2017/12/24

A Maravilhosa ANNA NETREBKO

Anna Yuryevna Netrebko (em russo: Анна Юрьевна Нетребко) é uma soprano russa bastante
conhecida e admirada pela sua voz sumptuosa e pela sua beleza.
Começou a trabalhar lavando chãos no Teatro Mariinsky de São Petersburgo ("casa" da Ópera de Kirov). Lá, ela chamou a atenção do maestro Valery Gergiev, que se tornou seu orientador vocal. Guiada por Gergiev, ela fez a sua estréia no Mariinsky como Susanna em Le Nozze di Figaro (“As Bodas de Fígaro”). Depois disso, ela desempenhou diversos papéis junto com a companhia como Pamina em Die Zauberflöte (“A Flauta Mágica”) e Rosina em Il Barbiere di Siviglia (“O Barbeiro de Sevilha”).
Netrebko nasceu em Krasnodar (Rússia), em 18 de Setembro de 1971 numa família de origem cossaca de Kuban. Quando estudante no Conservatório de São Petersburgo...    Link

2017/12/10

Daniel da Cruz um português norte-americano

Daniel da Cruz, de Vilar do Cadaval, era irmão do meu pai Manuel da Cruz Narciso. Foi padre franciscano e missionário em Moçambique (1906-08).
Como missionário em Moçambique na região de Xai-Xai revelou a sua grande curiosidade científica que se traduziu em artigos que foram sendo então publicados na Gazeta das Aldeias e na revista franciscana A Voz de Santo António onde são referenciados 50 artigos sobre a população autóctone, economia, costumes, relações familiares, religiões e sobre a geografia local, a flora e a fauna nomeadamente artigos sobre os insectos. O bicho da seda, as borboletas, os grilos, as abelhas, e bicharada local de outra corpulência.
Estes artigos estão na base do livro que então, a pedido da Gazeta das Aldeias, publicou em 1910 "Em Terras de Gaza" (Porto - Gazeta das Aldeias, Rua Sá da Bandeira, 257 - 1º 1910).

Consegui, 117 anos depois, obter um exemplar numa livraria de Braga. Mas tive de calcorrear o país de lés a lés, do Algarve ao Minho, cidades e vilas, para o encontrar. Tudo em apenas 20 minutos, pela internet, é claro. Imaginaria, em 1910, Daniel, este  mundo novo? 

Em 1910 abandonou o sacerdócio e as crenças religiosas e emigrou para os EUA onde veio a falecer em 1966 com 86 anos. 
Nos EUA obteve uma licenciatura em Biologia área em que se doutorou. Pessoa de grande curiosidade científica dedicou-se também ao estudo de astronomia e de línguas. Foi professor na Universidade de Princeton e na Universidade de Ohio. Publicou vários livros com estudos nestas áreas. Ofereceu-me um dos seus estudos sobre a Bíblia e a religião católica.

Casou com Lenore Rager de quem teve dois filhos, Francisco e Daniel que seguiram um o ensino universitário. e outro a carreira diplomática. Após separação de Lenore casou uma segunda vez, agora com Louise.


Sofria de dificuldades respiratórias e assim que se reformou mudou-se para a zona montanhosa do Colorado, para a cidade de Colorado Springs. Ele o filho Daniel, o neto Danny e a sua 2ª mulher Louise, cada um em diferentes momentos, visitaram Portugal, a terra natal e estiveram na casa dos meus pais em Vilar. Só não estive com Louise em 1971 porque estava então "emigrado" cá dentro.
Entre as visitas de Daniel ao estrangeiro a que mais o atraía e satisfez foi, seguramente a visita aos lugares da Terra Santa que fez quando já ateu há muitos anos mas "terra santa" durante a sua juventude.
Junto imagens de Daniel quando era padre em 1908, com a mulher, Louise, em Colorado Springs, uma com sobrinhos netos em Vilar em 1953, outra da primeira mulher e mãe dos filhos, Lenore Susan Rager, uma do filho Daniel no Vilar e por último uma da capa do seu livro sobre a sua participação missionária franciscana em Moçambique publicado em 1910.
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Frei David Azevedo, franciscano do convento do Varatojo (concelho de Torres Vedras) e natural de Vilar do Cadaval, foi colega e conterrâneo de Frei Daniel da Cruz de quem elaborou, nos anos 90 um projecto de biografia de que aqui apresento um resumo:

MISSIONÁRIOS DO OESTE

FREI DANIEL DA CRUZ Naturalista Insigne.

