2004/12/02

João de Freitas Branco e o Ginásio Ópera

De longe em longe tenho notícia do Ginásio Ópera e há dias encontrei no email, um convite do João de Freitas Branco para

uma iniciativa inédita em Portugal
1ª Temporada de Ópera Vídeo
de 11 de Dezembro de 2004 a 12 de Fevereiro de 2005 .

"Viva a Ópera em diálogo com o público, e em contacto directo com artistas e especialistas, ficando a conhecer os mecanismos da produção e realização desse espectáculo que é a Ópera e suas histórias."
Viva! Respondo eu.
Cada uma das sessões, que têm lugar no Hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa, será dedicada a uma grande obra do reportório operístico e será constituída por três momentos distintos:

1º MOMENTO - um Colóquio/Recital dedicado à apresentação da obra e em que participam especialistas e cantores que interpretarão alguns trechos da ópera em questão. A 1ª é já a 11 de Dezembro com Madame Butterfly e no recital temos Ana Ester Neves (soprano) e Pedro Chaves (tenor).
2º MOMENTO - Um jantar no restaurante Falstaff.

3º MOMENTO - a projecção do filme sobre a ópera. Em colaboração com o Hotel Vila-Galé Ópera e com o apoio de várias instituições ligadas à vida cultural.

Os bilhetes podem ser adquiridos directamente na recepção do Hotel Vila-Galé Ópera até à hora do espectáculo ou nas lojas Fnac Chiado, Fnac Colombo, Fnac CascaiShopping, Fnac Almada Fórum . 28,00 € para sócios do Ginásio Ópera e 35,00 € para não sócios.
Mais informações? O secretariado do Ginásio Ópera: TM 96 5096820
Outros contactos? http://www.ginasioopera.com/ ginasioopera@mail.telepac.pt
Hotel Vila-Galé Ópera: Travessa Conde da Ponte 1300-141 Lisboa (junto á antiga FIL actual Centro de Congressos) Tel.:213 605 400 Fax.: 213 605 450.
O Ginásio Ópera tem o João a presidente da Direcção. Todos conhecem o João de Freitas Branco. Mas, mesmo assim, para aqueles que o não conheçam, acrescento umas palavras acerca do meu amigo filósofo, melómano e crítico musical da Antena 2.
Estou a falar do filho que é esse que conheço melhor. Mas, para falar do filho parece-me bem começar por dizer alguma coisa sobre o pai João de Freitas Branco, musicólogo e crítico de excelsas qualidades, que exerceu a cátedra na Universidade Nova e a Direcção do Teatro Nacional de S. Carlos, nos deixou, na imprensa generalista ou especializada, em revistas e colóquios muitos e valiosos testemunhos da sua intervenção na vida cultural portuguersa. Mas talvez mais que tudo isso ele cativou e cultivou os Portugueses com o seu programa radiofónico "Gosto pela Música" durante quase trinta anos. Falar do avô do meu amigo João, Luís de Freitas Branco e do tio-avô, Pedro de Preitas Branco seria levar longe demais esta breve conversa e ter de falar de dois dos maiores vultos musicais portugueses do século XX.

João de Freitas Branco, pai, foi quem me ensinou a gostar de música. A mim e a mais umas dezenas ou centenas de milhar de portugueses no referido "curso" de excelência "O Gosto pela Música". João de Freitas Branco falava da música, da grande música! e dava-a a ouvir na Lisboa 2. Mas com palavras tão próximas e amigas e com trechos tão bem seleccionados que mesmo os mais avessos à cultura e mesmo os que só tinham ouvidos para o fado, o vira ou passe-dobles paravam. E escutavam. E aí residia a armadilha. Ou o encanto.

Afinal "aquela música", com piano, violinos, grandes orquestras e cantores de óperas em tudo diferentes das cançonetas que o paupérrimo panorama cultural português da ditadura nos oferecia talvez até "aquela música" também fosse música. E o português do país de camponeses que éramos com ouvido apenas treinado pelo chilreio dos pássaros ou o marulhar dos regatos ainda nãopoluidos parava e ouvia. E aí estava a armadilha. Ficavam presos. Ou libertos. Do gosto embotado. Da penúria estética. E ganhos para a liberdade. Que gostar de música dá força à liberdade! e à vontade de viver e de ser solidários com os outros homens.
João de Freitas Branco, o pai, tinha ficado para mim, para sempre, um Grande Senhor da Música. E um Grande Amigo. Mas distante. Até um tanto inatingível... porque não o conhecia. Os homem de dotes raros julgamo-los inatingíveis, ou intocáveis e em geral não é assim. Os grandes homens os homens de grande cultura, os sábios, são em geral pessoas simples que ao estarem com pessoas simples como nós nos tratam quase com familiaridade. Por isso quando mais tarde alguém amigo vinha com João de Freitas Branco e me disse não conheces o João, o João de Freitas Branco? Eu estendi-lhe a mão, ele apertou-me a mão e pôs-se a falar, a falar comigo como uma pessoa igual às outras... e eu até disse várias coisas de que não me lembro.

O João, o filho, além de musicólogo e um amante da música e da Catarina e da filha Madalena e do filho João, é também filósofo.
Digo que ele é filósofo não apenas porque ele se licenciou em filosofia mas porque o ouvi dizer uma vez, quando lhe perguntaram o que era e ele respondeu filósofo. É questionável, tendo em conta os usos da terra, que um licenciado em Filosofia deva ser apontado como filósofo mas por um lado ele disse que era e por outro eu sei pelas conversas que ao longo de anos tive com ele que, como aliás muitos de nós, o João é um filósofo!
Mas se ele ministrava filosofia na Universidade do Atlântico até Marques Mendes deputado do PSD, ter tomado as rédeas desta universidade, no concelho de Oeiras, e despedido os professores de ideias demasiado à esquerda para seu gosto, o que mais relevo no João, depois da amizade, é os seus inesgotáveis conhecimentos de música que de vez em quando tem oportunidade de os colocar ao serviço da musicalmente pobre comunidade luzitana, na Antena 2.
O João que habita uma simpática vivenda em Caxias, residência que foi dos pais, tenta salvar a tradição familiar das tertúlias, eventos culturais de proximidade e reune periodicamente, em sua casa, ilustres representantes do meio cultural, particularmente da música e da poesia e os felizes convidados, seus amigos, petiscam aprimoradas vitualhas e disfrutam de momentos de apaziguamento, que nos fazem esquecer certas coisas desagradáveis do país, com belo canto, poesia e peças ao piano ou ao violino.
Conheci o João de Freitas Branco na política e travámos do mesmo lado da barricada, nos últimos anos de oitenta e primeiros de noventa do século vencido, algumas vigorosas escaramuças contra o que nos parecia então o descaminho de um património de luta pela liberdade do povo português que, de queda em queda, veio parar a Jerónimo.

Anos depois encontrei João em azáfama organizatriva numa das suas muitas iniciativas, era O Ginásio Ópera. Na altura convenci-me que os "muitos afazeres", me impediam de aceitar o seu convite para participar na construção de obra tão aliciante. Se algum de vocês tiver um convite destes, mesmo com muitos afazeres, aconselho a que aceitem.

2004/11/01

Memórias da Rússia em Paris






























EU E A ALDEIA é um belíssimo quadro (óleo sobre tela 191x150,5 cm) de Marc Chagall pintado em Paris, cerca de 1911, na célebre La Rouche (Colmeia) um prédio onde havia um pavilhão de madeira com mais de 100 ateliés baratos e onde se concentravam artistas de todo o mundo.

O quadro, onde são perceptíveis influências de Delaunay, tem uma estrutura radial e é clara uma utilização de concepções do cubismo postas aqui ao serviço de um surrealismo poético.

O quadro de Chagall, judeu russo então com 24 anos, evoca as recordações e saudade da infância em Vitebsk, na Rússia, que estão aliás patentes em muitas outras obras suas.

2004/10/22

VOTO SECRETO: O MAL AMADO

O Comité Central (CC) do PCP vai pela primeira vez, senão nos seus 83 anos de vida pelo menos desde 1974, ser eleito por voto secreto dos delegados que se reunirão no 17º Congresso, em Almada, nos próximos dias 26, 27 e 28 de Novembro.
Foi uma decisão do CC reunido no passado dia 19 do corrente mês que, no entanto, decidiu não se vergar totalmente ante o império da "antidemocrática" lei dos partidos e resolveu que o CC eleito vote com o BRAÇO NO AR a comissãopolítica, o secretariado e o secretário-geral.
O CC do PCP considerou-se entre a espada e a parede e "aprovou" o voto secreto para a eleição do Comité Central como quem aprova veneno para a ementa da próxima ceia.
Melhor que esta imagem sobre a consternação, o furor, o frémito de revolta "democrática" que atingiu os 183 membros do CC do PCP, eleitos há quatro anos pelo simpático método do braço no ar, só a própria Resolução do CC. Com a vossa licença e sublinhados meus, dou a palavra ao CC do PCP:

"Resolução do CC sobre as leis dos partidos"

"As forças dominantes e os seus representantes políticos (PSD, CDS-PP, PS), com a colaboração do Presidente da República, aprovaram leis (Lei dos partidos e Lei sobre o financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais) que são um ataque frontal a um dos aspectos essenciais da liberdade conquistada com o 25 de Abril.
..... Estas leis são uma aberração democrática, são inaceitáveis no quadro do regime democrático e o Partido deve na sua acção desenvolver um combate sistemático contra elas com o objectivo final da sua revogação... Os autores e responsáveis por estas leis, dirigidas contra o PCP, têm em vista, o enfraquecimento e destruição do Partido...
O Comité Central considera necessário o desenvolvimento de uma acção de combate a estas leis... Assim, o Comité Central considera e propõe ao XVII Congresso que: ... - as votações no Congresso sejam em geral de braço no ar; - a eleição do Comité Central ... seja feita por voto secreto. O Partido reserva a sua posição e atitude futura para com estas leis iníquas, antidemocráticas e inconstitucionais, ..."

