia a cidade.

Nesta grande parte de Lisboa consumida pelo fogo foram compreendidas inteiramente a santa Igreja Patriarca e as freguesias da Basílica de Santa Maria (antiga catedral de Lisboa), de Santa Maria Madalena, de Nossa Senhora da Conceição, de São Julião, de Nossa Senhora dos Mártires, do Sacramento...

Neste recinto ficaram reduzidos a cinzas os sumptuosos conventos da Santíssima Trindade, de Nossa Senhora do Monte do Carmo, de São Francisco, de Nossa Senhora do Rosário dos Irlandeses, do Espírito Santo, de Nossa Senhora da Boa-Hora, de Corpus Christi, de São Domingos e de Santo Elói, com as suas majestosas e bem ornadas igrejas...

...se queimou a sumptuosa Igreja de Santo António edificada na antiga casa, em que o mesmo santo nasceu, com a magnífica e bela casa que antes da divisão da cidade servia para as conferências do Senado da Câmara; e na mesma igreja muita e bem lavrada prata, e ricos ornamentos, de que se achava enriquecida. ... havendo o fogo na igreja sido tão violento que derreteu toda a prata, bronze e outros metais, que nela achou". [o relato prossegue com o registo de muitas dezenas de igrejas destruidas]

E os palácios

"...Os palácios queimados foram: o Paço Real da Ribeira que, sendo principiado pelo senhor rei D. Manuel e continuado sumptuosamente por Filipe II, se havia depois acres centado com dilatadas e formosíssimas galerias de soberba arquitectura, e ultimamente com a real Casa da Opera, obra admirável; o Palácio de Corte-Real (que já havia padecido o incêndio que fica dito no tomo XII, a fol. 64), com o tribunal da Casa do Infantado; os palácios dos duques de Bragança (que servia de Tesouro), de Lafões, de Aveiro, de Cadaval; dos marqueses de Valença, de Marialva, de Angeja, de Fronteira e de Cascais... [a lista continua com muitos mais palácios]

Padeceram a mesma desgraça os edifícios de Alfândega Real, Casa da India, Vedoria, Consulado, Contos do Reino, Sete Casas, Terreiro do Pão, Ribeira das Naus e armazém dela, Casa do Tesouro, ao Arco da Consolação...

e os tribunais do Desembargo do Paço, Junta dos Três Estados, Conselho da Fazenda, Conselho Ultramarino, Mesa da Consciência, Casa de Bragança, Contadoria-Geral de Guerra, Tenência, armazéns com as suas grandes secretarias, e as de Estado do Reino, Guerra e da Marinha, cujos tribunais estavam no recinto do Paço, nos quais se perderam cartórios numerosíssimos livros e papéis, com grande detrimento da fazenda real e da dos particulares... "

E as preciosidades

ENTRE as muitas preciosidades que o fogo consumiu, foi muito sensível aos eruditos a perda de muitas e numerosas livrarias. Tem o primeiro lugar a biblioteca real que era numerosíssima e selecta: o senhor rei D. João V a tinha aumentado com grande número de livros modernos, e todos os antigos que se descobriram pela Europa; e uma grande cópia de manuscritos, assim originais como cópias bem escritas, tudo efeitos da sua sabedoria e magnificência.
A do marquês de Louriçal enchia e ornava quatro grandes casas, e era selecta em livros raros e excelentes manuscritos. Tinha sido formada pelos sábios condes da Ericeira, e ultimamente aumentada pelo conde D. Francisco Xavier de Meneses, cuja erudição ainda hoje admira, não só Portugal, mas toda a Europa.
A biblioteca do Convento de São Domingos estava em duas grandes casas e tinha muitos livros raros e grande número de manuscritos, que para ela deixou o erudito beneficiado Francisco Leitão Ferreira. Foi obra do padre frei Manuel Guilherme, que a constituiu pública com assistência de dois bibliotecários e renda grande para o seu aumento.
Na Casa do Espírito Santo havia uma grande e selecta livraria, e outra chamada Mariana, em que se admirava a maior colecção de livros que tratavam de Maria Santíssima obra do padre Domingos Pereira.
Ficaram também reduzidas a cinzas as excelentes e antigas livrarias dos conventos do Carmo, São Francisco, Trindade e Boa-Hora. Tiveram o mesmo sucesso todas as dos palácios que arderam, em que havia algumas muito estimáveis.
As particulares foram muitas, e entre estas era muito preciosa a do inquisidor José Silvério Lobo por numerosa e selecta. Em cinco casas de mercadores de livros franceses, espanhóis e italianos, e vinte e cinco lojas e casas de livreiros portugueses, se consumiram grandes livrarias...

[Extractos de "Memórias das Principais Providências"... de Amador Patrício de Lisboa, 1758]

O terramoto de Lisboa (2)

Continuação do post anterior "O terramoto de Lisboa".

"Continuaram os tremores de horas a horas com menos violência, mas com igual horror, temendo-se que a terra se abrisse com a veemência de tantos abalos. Comunicado o fogo ao castelo correu uma voz que se retirassem todos dos subúrbios da cidade, pelo perigo de pegar à pólvora que ali se achava, e matar os que tinham escapado ao terramoto. Com este susto fugiram quase todos para fora da cidade aquela noite, para uma ou mais léguas.

"Atribuíram-se depois estas vozes a alguns homens malvados, que quiseram ver a cidade desamparada para roubarem o mais precioso que havia nas casas. Causou este boato uma grande ruína, porque, podendo-se em algumas partes atalhar o fogo correu este livremente, destruindo tudo quanto o terramoto havia perdoado, achando-se uma grande parte dos moradores de tão populosa cidade com as suas casas inteiramente consumidas, sem delas poderem salvar mais coisa alguma que suas pessoas.

As religiosas, abertas as clausuras pelo temor das ruínas, que experimentaram os seus mosteiros, procuravam, divididas, ou os ou os campos para o refúgio. Algumas, refugiadas nas cercas dos seus conventos, esperaram clausuradas a misericórdia de Deus. Vagavam por as ruínas os sacerdotes, tanto regulares como seculares, absolvendo a uns, agonizando a outros.

O senhor rei D. José e toda a real família se achavam em uma das reais casas de campo de Belém (excepto o senhor infante D. Manuel que habitava o real Palácio das Necessidades), que não tiveram ruína, e saíram para o campo, onde se formaram grandes barracas de campanha, em que viveram alguns meses, enquanto se não fez o Palácio da Ajuda fabricado de madeiras, que depois ardeu em 10 de Novembro de 1774,. onde em seu lugar se fez o grandioso palácio que ainda não está concluído. O senhor infante D. António mandou fazer na real Quinta da Tapada de Alcântara duas barracas de madeira, como diremos quando tratarmos da sua morte.

Passada a primeira noite em fervorosos clamores e continuados sustos, cresceu a aflição em todos, experimentando a falta dos cabedais, que perdiam, e cuidadosos dos parentes, que lhes faltavam; dispersas a maior parte das famílias, choravam uns a falta dos outros.

Continuava o fogo a devorar aquelas coisas, que o terramoto não havia prostrado; e os ladrões, sem temor de Deus, e dos seus castigos, à vista deles entravam pelas casas e delas tiravam os cofres de dinheiro, as jóias e a roupa. Muitas famílias, cujas habitações não arruinou o terramoto, nem destruiu o fogo, ficaram pobres pelos roubos: atribuíram-se estes a muitos forçados das galés, e criminosos, que então saíram das prisões"...