A nossa região do Oeste usufruiu, nos finais do século passado e princípios deste, da influência de dois notáveis focos, não só de vida cristã, mas também de cultura, que foram o convento de Varatojo e o convento de S. Bernardino, o primeiro reaberto em 1861 e o segundo, em 1884. No primeiro fundaram os franciscanos a primeira escola primária do concelho de Torres Vedras, em 1866, logo seguida dum colégio para meninas. No segundo, que formalmente destinado a colégio seráfico ou seminário menor da Ordem Franciscana, também logo se abriu, após a sua aquisição, uma escola primária para os rapazes das localidades vizinhas. Os dois focos, naturalmente, atraíram a atenção das famílias, da região de Torres Vedras, para Varatojo, e da região mais ao norte, desde as encostas do Montejunto até ao mar, para S. Bernardino. 

Neste contexto brotou a vocação franciscana de mais um missionário do Oeste, Frei Daniel da Cruz. Nasceu no Vilar, no dia 1 de Março de 1880, filho de João da Cruz Narciso e de Joana das Dores; e lá foi baptizado com o nome de Manuel Maria. Vestiu o hábito franciscano- em Varatojo  no dia 25 de Setembro de 1896 e professou no dia 30 de Novembro de 1897, com o nome de Frei Daniel da Cruz. A meio dos estudos de filosofia e teologia, que começou em S. Bernardino e, a partir de 1900, continuou em Montariol (Braga), forçado pelas perturbações causadas pelo decreto de Hintze Ribeiro, de 10 de Março de 1901, que reactivou a animosidade anticongreganista do liberalismo, refugiou-se em Espanha, com outros companheiros, onde prosseguiu os estudos na província franciscana da Bética (Sevilha). 
Ordenado sacerdote em 1904, em 1 de Outubro de 1906 embarcou para Moçambique, chegando à Beira no dia 4 de Novembro. No dia 8 do mesmo mês foi colocado como coadjutor na recém-criada missão do Chongoene (Xai-Xai), em terras de Gaza.                                                                                                       No Vilar com sobrinhos/netos
Não foi longa sua demora no campo missionário, porquanto, devido à agressividade do clima e à falta de recursos médicos, pouco mais de um ano passado em Moçambique, em 1 de Janeiro de 1908, doente, teve de regressar a Portugal. Mas se escasso foi o tempo, grande foi o seu empenho, não só na evangelização, mas também -e principalmente - no campo da ciência. 

Inteligente, observador e apaixonado pela natureza, dedicou-se ao estudo dos costumes indígenas e das riquezas naturais do mundo que o rodeava. Desse estudo resultou uma série de artigos que pouco a pouco foram aparecendo na Gazeta das Aldeias, que se publicava no Porto, os quais foram mais tarde publicados em livro, intitulado Em Terras de Gaza, Porto 1910. 

