2013/03/19

Vá-Vá . E vão 3... tertúlias

O trânsito era tal que me atrasei e Já não consegui apanhar os melhores lugares no café. Quando entrei na Av de Roma a caminho do Vá-Vá para participar na tertúlia “Objetos de memória” (da luta contra a ditadura), iniciativa do Movimento Não Apaguem a Memória, surgiu um stop arreliador.  Polícia de Trânsito, um “creme nívea”, cães polícia, “Polícias de Choque” a pedirem documentos e olharem-nos com olho de polícia,  carros a encherem a avenida, um inferno. Que será isto? Interrogávamos, os polícias, moita carrasco, nada e depois já se sabe, cada cabeça sua sentença. Dizia um, aposto que é por causa do Papa. Olha o papa! Isso já foi há dias!! Haverá futebol para estes lados? Adiantava outro, incrédulo. Hum… não me parece, alvitrava uma miúda alta, Rita, acho que foi Rita que disse. Apercebeu-se que éramos do Movimento Não Apaguem a Memória e à puridade bichanou-nos. Não é nada. Nem são bem polícias, acho eu. Perante o nosso espanto confidenciou: cá para mim isto foi ideia da direção do NAM, da Helena Pato, da Lúcia Esaguy ou da Maria Manuel Calvet Ricardo, como marketing da tertúlia, no Vá-Vá, agora às 16h. Não me parece nenhum stop verdadeiro com aquele "Creme Nívea" antigo – acrescentava ela – é mas é um “objeto de memória” para lembrar o tempo da ditadura. Abríamos a boca de espanto quando um dos pseudo-polícias ordenava: vamos vamos cidadãos e dava ordem de marcha. Olha, olha, ouviste? Cidadãos! Vá lá… sempre aprendem alguma coisa no contacto com as massas – dizia uma mulher, a bem dizer uma Senhora, toda aperaltada mas com um certo ar comunista.
O Vá-Vá estava um luxo de gente importante, alguns que até vêm na TV e tudo. Além das diretoras do NAM – disse diretoras e disse bem que aquilo, parece impossível, são mais as mulheres que os homens, lá na direção – estavam todos os interventores anunciados cada um com seu objeto de memória a exaltar as lutas do passado e para exorcizar o fascismo que julguei ser coisa que não voltaria nunca mais mas agora, com este governo estrangeiro, “governo dos mercados” que aí temos já nem sei bem.
O Vá-Vá, quando cheguei, já fervilhava de gente quando a Srª presidenta do NAM, a Helena Pato, apresentou a apresentadora a Doutora Luísa Tiago de Oliveira. Desculpem lá mas vou omitir os títulos. São praticamente todos drs e drªs. Uns mais que outros, doutores por extenso e professores, uns da primária e outras e outros com F grande da universidade.

Luísa Tiago de Oliveira, um dos membros do NAM mais estimados, deu 10 minutos a cada conferencistas e calculando que todos iriam prevaricar deu secretamente mais 5 minutos a cada.  Começou por Alípio de Freitas que nos falou das lutas de Portugal e do Brasil contra as ditaduras de cá e de lá e num discurso bem articulado foi relacionando os tempos idos com os atuais, trocando saudosismos por espírito combatente.  Gastou rapidamente os 15 minutos e teve de dar o lugar ao Artur Pinto, o verdadeiro, o que tem organizado com mais alguns universitários, incansavelmente, sucessivos festas comemorativas do “Dia do Estudante”. Artur Pinto relatou uma interessantíssima história relacionada com o Henrique Galvão onde surgia o “objeto de memória” o livro Vagô. Seguiu-se o Daniel Ricardo que, como jornalista de passado anti- fascista, revelou-nos com muita graça, interessantíssimos episódios  da Capital onde trabalhou. Como aquele caso, bem humano e, quanto ao desemprego, bem atual, do funcionário da censura que foi despedido por ter deixado passar uma notícia “perigosa” d’ A Capital e, muito logicamente, foi pedir emprego ao jornal. Daniel Ricardo contou também a última ida, não ida, à censura do Jornal A Capital, no dia 25 de Abril. Vai não vai. Não foi.
 Depois ouvimos a Luísa Teotónio Pereira, do conselho diretivo do  CIDAC que orientou o discurso para os lados de Amílcar Cabral, esse grande revolucionário e amigo de Portugal e uma das figuras maiores de África, assassinado pelos fascistas-colonialistas portugueses. Trouxe ali bem viva a memória da luta da Guiné e Cabo Verde, evocou os mísseis Strela que permitiram anular a arma terrível que era a aviação portuguesa e os seus bombardeamentos.

Seguidamente ouvimos a Maria Emília Brederode Santos. Apresentou-nos um livrinho escrito na prisão de Peniche pelo seu irmão, uma deliciosa relíquia, um romance de aventuras e do fantástico “ A bicicleta auto-móvel” a revelar os artifícios e a imaginação a que os presos recorrem para, em circunstâncias terríveis, manterem o sangue frio e a sanidade mental.