2005/10/31

O terramoto de Lisboa





Amador Patrício de Lisboa, ou (de seu verdadeiro nome) Francisco José Freire, ou Cândido Lusitano, como era conhecido entre os poetas, "ofereceu à magestade fidelíssima de el-rei D. José I, nosso senhor", em 1758 "as Memórias das Principais Providências que padeceu a corte de Lisboa no ano de 1755" e sete décadas depois, frei Cláudio da Conceição, cronista-mor do reino transcreve uma parte da obra e dedica-a ao rei D. Miguel I. (In "Notícias do Terramoto", de Cláudio da Conceição. Editora Frenesi)


"SENDO este terramoto tão estrondoso, e tão memorável, eu devo dar dele aqui alguma notícia, apesar de se haver escrito sobre ele com tanta difusão que, só na livraria da real Casa das Necessidades, se acha uma colecção de doze volumes em quarto; segundo as notícias desse tempo, assim o escrevo.

Amanheceu o dia, em que a Igreja celebrava a festa de Todos-os-Santos, que era em um sábado, sereno, o sol claro e o céu sem nuvem alguma. Pouco depois das nove horas e meia da manhã, estando o barómetro em vinte e sete polegadas e sete linhas, e o termómetro de Reaumur em catorze graus acima do gelo, correndo um pequeno vento nordeste, começou a terra a abalar com pulsação do centro para a superfície; e, aumentando o impulso, continuou a tremer, formando um balanço para os lados do norte a sul com estragos dos edifícios, que ao segundo minuto de duração começaram a cair, ou a arruinar-se, não podendo os maiores resistir aos veementes movimentos da terra, e à sua continuação. Duraram estes, segundo as mais reguladas opiniões, seis para sete minutos fazendo neste espaço de tempo dois breves intervalos de remissão este grande terramoto.

Em todo este tempo se ouviu um estrondo subterrâneo por modo de trovão, quando soa ao longe. Escureceu-se algum tanto a luz do sol, sem dúvida pela multiplicação de vapores, que lançava a terra, cujas sulfúreas exalações muitos perceberam. Foram vistas em várias partes fendas na terra de bastante extensão, mas de pouca largura. A poeira , que causou a ruína dos edifícios, cobriu o ambiente da cidade com uma cerração tão forte que parecia querer sufocar todos os viventes.

A estes impulsos da terra se retirou o mar, deixando nas suas margens ver o fundo às suas águas, nunca dantes visto; e encapelando-se estas em altíssimos montes, se arrojaram pouco depois sobre todas as povoações marítimas, com tanto ímpeto que parecia quererem submergi-las, estendendo os seus limites. Três irrupções maiores, além de outras menores, fez o mar contra a terra, destruindo muitos edifícios e levando muitas pessoas envoltas nas suas águas.

Como era dia solene, estavam as igrejas cheias de gente ficando imensa debaixo de suas ruínas logo que as abóbadas e paredes destas se desfizeram, e caíram. Os que estavam ainda em casa e transitavam as ruas, igualmente uma grande parte foi vítima da mesma calamidade. Os gritos, alaridos, clamores ao Céu pedindo misericórdia, sucedendo-se uns aos outros, tudo consternava e movia a lágrimas. Nem os pais buscavam os filhos, nem esposas os consortes, nem os mesmos bens terrenos eram objecto do amor de seus proprietários; ninguém cuidava senão em salvar a vida, e pedir a Deus a salvação de suas almas.

Tinha muita gente buscado as margens do Tejo para se livrarem dos edifícios, temendo as suas ruínas: porém, entrando o mar pela barra com uma furiosa inundação de águas, fizeram o mais lamentável estrago, passando os seus antigos limites; e, lançando-se por cima de muitos edifícios fez aumentar o horror com a voz vaga que por toda a cidade se espalhou, que o mar crescia.

Logo depois do terramoto, primeiro se começou a ver arder o palácio do marquês de Louriçal, a igreja de São Domingos, o Recolhimento do Castelo, e outros edifícios, em que as luzes, ou fogões das casas, tinham comunicado o fogo aos madeiramentos. Isto, que aumentou as desgraças, fez multiplicar o susto. Jaziam pelas casas muitos doentes que, não podendo fugir, foram vítimas, e consumidos pelo fogo. Viu-se um religioso do Carmo calçado posto em uma janela muito alta, de onde não podia sair para dentro, nem para fora, pedir a absolvição a um sacerdote que passava de longe, e esperar resignado o fogo, que o consumiu.

Continuaram os tremores de horas a horas com menos violência, mas com igual horror, temendo-se que a terra se abrisse com a veemência de tantos abalos. Comunicado o fogo ao castelo correu uma voz que se retirassem todos dos subúrbios da cidade, pelo perigo de pegar à pólvora que ali se achava, e matar os que tinham escapado ao terramoto. Com este susto fugiram quase todos para fora da cidade aquela noite, para uma ou mais léguas. "

Principais sismos, em Lisboa, desde o séc XIV



data, intensidade (MM) náxima em Lisboa e descrição dos danos.
Fonte. Prof Carlos S. Oliveira in Revista da Protecção Civil, Set. 1988

Sebastião de Carvalho e Melo


Quando todos fugiram, Rei (recusou-se a voltar a Lisboa), corte, nobreza, clero, povo, o ministro de D. José I, futuro conde de Oeiras e futuro marquês de Pombal, estabeleceu quartel-general numa tenda no centro da zona arruinada e começou a "tratar dos vivos e enterrar os mortos".

Convento do Carmo



As ruínas ficaram como memória.

2005/10/17

Portugal em vias de perder a colecção Berardo

O celeiro 1994 Paula Rego
Por burocracia, sonolência governamental, inépcia, filosofia de deixa andar e logo se vê, a importante colecção de arte que Joe Berardo tem vindo a adquirir está em vias de ir parar a França.

Portugal não consegue (desde há cinco anos!) arranjar um local para ela. A França que não é parva já lhe ofereceu duas soluções e as insígnias de Chevalier de la Légion d'Honneur (ver post no puxapalavra)

Na colecção Berardo há muitos exemplares da pintura portuguesa do século XX alguns dos quais se podem ver abaixo.

Nadir Afonso

Maria José Aguiar-Colecção Berardo

Nasceu em Barcelos em 1948. Curso de Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde leccionou. Em 1987 recebeu o 3º Prémio Amadeo de Souza Cardoso, Casa de Serralves, Porto.

Luís Noronha da Costa

Nasceu em Lisboa em 1942. Licenciou-se em arquitectura e repartiu a sua criatividade e experimentação pela pintura e o cinema. Teve a sua primeira exposição individual na Galeria Quadrante em Lisboa nos anos 60, e expôs em muitos países da Europa e no Brasil.

��Robert Delaunay

helena almeida

fernando calhau

Carlos Calvet na Colecção Berardo

Carlos Calvet N:1928 em Lisboa.


Exposições colectivas no estrangeiro – (selecção): 1967 Bienal de S. Paulo, Bienal de Tóquio, 1970 Twenty Artists from Portugal, The Hudsun River Museum, USA, 1976 Arte Portoghese Contemporanea, Roma, 1984 “Surréalisme péripherique, Montréal. Exposições colectivas em Portugal (selecção): 1947-53 Gerais de Artes Plásticas 1949 Surrealistas, 1957 e 1961 Fundação Gulbenkian, 1972 Expo AICA, SNBA, 1982 História Trágico Marítima, SNBA, Lisboa.