Para que os militantes do partido não afrouxem a indignação e o combate ao voto secreto e a outras iniquidades daquelas leis o próprio regulamento quebra a boa prática de apenas regular para não descurar nem por um momento o necessário combate ideológico. Senão veja-se o ponto VI do regulamento:

VI

1. Cada delegado tem direito a um voto.
2. As votações são feitas de braço levantado.
3. A eleição do Comité Central, por disposição antidemocrática da lei dos partidos, contrária ao direito e à possibilidade que os delegados ao Congresso sempre tiveram de decidir democraticamente sobre o método de votação que entendem mais adequado, é feita por voto secreto.
4. As deliberações são tomadas por maioria dos delegados presentes no Congresso.

Indo lá atrás.

O Comité Central, em 1988, sob a direcção do autêntico Álvaro Cunhal abordou "cientificamente" o método das votações.

Álvaro Cunhal explicou que lá fora metade dos partidos comunistas elegiam o CC com o braço no ar e outros tantos, mais coisa menos coisa, com voto secreto. Revelou com superior "fair play" a um CC que bebia as suas palavras que uma solução ou outra solução cabia sem ofensa no centralismo-democrático do correcto marxismo-leninismo. Acrescentou, no entanto, como não quer a coisa, que também se pode ter em conta a tradição dos partidos.
Os 193 membros do CC, treinados como estavam, perceberam de imediato que uma coisa era igual à outra mas tendo em conta a tradição do PCP uma coisa era afinal mais igual que a outra. E assim o braço no ar foi, durante 12 interessantes meses, arma de arremesso da maioria fidelíssima do CC, que estava certa, contra a cabeça desnorteada de um grupo que com o andar dos meses e os solavancos do caminho foi diminuindo até se fixar em 5 teimosos. Que felizmente estavam errados.
Eleger órgãos directivos de um partido ou pessoas para qualquer cargo por voto secreto é uma forma que o senso comum considera mais democrática do que a de braço no ar porque evita naturais constrangimentos de quem vota e, eventualmente, represálias ou antipatias de quem foi eleito apesar do seu voto contrário.
Por isso dar notícia de que o voto vai ser secreto numa eleição poderia parecer tão insólito como, por exemplo, o Gabinte de um 1º Ministro desmentir com um comunicado a revelação na imprensa de que o chefe do Governo teria batido uma soneca numa sesta num tal dia entre uma sessão no Parlamento e outra num desfile de moda. Mas... o insólito acontece. Num e noutro caso. E, no caso do PCP, vários têm sido os jornais a dar destaque ao explosivo voto secreto.
O CC do PCP está numa fúria por se ver constrangido pela nova lei dos partidos. Ninguém gosta de ser condicionado para mais sobre uma norma interna que na opinião de muitos dos mais alinhados membros desse partido tem o aspecto de ilegítima intromissão.
Mas há mais duas razões para que o VOTO SECRETO abale e indigne a direcção do PCP.
Uma de menor importância estratégica mas mesmo assim de grande impacte psicológico é que o grupo dirigente do PCP vem desde 1988 travando um braço de ferro com os seus "críticos" e "renovadores".

O voto secreto foi assunto recorrente e obcecação nas seis reuniões do CC que, no ano de 1988, se ocuparam da preparação do 12º congresso do PCP, em Dezembro desse ano, no Porto. Com a União Soviética e o Muro de Berlim a abrirem fendas, o CC do PCP teve de arrostar e dar combate a uma fronda que incendiava as organizações e ateava nas suas próprias fileiras.

Eis os principais focos de incêndio:
em 1987/88 A 1990/91
O Grupo dos Seis - Vital Moreira , Álvaro Veiga de Oliveira, Victor Louro, Silva Graça, Fernando Marques, Dulce Martins e muitos outros como Zita Seabra, José Magalhães, Jorge Lemos, João Labescat, Delgado Martins, Ana Merelo;
A Terceira Via com José Saramago, Baptista Bastos, Mário de Carvalho, António Borges Coelho, Urbano Tavares Rodrigues, Joaquim Gomes Canotilho, António Hespanha, António Teodoro, Mário Vieira de Carvalho, José Barros Moura, Pina Moura, José Luís Judas, António Mendonça, José Ernesto Oliveira, Helena Neves, João Rodrigues, Victor Neto, Clara Boléo, Manuel Correia, João Galacho, Olga Areosa, Rogério Moreira, Mário Lino, José Garret, João Abel de Freitas, Fernando de Castro, Alfredo Cardoso, João Tunes, António Graça, Carlos Cidade, Raimundo Narciso.
O Grupo dos 24 de Almada com Francisco Simões, Ronaldo da Fonseca, Francisco Rocha e outros;
O Grupo da Marinha Grande com Osvaldo de Castro, Joaquim Carreira e outros.

E a partir de 2000

Os Renovadores com Carlos Brito, Luís Sá, Edgar Correia, João Amaral, João Semedo, Carlos Luís Figueira, Domingos Lopes, Paulo Fidalgo, Cipriano Justo, Elvira Nereu, Eufrásio Filipe, Helena Medina, Carreira Marques, Jorge Gouveia Monteiro, Henrique de Sousa, Paulo Sucena, Rogério de Brito, Vasco Paiva, Vidal Pinto, Viriato Jordão e muitos outros.

A outra e essencial razão contr o voto secreto é a profunda descrença na bondade do método eleitoral quando este se aplica a um universo que não seja o restritíssimo "círculo dos entendidos". Só nesse caso o voto e a opinião é fundamentada. Subentende-se. O secretário-geral deve ser escolhido pelo núcleo duro do secretariado e da comissão política. O grupo restrito que domina e controla tudo o que é essencial. A proposta deverá ser então submetida à apreciação da comissão política e do secretariado. Este é o primeiro círculo decisivo para a escolha do secretário-geral quando o caso se ponha porque a tendência é para lugar vitalício. É também este círculo que deve fazer a lista do futuro secretariado, futura comissão política e futuro comité central.
A lista de nomes para o CC é apreciada e aprovada pelo CC cessante e depois submetida à discussão e votação dos delegados numa sessão especial do congresso, fechada para o efeito.
Neste processo o voto de braço no ar é fundamental. Pelos contactos, conversas, reuniões prévias com cada organismo e organização a que cada um dos felizes contemplados pertença foi criado uma predisposição, sempre determinantemente influenciada de cima para baixo, para a sua eleição. De modo que, mesmo por VOTO SECRETO, o risco em congresso não é grande para mais com delegados escolhidos a dedo. Por proposta de cima, em geral, e por votação de braço no ar.
O risco de uma votaçãop surpresa é menor ainda sabido como é fortíssimo no PCP o respeito pelas opiniões ("muito mais fundamentadas") vindas de cima. Mas princípios são princípios e o braço no ar é uma garantia para qualquer inesperada ou incontrolável surpresa. Além do que tudo o que seja menos de 90% dos votos é já do domínio do insuportável.
O CC eleito irá eleger ou mais propriamente ratificar, a proposta para o secretariado, a comissão política e coisa rara, para secretário-geral acordada pelo núcleo duro do partido.

