2005/07/12

Alcatruzes...



Alcatruzes em descanso é o título desta fotografia em Click Portugal um blog que oferece Portugal em fotografias, de Platero um visitante e comentarista do Puxa Palavra.
Conheci estas armadilhas (que são armadilhas! Os polvos que o digam) na praia de Olhos de Água, no Algarve, no fim da década de 70.
O meu amigo Leonel, pescador, político e lídimo representante da sua classe, levou-me por gentileza, no barco àquele colar de brancas pérolas que pontuavam o mar, lá longe, numa extensão de um quilómetro.
Ali ele deixou de remar e enquanto o barquito se entretinha a baloiçar nas águas tépidas Leonel deitou mãos à corda que as águas escondiam e puxava como quem tira água de um poço, um alcatruz atado na sua profunda extremidade. Depois remava uns metros e puxava outra corda vertical atada à corda mestra sustentada à superfície por pequenas boias.
Alcatruz numa mão, a outra arrancava-lhe do fundo, cá para fora, um polvo que, fiado nos homens, ali se abrigara.
Os mil braços do polvo enrolavam o braço do Leonel e ele com a outra mão onde faiscava uma pontiaguda navalhinha, com a naturalidade de quem tem de tratar da vida e não tem tempo para pensar em tragédias de cefalópode enterrava-lha na cabeça, entre os olhos.
O polvo que gostosamente comemos grelhado com batata a murro, azeite e alho, então, rendia-se. Desfalecia. Os mil braços largavam lentamente o pulso do meu amigo pescador e uma onda branca crescia, em círculos, da cabeça para os tentáculos e desmaiava, deixando-o exangue, o incauto polvo.
Nem todos os alcatruzes tinham "peixe" mas muitos abrigaram traiçoeiramente quem deles, por um momento, teve necessidade.
Depois voltámos. Leonel conversava muito satisfeito com a sorte e eu que não o ouvia olhava ao longe a aldeia de pescadores donde largámos, a oscilar, para cima e para baixo, em tranquilo compasso.
Quantos quilos dará? Multiplicava Leonel.
Quantos de nós não passamos de polvos de dois braços? Esforçava-me eu por entender.

4 comentários:

Platero disse...

Obrigado pelo texto que ilustra a fotografia. Fecho os olhos e consigo imaginar toda a cena.

Um abraço

Manuel Correia disse...

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Parabéns pelo texto. Deverias pensar num género literário coadjuvante da etnografia. Quando o barco se detem e fica a baloiçar ficamos, de facto, à espera do resto.
Um abraço

Anónimo disse...

Bem conseguido. Queremos mais. Lina

MONALISA disse...

Esta imagem claustrofóbica e desesperada pode muito bem descrever-nos...gostei do género de escrita deste texto.