Amadeu Sousa Cardoso-Colecção Berardo

Álvaro Lapa- Colecção Berardo


Pintor, poeta, e escritor, nasceu em Évora em 1939 e vive no Porto. Em 1956-60 frequenta a Faculdade de Direito e a de Letras, em Lisboa. Em 1962 começa a pintar e a dar aulas no ensino técnico, vindo a ser expulso da função pública, e só é reintegrado em 1976. Em 1962 conhece Areal. Expõe pela primeira vez em 1964... Em 1977 publica o livro “Raso como o chão”. Pintura e escrita são indissociáveis no trabalho de Lapa... Trabalho introspectivo e de conhecimento, a sua pintura é um território onde se cruzam diferentes domínios de criação – o filosófico, o literário, o político. Álvaro Lapa tem também importante trabalho na área da teoria estética, da poesia e da literatura, domínios que se cruzam frequentemente. Aliás, produziu uma série de Cadernos dedicados a 18 escritores, entre os quais se encontram Rimbaud, Miller, Michaux, e William Burroughs. [aqui]

Alberto Carneiro-Colecção Berardo

Escultor nasceu em 1937, em S. Mamede de Coronado. De 1947 a 1958 trabalhou nas oficinas de arte religiosa da sua terra natal, onde se iniciou nas tecnologias da madeira, da pedra e do marfim. Licenciou-se em Escultura na Escola Superior de Belas Artes do Porto e pós-graduou-se na Saint Martin’s School of Art de Londres. O corpo, a vida e a natureza sempre foram as referências primeiras e essenciais - as grandes linhas conceptuais do trabalho deste artista, fortemente ligado a uma espiritualidade oriental que dá sentido à sua obra.
Nos anos 80, retoma o trabalho sobre madeiras preciosas (buxo, cedro). Mântrica (1987-88) apresenta pontos de contacto com as mais antigas criações de Carneiro. Mântrica, é, também ela, um exercício místico, na tentativa constante de “se reencontrar nas raízes de si mesmo”.
Tem organizado, participado e dirigido cursos, debates e seminários sobre dinâmica corporal, sobre arte e sobre pedagogia. Foi professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. [Link]

2005/09/13

Águas Silenciosas


Um belíssimo filme que não tem tido a promoção que merece. Ainda está aí. Agora no Quarteto em Lisboa.
A ficha técnica:
Título original: Khamosh Pani.
Título em Portugal: Águas Silenciosas
Coprodução: Paquistão, França e Alemanha. 2003
Realização: Sabiha Sumar. Paquistanesa de Karachi.
Intérpretes: Kirron Kher (a mãe), Aamir Ali Malik ( o filho Saleem), Arsad Mahmud, Salman Shahid
Cinco prémios, em 2003, no Festival de Locarno, incluindo o Leopardo de Ouro para o melhor filme.
Estreia em Portugal: 18 de Agosto de 2005 (com 2 anos de atraso).

Ayesha é viuva, vive em Charkhi, uma aldeia do Punjab paquistanês, é muçulmana. Ganha algum dinheiro a ensinar o Corão a meninas da aldeia. Mas ela que pertenceu à comunidade de religião Sik ensina um Corão de amor a todos os homens e... a todas as mulheres.
Vive feliz, para o filho de 18 anos que procura ajudar a encaminhar-se na vida. Feliz tanto quanto o permitem os fantasmas do passado, as tenebrosas e ondulantes sombras da água funda do poço da aldeia, onde a mãe e irmãs foram afogadas para prevenir eventual desonra do pai e dos irmãos.
São histórias do passado, de 1947, quando a Inglaterra se vê obrigada a largar o império da India. A maioria muçulmana que habita maioritariamente o Paquistão, a Ocidente e a zona oriental que viria depois dar origem ao Bangladesh, contrariando os propósitos de Gandhi, separa-se da India com o agrado ou apoio da velha Albion.
Esta separação religiosa deu origem a milhões de deslocados de indus e siks para a India e de muçulmanos para o Paquistão. E a guerras e a disputas. Até hoje. Mais de meio milhão de mortos pelo meio.
Naquela aldeia a comunidade de religião Sik abandonou a sua terra que agora pertencia a um novo país chamado Paquistão para glória de Alá. Os siks abandonaram a sua terra mas antes que ela fosse ocupada pelos fiéis de Maomé e pudessem abusar das suas mulheres obrigaram estas, esposas e filhas a suicidarem-se atirando-se ao poço da aldeia. O odioso fanatismo sik à altura do odioso fanatismo muçulmano. Não estava lá o odioso fanatismo católico de antanho nem o das seitas evangélicas extremistas que apoiam (e se servem) de Bush.
Ayesha não consegue atirar-se ao poço. Ama a vida e não se submete. Perseguida pelos irmãos, pelo pai pelos siks ciosos da sua enorme honra consegue fugir. Integra-se na sociedade muçulmana. Uma muçulmana multicultural, como hoje diríamos, que já sofreu e aprendeu muito para se submeter a ódios fanáticos.
O filho não tem emprego e está num momento instável da sua vida sem saber que rumo lhe dar, tão minguadas são as perspectivas. Apaixona-se por Zubeida que tem planos de estudos universitários que o ama e com ele quer casar.
Estão em 1979 (é essa a data dos acontecimentos) incomparavelmente mais livres que hoje no Afeganistão. Encontram-se a sós, trocam olhares com ternura, acaríciam-se as mãos, beijam-se, sonham sonhos de amor.
É então que chega à aldeia dois jovens clérigos fervorosos catequisadores que querem pôr a vida dos aldeões nos eixos. De acordo com o Corão, com a charia, de acordo com o poder delegado
pela Mesquita fundamentalista e pelo ditador Zia Ul Haq. Infiltram de intolerância e medo o quotidiano pacífico da aldeia, ameaçam e aliciam.
Saleem deixa-se ir. Afinal talvez tenha um futuro! Importante. Seguro. E talvez até poder. Quiçá pequeno ou não? E, paulatinamente, o que era amor e claridade o fundamentalismo islâmico vai transformando em ódio e trevas.
O general Ziha Ul Haq tomou o poder com um golpe militar há pouco mais de um ano e quer fortalecê-lo. Para isso conta com o clero da Mesquita, com a Idade Média, com a repressão em nome de Alá. Começou por mandar enforcar o 1º ministro Ali Bhutto e encetou uma reforçada islamização do Paquistão com o apoio entusiástico dos Estados Unidos.