Evocou a solidariedade com os presos anti-fascistas de uma pessoa amiga que lhe cedeu uma casa que tinha na vila para apoio quando visitasse o irmão e depois alargou a solidariedade a  outras pessoas suas amigas com o mesmo objetivo e de generosidade em generosidade acabou por oferecer a casa a todos os que visitassem familiares presos.

 O empregado do café ia-nos abastecendo com o seu café, a sua mini, o seu croissant, a sua água, voejando sem ruído, invisível, por entre uma amálgama de gente atenta a histórias que as paredes do Vá-Vá nunca tinham ouvido. Apesar deste bom trabalho de logística o intervalo foi bem recebido para mais comes e bebes, mais abraços e mais beijinhos aos chegaram depois ou aos que mereciam mais que uma rodada deles.
Aproveito o intervalo para vos dizer que estas iniciativas trazem sempre no bojo a ideia feliz de atrair os jovens. Para lhes passar a mensagem. Para que peguem no facho. Ora acho que os jovens não estão para aturar as iniciativas dos pais ou avós. Lembro-me do que se passava comigo. Pais e avós falavam da República, dos feitos gloriosos, dos exemplos de cidadania e da recusa de benesses cujo exemplo maior foi o de Manuel de Arriaga, o 1º PR português que dispensou o palácio de Belém e alugou com o seu dinheiro uma casinha ao lado. Mas nós os jovens de então deixávamo-los com a República e tencionávamos descobrir o caminho do futuro por nossa conta. Por isso ao verificar a presença de uns quantos jovens me admirei e até perguntei vieram com a família? Que não. Que não.

Como repararam não me demorei a narrar as histórias pois era quase tudo material altamente confidencial e teria até, talvez, de pagar direitos de autor. Bem… poderia dar outra explicação, a verdade é que não tomei notas e vocês já sabem, depois dos 50 vamos perdendo a memória (Não Apaguem a Memória!) e alguns ali já andávamos quase por essas idades. Portanto não conseguiria nunca trazer-vos aqui o brilho de relatos tão cintilantes, tão carregados de emoção.
A segunda parte foi iniciada pela Helena Neves uma combatente de glorioso passado de luta agora prof na Universidade e que é uma das minhas amigas preferidas (se calhar não devia ter dito isto…) Evocou o passado mas sempre com um olhar no presente e, é claro, dando destaque a tudo o que é lutas das mulheres pela sua emancipação, pela igualdade de géneros enquanto circulava uma foto onde ela está com essa grande Mulher que foi, que é, Maria Lamas.

Foi a vez então de Joana Ruas mostrou-nos desenhos de um menino guineense que sofreu os bombardeamentos nas matas da Guiné onde os guerrilheiros se escondiam. Desenho que relatava a guerra e os bombardeamentos dos colonialistas portugueses e ainda outro “objeto de memória” uma grande colher feita com o alumínio de avião português abatido por um dos célebres mísseis Strela, fornecidos pelos soviéticos após o assassinato de Amílcar Cabral e que pôs em terra a aviação portuguesa.
Joana Lopes, minha colega da luta armada, ainda que de exército diferente, as Brigadas Revolucionárias, apresentou-nos ali o carimbo com que fazia os selos brancos que tornavam verdadeiros os BI e passaportes falsos que os combatentes usavam para arreliar a PIDE. A Joana especializou-se com tais artes que era já uma espécie de Arquivo de identificação, mas das BR. Os Pides quando nas fronteiras ou nos stops examinavam os documentos já diziam desanimados uns para os outros: assim como é que podemos saber se são do arquivo de identificação ou se são da Joana Lopes?

Mário de Carvalho – sim o escritor, o romancista – ora, dizia eu, o Mário de Carvalho lembrou tempos de prisão política, em Peniche. Lembrou companheiros, trabalhadores, homens simples cujo exemplo de serenidade, simplicidade e firmeza perante a tormenta e o horror muito o impressionaram e ensinaram. Recordou que um lhe fabricou a partir da ponta de um cabo da vassoura um peão de xadrez, igual, igualzinho aos outros quando o guarda lho roubou. E roubou porque o Mário de Carvalho batia com ele na parede mas batia com toques pluridisciplinares, tipo morse, para conversas com a cela do lado. O Guarda não gostou e levou-lhe o peão. Perdia-se o Morse e desfalcava-se o jogo do Xadrês de um indispensável peão. O Velez, seu amigo, ali preso como ele, não gostou do gesto do guarda e esculpiu-lhe um  peão tão perfeito que circulou... no Vá-Vá, de mão em mão, entre nós.
Como o devo anunciar, interrogava a Luísa Tiago de Oliveira no seu papel de moderadora? Como “o marido da Custódia” respondeu ele. Ela não fez caso e anunciou como devia ser, o Senhor Almirante Martins Guerreiro.  Depois, dentro da sua história, é que se desvendou esta de “o marido da Custódia”.  Custódia é a mulher de Martins Guerreiro, uma mulher de armas, que sobressaía nas reuniões de formação política e conspirativas dos oficiais da Marinha, ao lado da Pilar, mulher do comandante Contreiras, a ativista por excelência. Quando foram viver para uma nova zona em Algés ela que circulava no bairro mais que ele e, estimada e popular, ela era a Custódia e ele, um figura pública, um dos heróis nacionais do 25 de Abril, era simplesmente o marido da Custódia. Martins Guerreiro teve uma salva de palmas a meio das histórias que nos contava quando mostrou e leu a “Declaração de entrega dos ex-membros do Governo” acabado de derrubar pelo 25 de Abril, no Quartel General do Comando Territorial da Madeira. Quis-me parecer que o entusiasmo teria alguma coisa a ver com o momento político atual.