Dos seus conhecimentos africanos e da bagagem científica que adquirira no currículo de formação, pela mesma altura - 1905-1910 - vêm a lume, na revista franciscana, A Voz de Santo António, uns cinquenta artigos sobre os insectos. O bicho da seda, as borboletas, os grilos, as abelhas (cinco artigos), as cigarras, os ralos, as libélulas, os myrmeleões, as formigas (sete artigos), os escaravelhos, as carochas, as joaninhas, os morilhões, as moscas, os mosquitos, as vespas, os cynipes, os gafanhotos, as lagartas, as baratas, as aranhas, as pulgas e outros bichos da espécie, formam variegada e encantadora exibição nas páginas da revista. 
O campo científico do Frei Daniel da Cruz, dir-se-ia que não tem limites. Aparecem na referida revista artigos sobre a estrumeira, a agricultura, a higiene rural, a raiva, os terramotos (a propósito do terramoto de Messina) e ainda os trens Renard (sistema de transporte em estrada com locomotiva e vários atrelados); além das recensões de livros e revistas.
Em 22 de Outubro de 1910, poucos dias depois da implantação da República, refugia-se nos Estados Unidos, onde virá a abandonar o sacerdócio e a vida franciscana. Continuou, porém, sua paixão científica. Frequentou a Faculdade de Ciências da Universidade Católica de Washington, onde se graduou em 1915. Para efeitos de doutoramento apresentou o estudo intitulado A Contribution to the life-history of Lilium Ternifolium.

Foi professor na Universidade de Princetown e publicou vários livros. Muito embora sua vida tivesse enveredado por rumos diferentes daqueles que iniciara como franciscano, manteve sempre um espírito liberal, característico aliás da escola franciscana de Montariol e da revista A Voz de santo António, o encanto franciscano pela natureza e a inquietação e busca de Deus. Veio a falecer em 27 de Dezembro de 1966, no Estado do Colorado. Figura notável que merece ser mais conhecida., principalmente na nossa região.

2017/12/09

Hvorostovsky e Garanca - deslumbramento

Hvorostovsky era um barítono com uma voz deslumbrante. Morreu em 22 de Nov de 2017, com 55 anos devido a um tumor no cérebro. Aqui vêmo-lo com a bela mezzo-soprano Garanca que tem uma voz não menos esplendorosa. Ele é russo de Krasnoyarsk e ela letã de Riga, nascida a 16 de Set de 1976.


«O crítico britânico Norman Lebrecht, da BBC3, recordou o barítono russo, como "o melhor 'Eugene Onegin' da atualidade, o Don Giovanni mais sensual e o dominante Rigoletto", numa referência às suas interpretações dos protagonistas de Tchaikovsky, Mozart e Verdi.
Nascido na cidade de Krasnoyarsk, na Sibéria, Hvorostovsky desenvolveu uma carreira de renome desde a década de 1980, depois de escapar a uma vida nas ruas, enquanto adolescente, e de conseguir ultrapassar um problema com o álcool que podia ter posto fim a um percurso aplaudido pela crítica e pelos públicos que o viram e ouviram, como recorda o New York Times.
Em 1989, venceu a competição internacional de canto lírico, em Cardiff, no Reino Unido, batendo o barítono Bryn Terfel.
Segundo a biografia patente no 'site' oficial, o Hvorostovsky foi o primeiro cantor de ópera a realizar um concerto a solo com orquestra e coro na praça Vermelha, em Moscovo, que foi transmitido em mais de 25 países.
Em maio, apresentou-se na Metropolitan Opera Gala, em Nova Iorque, onde surpreendeu o público presente com uma aparição inesperada em palco, para cantar "Cortigiani, vil razza dannata", do "Rigoletto", de Verdi. No mês anterior, cancelara a participação no elenco de "Eugeni Oneguin", de Tchaikovsky, naquele teatro.
Em junho, atuaria pela última vez, em Krasnoyarsk, a sua cidade natal.

2017/11/24

Katyucha por Hvorostovsky

Morreu esta, 4ª feira, 22/Nov. Chamava-se Dmitri Xboroctobcky. Era barítono. e, ao que consta, a voz mais poderosa da actualidade. Era russo, de Krasnoyarsk, na Sibéria. Um tumor na cabeça matou-o aos 55 anos. Vamos ouvi-lo a cantar a popular Katyucha.