2004/09/21

Foi o Comboio e não os Enciclopedistas ou a Revolução Francesa

O Público do último Domingo dá notícia das preocupações de José Pacheco Pereira e Guilherme Oliveira Martins sobre a extinção do Serviço Militar Obrigatório (SMO) agora ocorrida, findo o período de transição determinado pela lei do serviço militar que o extinguiu, aprovada pela Assembleia da República em 1999.
São referidas, razões de princípio relacionadas com a cidadania, a formação cívica, o conceito de nação e de Defesa Nacional. Argumentos que têm grande relevância para o Estado e a nação.
Na altura da elaboração da Lei (1997/99) houve animada polémica acerca da extinção do Serviço Militar Obrigatório. Os chefias militares principalmente porque receavam a falta de voluntários em número suficiente mas também porque a conscrição dá mais poder e autoridade às forças armadas sobre a nação, e um maior entrosamento e identificação com a comunidade nacional.
Jornalistas, estudiosos, analistas dividiram-se. Da esquerda (mas também de alguma direita) surgiram muitos argumentos para a manutenção do SMO. A importância do SMO para a formação cívica e disciplinar do povo. Para o enraizamento do amor à pátria, para a democratização das forças armadas. Com o SMO estas seriam o "povo em armas". "As origens do SMO eram de esquerda e democráticas". "Tinha sido concebido pelos enciclopedistas e posto em prática pela Revolução Francesa". Etc, etc.
Outros também de esquerda, como eu, e outros de direita, sustentavam com alguns argumentos comuns e outros diferentes, a favor da extinção do SMO.
Eu já defendi o SMO. E julgo que com razão. E depois a sua extinção. Creio também que acertadamente. Porque a realidade mudou radicalmente com o fim da União Soviética, da guerra fria e do mundo bipolar. E também, ainda que paulatinamente, com a revolução tecnológica.
Poderei voltar a defender o SMO se as condições mudarem. As virtudes filosóficas, sociológicas, políticas do SMO, invocadas por alguma esquerda, existiram (algumas) mas com o tempo... deixaram de existir. Estudei a matéria e com acerto ou sem ele tentei defender consistentemente a extinção do SMO e o pouco fundamento de algumas ideias de "esquerda" como a de que o SMO é garantia de democratização das forças armadas (FA) pois como se sabe os golpes militares de direita foram quase todos feitos por FA baseadas no SMO. O que é natural sabendo-se como se sabe que os militares do SMO não têm nenhuma influência nas decisões militares dos exércitos, excepto em períodos de guerra ou revolucionários. Mas atenção, estamos a falar sempre, sempre! em SMO em tempo de paz. Porque em tempo de guerra, se o SMO servir para alguma coisa, tendo em conta que a guerra moderna é altamente tributária das novas tecnologias, será imediatamente posto em prática.
Para o estudo que fiz então foi absolutamente decisiva a Internet. Obtive de imediato mais de 300 páginas da audição feita pelo Senado francês sobre o tema a ilustres especialistas franceses e estrangeiros. Hoje já existem mais estudos e mais aprofundados sobre o serviço militar, editados em Portugal.

Sobre o que penso acerca do serviço militar (SM) veja-se a intervenção que fiz no plenário da Assembleia da República em Março de 1999, ou o artigo no Janus 98-suplemento especial e outros trabalhos e artigos [aqui] ou o artigo, mais desenvolvido, sobre o SM ao longo da História de Portugal, publicado na revista Nação e Defesa nº91-Outono 99 - 2ª Série (revista do Instituto de Defesa Nacional) disponível [aqui]
O artigo que se segue, é um dos artigos publicados na revista JANUS/98 Suplemento Especial, publicação anual da Universidade Autónoma de Lisboa e é uma síntese que procura relativizar a tese do SMO como uma instituição republicana e de esquerda.

O SMO na História


Diderot, na "Enciclopédia" diz que "É necessário que... o cidadão envergue dois hábitos, o hábito do seu Estado e o hábito militar" (1). Com Montesquieu e Rousseau, os filósofos, criaram o conceito de serviço militar obrigatório (SMO) como um dever do cidadão. Mas sem o comboio o conceito talvez não tivesse feito história.

O SMO generalizou-se quando a guerra deixou de ser "um desporto de reis" e passou a pôr em confronto as nações com todo o seu potencial humano.
No século XVIII, as dificuldades em garantir os abastecimentos aos exércitos envolvidos na guerra tornavam inúteis, em geral, formações com mais de 80 mil homens. As guerras napoleónicas que se seguiram à revolução francesa mercê do saque dos territórios envolventes permitiram chegar ao limite do Grande Exército que invadiu a Rússia, com 600 mil homens. Mas foi um período de excepção. Aliás ao saque, os russos, com Kutuzov, opuseram a terra queimada e quando gelado e exausto, o Grande Exército chegou a Moscovo, em vez de víveres e abrigo encontrou uma capital deserta e incendiada e foi destruído.
A revolução nas comunicações e em especial o aparecimento do comboio (2) trouxe uma revolução à forma de fazer a guerra. Passou a ser possível abastecer continuamente o campo de batalha de víveres, de armas, de munições e... de homens. Foi então que o SMO universal se tornou verdadeiramente útil e só por isso se generalizou. E, apesar de esboçado na revolução francesa, mas iniciado em 1814, pela Prússia, monárquica e semifeudal, a desmentir a radicação da sua origem prática em razões filosóficas, só passou verdadeiramente a ser um trunfo a partir da via férrea.
Frederico Guilherme I, da Prússia, em 1870 munido de duas armas revolucionárias, o comboio e o SMO, esmagou a França com um exército de um milhão e duzentos mil homens.
A guerra dos profissionais do século XVIII e as guerras revolucionárias do período seguinte, deram lugar às guerras das nações, baseadas no SMO em tempo de paz para prepararem milhões de homens para a guerra. Hitler conseguiu assim um exército quase dez vezes maior que o de Frederico Guilherme I, 70 anos depois.
A predominância (a exclusividade?) das razões militares para a existência do SMO (extensivo a todos os cidadãos masculinos) é exemplificada pela excepção das Ilhas Britânicas. A Inglaterra por ser uma ilha, ao abrigo de fáceis invasões, nunca cultivou o SMO. Não precisava de exércitos grandes para se defender. Desde 1679, com o acto institucional do habeas corpus, ao garantir o primado da liberdade individual em matéria de justiça tornou se inaceitável para os ingleses o constrangimento físico para assegurar a defesa do país, fora de circunstâncias excepcionais, como a de perigo de guerra. (3).
Notas: (1) - M. Raoul Girardet. Exposição ao Senado francês, em 1996, no debate sobre a profissionalização.
(2) - Michael Howard: "A Guerra na História da Europa", Europa América, 1997, pág. 119.
(3) - Gerard Bonnardot: "De la conscription à l’armée de métier: le cas britannique" - Defense Nationale" de 22/02/96.

2004/09/18

Carta da Sibéria para Nova York. Em... 1933

A semana de férias na terra mata-nos saudades, permite-nos rever os amigos, saber quem nasceu ou morreu e visitar o único moinho de vento a moer trigo como antes, entre os muitos que alvejavam e alguns ainda alvejam, ao cimo dos montes que se levantam em redor da terra e são a antecâmara da Serra de Montejunto.
E constatamos o envelhecimento da população e também como surgem iniciativas culturais. A terra tem um ginásio, classe de ginástica, futebol de salão, sala de exposições, escola de música, rancho floclórico. Na minha infância só havia o salão paroquial, que ainda existe, onde passavam de longe em longe uns filmes, em 12 partes, em que o padre da terra ocultava com a mão em frente do projector, cenas de mulheres decotadas ou saias curtas e os homens menos respeitadores protestavam com longas assobiadelas contra o zelo do prior com a saúde moral do seu rebanho.

É do Vilar do Cadaval que estou a falar. Sede de freguesia já tem um posto público de internet ainda que só 3 dias por semana.
Mas agora não vinha falar da terra mas sim como aproveitei o tempo a revolver arcas que estão no sótão e guardam coisas velhas.

Entre os papéis encontrei molhos de cartas atados com fitas de cores debotadas e num deles uma carta de um tal F. Lourenço dirigida ao meu pai, em Nova York, com a data de 29 de Julho de 1933.
A carta tem um interesse particular porque é dirigida da... Sibéria.

Infelizmente a carta não tem o nome da cidade de onde é dirigida, talvez não se tratasse de nenhuma cidade, talvez uma vila ou mais provavelmente um povoado perdido na imensidão da Síbéria. Em todo o caso muito perto da linha do Transiberiano linha férrea que atravessa dois continentes.
O meu pai falava-nos de colegas de trabalho, amigos e namoradas, quando evocava com saudade a sua aventurosa vida nos EUA. E falava de um desses colegas, que julçgo ser este F. Lourenço, que tinha ido como "voluntário com outros operários e técnicos especializados para a Sibéria na União Soviética para ajudar a construir o socialismo e o país dos trabalhadores." Sociedade que não teve um fim feliz como ardentemente desejavam.

A carta, com uma pequena mancha ferrosa, está muito bem conservada. Escrita à mão, com tinta que se percebe ter sido azul, letra bonita, muito legível, inclinada para a direita, em papel de carta com linhas, enchendo frente e verso da única folha.
A última mensagem já não coube nas linhas e vai na margem, em cima à esquerda, no verso.
A transcrição que está a seguir, respeita a ortografia da época, erros ortográficos e gralhas.
Ei-la:
____________________________
Cruz

Estimo a sua saude, igoalmente de todos os seus, eu bem felismente.
Já há bastante tempo que era para lhe escrever, mas como só agora nos foi dada a nossa localidade permanente, pois queria-lhe dar as minhas impressõis da nossa situação aqui. Começo por lhe diser que quando cá chegamos e que começámos a trabalhar, os nossos diretores de cá nem só nos fiseram uma grande recepção in “Moscow” como apenas viram que nós produsiamos melhor serviço de que eles esperavam trataram de nos transferir para uma localidade maior e melhor, aonde já tinha electricidade, e uma grande oficina com todas as maquinas já montadas temos cazas com aquecimento temos um grande restaurante aonde vamos comer, temos uma grande caza de banho construída a tijolo, assim como a nossa oficina e tambem tijolo. Mas as cazas de viver e o restaurante e fábrica de sarração, e fabrica de “shingles” para construção de telhados, são construídas a madeira uma construção muito sólida – então.
Estão agora construindo uma grande caza moderna estilo americano para nós americanos. Eles teem cá boas cazas, mas o grupo parece que não gosta muito de elas, e então eles para lhes fazer a vontade estão construindo esta caza. Temos rádio na caza de jantar, temos cinema lá uma vêz por outra, em fim não estou desanimado com isto. As comidas não são más, quase todos os dias temos carne duas veses, não é com muita abundância mas é fresca e é mais do que eu comia em Portugal, pão temos 800 gramas é suficiente para uma peçôa.
Já me esquecia de lhe dizer que também temos estação de caminho de ferro neste sitio que ultimamente nos foi dado. Esta é a linha que vai de Moscow a “Vladisvostok” Sibéria. Então como vão as coisas por aí? Então tem visto “a minha Vaccarela” eu escrevilhe á dias. Mande-me diser se ela tem frequentado o movimento radical. Eu queria ver se ela aqui vinha ter comigo. Por hoje nada mais, Sou quem sabe
F. Lourenço.