Por fim falou a Rita Veloso, a participante jovem que nos trouxe um testemunho diferente. Falou da prisão do Forte de Peniche mas de quem o conheceu aos cinco anos ao visitar o pai Ângelo Veloso membro do comité Central do PCP, preso em Peniche de 1968 a 1974.  Um momento hilariante foi quando testemunhou a existência da casa em Peniche de que falara Maria Emília Brederode Santos. Sim sim, eu lembro-me dessa casa. Lembro-me porque foi aí que aprendi a atar os atacadores dos sapatos. Trazia vários objetos de memória, um postal que o pai lhe escreveu e bilhetinhos do pai e as suas respostas, bilhetes que um pai preso por lutar pela liberdade escrevia à sua filha com cinco e seis anos.

Terminadas as exposições dos conferencistas seguiu-se um período de interpelações e outras conversas e outros objetos de memória de espontâneos.
A Maria Eugénia Varela Gomes, que eu só consigo tratar carinhosamente por Geninha, deu-nos a conhecer um baralho de cartas feito por 4 jovens raparigas, uma das quais ela própria, de papel de prata dos maços de cigarros, para empurrar o tempo a passar mais depressa.
Um dos momentos altos foi quando o João Caixinhas da direção do NAM manejou uma verdadeira espingarda, em tamanho natural e ao vivo, o seu “objeto de memória”. Em pé, de arma em riste, sobre a sala ondeou um movimento de corrida para a porta de saída felizmente contido a tempo. Mas que é isto? Para onde vão? Para onde vamos? Então não viram o sinal, vamos tomar o Palácio de Inverno o Palácio de S. Bento!. Calma, não é nada disso, não é sinal nenhum, aquilo é um canhangulo antigo, trazido de África, uma arma usada em antigas lutas rebeldes dos povos de Angola. Cá, pelo menos por enquanto, a nossa arma é a palavra e a consciencialização de que urge mudar de governo antes que a democracia e o país sucumbam.

Ciao. Até à próxima tertúlia. No Vá-Vá
______________________

Nota: esta "ata" da 3ª tertúlia ainda não foi aprovada por isso estou a receber acrescentos e emendas. Eis a
1ª - Vejam só esta ternura de bilhetinho, este torrãozinho de açúcar, da Rita Veloso, aí por 1973, com os seus seis anos, que ela trocava com o pai nas visitas no Forte prisão de Peniche. 
 

2013/03/11

Para que a memória não se apague …

" Acordo de Londres sobre as Dívidas Alemãs | Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estão a Espanha, Grécia e Irlanda.
"O Acordo de Londres de 1953 sobre a divida alemã foi assinado em 27 de Fevereiro, depois de duras negociações com representantes de 26 países, com especial relevância para os EUA, Holanda, Reino Unido e Suíça, onde estava concentrada a parte essencial da dívida.
A dívida total foi avaliada em 32 biliões de marcos, repartindo-se em partes iguais em dívida originada antes e após a II Guerra. Os EUA começaram por propor o perdão da dívida contraída após a II Guerra. Mas, perante a recusa dos outros credores, chegou-se a um compromisso. Foi perdoada cerca de 50% (Entre os países que perdoaram a dívida estão a Espanha, Grécia e Irlanda) da dívida e feito o reescalonamento da dívida restante para um período de 30 anos. Para uma parte da dívida este período foi ainda mais alongado. E só em Outubro de 1990, dois dias depois da reunificação, o Governo emitiu obrigações para pagar a dívida contraída nos anos 1920.
O acordo de pagamento visou, não o curto prazo, mas antes procurou assegurar  o crescimento económico do devedor e a sua capacidade efetiva de pagamento. 
 
O acordo adotou três princípios fundamentais:
1. Perdão/redução substancial da dívida;
2. Reescalonamento do prazo da dívida para um prazo longo;
3. Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.

O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afetos ao serviço da dívida não poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 e 5 %.
A grande preocupação foi gerar excedentes para possibilitar os pagamentos sem reduzir o consumo. Como ponto de partida, foi considerado inaceitável reduzir o consumo para pagar a dívida.
O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situação de carência durante a qual só se pagaram juros.
Outra característica especial do acordo de Londres de 1953, que não encontramos nos acordos de hoje, é que no acordo de Londres eram impostas também condições aos credores - e não só aos países endividados. Os países credores, obrigavam-se, na época, a garantir de forma duradoura, a capacidade negociadora e a fluidez económica da Alemanha.
Uma parte fundamental deste acordo foi que o pagamento da dívida deveria ser feito somente com o “superavit” da balança comercial. 0 que, "trocando por miúdos", significava que a RFA só era obrigada a pagar o serviço da dívida quando conseguisse um saldo de divisas através de um excedente na exportação, pelo que o Governo alemão não precisava de utilizar as suas reservas cambiais.
EM CONTRAPARTIDA, os credores obrigavam-se também a permitir um “superavit” na balança comercial com a RFA - concedendo à Alemanha o direito de, segundo as suas necessidades, levantar barreiras unilaterais às importações que a prejudicassem.
Hoje, pelo contrário, os países do Sul são obrigados a pagar o serviço da dívida sem que seja levado em conta o défice crónico das suas balanças comerciais."
____________________________