Aqui dão notícia mais detalhada

2017/07/14

Entrevista de RN ao site iSLEEP

Em 15 de Julho de 2015 fui auscultado por Paulo Gaião,  responsável editorial do site iSleep para uma entrevista: 
"Na sequência do contacto telefónico, envio em anexo perguntas destinadas a entrevista ao site iSleep (www.isleep.pt) da Professora Teresa Paiva, especialista em medicina do sono, que se publica desde 15 de Janeiro de 2015."    
Recordo que os anteriores entrevistados foram António Mega Ferreira, Maria de Belém Roseira, Marcelo Rebelo de Sousa, Frei Bento Domingos, Alice Vieira, José Rodrigues dos Santos, Cristina Esteves, José Luís Peixoto, Elisabete Jacinto, Isabel do Carmo, Jacinto Lucas Pires. Katia Guerreiro, Fernando Dacosta, Maria do Rosário Carneiro, Alberta Marques Fernandes, Carlos Poiares e António Pinho Vargas. "

Teria aceitado mesmo sem a vantagem de me juntar a pessoas tão notáveis no panorama político/cultural pátrio.


“A CLANDESTINIDADE NÃO ALTEROU O MEU RITMO DE SONO”

Raimundo Narciso, ex-militante comunista, viveu na clandestinidade 10 anos (no site está "15 anos" mas não creio ter dado resposta errada) mas nem por isso o seu ritmo de sono se alterou. Foi um dos operacionais da Acção Armada Revolucionária, o braço armado do PCP antes do 25 de Abril. Diz ao iSleep que antes de uma operação “o sono era menos sossegado”.  Dormiu pouco no 25 de Novembro de 1975. “Foi uma noite agitada. Alguns de nós dormimos por turnos. Do que me lembro dormi muito pouco”.
O Raimundo Narciso tem um longo passado político que remonta a muito antes do 25 de Abril e à militância no PCP. Como antigo militante comunista que chegou a viver na clandestinidade, o sono era muito menos tranquilo?
Em certos momentos de maior perigo, o sono era menos tranquilo. Durante os dez anos de clandestinidade surgiram muitos desses momentos mas eram em geral episódios de uma noite. A clandestinidade não alterou o meu ritmo de sono.
Como foi visitar Moscovo penso que pela primeira vez em 1965? Que impressões trouxe?
Sem escamotear os aspectos profundamente negativos que levaram à falência do regime soviético, nomeadamente a falta de liberdade política, a característica mais impressiva que retive foi a de uma sociedade incomparavelmente mais igualitária e justa do que a do capitalismo.
Um estudo de Hight Pay Center (centro de reflexão independente) diz que os administradores executivos (CEO) de grandes empresas, no Reino Unido, tinham em 2014, um salário 183 vezes superior à média dos salários dos trabalhadores. Nos EUA os salários de alguns administradores executivos são ainda mais “obscenos”. Por exemplo, o CEO da McDonald, de acordo com David Michaels, da Bloomberg, ganha 644 vezes mais que o salário médio da empresa que dirige. Na URSS essa diferença medir-se-ia por cinco ou dez vezes no máximo.
Em Moscovo impressionava pela negativa a falta de habitação, atribuída às destruições da invasão nazi, ou a desoladora ausência de sofisticação no “design” da grande maioria dos produtos comerciais.
Pela positiva impressionava o ter-se emprego assegurado e a educação gratuita, incluindo a universitária, e o acesso fácil à cultura e à arte, a preços baixíssimos.
E como foi viver uns meses na URSS? Foi fácil adaptar-se à diferença horária?
Quanto ao sono não dei pela diferença de fuso horário.

Quanto à vida por lá, a frequência em 1966/7, de um curso no Instituto Superior do Konsomol ofereceu-me nove meses de contacto com a população de Moscovo e não só.