Como que por ironia mandava então, o depois nobelizado, Presidente Jimmy Carter. Embaixador da paz chegado à reforma.
É que estava na mira o Afeganistão invadido pelos soviéticos que socorriam o Governo pró comunista ameaçado pelos EUA, Arábia Saudita e agora com maior empenho pelo Paquistão.
Criaram-se milhares de madrassas - escolas corânicas e de ódio. De ódio ao comunismo, de ódio ao Ocidente, de ódio às mulheres. Às suas mães, às suas irmãs, que desprezam e escravizam. Escolas de terrorismo. Ali se formou o exército dos Talibans, ali se organizou e treinou a Al Khaeda, ali se lavou o cérebro a dezenas de milhar de jovens sem trabalho, nem perspectivas, com o fanatismo religioso e as técnicas modernas do terror.
Especialistas norte-americanos, serviços secretos e exército do Paquistão, petrodólares da familia Saud que tem um país como sua quinta.
Exércitos de terroristas ao serviço do "Bem". O "Bem" segundo os cânones fundamentalistas do Islão Wahabista e conjunturalmente um "Bem" do Ocidente.
Primeiro no Afeganistão, depois ali ao lado na Cachemira disputada à India, na Tchechénia e Ásia Central, então ainda soviética, depois na Jugoslávia, na Bósnia e depois... já sem teatros de guerra e abandonados pelos Estados Unidos, em Nova York, nas Twin Towers, em Washington no Pentágono, e na Indonésia, e na Turquia, e na Arábia Saudita, por considerarem estes países ao serviço dos EUA, e num teatro de Moscovo, e numa escola de Beslam, que pertencem ao reino do diabo, nos comboios de Madrid, no metropolitano de Londres e o que falta vir.

Mas o filme não toca no contesto político nem em política, (como eu, ad contrario, faço aqui) salvo na recém chegada ao poder do ditador Zia Ul Haq.
E esse é um segredo que torna bom o filme. Não porque a ignorância acrescente algo, ciência ou arte, mas porque oferece a todos, de esquerda ou de direita, do centro ou agoniados com a política, acompanhar sem o campo de obstáculos dos preconceitos ideológicos, com a cabeça e o coração livre, o drama duma família (e duma aldeia e de um país!) o destroçar do amor, da fraternidade, da sanidade moral e intelectual de pessoas que começamos a amar.
Há que ir ver o filme. As salas estão vazias. Pode-se escolher o lugar. Antes que se vá.

2005/09/09

Fernando Botero

Nasceu em 1932, em Medelim, Colômbia e é um dos mais famosos artistas plásticos vivos.
Desde muito cedo começou a pintar e a expôr mesmo sem formação académica. Aos 20 anos estuda arte em Madrid que continua em Florença depois de passagem por Paris e vários centros artísiticos italianos onde se entusiasma pelos pintores renascentistas. Alguns dos seus quadros célebres são, como os quadros que a seguir se apresentam, réplicas de pinturas dos grandes mestres que admirava, Leonardo da Vinci com a Gioconda ou Piero della Francesca



mais tarde, em meados de cinquenta, estuda Rivera e Orosco no México e em seguida os modernos norte-americanos.
O seu estilo volumoso, homens rechonchudos, mulheres anafadas, animais e até naturezas mortas gordas, nasce nos anos 60 e torna-se desde então a sua marca distintiva.












2005/08/12

Olá Paulo!

Eh pá! li o teu artigo, ontem no Público, sobre "os incêndios do regime" ou sobre "a piolheira" como diria D. Carlos . Vou pô-lo ali para quem quiser ler . Que não perdem o tempo.
Então como é que vais aí em Podentes com essa cinza toda no teclado?
Fugiste da cidade, ao que dizes. Realmente há muito que não te via. Nem no Cristóvão de Moura!
Faxavor tira da cabeça essa ideia de emigrar. O país precisa é de mais Varela Gomes e não de menos. Gente rija. De boa cepa. De carácter.
Um abraço ao pai João, à mãe Gena, à Geninha e à tua irmã mais nova. Não me lembro do nome dela. Fui ao livro, ao "Tempo de Resistência" onde o teu pai fala das 750 cartas escritas à família nos sete anos em que o fascismo o encarcerou por ser um homem honrado e valente. Mas o teu pai só tratava a filha mais nova, ainda muito novinha, por Chuchu... pronto um abraço para a Chuchu.
Ah o livro é de leitura obrigatória (este e os outros que escreveu) para quem quiser conhecer o país que é o nosso e um grande Homem. [Tempo de Resistência, Varela Gomes - Ler, editora -Lisboa 1980.]

2005/08/06

Hiroshima - foi há 60 anos


8 e 15 minutos da manhã. A cidade já trabalhava. "Os comerciantes já tinham aberto as lojas, os estudantes estavam nas salas de aula, os escritórios e as fábricas funcionavam". A cidade, um tanto longe da guerra sentia-se um pouco mais segura do que outras por não ter valor militar.

Na Casa Branca, em Washington, o presidente Truman não partilhava as preocupações humanistas do seu antecessor Roosewelt e não pensava bem assim. Considerou que 343 mil pessoas, se mortas de uma só vez, poderiam constituir um muito aceitável objectivo militar.

Podia-se até adocicar um pouco as coisas. O avião B29 que faria "o trabalho" seria baptizado ternamente com o nome da mãe do piloto, Enola Gay e a bomba podia ter um nome carinhoso "Little Boy".

Às 8 e 15 da manhã um relâmpago entre branco e azul iluminou a cidade mais que o Sol e 5,5 milhões de graus Celsius levantaram um cogumelo róseo que cercou o céu e a cidade. Num raio de 500 metros ficou quase tudo reduzido a pó. 10 mil pessoas foram evaporadas mas de algumas ficou uma "sombra". À sua volta as pedras ficaram mais queimadas e escuras e desenharam assim a última posição no último momento das suas vidas.

Morreram cerca de 300 mil pessoas das quais 80 mil na primeira hora. Muitos milhares foram morrendo lentamente ao longo de muitos anos, com as radiações.

Washington desculpou-se com a poupança de sangue de militares americanos ao acelerar, assim, o fim da guerra. Outros acham que a guerra já estava decidida e fora uma forma de intimidar a URSS cujos exércitos levavam de vencida o grosso das tropas japoneses, destacadas na Manchúria.

Civis, longe dos combates, cidade sem valor militar, muitos não hesitaram em chamar a Hiroshima e a Nagasaqui (3 dias depois) o maior acto de terrorismo da história.
Washington achou que valeu a pena. Hiroshima e Nagasaqui não pensam assim e comemoram todos os anos a data do crime e exigem o fim das armas nucleares.

2005/07/16

Cunhal visto por Urbano

Urbano Tavares Rodrigues, "provavelmente o melhor amigo de Álvaro Cunhal" ofereceu-nos, na entrevista que deu a Judite de Sousa, na RTP, em 2005-07-13, não o Cunhal que todos conhecemos mas talvez o que ele - ilustre intelectual comunista não sectário - gostaria que Cunhal tivesse sido.

Urbano diz-nos que Álvaro Cunhal conhecia as chagas do socialismo real e que tinha para o socialismo que ambicionava para Portugal concepções muito diferentes, nomeadamente com democracia e pluralismo partidário. Questionado por Judite de Sousa explicou que nunca denunciou tais falências para não dar armas ao imperialismo.

Oh Urbano! (Intelectual, cidadão e amigo que muito admiro e estimo) isso eram coisas que Cunhal dizia mas... repetir isso não será diminuir o revolucionário? Aquele Cunhal de raízes bem assentes nos anos trinta, quarenta e sessenta do século passado? É pelo menos uma versão social-democratizante do Grande Cunhal e um labéu (no interior do partido de Jerónimo de Sousa) que praticamenmte o atiraria para o rol das "folhas secas".

Sugestionado pela amizade que o unia a Cunhal, Urbano Tavares Rodrigues conta-nos que Cunhal apoiou a Perestroica de Gorbatchev e que desta só condenou o rumo que, no final, este lhe deu?
Cunhal até podia dizer isso. Mas só para consumo externo. No entanto - oh meu querido amigo Urbano! - vistas as coisas com olhos que habitaram a Soeiro Pereira Gomes, nada mais longe da realidade!