2013/02/05

Homenagens é o que mais há

Já foi há uns anos, em 1999 que, para minha surpresa, fui contactado para estar presente numa homenagem que a Câmara Municipal do Cadaval pretendia me fazer no dia 25 de Abril. Cadaval é o município a que pertence a aldeia do Vilar, minha terra natal, onde passei a infância e parte da juventude, com os meus pais e a minha irmã Helena e que, salvo um intervalo por razões que a seguir explico, visito regularmente até hoje.
As razões da minha ausência de dez anos, os anos em que vivi na clandestinidade para lutar contra a ditadura fascista, foram conhecidas na minha terra após a revolução de 25 de Abril de 1974, mas por várias indicações algumas pessoas já sabiam ou desconfiavam por onde andaria.
Se o Cadaval ficasse no Alentejo a surpresa pela homenagem não seria nenhuma mas o Vilar e o Cadaval - lembram-se do assalto à sede do PCP do Cadaval em 1975, no verão quente, a seguir à de Rio Maior? - ficam numa região onde a influência salazarista e da Igreja (a do cardeal Cerejeira) predominavam e após 1974 as eleições eram ganhas quase sempre pelo PSD, partido a que se acolheram os caciques do Estado Novo, remoçaram o seu "look" e se tornaram  democratas da noite para o dia.
Desta vez a Câmara fora ganha pelo PS mas homenagens destas não eram, ali, propriamente atos eleitoralistas. É certo que entre conterrâneos de terras pequenas em que todos se conhecem os antagonismos partidários baixam armas perante as amizades ou comum respeito. Bem me recordo que no auge da crispação política do verão quente de 1975, num fim de semana que repetia mensalmente, alguns vizinhos e amigos mesmo os mais sintonizados com a educação recebida assente nos valores de Deus, Pátria e Família me diziam: ora se os comunistas fossem todos como tu! Fórmula bem conhecida para mostrar que entre vizinhos devem prevalecer as antigas boas relações.
Felizmente o relacionamento com os meus conterrâneos nunca sofreu com as minhas opções políticas. Nem enquanto fui militante comunista nem após o meu afastamento do PCP a partir de 1987.
Pude mesmo, em 1974, realizar na aldeia, de forma civilizada, uma sessão de esclarecimento do PCP, algo que ainda parecia surreal ou mesmo do domínio do escândalo. Para mais no salão paroquial. Talvez mais pelo insólito a enchente era previsível. A sessão decorreu com perfeito civismo. Lembro-me em especial como um vizinho e amigo, já falecido, sem partido e sem experiência politica mas com muita intuição e conhecimento das almas presentes me socorreu numa resposta em que eu teria sido  "politicamente muito mais correto" mas muito menos convincente.
Perguntaram-me da assistência:
- Então oh Raimundo o que é que me dizes ao milhão de contos que a Intersindical recebeu de Moscovo?
Só o apocalipse da palavra Moscovo dizia tudo sobre o Reino do Mal. Eu aprontava-me para negar tudo e denunciar com indignação a calúnia invocando razões e argumentos muito eficazes na sede do PC mas de total ineficácia ali. Da assistência o meu amigo Bino insistia e perante a minha pouca vontade em entregar a um neófito resposta de tanta responsabilidade ele insistia com veemência para que o deixasse responder. Contrariado dei-lhe a palavra. Bendita decisão.
- O Carlos, então Moscovo mandou um milhão de contos! É dinheiro, hein! Vê tu, um milhão. É dinheiro! Dinheiro que entra. Vê lá se a América faz o mesmo! Bom era que nos enviasse também um milhão de contos. Dinheiro que entra e tu estás contra!
O Carlos ficou sem resposta, a assistência que estava com o Carlos ficou sem argumentos e eu aprendi com o Bino, com a sabedoria local.

2013/02/04

O NAM no VáVá: "Notícias sem Censura"

Ata da tertúlia do NAM no VáVá, Conversas de Memória, em 2 de Fevereiro de 2013, sobre
“Notícias sem censura”