Agradeço que me escreva e me dê as novidades de aí.

__________________________

É claro que para mim e a minha irmã a carta tem um valor estimativo muito especial mas para além disso parece-me, ainda que singelo, um enternecedor testemunho com interesse histórico, que evoca ao vivo a grande esperança dos trabalhadores e muitos intelectuais no mundo novo que se construia na antiga Rússia dos czares desde a Grande Revolução de Outubro de 1917. E dá notícia das condições de vida na imensa taiga siberiana e também do estado de espírito do português-americano na União Soviética.

Fala na sua Vaccarela, provavelmente uma italiana, que não sei se terá ido ou não ter com o seu Lourenço como ele desejava. Lourenço está preocupado com o comportamento político da namorada e quer saber de fonte segura, o meu pai, seu companheiro do movimento radical, leia-se comunista, se ela continua a frequentar o Movimento. Isso seria também uma garantia maior para a eventual decisão, decisão muito arrojada, de se juntar ao companheiro, naquela perdida Sibéria, que apesar da inigualável beleza da infinita floresta, era uma Sibéria sem conforto e sem a oportunidade de uma visita à Broadway, à 5ª Avenida, ao Central Park ou lá acima junto às nuvens, ao terraço do Empire State Building (ainda não havia as Twin Towers).

2004/07/18

A Tomada de Posse

XVI GC Posted by Hello
Não sei se viram, às 20 h na SIC ou depois às 22h na 2 a reportagem da tomada de posse do XVI Governo Constitucional que ocorreu na tarde de Sábado. Gostei de ver mas, intrigado com o que se passou, recorri ao meu amigo GnbKf5&. (nome cifrado como compreenderão) para me explicar o que realmente se passou. O caso estava acima dos seus meios mas serviu-se das suas ligações e o resultado foi a missiva que acabo de receber e vos mostro aqui, ressalvando sempre a confidencialidade quando há nomes!

Caro Senhor Yz3i%k#

Ficou V. surpreendido com as coisas "estranhas" que se passaram hoje no palácio de Belém, na tomada de posse do Governo do Dr. Pedro Santana Lopes e recorre aos meus serviços, através de um amigo, para o esclarecer. Como calculará só por excepcional deferência acedo a tal pedido tendo em conta a amizade que me une ao GnbKf5&.
Vamos então por partes.

Pergunta: Porque estava o Presidente Sampaio com uma cara péssima e olhava meio assustado para todos os lados menos para o ministro que acabava de assinar o livro, ali ao seu lado e lhe implorava com pequeninas vénias um cumprimento?

Resposta: O PR estava completamente desorientado (tal como quando ouviu Mário Soares em Belém sobre o que havia de fazer) porque acabara de ser informado pelo SIS de que a todo o momento poderia, como forma de protesto, irromper na sala a Srª Deputada ZxSv9&4K.

P: Qual o significado do discurso do PR contra o Governo que acabara de empossar, todo ao contrário dos paninhos quentes anteriores?

R: Exactamente para acalmar a tal Senhora Deputada da oposição, na eventualidade, apesar de tudo remota, tendo em conta a proverbial ineficácia dos nossos Serviços Secretos, de ela entrar por ali dentro, estragar a festa e ele próprio sabe-se lá se escaparia ileso. Por isso, em à partes ao discurso escrito, sublinhou que a consolidação orçamental não estava consolidada, que já não era co-responsável pelo Governo (desculpando-se com a Constituição, que segundo ele, parece que não deixa) e que o Governo se precatasse porque não o deixaria governar mais do que dois anos.

P: Significado das juras e do discurso do recém empossado 1ºM?
 
R:As juras - quando disse Afirmo solenemente pela minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me foram confiadas. Pois, toda a gente olhava para as mãos a ver se estava a fazer figas e ninguém reparou que estava com os pés cruzados que tem o mesmo valor.
Quanto ao dizer que "vai melhorar a vida das pessoas" e " não vai cuidar da vida dos poderosos mas dos que mais precisam" Pode estar a ser sincero. No primeiro caso está a pensar na família (e ele faz parte da família) Por isso levou à posse os filhos, o pai, os irmãos, as primas, as tias e outros parentes até à quinta geração. "Não cuidará da vida dos mais poderosos" Em primeiro lugar porque esses não precisam, em segundo lugar porque nunca lho consentiriam. "...mas sim dos que mais precisam". É uma repetição. Está a pensar na família. Na consabida premente necessidade de acorrer a dívidas, a pagamentos de pensões e imensas despesas que atazanam a sua tranquilidade.


P: Que diziam os novos ministros, muito baixinho para o Presidente, depois de jurarem que cumpririam tudo e assinarem o livro?

R: Sugestionados, eles também, pelo lema "Um Governo, um Parlamento, um Presidente!" com que a Senhora Deputada ZxSv9&4K desfeiteou, justamente aliás, o Senhor Presidente, diziam baixinho por causa das televisões que aproveitam tudo, Obrigado "meu" Presidente.

P:Porque se recusaram os ministros, TODOS, e não apenas um ou outro a prestar declarações, deixando triste e meio desasado o repórter da SIC, Victor Gonçalves?

R: Porque estavam todos baralhados, tal como V. , que me pede estas informações e que só lhas dou a título confidencial e tendo em conta os favores que devo a GnbKf5&. (o nosso amigo!).
E estavam baralhados por uma razão muito simples, ninguém sabia muito bem qual o seu ministério, ao certo que nome tinha e que áreas abarcava. Não viu a cara do Dr. Paulo Portas, mais do que surpreendida, pasmadamente incrédula e a olhar de olho arregalado para o colega do lado a confirmar se tinha ouvido bem, quando anunciaram que fora empossado como Ministro da Defesa e... dos Assuntos do Mar! Dos assuntos do mar?!! Repetia entre dentes e intrigado, o nosso bom Paulo Portas.
Não reparou em Álvaro Barreto. Foi só porque já tem aquela idade e muito traquejo que ousou balbuciar que sim sr. o ministério pode ser da Economia ou dos Assuntos Económicos ou lá o que é e também do Trabalho. Sim senhor. Pensando para consigo que teve melhor sorte que aquele gaiato do Portas que lhe calhou os Assuntos do Mar mas que vai ter muita dor de cabeça com o comentário irónico do presidente da CIP, Francisco Van Zeller, já a gozar com ele que com um ministério destes tem de manhã de cuidar dos interesse dos patrões e à tarde dos interesses dos trabalhadores.
O caso explica-se - meu caro Sr. - porque todo o trabalho para a formação do Governo, reformulação de ministérios e até a apresentação dos ministros para a tomada de posse foi entregue a uma empresa de markting americana, indicada a Pedro Santana Lopes por Paulo Portas e a este por Donald Rumsfeld quando nos States eram tu cá tu lá por causa do Iraque. Ora os americanos conhecendo mal a nossa língua (eles em línguas já se sabe...) e a tradição dos nossos ministérios, baralharam tudo resultando uma enorme salgalhada nalguns deles que vai ser o diabo para deslindar. Mas que quer! Santana Lopes disse logo: farto de trapalhadas estou eu. Já lá na Câmara era o mesmo... era o que mais me faltava... ir agora perder tempo com isso de organigramas e sei lá mais o quê. Entreguem isso uma empresa. Não é mas nem meio mas!


E pronto foi assim.
Literalmente os ministros não sabiam ao certo em que é que tinham sido empossados.

___________________________________________________________

O email, cifrado, é claro (e os nomes, tudo quanto é nomes vem duplamente cifrado, não sei se repararam) terminava a dizer que não levava nada, nem pensar, cumprimentos, etc. O costume.
Esta dos ministérios que misturam tudo e dos ministros sem saberem ao certo de que é que eram ministros fez-me lembrar o casamento dum amigo meu (não vou dizer o nome), eu de padrinho, na igreja da Nossa Senhora da Agonia. A noiva era Maria Helena e a madrinha Helena Maria. O padre fez o casamento todo muito bem, paramentos, castiçal, hóstia, solenidade, mas inadvertidamente naquele momento decisivo em que diz que A fica casado com B e B com A trocou os nome da noiva com o da madrinha. Ou ninguém excepto eu deu por isso ou para não atrapalhar a solenidade da cerimónia religiosa ninguém disse nada e o meu amigo, ao certo ao certo, saiu da Igreja casado com a madrinha da noiva.
Quase como Portas. Ficou ministro da Defesa e... dos Assuntos do Mar.