Assisti dia a dia, durante os quatro anos que a Perestroica durou, às reacções de Cunhal e dos outros velhos (e novos!) dirigentes do PCP. Cunhal e a grande maioria daqueles continuavam, por necessidade a incensar a União Sóviética, a grande rectaguarda, mas tiveram relativamente à Perestroica sempre as maiores reservas e antipatia. Uma antipatia à flor da pele, reacção típica a um corpo estranho, seguida depois por uma crescente ainda que reservada condenação, muito antes ainda de se adivinhar a queda de Gorbatchov e o fim da União Soviética.

Outra coisa não seria de esperar. Nem é justo negar-lhes o "feeling", a clara percepção de velhos e experientes "revolucionários bolcheviques" de que aquilo ia desfigurar, senão acabar com o verdadeiro, o único, socialismo real existente, questionar a prática do PCP, pôr em causa a cartilha marxista-leninista, bíblia do partido e principalmente "retirar o tapete" à direcção do PCP, com Cunhal à cabeça, à semelhança do que sucedeu com todos os líderes comunistas que não se reciclaram imediatamente a seguir ao 20º Congresso do PCUS que denunciou o estalinismo.

Podemos anuir em que Cunhal e a direcção do PCP aceitaram a Perestroica nos seus primeiros (muito iniciais) momentos na estrita medida em que admitiam que ela não passava de mais uma operação de cosmética. Para mobilizar as massas. Mas muito cedo todos perceberam que a Perestroica não era, afinal, cosmética e que iria mudar "aquele socialismo".

Até 1989 ninguém admitia, nem os "sovietólogos", nem a CIA, nem mesmo Vasco Pulido Valente, com a excepção talvez do KGB, que aquilo ia dar no que deu. Cunhal e o PCP eram esclarecidos adeptos de um socialismo de rosto humano para Portugal. Não tanto por sensibilidade ou natural simpatia mas por óbvia estratégia. Se fosse possível!!! Assim como aquele pai portuga dizia ao filho que, no século passado, apertado pela miséria se via obrigado a emigrar para as Américas: filho vai. Vai e enriquece. Honestamente! Se possível.

2005/07/12

Alcatruzes...



Alcatruzes em descanso é o título desta fotografia em Click Portugal um blog que oferece Portugal em fotografias, de Platero um visitante e comentarista do Puxa Palavra.
Conheci estas armadilhas (que são armadilhas! Os polvos que o digam) na praia de Olhos de Água, no Algarve, no fim da década de 70.
O meu amigo Leonel, pescador, político e lídimo representante da sua classe, levou-me por gentileza, no barco àquele colar de brancas pérolas que pontuavam o mar, lá longe, numa extensão de um quilómetro.
Ali ele deixou de remar e enquanto o barquito se entretinha a baloiçar nas águas tépidas Leonel deitou mãos à corda que as águas escondiam e puxava como quem tira água de um poço, um alcatruz atado na sua profunda extremidade. Depois remava uns metros e puxava outra corda vertical atada à corda mestra sustentada à superfície por pequenas boias.
Alcatruz numa mão, a outra arrancava-lhe do fundo, cá para fora, um polvo que, fiado nos homens, ali se abrigara.
Os mil braços do polvo enrolavam o braço do Leonel e ele com a outra mão onde faiscava uma ponteaguda navalhinha, com a naturalidade de quem tem de tratar da vida e não tem tempo para pensar em tragédias de cefalópode enterrava-lha na cabeça, entre os olhos.
O polvo que gostosamente comemos grelhado com batata a murro, azeite e alho, então, rendia-se. Desfalecia. Os mil braços largavam lentamente o pulso do meu amigo pescador e uma onda branca crescia, em círculos, da cabeça para os tentáculos e desmaiava, deixando-o exangue, o incauto polvo.
Nem todos os alcatruzes tinham "peixe" mas muitos abrigaram traiçoeiramente quem deles, por um momento, teve necessidade.
Depois voltámos. Leonel conversava muito satisfeito com a sorte e eu que não o ouvia olhava ao longe a aldeia de pescadores donde largámos, a oscilar, para cima e para baixo, em tranquilo compasso.
Quantos quilos dará? Multiplicava Leonel.
Quantos de nós não passamos de polvos de dois braços? Esforçava-me eu por entender.

Um homem do mundo



O Alexandre Narciso tem belíssimas fotografias no EELKO VAN MULDER e no Crónicas de Um VagaMundo que lhe sucedeu e também interessantes relatos das sete partidas do mundo que ele
por razões profissionais incansavelmente percorre. Roubei-lhe a fotografia apesar de não ser fácil reproduzi-las. Boa viagem Caro Amigo.