____________

 
Vá Vá… Vá Vá… VáVá… a Helena Pato tanto insistiu no Facebook para que fossemos que quando cheguei – e foi à horinha – já não havia cadeiras.  Simpáticos e com sentido apurado de hospitalidade (ou seria sentido comercial?) o empregado do VáVá foi acrescentando cadeiras e cafezinhos e assim consegui sentar-me.
Lá à frente, na mesa dos oradores convidados  estavam:  à esquerda –  a bem dizer à extrema esquerda! –  o  Sebastião Lima Rego, uma estrela, no tempo próprio, do MRPP, a seu lado estava a Margarida Tengarrinha uma mulher que foi durante muitos anos dirigente do PCP, viveu clandestinidades e sofreu o assassínio do companheiro pela PIDE, o artista e revolucionário – Dias Coelho. A seu lado estava o Manuel Alegre que ainda estava só à entrada do VáVá porque lhe apontaram um microfone das televisões para uma declaração não certamente sobre o tema da tertúlia mas sobre a trapalhada do António Costa que avançou para Seguro mas afinal não avançou e não se sabe se ainda avança ou já não avança.
A sala estava muito bonita porque estava lá a Teresa Dias Coelho que é pintora e filha da Margarida Tengarrinha que também é artista plástica, porque estavam lá as mulheres quase todas dos órgãos sociais do NAM, a Helena, a Maria Manuel, a Manuela Almeida, porque estava lá representada a Justiça na pessoa do Juiz Macaísta Malheiros,  a Ciência na pessoa do investigador José Manuel Tengarrinha, a poderosa classe dos jornalistas com o Daniel Ricardo e o António Melo, a universidade com o Zaluar, a extinta Ação Revolucionária Armada com o António João Eusébio, a comunidade judaica na pessoa da Lucia Ezaguy. Pessoas ilustres eram quase todas como o ex-provedor do Telespectador da RTP, José Carlos Abrantes e até o homem da rua estava representado por quem, com espírito missionário, vos oferece esta notícia.
A presidente do NAM abriu “As conversas de memória” explicando que o assunto era “Notícias sem Censura” e ofereceu a palavra ao moderador  Miguel Cardina, universitário e escritor, um esteio do NAM em Coimbra que veio de propósito para esta nobre missão e nos mostrou como bem se dirige uma tertúlia de sedutoras memórias. Para no-las revelar ali estava o Manuel Alegre que nos relembrou o que foi a Rádio Voz da Liberdade, órgão da Frente Patriótica de Libertação Nacional, sediada em Argel, de como ela foi importante para furar o muro da censura fascista e oferecer aos Portugueses o que Salazar lhes escondia. Revelou como guardou num cantinho privilegiado da sua memória a entrevista que fez a um dos homens maiores do continente africano, o grande dirigente do PAIGC e grande amigo de Portugal Amílcar Cabral, assassinado às ordens da PIDE. Enalteceu ainda a grande ajuda do governo argelino e o seu exemplar relacionamento com a oposição portuguesa sem o mais pequeno sinal de interferência ou instrumentalização da sua atividade no seu solo pátrio. Referiu além de Boumedien outra das maiores figuras de África, Ben Bela, o primeiro presidente da Argélia libertada.
A Margarida Tengarrinha discorreu a seguir sobre a Rádio Portugal Livre, a voz do PCP, difundida a partir de Bucareste e lembrou que as suas emissões tiveram início em 12 de Março de 1962 e antecederam as da RPL. Explicou que o “camarada Álvaro Cunhal” teve um papel primordial na origem da RPL e também em negociações em Argel  e, já se sabe, “ o Álvaro” foi a alma de muitas outras coisas. A Margarida referiu e sublinhou várias afirmações anteriores de Manuel Alegre correspondendo assim à amistosa intervenção deste.
No tu cá tu lá com os oradores a assistência lembrou como pelo Alentejo dos latifúndios antes de fechar negócio na compra de um radiozito o compadre inquiria se ele apanhava a rádio Moscovo Moscavide ou, noutras versões o comprador certificava-se se o rádio apanhava aquele posto com “a voz da menina”. A “menina” era a Veríssima Rodrigues, a “camarada” da RPL que tinha uma belíssima voz, cativante e subversiva.
Da assistência outros lembraram como os apaniguados da “Situação” amedrontavam quem queria ouvir a RPL, a RVL, a Rádio Moscovo ou mesmo a menos perigosa BBC, na banda das ondas curtas cheia de agudos e indiscretos rugidos, dizendo que as polícias tinham aparelhos para detetar quem as sintonizasse.  Mas não há veneno que não dê origem ao seu antídoto e o pessoal do contra logo anunciou o remédio: basta pôr um copo de água em cima da telefonia. E assim muitos faziam e já sem medo.
As conversas sobre as rádios clandestinas provocaram-nos uma grande vontade de mais um cafezinho, mais bolos e torradas e deram lugar ao intervalo com mais beijinhos e abraços aos que chegaram depois.
 
A imprensa clandestina veio a seguir e foi a vez de Sebastião Lima Rego evocar o papel do “ Luta Popular”, órgão oficial do MRPP, do seu trabalho nesta frente de agitação, numa excelente exposição que prendeu a atenção dos presentes.  Disse-nos que o jornal clandestino chegou a ter uma tiragem de 10 ou 12 mil exemplares. Falou-nos da distribuição clandestina e trouxe ali, da história do MRPP e do “Luta Popular”, entre outros, os nomes de Saldanha Sanches e Fernando Rosas.  Sobre imprensa clandestina foi de novo a vez de Margarida trazer à nossa presença a história do “Avante” órgão central do PCP que venceu sem desfalecimento a barreira das polícias políticas da ditadura durante 43 anos de clandestinidade. Revelou o papel essencial das tipografias e dos tipógrafos escondidos na clandestinidade que garantiram essa proeza por vezes à custa da própria vida como foi o caso de José Moreira morto na PIDE. Referiu ainda a figura de Maria Machado e de Joaquim Rafael que começou pela distribuição clandestina e depois de aprender a ler e a escrever, já clandestino, foi tipógrafo 25 anos em 30 de clandestinidade.
 