O curso permitiu o contacto com centenas de jovens de todas as repúblicas da URSS e de dezenas de países de todos os continentes.
Esse convívio, com a inerente troca de informação e de experiências culturais e políticas nacionais, foi um momento inesquecível. No entanto, havia uma  restrita e inconveniente diversidade ideológica, mesmo que uma parte dos alunos, quer da Europa e especialmente de África e Ásia, não fossem filiados em partidos comunistas.
E nos meses em que viveu em Cuba? Que impressões trouxe? Aqui o fuso horário era diferente e a diferença horária maior….
Quanto ao sono senti inicialmente a diferença de fuso horário e como a viagem durou cerca de 22 horas e tenho dificuldade em dormir nas viagens, cheguei a Havana praticamente com uma noite em claro. A viagem Moscovo-Havana fazia-se via Murmansk, cidade no Círculo Polar Ártico, e depois pelo Atlântico abaixo porque na altura os países da NATO não autorizavam a passagem de aviões soviéticos no seu espaço aéreo, o que obrigava a esta insólita rota.
Em Cuba o mais impressionante nessa altura, em 1965, era a intensa campanha do governo para mobilizar voluntários para o corte da cana-de-açúcar, principal fonte de riqueza da ilha. Era diário o anúncio nos media dos “campeões populares” no corte da cana em que também apareciam os hierarcas do regime, incluindo Fidel Castro. Ainda não tinham máquinas e o corte em poucas semanas de milhares de hectares de cana exigia milhares de “macheteros”.
Visitei o bairro chique de Havana onde, antes da revolução, só entravam brancos, principalmente norte-americanos com criados negros, e agora tinha as luxuosas vivendas, palácios e palacetes já um pouco degradados maioritariamente transformados em escolas dos mais diversos ofícios, bem como lares ocupados por jovens camponeses que nunca tinham visto uma cidade.
Havia ainda um investimento notável na educação e na formação de quadros científicos, em especial na medicina.
Há alguma história curiosa que recorde desses tempos na URSS e em Cuba?  
Em Moscovo vi os passageiros de um autocarro interpelarem um homem que entrou e se “esqueceu” de tirar o bilhete no dispensador de bilhetes à entrada do autocarro. Contrariado voltou atrás e lá meteu a moeda.
No Instituto Superior do Konsomol assisti à separação dramática e pungente, no fim do curso, de uma guatemalteca guerrilheira e clandestina de um colega universitário italiano não comunista. Tinham-se apaixonado mas nem o italiano se disfarçaria bem na guerrilha urbana, no caso pouco provável de se lhe querer juntar, nem ela aceitaria abandonar a luta de libertação no seu país e ir para Roma numa aventura incerta.
Em Havana, ao passear pela cidade deparei com um arraial popular fora do centro, muito parecido com os da minha aldeia. A insólita diferença surgiu no fim pois na minha terra a festa não findava com a banda a tocar a Internacional.
Noutra altura, em 1983, na iminência de um encontro de delegações de Partidos Comunistas com Fidel Castro disse ao meu jovem intérprete que não era indispensável ele ir comigo porque entendia bem a língua. Respondeu-me alarmado “não me faça isso! É a minha oportunidade de falar com o comandante em chefe!”
Em Portugal viveu em várias casas clandestinas. Sentiu que diferentes condições, de local e tipologia, lhe afectaram as rotinas do sono? 
Só aconteceu nalguns casos, apesar de vivermos sempre sob a tensão do perigo, do inesperado, obrigando-nos a pensar e programar toda a conduta quotidiana.
Em certo sentido a vida clandestina era um pesadelo sem intervalos. Mas quem se preparara para tal vida, a vida estranha do clandestino era afinal uma vida “quase” normal. Sucedeu assim comigo, uma vida sem pânicos e quase quase normal. Mas houve quem não aguentasse e rumasse ao estrangeiro e até quem enlouquecesse.
Dormia bem em geral. Só em determinados momentos a seguir a algum susto ou tensão inabitual o sono era perturbado. Porque habitual era a situação de perigo.
Desenvolveu acções armadas contra o antigo regime no quadro da ARA. Nas vésperas das acções era difícil dormir?
Nesses momentos o sono era menos sossegado. Não tanto pelo perigo em si mesmo mas pelo receio de que algum imprevisto pudesse inviabilizar o plano de acção meticulosamente preparado. A noite que antecedia as acções era sem dúvida menos serena procurando mentalmente prever todos os imprevistos.
Porque é que a ARA suspendeu a luta armada em 1 de maio de 1973?
Porque se considerou que na conjuntura política em 1973, caracterizada pela participação de novas camadas da população na luta contra o regime, particularmente por influência dos chamados católicos progressistas, as ações armadas dariam pretexto a maior repressão. Por seu lado, em vez de incentivarem poderiam atemorizar tais camadas da população que só timidamente surgiam na oposição ao regime.
O 25 de Abril, menos de um ano depois, tornou definitiva a suspensão das acções e o fim da ARA.