2004/07/10

Almada Museu Arte Moderna Posted by Hello
Almada F. Gulbenkian 1968-69 Posted by Hello

Almada Negreiros

auto-retrato Posted by Hello

O Número de ouro! O Número de Ouro! Gritava lá à frente. Eu via-o por cima das cabeças da plateia que enchia a sala.
O número de Ouro! O desafio enchia o salão, fazia ricochete nas paredes e nas telas e ribombava nas nossas caras atónitas. Era Almada Negreiros. O Mestre Almada no seu melhor a provocar os artistas, os estudantes, os homens de letras e outros amantes das artes que enchiam a Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) na Rua Barata Salgueiro, em Lisboa, no recuado ano de 1956.

No fim de semana fiz um passeio ao Sítio da Saudade. Para além de outras atracções havia Pessoa e Almada e isso fez-me recordar o meu primeiro encontro com Almada Negreiros naquela recuada e célebre conferência.

Não era íntimo do pintor, poeta, escritor, vanguardista.
Fui simplesmente àquela célebre conferência na SNBA que tanto brado deu nos meios culturais lisboetas.
Podeis avaliar o meu espanto. Regressado nesse ano a Lisboa para frequentar o Instituto Superior Técnico, após os dois primeiros anos do liceu, no Paços Manuel, nos anos de 1949/51, tudo o que era manifestações culturais ou políticas me atraía e muitas vezes me deixava quase extasiado tal era a diferença entre Lisboa, mesmo a pouco cosmopolita Lisboa do tempo da ditadura salazarista, e a pacata vila de Torres Vedras onde frequentei o liceu do 3º ao 7º ano. Para já não falar da pacatíssima aldeia do Vilar, no sopé da Serra do Montejunto, onde os infindáveis vinhedos e a omnipresente religião católica, eram a moldura do meu quotidiano.

A conferência - fiz apelo à memória, à minha e à de um amigo grande conhecedor das artes plásticas e se não foi tudo exactamente assim, foi pelo menos quase assim - girou em torno do NÚMERO! O número Mágico, o número Sagrado da Estética. O 7! O 9! o 13! A relação misteriosa entre altura e largura, o quadrado, o círculo, o triângulo, as proporções do objecto, segredo do Belo, do Divino, do Mistério.
Almada acreditava ou ao menos levava-nos a crer que acreditava no segredo de uma relação mágica das proporções do objecto da arte consubstanciada num número secreto conhecido na antiguidade, entretanto perdido e que ele incessantemente buscava.
Tinha a ver com a mística pitagórica dos números, com a ciência da proporção artística na civilização Grega e que os Beneditinos na baixa Idade Média nas suas escolas de arquitectos e mestres de obras nas terras do Sacro Império Germânico conservavam. Tinha a ver com a associação semi-secreta da Bauhütte, continuação daquelas escolas no tempo das cruzadas.

Na SNBA eu ouvia Almada e pasmava. Ocorria-me que ele não estaria no seu juizo todo. Mas foi ideia que ocorreu a muito boa gente ali a meu lado, mesmo a artistas e críticos habituados a êxtases, arrebatamentos, "loucuras" e místicas de homens das artes.
Ou foi nessa conferência ou foi numa exposição do ano seguinte que foram apresentados os célebres quadros abstratos:
Porta da Harmonia,
Quadrante I,
O Ponto de Bauhutte
e Relação 9/10.
Quadros de fundo branco, óleo sobre tela, onde se inscrevem figuras geométricas a traço preto e que se podem ver no Museu de Arte Moderna da Gulbenkian, em Lisboa. Também eles exemplo vivo da busca incessante do NÚMERO por Almada.

As grandes exposições de pintura portuguesa na SNBA eram sempre um grande acontecimento cultural e...político. Et pour cause! A maior parte dos artistas e dos intelectuais em geral estavam contra a ditadura. Por isso as exposições tornavam-se um forum de debate e ataque ao regime. Por vezes o Governo marginalizava este ou aquele artista por ser activo anti-fascista e isso levava a iniciativas de solidariedade e de protesto e a mais pequena coisa se tornava grande e perigosa - não sem razão - aos olhos do Estado Novo.
Almada foi um artista que marcou toda a primeira metade do século XX. Vanguardista e gerador de escândalos com que desejava sacudir a mediocridade tradicional. O seu nome ficou ligado a dois acontecimentos maiores (sem falar da sua vasta obra plástica e literária)da primeira metade do século. Refiro-me ao lançamento, em 1915 do Orpheu, a primeira revista futurista com Fernando Pessoa, Amadeo de Sousa Cardoso, Mário Sá Carneiro, Santa Rita, que ganhou um inusitada fama e é atacada pela figura tutelar da cultura tradicionalista de então, Júlio Dantas, escritor, poeta, dramaturgo. O outro acontecimento, que criou enorme escândalo é o Manifesto Anti-Dantas em que Almada, uns meses depois, arrasa Júlio Dantas e o "burguês".

Manifesto Anti-Dantas e por extenso.
O manifesto não é apenas contra Dantas. É uma reacção contra uma geração tradicionalista, uma sociedade burguesa, um país limitado.

... Basta PUM Basta!
Uma geração, que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero! Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! PIM!

No fim assina: POETA D' ORPHEU, FUTURISTA E TUDO"

(in http://www.vidaslusofonas.pt/almada_negreiros.htm )

Almada está aí, a cada passo, por Lisboa. Nos painéis das Gar Marítima de Alcântara e Rocha da Conde de Óbidos. No atrium do Museu Gulbenkian, no Tribunal de Contas, nos vitrais da Igreja de Fátima.

Almada Negreiros (filho)

Um pouco mais tarde, em 1960, conheci o filho, José de Almada Negreiros, com o mesmo nome do pai. Cumpríamos, com mais uns sete ou oito rapazes, o serviço militar obrigatório em Torres Novas, como aspirantes a oficial miliciano. Alguns tornaram-se figuras públicas. Um a que na altura não prestámos grande atenção chamava-se Belmiro de Azevedo, viria a fazer uma fortuna talvez maior que a nossa. Outro, o José Bernardino, ganhou fama como revolucionário e dirigente comunista. Constituía com os irmãos e demais família, um célebre clã, com sede na Avenida de Roma em Lisboa. Mais que residência era um verdadeiro centro de formação política e cultural de estudantes universitários, mormente do Técnico, e também de conspiração anti-fascista. José bernardino tínha-me recrutado para o PCP uns meses antes quando, na tropa em Cascais, fazíamos a recruta. Dois anos depois foi preso pela PIDE, foi terrivelmente torturado e passou na cadeia uns seis anos. Do Zé Bernardino dizia-se que na PIDE, no meio das torturas, não só não denunciara ninguém como nem sequer o nome dele declarara à polícia.

O convívio no quartel do GACA 2, em Torres Novas, o passar o tempo na vila, onde todos se encontram e as conversas nas viagens em conjunto, para Lisboa, deram para conhecer e fazer amizade com o jovem culto e fazedor de amigos que era o José de Almada Negreiros.
Cada um seguiu a sua vida mas em 1974 reencontrámo-nos. Ele queria conversar comigo sobre a clandestinidade donde eu acabara de sair. E eu queria voltar a conversar com ele. Com o Ernâni Pinto Basto, um dos aspirantes a oficial miliciano de Torres Novas, e amigo comum, fomos jantar ao Restaurante do Velho Moinho. Eu e o Ernâni chegámos nuns carritos plebeus de 1.200 cm3 de cilindrada e quase ao mesmo tempo chegou o Almada num vistoso Porsch que custaria tanto como uns dez dos nossos. Fingindo-se incomodado com a diferença de status exposta pelos carros (em 1974, com a revolução em crescendo, politicamente correcto era a igualdade. Igualdade por baixo, claro!) Almada depois dos abraços de quem não se vê há uns anos exclamou:
- Eu não tenho dinheiro para comprar carros desses. Não posso andar a comprar carros todos os anos! Tenho de comprar um carro que me dure uns quatro ou cinco anos.

2004/07/02

Registo Civil na Clandestinidade

 Posted by Hello
 A experiência de dezenas de anos de clandestinidade transmitida no PCP de clandestino a clandestino, mostrava que se poderia, feito anónimo cidadão, ir a um registo civil e declarar a existência de mais uma portuguesa, registá-la com o verdadeiro nome que lhe destinávamos para uma vida bem aventurada e também com os verdadeiros nomes dos pais.

Dar nomes falsos dos pais defendia melhor a nossa situação. No entanto a probabilidade de os funcionários de um pobre registo civil de bairro terem no ouvido o nome de todos os clandestinos que a PIDE procurava era negligenciável. O que sabíamos é que declarar nomes falsos dos pais num registo implicaria mais tarde muitos trabalhos, quiçá vãos, para desfazer a bem intencionada tramóia e a criança arriscava-se a ficar com pais falsos. Talvez mesmo incapaz, no futuro, de traçar a sua árvore genealógica senão até Adão e Eva pelo menos até um avoengo suficientemente distante e incontrolável para o apresentar como bastante ilustre, jacobino ou de sangue azul, conforme os gostos.