Foi então a vez de José Hipólito dos Santos, presidente do Conselho Fiscal do NAM no anterior mandato e antigo e destacado dirigente da LUAR  (Liga de Unidade e Ação Revolucionária). Eu ouvia, ouvia e esperava a todo o momento que caísse o Carmo e a Trindade se, é claro, me reportasse a 40 anos atrás.
É que o Hipólito, ao contrário do bom comportamento de Manuel Alegre, Margarida Tengarrinha e Sebastião Lima Rego que olvidaram compassivamente tudo aquilo que pudesse trazer à memória as assanhadíssimas guerras que no passado os envolveram em barricadas opostas, ao contrário, dizia eu, o Hipólito começou ali, em plena tertúlia sobre “Notícias sem censura”, com um tiro de bombarda mais estrepitoso que os dos trons com que Nuno Álvares assustou os castelhanos em Aljubarrota: “Curiosamente - disse ali o José Hipólito - o NAM convidou representantes da Rádio Portugal Livre e da Rádio Voz da Liberdade e do Avante, órgãos onde se exercia uma feroz censura contra tudo o que não fosse de iniciativa do PCP ou da FPLN que ele controlava”. E depois prosseguiu indo lá trás ao anarco-sindicalismo e mais próximo à sua LUAR.
Talvez por estarmos em pleno campo de batalha com o inimigo comum à vista (refiro-me ao governo dos mercados, aos Passos , aos Relvas, aos Gaspares, aos Moedas e aos Borges) ninguém desembainhou a espada para terçar armas no VáVá  e a tonitroante crítica foi recebida com uma cordata bonomia e a intervenção do Hipólito apanhou tantas palmas como as outras.
Afinal a intervenção do Hipólito foi como que a cereja no bolo na “conversa” do NAM sobre “Notícias sem censura”.
A Helena Pato, presidente da direção do NAM, está de parabéns pois conseguiu pôr a conversar pessoas que há 30 ou 40 anos seriam tratados uns como sociais-fascistas e outros como agentes da CIA.
Mas as surpresas não terminaram aqui, já perto do fim vejo aproximar-se da entrada um sem-abrigo, espreitava, hesitava quando a meu lado alguém lhe aponta o dedo e sonoramente anuncia “é o Ulrich, é o Fernando Ulrich!”. De facto balbuciava "ai aguenta aguenta" mas não consegui confirmar. Se de facto era ele terá concluído não se tratar de nenhuma reunião de banqueiros "sem-abrigo" e afastou-se.
_________
Caros amigos a ata não só não foi submetida a aprovação como qualquer  eventual imparidade (imparidade… hum…? Soa bem!) entre o que digo e a realidade é, sem dúvida, culpa desta.
Ampliar a imagem? Um clique. 

 
 


Ampliar a imagem? Um clique. 

2013/01/07

O NAM falou dos exílios no VáVá


O momento, a hora, o sol esquivo mas a ajudar, acenos, abraços, o VáVá, memórias de braço dado com o odor do cafezinho volteando por cima das mesas, a Helena Pato, a Lúcia Ezaguy, o Artur Pinto, a Mané Ricardo, a Teresa Melo Sampaio e o Coronel Luís Sequeira que não via há tanto tempo!, eu a entrar e a não entrar para dar um beijinho à Flor Pedroso que ia ouvir o tio Pedroso Marques coronel da revolta de Beja, o Jorge Martins que é historiador a moderar ainda calado, a Luísa Corte Real que a Manuela Almeida tratou por Luísa Abreu e confundiu a Maria Machado que não sabia que o falecido marido era Abreu e a Helena Cabeçadas, a Manela e o Camacho, és da família do Brito Camacho? Não, parece que não, a Maria a puxar-me lá para dentro e eu cá fora na explanada a lembrar-me do VáVá de antigamente, a Noémia que não vinha e depois veio e julgava que era só às 6 horas mas era às 4 e assim não foi a primeira a falar e o primeiro a falar foi o António Melo que primeiro leu o papel que o António Almeida enviou pela Manela e a seguir contou-nos o seu exílio e como se aprendem coisas lá fora sobre cá dentro e que não esquecem. Quando ele findou e terminaram as palmas contentes com o seu exílio levantou-se a Ana Benavente a seu lado e à minha frente, na mesma mesa e disse como ela se exilou desse pequenino e antigo mundo que era o Portugal de sacristia e Santa Comba Dão e disse dela exilada na Suíça e como foi chocante saber que contrariamente ao que lhe ensinaram aqui, os católicos eram os mais atrasadinhos, viu com os seus olhos na Suíça e que afinal os protestantes é que foram e eram a modernidade. Juntou-se às mulheres e aos homens de todos os países, libertou-se e explicou que o Maio de 68 lhe deu uma nova esperança. Na mão o livro dela, Pátria Utópica, dela e do Eurico Figueiredo e dos outros e onde o Medeiros Ferreira revela que “tinha um projeto político para Portugal“ que assim ficava prejudicado com a sua partida para o exílio no verão de 1968, quem sabe talvez não tivéssemos agora o Passos e o Relvas e os amigos de Cavaco do BPN, quem sabe... Se eu fazia ideia que ele tinha um plano para Portugal! e esta gente toda dos exílios sem nenhum plano para Portugal? Depois lá do fundo da sala falou Veiga Pereira, dissemos não se ouve nada e ele disse mais alto e prendeu-nos às suas palavras de largo saber e experiência. Revelou por dentro o exílio de muitos exílios. Segui-se-lhe o coronel Pedroso Marques, sentado à sua direita, que esteve na revolta de Beja, na revolta do Portugal salazarento e viajou por esse mundo de exílios. E o Jorge Martins avisava, ameaçador, só tens mais um minuto e o minuto passava depressa e não deixava ouvir tudo e que era de muito interesse saber. Como a Noémia não chegava a Helena Pato levantou-se e anunciou intervalo para merenda e mais café que algumas trocaram por cerveja e outros pediram um prego e eu estive para pedir um copo de leite como o Joaquim mas pedi afinal outro café com um bolo à pressa.