Há historiadores que consideraram que o comunicado da ARA a anunciar a suspensão das acções era apenas uma forma habilidosa de esconder que a organização fora desmantelada pela PIDE/DGS com a prisão, por denúncia, de oito dos seus principais operacionais entre Janeiro e Março de 1973. Na realidade essas prisões foram um golpe sério na organização mas a maior parte da ARA não fora atingida, nomeadamente o comando central, os quadros ilegais e a maior parte dos “legais” assim como toda a estrutura logística. A ARA estava em condições de prosseguir a sua actividade. Parece estranho, nos tempos que correm, que uma declaração política (comunicado da ARA de maio de 1973) possa ser inteiramente verdadeira e não apenas uma forma de ludibriar eleitores. Mas a ARA não concorria a eleições.


Após o 25 de Abril viveram-se tempos políticos muitos agitados, de homens e mulheres sem sono? Lembra-se de alguma história do PREC que envolva o sono ou a falta dele?  
Houve pelo menos três momentos em que se passaram noites sem dormir, três momentos cruciais de oposição ao processo revolucionário. Dois que, derrotados, aceleraram as mudanças, a manifestação da “maioria silenciosa” em 28 de Setembro de 1974 e a tentativa de golpe do general Spínola, em 11 de Março de 1975. E um que saiu vitorioso e pôs fim ao PREC, o golpe do 25 de Novembro de 1975.
Muitos comunistas estiveram fortemente mobilizados no 25 de Novembro de 1975. Como foi essa noite? Poucos pregaram olho?     
Foi uma noite agitada. Alguns de nós dormimos por turnos. Do que me lembro dormi muito pouco.
Conheceu bem Álvaro Cunhal. Que impressões guarda dele? Apercebeu-se, em alguma conversa, se era um homem com problemas para dormir? Ou pelo contrário, tinha um sono fácil? 
Era uma figura carismática, insinuante e de vasta cultura. Com uma capacidade de trabalho invulgar. Cunhal era um líder reconhecido e de uma craveira superior, mesmo no âmbito internacional.
Na primeira reunião do comité central do PCP em que participei, no estrangeiro, em 1972, e que durou quatro dias, Cunhal trabalhava incansavelmente, dormindo escassas horas por noite, e aparentemente não tinha sono de dia.
O que pensa da expressão Deus não dorme?
Dado o ” vale de lágrimas” em que boa parte da humanidade sobrevive – tenhamos presente a catástrofe humanitária dos refugiados no Mediterrâneo, provocada pela intervenção armada ocidental no Iraque, no Afeganistão, na Síria ou na Líbia –  a expressão “Deus não dorme” tende a provar que Deus ou não existe… ou então que dorme.

A sentença serve também para convocar os simples à resignação perante as injustiças terrenas, oferecendo-lhes a recompensa e o castigo dos maus mas… no céu.