A dificuldade estava, nas circunstâncias do nascimento da  Nô, em resolver o assunto com os nossos verdadeiros documentos porque o meu bilhete de identidade, tinha ultrapassado há muito o prazo de validade. Teria de o renovar e isso não podia fazer. A Maria ainda estava pior pois só tinha a cédula de nascimento.

Fomos a um registo civil criteriosamente escolhido por estar numa zona sossegada da cidade e assim não nos expormos aos olhos de muitos e pouco fiáveis transeuntes. Revelei logo ao funcionário que nos atendeu as carências de identificação. Como prova das nossas boas intenções e confiabilidade, pouco mais podíamos apresentar do que o nosso bebé que, como bons pais, achávamos o mais belo do mundo. Que não havia problema adiantou-me o funcionário. Bastava levar comigo duas testemunhas. Agradeci-lhe o conselho considerei que era uma alternativa óptima e retirei-me não a buscar, como lhe disse, as inexistentes testemunhas, mas à procura de outro registo civil menos exigente. No segundo a empregada garantiu-me que os bilhetes de identidade em ordem eram absolutamente indispensáveis. Já arreliado e só para oferecer alguma resistência, insisti, falsamente claro, que lhe trazia duas testemunhas. Que isso não chegava, garantia-me ela. Os bilhetes de identidade eram indispensáveis, estava na lei.
Qual lei qual carapuça - comecei eu a argumentar irritado com a burocracia quando reparei já em retirada, que não era de minha conveniência dizer que acabara de vir de um registo em que me disseram exactamente o contrário - é claro que a funcionária me perguntaria então porque é que não ia a ele. Virei-lhe as costas com má cara e nem me despedi.

Procurámos um terceiro Registo. Não era tão simples assim. Tinha de entrar num comércio de pouca clientela. Pedir a lista telefónica. Procurar a morada de mais um registo e arranjar uma desculpa para não telefonar. Depois começar a ver como deveríamos lá chegar. Estudar os caminhos. Táxi? Apanhá-lo onde? E sair do táxi em que local de pouco movimento? Tudo isto com o bebé ao colo. Por um lado atrapalhava os movimentos mas por outro melhorava as condições conspirativas. Nenhum pide iria pensar que clandestinos como nós, pudessem andar assim com total desfaçatez pela rua fora com um bebé verdadeiro ao colo.
Lá fomos. Mas também neste registo civil o funcionário que nos atendeu achou que nos faltava qualquer coisa e não se deu por satisfeito.
- O bilhete de identidade da mãe ainda podia dispensar mas o do pai... sabe, o pai é o chefe da família. É absolutamente indispensável. Argumentou.
- Mas com base em que lei? - Arrependi-me logo do meu ar reivindicativo, demasiado insolente para quem não tem vantagem nenhuma em dar nas vistas. O homem franziu o sobrolho e preparava já outra linha de exigências e explicações quando me rendi dizendo que se ele era isso pois então ia actualizar o bilhete de identidade.
Já desesperados entrámos em mais um registo. Ficava no Campo dos Mártires da Pátria. Não sei se o nome do Largo teve papel propiciador, o certo é que depois de várias explicações, consultas entre o funcionário e o conservador, choros do bebé, tentativas frustradas da mãe para o apaziguar já com a mama de fora, nos disseram que não era preciso nada. Bastavam as nossas declarações e o meu bilhete de identidade mesmo fora do prazo. Aos nossos ouvidos soou como música celestial. Suspirámos de alívio. Aconteceu-me até entrar, mas só um bocadinho! naquela euforia suicida dos mergulhadores que prolongam, temerários, a estadia no fundo dos mares quando o oxigénio começa a escassear. Assim eu com aquelas facilidades e a alegria de ver o problema resolvido o que me veio à cabeça dizer foi: mas que incompetência! Não exigem nada? Assim até um qualquer clandestino pode registar os filhos! Claro que não disse nada e até me assustei só de o pensar.

Tínhamos de fazer prova de casados para a rapariga ficar filha legítima. Decidimos ali mesmo prescindir dessa prova de respeitabilidade. O que queriamos é que a Ilda Leonor quando crescesse pudese ter pais e saber como lhes chamar. Dissémos ao conservador - com um ar entre o cúmplice e envergonhado - que não estávamos casados. Estávamos juntos.
- Sabe como é..., problemas que surgem. - Eu dava-lhe a oportunidade para ele imaginar mais um de entre tantos casos que todos conhecemos. Os pais da noiva que não querem o casamento. A falta de meios para fazer boda ou o "copo de água", arranjar enxoval, alugar casa, comprar mobília. Já não falo em dramas de Romeu e Julieta, Inês de Castro ou Amor de Perdição. Que nos tempos que corriam não havia dinheiro nem vagares para isso. O conservador, homem justo, disse que sim com a cabeça, que sabia como são estas coisas.

O futuro mantinha-se tão incerto, sabíamos lá como ia ser. Dávamo-nos por satisfeitos com a situação. Trazíamos de volta, registada, a nossa filha mas... ilegítima. Na situação em que estávamos legítima ou ilegítima tanto se nos dava. Afinal ou a ditadura nunca mais acabava e no nosso caso como não respeitávamos a sua legitimidade não nos sentíamos diminuídos ou ela vinha abaixo e então as legitimidades eram outras!

Assim era a legislação do fascismo. Se os pais não estavam casados podiam registar os filhos mas só como filhos ilegítimos. Uma vergonha. A vergonha não a assumimos como nossa, deixávamo-la para a ditadura.
Legitimámos a Nô, como nossa filha, quando legalizei o casamento em 27 de Novembro de 1975 e nesse mesmo dia registámos o filho que estava duplamente clandestino.

O país ainda estava longe de ter serenado e o nosso registo de casamento e a pequena festa que planeáramos ressentiu-se disso. Tinhamos marcado a data há muito tempo e não sabíamos que a revolução ia acabar em 25 de Novembro de 1975, com uma confrontação militar, dois dias antes do nosso casamento oficial. O registo foi na Avenida Guerra Junqueiro em Lisboa, perto do local onde estava, na Avenida Óscar Monteiro Torres, num local reservado. Por causa do 25 de Novembro. E porque a reunião era com Álvaro Cunhal, Jaime Serra e Ângelo Veloso.

- Camaradas, como vos disse, tenho de interromper a reunião. Tenho o registo do casamento marcado para daqui a um quarto de hora.

2004/06/28

REQUISIÇÃO CIVIL!! Voilá

A manhã já ia saída e era meio resignado que ouvia na Antena 1 as respostas dos ouvintes à pergunta do fórun. Era sobre a fuga do Durão. É claro. Um olho na rádio, um dedo na tecla e só comecei a prestar atenção ao Sr. Paulo Miranda já ele ia bem lançado.
Para se dar o devido valor ao que disse é preciso ouvi-lo. Vou tentar.
Parecia-me o género homem do povo. No bom sentido. Percebe-se o que quero dizer? Adiante.
O Sr. Paulo Miranda falava pausadamente, sem gaguejar, com convicção mas nenhum excesso de emoção ou vanguardismo político. E... hela! não era conversa para levar o voto ao seu moínho. Dizia que não achava bem isto do 1ºM ir, agora a meio do caminho, lá para Bruxelas. Que elE disse mal do Guterres e muito bem, por se ter ido embora e vai agora faz o mesmo. Pediu aperto do cinto porque o país ia mal. Ele até concordou, apertou o cinto. Houve sacrifícios e agora deixa tudo a meio numa desorientação.
Passei a ouvi-lo com toda a atenção. Em parte porque estava de acordo com tudo o que ele dizia. E por isso achava-o cheio de razão. Com palavras simples. Via-se que não era político, jornalista ou intelectual. Talvez um empregado. Não era do PCP, nem do Bloco. Pelo estilo. Até parecia que talvez tivesse votado no Durão e agora achava o abandono uma indecência.
Sempre sem aumento de voz e sem excessiva indignação que a crise já é tal que nem permite tais excessos. Até acho - continuava ele - até acho que ele não vai trazer grande coisa para o país como se ouve dizer. O que é que ele, como presidente do Parlamento Europeu, pode dar a Portugal? Não estou a ver. Não se pode comparar com um caso, por exemplo, se o Pinto da Costa fosse para presidente da FIFA. Aí sim eu acho que ele poderia arranjar alguma coisa a favor do nosso futebol. Mas agora Durão Barroso presidente do Parlamento Europeu! Não me parece.
Concluí que não tinha sido um lapsus linguae e que estava mesmo a fazer confusão com o Parlamento Europeu. Talvez até nem soubesse dessas miudezas da existência de uma Comissão.
Porque - argumentava, e foi aí que sem querer, soltei uma gargalhada que até acordei o meu neto. Porque foi uma observação genuina. Se fosse um espertalhão a fazer graça, enfim, teria esboçado quando muito um sorriso distraído. Mas dito pelo Sr.Paulo Miranda... Pareceu-me que falava do Algarve e pela aparência seria homem de trabalho aí com uns quarenta anos. E - dizia ele, placidamente - agora com o 2004... houve trabalhadores que quiseram fazer greve. Ora isso não podia ser e houve requisição civil. Achei muito bem e não houve greve. Por isso acho que agora também se devia aplicar uma requisição civil e não o deixar sair.