A segunda parte dos exílios começou com a Noémia de Ariztia que mal chegara durante o intervalo e, sem ter ouvido os outros, julgando-se a primeira a ter de falar protestou: logo eu assim de chofre!? e o Jorge Martins deu ordem para prosseguir que em dez minutos o tempo voa e ela explicou que se exilou do Salazar e depois de uma belas voltas pela Europa casou com o Francisco de Ariztia amigo do Salvador Allende e foi para a terra dele e depois teve de se exilar do Pinochet. O Francisco, que veio com ela, sentou-se no outro lado da sala a observar tudo com um olhar longo como os cinco mil quilómetros que o Chile tem de alto a baixo. Exílio atrás de exílio salvou-se a Noémia com o 25 de Abril e acabou tudo ali no Vá Vá mas só depois da Helena Pato dizer que agora todos os primeiros Sábados de cada mês, ali mesmo, às 4 horas, há mais memórias à nossa espera para nos inspirarmos e melhor corrermos com esta trupe malsã do governo que lança Portugal no “exílio”. Ou ela disse ou eu assim entendi.
______________________
 Um clique em cada imagem. Basta um clique e elas revelam-se-nos em toda a sua dimensão!

Quando a realidade ultrapassa a fantasia

 
Passa por mim no Rossio

Passo por ali todos os dias. Excepto quando vou pela Praça da Figueira e apanho a outra entrada do Metro. Passo por ali todos os dias mas nem sempre ela lá está. Ou nem sempre reparo. Entre o que acabo de fazer, dois quarteirões atrás, na Rua dos Fanqueiros, no escritório sempre igual e o que planeio para as horas que me restam, quando chegar a casa, avanço contra o mar de gente que me atropela e, pensamento errando por largo, não vejo caras e não vejo corações. Por isso ela talvez lá esteja mais vezes. Talvez lá esteja todos os dias. Entre as montras faiscantes da Camisaria Moderna e os apelos da última moda exibidos pela Primaz, ela está acocorada junto ao umbral em cantaria, do número 113, da Praça de D. Pedro IV. No Rossio.
Hoje dei por mim parando, a olhar, quase inconveniente, empurrado pela onda humana que desliza alhe­ia, insensível, a fugir cansada para casa. 
Parei. Voltei atrás. Fingi observar as camisas, os pulôveres, os cachecóis da Primaz. E olhava aquela mulher.
Era uma mulher. Seria uma mulher? Pensamentos desordenados, sentimentos opostos, piedade, revolta... olhava a mulher disfarçadamente e olhei à volta, também.
A mulher, a velhinha, era cega, como se via pela bengala meio caída que só os cegos usam. Tinha pendurada ao pescoço uma tabu­leta. Andei para trás e para a frente, "a ver as montras", até conseguir ler as letras encarnadas em fundo branco de madeira:  ajudem-me sou ceguinha e sofro do coração. Estava sentada, caída, num tripé de lona velha, corcovada, quase um novelo, tombada sobre a direita, rente ao chão. Não se via. Ninguém a via. Por isso tocava uma campainha. Tocava com mão pouco segura, umas vezes aos soluços outras desesperadamente, uma sineta que atraía ( não atraía...) as atenções.
Agora me lembro melhor... aquele som..., aquele som agreste da campainha! agora me lembro  que a "via" mais vezes. Olhei à volta. Reconfortei-me. Parado, como eu, com o espanto no olhar e um estertor na alma, estava ali, também, especado, um homem. Olhei de novo a velha que não parava de badalar sem resultado a estridente sineta. Virei-me então para o homem, cúmplice, para lhe dizer com um olhar, vejam isto! ao que pode chegar um ser humano! porque era disso que se tratava. Um ser humano! E naquela torrente de homens e mulheres que, apressada, a um palmo de distância, corria, ninguém parava, ninguém se indignava, ninguém congeminava, em revolta, deitar governos a baixo, esventrar a ordem social que permite isto, despejar o mundo em toalha limpa e, peça sobre peça, encaixar tudo de novo...