Já teve insónias? É mais “coruja” ou “cotovia”? 
Durmo bem e a tendência, depois de reformado, é para deitar tarde.
Já houve alturas em que sentiu que o sono foi bom conselheiro?
Sim. Quando o problema é complexo e não tenho de decidir imediatamente, deixo sempre a decisão para depois de um bom sono e o resultado é bom.
Tem alguma história pessoal ou profissional divertida com o sono ou a falta dele? 
Quando cumpria o Serviço Militar Obrigatório no Quartel General da 3ª Divisão, em Santa Margarida, em 1962, passei três dias de licença em Lisboa envolvido em lutas académicas com duas noites sem dormir. Quando regressei ao quartel por estar suplente ao serviço de oficial de dia, fui acordado pelo meu “impedido”. Estremunhado perguntei-lhe se já tinha perdido o pequeno almoço? Respondeu-me: “Oh meu alferes são quase horas de jantar”.
Pode contar-nos um sono fantasioso que tenha tido?
Ia num voo de treino de pára-quedismo. Quando saltei do avião e voava alegremente dei pela falta do pára-quedas, então, na iminência de me esmagar no chão salvei-me acordando a tempo, em sobressalto e aos gritos.

2017/06/08

Watch Obama ‘hey-ho’ his way through Ray Charles’ ‘What’d I Say’

Com Bush ou Obama a política da Casa Branca manteve-se fiel aos interesses das suas multinacionais, do Pentágono, dos multimilionários, manteve-se fiel ao domínio imperial. Mas como personagem Obama marcou a diferença. Nem estou a alargar a comparação à inimaginável avantesma do presente.


Video by PBS/In Performance at the White House


After saying he wasn’t going to sing Wednesday night, President Barack Obama broke his promise at the tail end of a Ray Charles tribute concert at the White House.
The president thanked the crowd that had packed into the East Room of the White House in what was the final “In Performance” concert, a long-standing series produced by WETA since the late 1970s, of his administration.
“It is fitting that we pay tribute one of the most brilliant and influential of our times: the late, great ‘Genius’ himself, Mr. Ray Charles,” Obama said of the iconic soul musician, amid Black History Month.
The nights performers capped the musical tribute to the singer with a live performance of Charles’ immortal “What’d I Say.” Usher led the song, before Leon Bridges, Demi Lovato, Brittany Howard and others all joined the stage. At the end of the song, Obama, with the first lady nearby, led the crowd through the song’s famous hey-ho call and response.
PBS stations nationwide will air “Smithsonian Salutes Ray Charles: In Performance at the White House” tonight, Feb. 26, 2016, at 9 p.m. EST. Check your local listings.
Editor’s note: The headline has been changed to reflect the correct spelling of Ray Charles’ song “What’d I Say.”

2017/06/07

Vou tentar falar sem dizer nada


VOU TENTAR FALAR SEM DIZER NADA

                                        Eu vou tentar, prometo, que destes versos
                                        Não saia uma canção mal comportada
                                        Eu vou tentar não falar do que acontece
                                        Eu vou tentar falar sem dizer nada.

                                        Não vou, por isso, falar da exploração
                                        Nem sequer do amor à Liberdade;
                                        Da luta pela terra e pelo pão
                                        E do apego à Paz da humanidade.

                                        Vou tentar não falar do que acontece
                                        Vou tentar falar sem dizer nada

                                        Vocês preferem que eu vos fale
                                        De grilos a cantar e gambuzinos?
                                        A vossa vontade será feita
                                        Eu calarei a fome dos meninos.

                                        Vocês preferem que eu vos cante
                                        Sem vos lembrar os tiros e as facas?
                                        A vossa vontade será feita
                                        Eu calarei o frio das barracas
                                     
                                        Vou tentar não falar do que acontece
                                        Vou tentar falar sem dizer nada

                                        Vocês preferem que eu vos fale
                                        Com um sorriso a iluminar-me as trombas?
                                        A vossa vontade será feita
                                        Eu calarei o estilhaçar das bombas.

                                        Vocês vão gostar que eu não cante
                                        A luta de nós todos todo o ano
                                        A vossa vontade será feita
                                        Não falarei do povo alentejano

                                       Vou tentar não falar do que acontece
                              Vou tentar falar sem dizer nada

                                        Não falarei do luxo e da miséria
                                        Não falarei do vício e da canseira
                                        Não falarei das damas, das mulheres
                                        De tudo o que se passa à nossa beira

                                        Não falarei do Amor, nem da Verdade
                                        Nem do suor deixado no trigal;
                                        Eu não ofenderei vossas excelências

                                        Nem a civilização ocidental!