2005/07/03

Ao cuidado do ministro António Costa

Ministro das polícias mas também da reforma da Administração Pública.
Já vos tenho confidenciado conversas, muito úteis aliás, com o meu vizinho, o Senhor Antunes. Este Sábado ia ler o jornal no aconchego de uma bica, no nosso café preferido, ali no largo e lá estava ele.
O Sr. Antunes mudou há pouco para este bairro e contou-me muito à puridade: não espalhe por aí porque o Governo já tem que baste, mas mudar de casa é uma odisseia!
- A trapalhada das mudanças, ajudei eu, fazendo-me entendido.
- Oh amigo não é nada disso, as mudanças foi um dia! São as formalidades para poder pôr tudo em ordem e viver em paz.
- Como assim?
- Olhe, tenho direito à isenção do IMI, a antiga siza, fui à repartição de finanças.
- E então? Uma bicha enorme...
- Isso foi o menos, nem tinha muita gente. Fui muito bem atendido mas a Senhora recomendou-me, tem de trazer uma declaração da Segurança Social que prove que não deve nada. Resolvi ir à Loja do Cidadão. Aí sim a bicha foi duas horas. Mas como há a senha, fui ao café, fiz umas compras e tal. A funcionária às tantas pergunta-me: também foi trabalhador independente (TI)?
- Também, mas coisa de nada, ao mesmo tempo que trabalhava para o patrão.
- Tem de ir às Finanças e trazer um comprovativo do período em que esteve inscrito como TI.
- Então e a Senhora não pode ver isso aí no computador?
- Tenho muita pena mas não há comunicação.
Na semana seguinte voltei às Finanças e lá me deram o papel. A troco de 4,46 € e duas bichas. Uma para comprar o papel na tesouraria e outra no andar de cima para o funcionário me atender. Foi muito simpático porque queria que eu lá voltasse no dia seguinte mas depois dum escarcéu dos diabos em que pus o Governo pelas ruas da amargura atendeu-me logo ali.
Na semana seguinte voltei à Loja do Cidadão. Para a Segurança Social, ali, as bichas são sempre de horas mas já levava um livro. Foi óptimo porque me atendeu a mesma funcionária já quase amiga. Dei-lhe triunfante o papel das Finanças e estendi-lhe logo a outra mão para ela me dar a declaração de que não devo nada.
- Ah... mas há aqui um problema. É que há um período em que você foi TI e não estava a descontar para a SS.
- Pois, aclarei logo, é que aí eu estava na função pública e descontei para a CGA. Ora veja lá!- pedi-lhe eu para ela ver no computador.
- Pois é, mas não temos comunicação, não temos acesso à CGA.
Face ao meu mortal desapontamento a Srª disse logo mas não há problema é só descer as escadas e em frente está o balcão da CGA.
Fui à mulher da CGA. Confirmou logo. Está, está sim senhor, está aqui.
- Óptimo - disse eu - então faça-me o favor de comunicar lá para cima para a sua colega da Segurança Social.
- Oh vizinho - dizia-me consternado o Senhor Antunes que, tão longa a história não me deixava ler o jornal - você não faz ideia a cara de espanto e reprovação da funcionária: Isso não é assim! O sr tem de ir ali comprar o impresso paga 7,05 € e eu preencho, e porque torna e porque deixa. Obedeci. Que remédio! Fiquei à espera mas ela depois de me pedir uns dados disse, agora o Sr recebe a informação em sua casa daqui a 10 dias. Aí amandei-me ao ar. Raios e coriscos mas em que m... de mundo estamos que não pode dizer ali para a sua colega! Então vou-lhe pedir para ela vir cá abaixo ver no seu computador.
- Advinhe o que aconteceu?
- ?
- Pois vai a mulher zanga-se comigo. Que há regras e as coisas não podem ser como eu queria e tal. Fui à outra lá de cima, à da SS, mas só para me queixar da colega da CGA e mais uma vez protestar contra o sistema.
O papel da CGA levou 15 dias a chegar e uns dias depois lá voltei à Loja do Cidadão e à SS. A senhora já me conhecia e com pena de mim fez de conta que não estava a ultrapassar ninguém, chamou-me ali de lado e disse vá dê-me lá o papel que despacho-o já. Aguardei. Pode ir embora já está tudo, disse-me ela.
- Tudo como? Quero o papel a dizer que não devo nada.
- Ah, não é assim. Vá descansado que vai pelo correio. Dez dias e tem-no lá.
Ela fez-me aquele favor não tive lata de protestar mais. Meti o rabo entre as pernas e vim embora.
- Sabe o que é que aconteceu?
- Eu não - respondi lépido ao Antunes, a adivinhar desgraça.
Passados não dez mas quinze dias veio o papel mas não dizia preto no branco, como eu queria, que não devia nada. Falava nuns decretos mais uns artigos e que agora estava tudo legal até que a situação se alterasse. Achei esquisito. Raio, será que me enviaram o papel errado?. Vou à loja do Cidadão ou vou às Finanças? Fui às Finanças. Assim como assim se o papel fosse bom ficava logo o caso arrumado.
Bicha, o costume. Agora diz-se fila, por causa dos brasileiros que acham que bicha é outra coisa. O Homem das Finanças até se rio, não é nada disto, conheço muito bem o papel, já hoje recebi três.
Escoroçoado voltei, uns dias depois, à Loja do Cidadão. Mas já sem força nem vontade para protestar. Já estava por tudo.
Esse papel - esclareu-me um homem, desta vez era um homem, depois de mais de uma hora de espera - essse papel é a dizer que depois da informação que nos trouxe das Finanças o seu registo na SS como TI está perfeito.
- E então o papel de que preciso para pedir a isenção do IMI?
- É porque ainda não chegou?
- Mas se era 10 dias e já lá vão mais de 15?
- Há-de chegar.
Em resumo, oh vizinho - contava-me o Senhor Antunes, já completamente insensível à burocracia, esvaído de forças - tinha um prazo de 60 dias para o IMI... julgava que era demais e afinal não me vai chegar. Já lá vão quase dois meses agora devia partir de férias e o papel não chega. Aqui para nós, conhece lá alguém no Governo?

2005/06/30

BA 3 Tancos (2)

Na véspera da Acção de Tancos (7 de Março de 1971) ultimávamos os preparativos. No dia seguinte fizemos uma simulação do que se iria passar dentro do hangar, num apartamento no cruzamento da Av. dos EUA com a de Roma, em Lisboa (eu fazia lá ideia que 2 andares abaixo morava o meu primo Celestino! Felizmente que não nos cruzámos, não que ele não fosse contra o regime mas nestas coisas não podemos meter "estranhos" mesmo da família).
A casa serviria de refúgio para o Ângelo de Sousa que teria de abandonar a Força Aérea e cerca de um mês depois, quando tudo acalmasse, ser clandestinamente passado para o estrangeiro. Carlos Coutinho e Eusébio foram levados de olhos fechados para o local e depois para o prédio e o andar e do mesmo modo sairam sem poderem identificar o esconderijo futuro do Ângelo que eu teria de abastecer de alimentos, café, livros e entusiasmos.

Dali partimos para Tancos na noite de 08MAR71. Eu no Volkswagen com o Ângelo e o Carlos Coutinho com o António Eusébio no seu célebre "carro da ARA" um Opel Cadete verde escuro.

Próximo da Base trocámos de carro, eu voltei para trás e esperei-os na estação do comboio de Santarém (uma espera dramática, receei com a demora que já não voltassem. Deveria ter-me-ido embora, de acordo com as regras. Mas pareceu-me na altura que aquela regra não estava bem e decidi esperar ainda mais. Finalmente vieram. Uma hora, uma hoooora, céus!!! depois do previsto. Jurei para nunca mais! Mas só por uns momentos.)



Agora um extracto do livro:

"Os nossos preparativos corriam tão bem que não podíamos ima­ginar que algum perigo inesperado pudesse ainda levar tudo a perder. E foi o que esteve à beira de acontecer. Depois de ter alugado o Volks­wagen com documentação falsa, sem qualquer incidente, na antevéspera da acção, dirigi-me à arrecadação nos arredores de Lisboa onde tinha as cargas explosivas e incendiárias. Com elas enchi o pequeno porta bagagens do automóvel e fui, ao volante do Carro do Povo ter com o Carlos Coutinho que me esperava perto da Praça de Espanha. Dali partimos os dois para Belém onde ficava uma garagem alugada e onde o carro ficaria até partir para Tancos. Quando entrámos na Avenida de Ceuta a caminho de Alcântara, seriam umas nove horas da noite, passei o volante ao «Meneses» para ele conhecer o carro e exercitar-se um pouco, antes de no dia seguinte ter de o guiar, desembaraçado, até à base aérea.
Seguíamos em descontraída e animada conversa quando inesperadamente esbarrámos com um invulgar aparato policial que enchia a rotun­da de Alcântara de agentes da Polícia de Choque e de cães-polícia. Com o carro cheio de explosivos, ficámos siderados. O nosso susto foi maior pelo inesperado. Não vimos à distância todo aquela força policial, que a nossos olhos assustados parecia superior a um batalhão. Vínhamos conversando alegremente e, sem aviso, desaguámos de supetão no meio daquela desproporcionada força policial. Tão fulgurante quanto a presença pouco recomendável dos polícias me veio a lembrança de que um carro alugado só pode ser legalmente conduzido por quem o alugou. Estávamos em transgressão! O Coutinho conduzia o carro bem por dentro da rotunda o mais longe possível dos polícias que pejavam as bermas. Suponho que me encolhi. Pelo menos interiormente. Para incomodar o menos possível suas excelências os polícias, os cães e os rádios. Foi tudo tão rápido que quando ainda íamos no meio do susto já saíamos do Largo de Alcântara totalmente incólumes, a caminho da marginal.
Só por milagre nenhum daqueles polícias ali especados a verem-nos passar se meteu connosco. Foi porque fizemos no escuro do carro um ar muito humilde e respeitador da lei, comentava para mim o Carlos Coutinho, uns minutos depois, já a descontrair e com um riso que me parecia ainda um pouco amarelo. Quem sabe se não toparam mesmo quem nós éramos e o que levávamos e decidiram: deixemos lá os rapazes seguir em descanso para não andarem sempre a dizer mal da polícia! Respondi ao meu companheiro. Já aliviados o Carlos parou o carro e trocámos de lugar passando eu a conduzir. Seguíamos então pela marginal naquele estado de espírito bonançoso que sucede às grandes tempestades. Refazíamos forças com prognósticos de bom tempo. O Carlos Coutinho animava-me e animava-se:

– Encontros destes são coisas que só acontecem de longe em longe. De dois em dois anos.
Dispunha-me a concordar plenamente quando, saindo não sei donde, se me atravessa ao caminho um polícia a mandar-me parar. Fiquei petri­ficado. Resmoneava, inaudível, indignado, sentindo-me vítima de intole­rável injustiça: mas que raio é isto? é uma conspiração ou quê? Simultaneamente veio ao de cima como primeira preocupação não me atrapalhar na condução. Não só a carta de condução era falsa como, sem ter tirado carta nem praticado o suficiente, guiava mal. Parei o carro e procurei responder ao boa noite do bem educado guarda com um tom de voz de descontraída calma.
– Os seus documentos! – Pediu-me o polícia.
Entreguei tudo. Certinho. A carta de condução, o livrete, o título de propriedade, o documento do aluguer, o meu bilhete de identidade. Tudo falso como convinha! Foi o que traiçoeiramente me veio à cabeça dizer. Felizmente que só em pensamento. O guarda examinava os documentos um a um. Pelo canto do olho reparei no escuro da berma da estrada, três motos e mais dois polícias de trânsito. O homem era minucioso o que não me animava. O meu colega não sei como estava. Só reparei que tinha as mãos apertadas sobre as pernas e olhava em frente pretendendo talvez insinuar que estava completamente desinteressado do que se estava a passar. Para criar mau ambiente e acelerar o compasso do meu coração o desagradável guarda começou a tomar umas notas num papelinho qualquer. Talvez para me animar, não sei bem, deu-me na cabeça conversar, com naturalidade, com o polícia.
– Então o que é que se passa? É a segunda barreira por que passa­mos. É ladroagem?
Não me respondeu. Continuava a escrevinhar. Não conseguia evitar maus pensamentos e deixar de me interrogar, o filho da puta está a tirar notas dos documentos? Ainda abri a boca para dizer mais qualquer coisa que quebrasse aquele pesado silêncio quando conclui que era mau sinal ele não me responder. Calei-me. Por fim após uma eternidade levantou a cabeça do papel estendeu-mo e despediu-se com um boa noite tão lacónico como o primeiro. Ainda sem perceber bem o que se passava soletrei o papel que desconsoladamente não tive outro remédio senão receber da mão do polícia. Afinal, que surpresa! A letrinha miúda e a lápis informava simpaticamente uma eventual patrulha que posteriormente nos interceptasse «que este senhor condutor já tinha sido inspeccionado».
Nem queria acreditar! Era afinal uma espécie de salvo-conduto. Atestado de bom comportamento. Prova… não direi de bagagem legal, que não foi objecto de atenção, mas pelo menos de documentação sem mácula. Rezei a todos os santinhos para não arrancar com o carro aos solavancos. Fui atendido. Deslizei com o Carlos Coutinho e tudo o resto, com surpreendente suavidade.
Perdemos o gosto para mais conversas e só quando finalmente arru­mámos o carro, o Carlos exclamou enfático com o ornamento de palavras próprias e sonoras que dispensam reprodução que há dias em que não se pode sair de casa!

A Acção da Base Aérea de Tancos (1)

Para criar relações ou até, se possível, amigos na blogosfera usei a consagrada técnica de deixar um comentário nos seus blogs. Às vezes a iniciativa pega. Sucedeu, por exemplo, com a Mona Lisa, com o Alexandre Narciso ou com a Micas.
De vez em quando deixam aqui no Memórias ou no Puxa Palavra simpáticos comentários. Outras vezes chegam mesmo a atribuir-me virtudes ou feitos que relevam apenas da sua generosa amizade.
Gostam de visitar memórias antigas que aqui vou registando. Assim e para não desmerecer da sua amizade vou transcrever algumas breves passagens do livro que conta a história da ARA. Começo pela acção de Tancos.



Esta operação armada foi planeada e meticulosamente preparada pelo Comando Central da Acção Revolucionária Armada - ARA (Jaime Serra (50 anos), Francisco Miguel (63), Raimundo Narciso (33)) com a colaboração essencial do então furriel piloto de helicópteros na Base Aérea de Tancos, Ângelo de Sousa, durante cerca de 6 meses e descrita em 50 páginas do citado livro. A sua execução deve-se a três homens de coragem: Carlos Coutinho, jornalista (28 anos), Ângelo de Sousa, bancário (24) e António João Eusébio, estucador (28).



Eis um extracto do comunicado então emitido pela ARA:

"Um comando militar da Acção Revolucionária Armada levou a efeito, com pleno êxito, na madrugada do dia 8 de Março [de 1971], uma importante e complexa acção contra o aparelho militar da guerra colonial. Este comando penetrou audaciosamente no hangar principal da Base Aérea Nº3, em Tancos, destruindo completamente, com cargas explosivas, toda a frota de helicópteros militares estacionados nesta base militar, assim como vários aviões de treino."



Um relatório da Base Aérea que encontrei na Torre do Tombo, no arquivo da PIDE quando preparava o livro citado, mensionava:

"28 aeronaves atingidas, 12 totalmente destruídas, 1 irrecuperável, 15 com destruições de diferente grau e recuperáveis".

Também na Torre do Tombo encontrei um relatório secreto, da Secretaria de Estado da Aeronáutica de então onde se dizia que:

"...
1.- Cerca das 03.20 do dia 08MAR71, deflagrou no Hangar Norte da Base Aérea Nº 3 (Tancos), um violento incêndio iniciado por complexo sistema explosivo, cujo fulcro se localizou num engenhoso sistema de relojoaria."
..."

2005/06/15

Como conheci Álvaro Cunhal

O que se segue é um extracto do livro ARA - Acção Revolucionária Armada que publiquei em 2000 (Ed. D.Quixote)