2004/06/23

Nos Bastidores da Festa do Causa Nossa

A festa tinha o nome de Solstício de Verão e num post de Vital Moreira chegou mesmo a falar-se em festa PAGÃ! Que para mim foi uma primeiro aviso. Depois, a confirmar que a festa tinha muito que se lhe diga e não era tão inocente como uma leitura apressada poderia induzir, havia o facto de ao lado do LUX, mesmo mesmo ao lado estarem atracados os três navios (Navios Fantasmas?)do Roman Abramovitch (Três navios! Não era um ou dois. Atenção eram TRÊS!?) o Navio-Escritório-de-Negócios, o Yate-de-Luxo-Residência-Serralho-com-Helicóptero e o Yate-Navio-de-Apoio. É que podiam estar muito bem atracados noutro sítio. Mas não, estavam ali encostadinhos ao LUX. A tal ponto que uma pessoa até se engana.
Por exemplo, eu ao chegar vi logo por ali o Vital Moreira e a Maria Manuel. Até para ser verdadeiro vi primeiro o Daniel Oliveira - Olá tás bom que é feito, só sei de ti pelo Barnabé quando é qu'apareces. Ah! Lá na Assembleia da República!! Ah tá bom atão vou lá um destes dias almoçar contigo. Ao restaurante dos deputados. O Vasco pulido Valente quando lá esteve dizia que se comia mal como um raio até tinha de ir almoçar ao Gambrinos.
Mas, voltando ao caso intrigante do Causa Nossa. Mal cheguei vi os barcos, quero dizer os navios (se algum oficial da Armada ouvisse chamar barco a um navio, aqui del rei...caía o Carmo e a Trindade) vi os navios e esqueci-me logo do LUX. Enfiei pelo Yate grande acima. Mas qual quê quando já via lá dentro odaliscas daquelas de fazer tremer Mães de Bragança, salta-me ao caminho um batalhão de seguras a dizer davai! davai! de kalachnikovs em punho que se não fosse eu a dizer izvinitz tavarichis, tavarishis nyet, emendei logo, lembrando-me que agora era Putin e não Brejnev. Voltei para trás e lá embiquei para o LUX.
Entrei, parecia tudo normal, aqueles bloguistas todos a conversar, a Ana Gomes explicava como foi aquilo em Jakarta, o Vicente Jorge Silva contava aquelas coisas todas que a gente sabe lá do Parlamento. Tudo aparentemente numa boa. Mas sentia-se no ar que alguma coisa de muito estranho percorria o LUX.
Eis senão quando com um ar muito natural a fazerem-se passar por bloguistas entra um tipo que devia ser o chefe, óculos escuros, mesmo ali, de noite, todo de preto da cabeça aos pés a faiscar dos anéis, das pulseiras e atrás, disfarsados, uma dúzia de capangas, metade mulheres, mas daquelas que se vê logo que sabem do karaté.
Como é que entraram? Pois eram italianos, sotaque napolitano e alguns claramente com sotaque siciliano, disseram para o porteiro Cosa Nostra? Cosa Nostra? Porteiros sem formação adequada ao pós 11 de Setembro, caiu logo na esparrela a julgar que eles eram convidados do Causa Nossa.
Só quem estava atento é que via. Espreitavam tudo. Uma até espreitava por detrás dos espelhos para ver se eram portas falsas, mas como quem compõe o baton. O tipo do bar que estava encarregado de nos dar uma cervejinha por conta do Causa Nossa e atenção da Sagres, não estava a ver nada do que se passava e também lhes deu umas fichas para a sagres. Primeiro iam a recusar depois viram que toda agente aproveitava também beberam.
Eles próprios não estavam a perceber nada do que se passava. Num primeiro tempo pensaram que o Abramovich convidara a quela gente toda para servir de biombo ao negócio e por detrás dos espelhos deviam-se abrir mangas, estilo aeroporto, que levariam directamente ao Yate-Grande-do-Serralho-e-helicóptero.
Quando perceberam no logro em que estavam sairam porta fora à pressa para procurar o dono do Chelsea directamente no Yate.
Tinham perdido muito tempo distraídos com a assistência, a reparar no José Magalhães, na Ana Gomes, no Paulo Querido, na Ana Prata, na Maria Manuel,que estava com um vaporoso vestido vermelho, no Roncinante do blog O Jumento. E isso foi-lhes fatal.
Mal saltaram na rua, quer dizer no cais, porque ali a rua era o cais, dez metros até os Yates-navios-russos. Quando avançam para os navios já não havia hipóteses, uma barreira fechada dos nossos homens do GOE, de pistola metralhadora em punho, cara tapada com uma meia preta, só os olhos à vista, que a bem dizer nem se viam bem. Um aspecto terrível que até para aquela gente Napolitana e Siciliana metia respeito. Eu segui-os como quem não quer a coisa a toscar tudo. Senti um certo orgulhozinho nos nossos homens do Grupo das Operações Especiais.
Os falsos bloguistas reuniram-se em círculo em torno do que devia ser o chefe, a planear a estratégia e segundos depois afastaram-se radialmente, em todas as direcções, menos na dos navios para evitar o choque com os Goes.
Lá na festa do Causa Nossa continuava tudo em festa sem se aperceberem de nada. Foi aí que me valeu por um lado conhecer o nome dum dos capitães do GOE. Dei um toque conspirativo num praça e pronunciei o nome do capitão. Não digo o nome para não o comprometer. Abriu-me logo passagem e lá em cima aos russos de má catadura abri um sorriso e repeti Causa Nossa Causa Nossa. Eles que percebem um pouco de siciliano calcularam que era Cosa Nostra apalparam-me de alto a baixo, viram que vinha desarmado, levaram-me directo ao Abramovich. Recebeu-me de braços abertos julgando-me emissário dos outros. Tentei falar com ele em russo mas pareceu-me que não dominava bem a língua - será Checheno ou é do meu russo? - pedi intérprete e vieram três loiraças (atenção três, sempre às três, como os navios!!! É um número cabalístico!!! disso sei eu). As loiras, meu Deus, aquilo é que são verdadeiras eslavas. Razão têm as Mães de Bragança em não andarem descansadas.
Numa pergunta bem calculada perguntei-lhe que raio era aquilo do GOE todo lá em baixo. Não fiz perguntas à toa era tudo perguntas com um segundo sentido ou que podiam ter muitas interpretações. Por isso o Abramovitch com um manto de arminho branco pelas costas, que a noite pusera-se fresca, numa pose entre o "negligé" e o Ivan o Terrível, do filme do Eisenstein, com certeza para me impressionar, a julgar-me um emissário do outro bando respondeu-me achando perfeitamente natural a pergunta, que os seus homens tinham visto o grupo esgueirar-se para o LUX em vez de irem ao barco pensou que estariam a tramar alguma, porque é claro nunca se sabe...
Pois - disse eu aguentando a parada - mas o GOE? O GOE é uma força especial da PSP do Estado Português, enfim são bófias. Bófias metidos nisto!? Qual não é o meu espanto quando ele me diz: comprei o GOE. Comprou o GOE? Disse eu de boca aberta quase interdito de espanto. Sim comprei-o com a Quinta das Àguas Livres e tudo. Sabe como eles estão aflitos com o orçamento. Esse Manuel Ferrer Lete. Ofereci-lhes um número que eles não podiam recusar. Já não tinha palavras, só abanava a cabeça.
Então e agora? Perguntava eu a ver se ele se descaía com qualquer coisa.
Agora? Então agora nada, o negócio está de pé, mantenho a minha. 51% para mim 49% para vocês. 51% repetia eu devagarinho sem atinar. Mas sempre é possível avançar? Dizia isto para não estar muito tempo calado e a tentar perceber de que raio se trataria. Está tudo bem encaminhado - continuou o Abramovitch de sorriso confiante. O Pinta da Costa está de acordo já falou com o Karlous Tavarichi e com o primeira ministro. Mantém-se o preço.
Aí fez-se luz no meu espírito. Olha os cabrões disse baixinho, comprou o GOE e agora quer comprar o Futebol Clube do Porto. Ah pois, pois - ia gaguejando eu já a levantar-me. Mas está incluido o estádio? Claro, está tudo. E assim aproveito o Yosef Mourinha para os dois.
Vim embora. Mas ainda consegui passar a mão pela intérprete mais a jeito. Só para ele não se ficar a rir. Uma coisa de nada assim como o Ieltsin, no palácio do Kremlin. Já nem voltei ao LUX. Se chego lá acima e conto isto...gente de blogs... nem perceberiam nada do que é que eu estava a falar. Além do perigo, claro.