2017/03/04

A BeataZita Voz do Centenário


Não estejam preocupados com o perigo de qualquer pestilência porque limpei com álcool e clorofórmio. 
Dado que Portugal é país de milagres o Santo Padre, está a ponderar - segundo círculos da Santa Sé bem informados - quando visitar Fátima, neste ano do 100º aniversário da aparição de Nossa Senhora numa azinheira, aos pastorinhos, canonizar não apena a irmã Lúcia mas também a BeataZita tendo em conta o 4º segredo de Fátima o da conversão da Rússia (de ortodoxa a católica suponho). 
Contenham as lágrimas.


2017/02/03

Almada Negreiros na Gulbenkian

A Gulbenkian vai mostrar-nos 400 obras do grande Almada Negreiros (1993-1970). Pintura, desenho, vitral, cerâmica, cinema, teatro, dança, poesia. Tudo. O futurista, o vanguardista, o surrealista foi amigo de Fernando Pessoa, que o tratava carinhosamente como o "bebé do Orpheu", amigo de Amadeu Sousa Cardoso, de Sá Carneiro ou Santa Rita Pintor.  
Conheci-o em 1957, em Lisboa, numa conferência na Sociedade Nacional de Belas Artes, em que ele mostrava os 4 quadros, geometria a preto e branco (aqui em baixo), que estão no Museu de Arte de Moderna da Fundação Gulbenkian e nos explicava, atónitos, a magia da relação 9-10 e outros conspícuas transcendências exotéricas. Almada a todos impressionava pela pintura, pela palavra e pela irreverente atitude.
Dois anos mais tarde confraternizei diariamente com o filho, também José Almada Negreiros como o pai e também ele uma figura, quanto cumpríamos o serviço militar obrigatório, em Vendas Novas, em Cascais e em Torres Novas. 
Depois do 25 de Abril, já não nos víamos há muito – “et pour cause” - fui jantar com ele e o Ernâni Pinto Basto a "O velho Mirante", na Pontinha. Eu e o Ernâni chegamos nuns carritos rafeiros, de 1200 cc de cilindrada quando o Almada se apeou de um deslumbrante Porsche. Não nos querendo deixar mal olhou para os nossos carros de pechisbeque e garantiu " Eh pá, não tenho dinheiro para andar a comprar carros desses e ter de mudar todos os anos!"
Já ambos nos deixaram.  
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Não se distraiam: 400 obras do grande Almada, na Gulbenkian. 

 
Pai  Filho










2017/01/18

Zeca Afonso canta José Dias Coelho. "A morte saiu à rua"


A Canção do Zeca Afonso é dedicada ao Pintor Dias Coelho (1924 - 1961). Em baixo: fotos de Dias Coelho, da mulher, Margarida Tengarrinha (anos 80?) e das duas filhas, Teresa Dias Coelho (anos 2000 ?) também pintora e Margarida Dias Coelho (anos 2000?) a mais nova.

Seguem-se gravuras de Dias Coelho.
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«Eram oito horas da noite, de 19 de Dezembro de 1961. José Dias Coelho, funcionário clandestino do PCP, seguia pela Rua dos Lusíadas [em Lisboa]. Cinco agentes da PIDE saltaram de um automóvel, perseguiram-no, cercaram-no e dispararam dois tiros. Um tiro à queima-roupa, em pleno peito, deitou-o por terra; o outro foi disparado com ele já no chão. Os assassinos meteram-no num carro e partiram a toda a velocidade. Só duas horas depois, quando estava a expirar, o entregaram no Hospital da CUF. «De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas»: eis a legenda que José Dias Coelho dera à sua última gravura, criada um mês antes de ser assassinado, e representando o assassínio do operário Cândido Martins Capilé à frente de uma manifestação popular.»
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A Morte Saiu À Rua
José Afonso

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.

Julgamento de antifascistas


"Tipografia" usada na clandestinidade.