Em Moscovo conheci Álvaro Cunhal e Francisco Miguel. Um dia depois da minha chegada à capital soviética, nos primeiros dias de Janeiro de 1965, Álvaro Cunhal veio ao Hotel do Partido. Quando desci do quarto e cheguei ao «hall» Cunhal estava com Manuel Rodrigues da Silva. Dirigiu-se para mim, com um aperto de mão vigoroso interrogou-me sobre a viagem, se estava bem alojado, se não me faltava nada.
Não o conhecia pessoalmente mas não foi necessária apresentação para perceber imediatamente com quem estava a falar. O carisma, a desenvoltura de líder, sem excessos, apenas quanto baste, saltava à vista. Conduzindo as operações, Cunhal convidou-nos para tomar o pequeno almoço no restaurante do hotel. Aproveitou para me observar e dar uma informação politicamente correcta, sem chavões, salpicada de notas críticas a aspectos secundários da sociedade soviética.
A conversa, agradável, solta, «fraternal», não era um desperdício de tempo. Era, como depois observei durante dezasseis anos, nas suas intervenções no Comité Central, uma permanente aula política e ideológica de formação de quadros. A rápida e sintética informação sobre a União Soviética caracterizava-se por revelar simultaneamente a grande superioridade do comunismo relativamente ao capitalismo e a capacidade de análise de Cunhal que não deixava em branco as insuficiências o que conduziria qualquer interlocutor a dar uma nota alta ao «líder» e a considerar credível a informação.
No fim do pequeno almoço Cunhal tratou assuntos importantes em breves palavras, dirigidas ao Manuel, relativamente às quais dei mostras de não estar a ouvir e disse, depois para nós dois, que não nos podia acompanhar no programa que os camaradas soviéticos já tinham preparado mas que voltaríamos a ver-nos antes de eu seguir para Cuba. Na realidade três dias depois, após a chegada de Rogério de Carvalho, Cunhal reapareceu para discutirmos sobre a organização que connosco estava a dar os primeiros passos.
O Secretário-Geral estava como na fotografia em que aparece com Humberto Delgado na altura em que o namoro político com o PCP levou o «General sem Medo» à Frente Patriótica de Libertação Nacional. Uma fotografia que circulou pelos corredores da clandestinidade nos anos sessenta e na qual se pode observar Álvaro Cunhal dez anos mais novo do que quando os portugueses o conheceram após o 25 de Abril.
Na capital da União Soviética, Álvaro Cunhal, estava como peixe na água. Mais ainda então, com o afastamento de Krustchev, quatro meses antes, de quem não apreciava as atitudes de extrovertida heterodoxia e a exuberância anti-estalinista.

2005/05/29

Cessa "direito de matar" mulher

A revolução de 25 de Abril de 1974 ao liquidar o regime fascista liquidou um mundo brutal e antigo, eivado de fundamentalismos católicos que nos lembra o actual fundamentalismo islâmico. Acabou por exemplo com o "direito" que o marido tinha de matar a mulher em caso de adultério.
Adelino Gomes na coluna "30 Anos de PREC", no Público de 27 de Maio de 2005, lembra notícias de há 30 anos, em pleno período revolucionário, em 1975:
"Entrou em vigor a lei do divórcio. No mesmo Diário do Governo é publicado o decreto-lei que revoga o artigo 272º do Código Penal... Na verdade a lei portuguesa estabelecia até agora, uma pena de desterro para fora da comarca, por seis meses, ao homem casado que, achando a sua mulher em adultério, a matasse a ela ou ao adúltero, ou a ambos, ou lhes fizesse qualquer ofensa grave."
Matou a mulher? O amante da mulher? Os dois? Então vai ter de ir a banhos. Vai ter de ir viver seis meses para fora da comarca.
E a Igreja? Amparava o regime do seu catolicíssimo protector Salazar. Amaldiçoava e amaldiçoa o aborto. Defendia a virtude. Abençoava.

2005/05/25

Morreu Ludgero Pinto Basto

Amigo dos seus três filhos e também colega do mais velho, o Ernâni Pinto Basto, tive o privilégio de conhecer e conviver com Ludgero Pinto Basto, um homem cativante, de vasta cultura, excelente conversador, médico de elevada craveira, sempre disponível para atender os mais carenciados, um grande lutador pela liberdade, um português eminente.

"Morreu Ludgero Pinto Basto, comunista e antiestalinista"

é o título do artigo do jornalista António Melo, hoje no Público, de que reproduzo os extractos seguintes:

O médico Ludgero Pinto Basto foi ontem a enterrar, em Lisboa, depois de uma vida inteiramente dedicada aos ideais de solidariedade humana e igualdade social. Cultivou-os na maçonaria, onde se iniciou em 1928, e no Partido Comunista Português de que foi militante e dirigente, a partir de 1931. Tinha 96 anos e encontrava-se enfermo há alguns meses. Em Abril do ano passado foi condecorado com a Grande Ordem da Liberdade.

...
Além de aprender a salvar a doença individual, abraçou também a causa da revolução social; e em 1931 tornou-se membro do PCP. Foi na semi-clandestinidade que, em 1935, concluiu o curso. Conseguiu iludir a vigilância da polícia política salazarista e abriu um consultório na zona da Penha de França, em Lisboa... Foram muitos os militantes clandestinos comunistas que recorreram aos seus cuidados, que nunca recusou, sem cuidar dos riscos.
De Setembro de 1938 a 1 de Dezembro de 1939 assegurou o funcionamento do secretariado político comunista, com Francisco Miguel e Álvaro Cunhal, que apoiou sempre, sem esconder a crítica e sem quebra de amizade. Nesse 1 de Dezembro foi preso em Benfica (Lisboa) quando, precisamente com Francisco Miguel, ia encontrar-se com outros elementos do comité central. Foi condenado a 20 meses de prisão, mas acabou por ficar quase quatro anos nos presídios do regime, dos quais dois em Angra do Heroísmo, de onde regressou em 1943, para Caxias e só então foi libertado.
Passou a viver na legalidade e retomou a actividade clínica. Especializou-se em endocronologia, disciplina clínica de que foi percursor em Portugal. A evolução política na União Soviética, sob a direcção de Estaline, sobretudo os "processos de Moscovo", onde os "companheiros de Lenine", acusados de contra-revolucionários, mereceu a sua crítica interna no PCP, mas sem pôr em causa a sua fidelidade à linha partidária. Por isso enfatizava a reabilitação política de Bukarine (executado em 1938), ainda durante a existência da União Soviética, dando pleno valor ao que deixara escrito no seu testamento clandestino.
...
Nos primeiros anos de estudante de Medicina, Ludgero passou pela maçonaria e pertenceu à loja Rebeldia, em Coimbra, de que fez parte outro médico, também resistente antifascista, mas do Partido Socialista, Fernando Vale. Foi desta loja que saíram os líderes da greve académica de 1931, contra a ditadura militar saída do 28 de Maio de 1926. Mas a sua permanência no Grande Oriente Lusitano Unido foi breve, pois os seus rituais pareceram-lhe fora do seu tempo. Foi no PCP que se realizou politicamente.

... mas sempre acusou Estaline de ter pervertido o projecto de Lenine.Esteve na guerra civil de Espanha, onde se encontrou com Togliatti, líder comunista italiano, de pequena figura, mas que ficou a admirar pela sua determinação.

A deliquescência do regime soviético só o surpreendeu por tardia, porque tinha fundadas dúvidas sobre aquele "socialismo real". Por isso discordava que se falasse de "utopia comunista" para caracterizar o século XX. Considerou, até ao fim, que um tal projecto de sociedade permanecia válido, convencido de que "todas as misérias do capitalismo se mantinham e até se exacerbaram em certos sítios". Preocupação séria para si era ver a tendência crescente para um individualismo egoísta e "as pessoas menos interessadas na evolução da sociedade do que no princípio do século XX".

2005/05/16

Ao princípio era ...a Coisa

Depois, ao longo de um ano, os posts acrescentaram bonitos textos e belas fotos da Westfália com tanto engenho que "A Coisa da Micas" se transformou n' "A Casa da Micas". Parabéns

2005/05/13

Ainda sobre W.Bush em Riga

No Público de hoje diz-se que documentos do FBI confirmam aparentemente que o dissidente Luis Posadas Carriles autor em 1976 de um ataque terrorista que derrubou um avião cubano e matou 73 pessoas, afinal actuava já como agente da CIA. Outros aten