Esta foi uma das centenas de cartas que aqui no Memórias do Presente recebi dos nossos leitores sobre a festa do Causa Nossa. Selecionei esta que me pareceu ter um certo interesse de Estado.
A carta é da Júlia Roberta e vinha acompanhada da seguinte observação: Ó Raimundo você que estava lá acha que isto tem algum jeito? Pode lá ser? O Jorge com esta ida ao Causa Nossa ficou mas foi meio passado da tola. Pode tirar-lhe estas patranhas da cabeça?
Sabe conta-me esta história toda pela manhãzinha eu ainda ensonada e a querer virar-me para o outro lado. Oh Júlia. Júlia! Tás-ma ouvir ou tás a dormir. Oh gaita. Tou a dormir. Deixa-me em paz. Acorda lá. Ontem não te contei nada mas não estou descansado com isto. Não posso guardar isto só para mim.
E no fim pergunta-me o que é que eu achava.
Acho que estás maluco. Olha vai mas é tomar um banho frio e aclarar ideias. O Jorge foi e saiu porta fora já atrasado para o escritório.
O que é que acha, Raimundo? Terá sido pesadelo ou ele não estará bem?

Respodi à Julia, por email, que não achava nada. O Jorge lá sabe. Se ele diz... Sabe, acontecem coisas que a gente nem sonha.
Foi o que respondi. Não ia deixar mal o Jorge nem prejudicar o Mistério em torno do Causa Nossa. Mas cá para mim fiquei a meditar, a diferença que faz o capitalismo do socialismo! As oportunidades que cria!! Um self made man com 37 anos, num instante, a fortuna que faz! Até já parece a América.

2004/06/21

Nuno Gomes o nosso Nuno Álvares

Sim é um novo artigo. Mas, reparem, já é quase uma da manhã e amanhã é dia de trabalho. Pois fica para amnhã se houver tempo ou terça o mais tardar

2004/06/17

NASCER EM 2004 E NASCER NA CLANDESTINIDADE

Parto do princípio de que estão todos a par do nascimento do meu neto, ontem à tarde, na
maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.
Mas se não acompanharam o grande acontecimento familiar não perdem por isso porque o que eu queria mesmo contar é a diferença que fez o 25 de Abril. Sim sim, o 25 de Abril de 74. Porque o que vou contar é a diferença entre o nascimento do meu neto em 2004 e o nascimento do pai dele o meu filho José,  30 anos antes, estava eu... estava eu e estava ele! na clandestinidade.

Nunca mais lá tinha entrado. Na Alfredo da Costa. Não fora preciso. No entanto acompanhei ao longo dos anos a Maternidade. Passo muito por ali a caminho do Forum Picoas e outras vezes para deixar o carro no parque ao lado. Caríssimo! 2horas 500 escudos! 2€ e 50 cêntimos.

Com o meu neto foi como com toda a gente. Em resumo eram aí umas 8 horas da manhã, depois de sinais de parto, o José levou a mulher, de carro, à maternidade, identificou-se e a Filipa, com aquela barriga enorme a ameaçar bébé, entrou logo lá para dentro.

Há 30 anos em 11 de Março de 1974 o caso foi diferente mas só um pouquinho. Eu e a Maria Machado vivíamos em Odivelas com a nossa filha Leonor, já com quatro anos. Nomes falsos, bilhetes de identidade falsos. Tudo o que dizíamos aos vizinhos era falso. Tinha de ser. Às vezes pensávamos um para o outro: isto assim é uma vida completamente falsa, arre! As conversas com vizinhos eram o mínimo indispensável para parecermos uma família como as outras e era só a Maria a fazê-las porque especialmente deste 1972, com a minha fotografia posta nos jornais pela DGS (o nome que Marcelo Caetano deu à PIDE porque este não era nada simpático) desde 72 e especialmente desde 1973 quando voltaram a pôr a minha fotografia nos jornais e desta vez também na televisão com pedido de denúncia, só saía à rua de noite e com o máximo cuidado.

Era já noite quando fui buscar um táxi até à porta de casa para levar a Maria Machado. Uma coisa que se não deve fazer em circunstâncias normais. Mas a circunstância era anormal! Mesmo assim ainda fizemos um corte. Quer isto dizer que não fomos directamente para a maternidade Alfredo da Costa para não haver uma ligação entre a maternidade onde eu iria estar exposto e poderia ser reconhecido e a nossa casa. Tirando a matrícula ao táxi, interrogando o motorista, ficariam de imediato a saber onde morávamos. Depois os pides armavam-se em sonsos fazendo de conta que não tinham descoberto nada vigiavam-nos a casa e tentavam apanhar-nos a nós e aos outros clandestinos que comigo reuniam, ou seguiam-me até descobrirem outras casas e outras pessoas. Por isso mandei o táxi seguir para a maternidade Bensaúde ao Rego. Despachei o táxi com uma gorjeta modesta mas um bocadinho maior que as do costume e ainda à vista do motorista entrámos para a maternidade. Mas para de imediato sair e ir procurar outro táxi que nos levou finalmente à Alfredo da Costa já com a Maria muito queixosa.
Mal chegámos tendo em conta o estado dela deu entrada de imediato e eu fui para a salinha de espera. A sala dos pais que esperam.
Mas antes devo dizer que ao chegarmos pedimos para chamar a Dra Helena médica nossa amiga que estava avisada e à nossa espera. Era uma médica simpatizante do PCP de quem ficámos eternamente gratos e estava disposta a ajudar-nos e a correr riscos. Riscos muitos sérios. Se descobrem que nos estava a dar apoio… era a perda do emprego, prisão, tortura. A vida estragada. Era o que lhe podia muito bem acontecer se alguma coisa corresse mal. Felizmente tudo correu bem. Só umas aflições. A Maria com o parto e eu com o problema da nossa identificação por resolver

Encaminhei-me para a recepção da maternidade. A sala, mal iluminada, tinha um chão frio, de mosaico e à volta, bancos de madeira corridos onde outros pais, esperavam a vez para se identificarem. A sala tinha um aspecto lúgubre, impróprio para acolher quem naquele momento de desamparo necessita de um sinal de alegria e esperança.
Pensava mais uma vez em como haveria de resolver o problema da declaração da minha identidade. Agora a minha situação conspirativa era mais complicada do que quando nasceu a Leonor. Não me convinha mostrar nenhum dos bilhetes falsos que tinha, cada um para a sua função. Um para a casa que habitava, outro para a carta de condução, outro para a casa que servia de laboratório da ARA (é a Acção Revolucionária Armada). E por fim outro bilhete de identidade de reserva. Os BI estavam em casa. Comigo só tinha um para outras eventualidades.
Olhei à volta. Sentados ou em pé, de ombro encostado à parede, via outros homens na expectativa ansiosa de serem pais. Calados, cada um sozinho com os seus problemas. Que problemas, esperanças ou ansiedades povoariam aquelas cabeças? Pensariam na mulher que lá dentro dava à luz? Pensariam em como sustentar mais uma boca a chegar a este mundo? Pensariam no nome a dar ao rapaz ou à rapariga? Perdia-me em vãs conjecturas quando chamaram por um jovem cigano que se sentava na minha frente. Ao postigo de atendimento uma funcionária perguntou-lhe o nome. O jovem pai disse um nome qualquer, o dele com certeza, mas não consegui ouvir. A rapariga - a funcionária ainda era nova, dos quarenta para os cinquenta. Na altura achava-a velha mas agora acho que até se lhe podia chamar rapariga - pediu-lhe o bilhete de identidade. O cigano disse que não tinha. Eu mais do que escutava, bebia-lhe as palavras, tirando experiência, estudando a forma de me identificar sem me identificar. A mulher pediu-lhe então a carta de condução.
— Não tenho.
Foi simples, a resposta pronta.
— Bem, dê-me qualquer coisa que o identifique, o cartão do sindicato, por exemplo.
Aí o cigano riu-se e disse lampeiro que não tinha nada. Tinha lá agora isso de sindicato! Não tinha nada, nem isso nem coisa nenhuma, acabou-se. Disse peremptório achando completamente deslocadas senão mesmo parvas tais perguntas para mais num caso como aquele em que estava ali para ser pai e não para ser interrogado por coisas que sempre atribuem aos cidadãos da sua raça. Cidadãos digo eu agora porque nessa altura se a palavra existia caíra em desuso e ninguém se lembraria de a usar. Até poderia ser perigoso.
A funcionária face ao despautério de identificação nenhuma, não desatou a barafustar, não ameaçou, não chamou a polícia. Em boa verdade anotei mas muito disfarçadamente, nem protestou muito, apenas resmungou uns monossílabos do género isto é que são vidas e contentou-se.
Ora aí está, exultei, faço como o cigano. Era verdade que a minha pele demasiado branca não me dava um aspecto de irmão de raça do pai que me antecedeu. Pareceu-me por isso conveniente acompanhar de alguma desculpa a minha nudez identificativa.
— Peço desculpa mas com a pressa e atrapalhação não trouxe nenhum documento comigo! E disse um nome de que tomei então boa nota mas que depois se esfumou completamente na minha memória.
A funcionária não esteve para despender mais energias nem se agastar em admoestações. Terá feito o seu juízo do estado do mundo e anotou o nome falso que eu preparara para a paternidade do José.

E depois para tirar de lá o filho e a mãe?! Mas isso é já outra história. Talvez a conte mais tarde. Acham bem?