Virei-me para o homem. Mais novo do que eu. Vestia com gosto. Calças de flanela bege a condizerem com uma camisola de malha castanha e um agradável lenço de seda ao pescoço. O homem, passado aquele momento de incredulidade inicial e perce­bendo melhor o exótico, mesmo o ridículo da figura da mulher da campainha, quando a esposa ou namorada já a ele se chegava de dentro da casa de modas - não acreditei - riu, riu, riu francamente, com gosto. E olhava-me para que risse. Talvez com a boa ideia da sineta. Talvez da coleira com a tabuleta de pau. Talvez porque a velha estava tão inclinada para o chão que parecia cair. Ou porque tocava irregular mas desesperadamente a campainha e nem uma única pessoa deitava uma moeda no mealheiro a tiracolo levan­tado desajeitadamente com a outra mão cega.

Meti-me então rapidamente na multidão. E foi provavelmente o homem, aquele homem, talvez sem culpa, mas desapiedado ou inconsciente que me obrigou a escrever, ainda que só mental­mente, enquanto vinha, sardinha em lata e absorto, no Metro, isto que agora aqui vos conto.

25 de Outubro de 1991.
____________________

“Passa por mim no Rossio” era o nome de uma peça de music hall levada ao palco do Politiama, em Lisboa, por La Féria que teve um grande sucesso no início dos anos 90 do século XX. O nome pareceu-me bom para o relato desta inominável tragédia (individual, eu sei, mas tragédia quand même). Lisboa acorria entusiasmada, a divertir-se e isso era perfeitamente compatível com aquela mulher ali, montra de outra Lisboa, sem que ninguém desse por ela. Se soubesse da peça talvez concluisse: bom nome para este meu estabelecimento. 
Não sei quem a colocava ali e a levava. Quem a explorava. Sim que ela - suspeito - devia estar ali a "trabalhar", escrava, para alguma mafia... ou talvez não. Quando me lembro sinto remorsos. Podia ter perguntado na Primaz ou na Camisaria Moderna se alguém sabia daquela mulher. Deveria ter-me interessado pelo caso, afinal era de um ser humano que se tratava. Mas fiz como toda a Lisboa, fui ao Politiama.

2013/01/04

A sessão anticomunista, lá na escola, foi adiada

 

Na romaria do Facebook encontrei a carta que vai na imagem ali exposta por João M. Aristides Duarte . Dirige-se ela aos professores [da escola] de Mós (Foz Coa) e é assinada pelo Sr João e o Sr Augusto também eles professores. A carta, enviada "A Bem da Nação", informa que devido ao mau tempo fica adiada para o "domingo próximo" a sessão anticomunista que tinha sido programada para a escola no anterior domingo, dia 24 de Janeiro.
Bem... se estão a pensar ir assistir lamento dizer que o domingo é do ano de 1937 e o tempo não volta para trás!
Era assim. Em Mós e no resto da nação aprisionada pelos fascistas que alguns pretendem branquear e levam uns tolos a invocar Salazar sem perceberem que é contra si que o invocam.

A Fuga do Forte de Peniche


Com um clique abre-se o livro, e folheia-se. Com outro clique amplia-se e escolhendo o símbolo dos 2 quadrados ao cimo amplia-se quanto necessário.
O livro contém um relato sucinto da fuga, uma reportagem multimedia do JN, com vídeo, que oferece uma visita guiada à prisão Forte de Peniche por dois dos fugitivos: Joaquim Gomes e Carlos Costa e ainda o Avante (completo) de Janeiro de 1960 que relata a fuga.

2012/12/29

O meu último salário no PCP


 
Como disse no post anterior, à procura de outro papel (também) encontrei este. É o recibo do meu último ordenado no PCP.
Revela que o salário era de 36.045$00. Feitos os descontos, recebi 31.200$00 (lê-se - isto é para os mais novos - trinta e um mil e duzentos escudos). Estes, os mais jovens, interrogar-se-ão e é muito ou é pouco? Era, de acordo com a política de vencimentos do PC, supostamente o salário de um operário qualificado. Quanto seria hoje? Naquela data o salário mínimo era de 27.200$00 e hoje é de 485 €. Feita a devida proporção à evolução do salário mínimo aqueles 36.045$00 corresponderiam hoje a 643 €.
Na realidade recebia ainda um subsídio de 3.300$00 por cada um dos dois filhos. Feita a proporção daria então um valor atual de 760 euros mensais. 
 
O critério para a definição do salário era aceite por todos os funcionários, mais ou menos. Para muitos dos funcionários sem qualquer qualificação especial, esse salário seria o que conseguiriam obter no exterior ao pequeno universo (passe a contradição) do PCP. E tinham, como todos, a segurança no emprego que, diga-se, tinha um valor não despiciendo.  
Tanto ganhava a camarada da limpeza como Cunhal, o secretário-geral do partido. Era um critério igualitarista, basista, em divergência com os critérios "leninistas" que apontavam para uma diferenciação, ainda que moderada, de acordo com as responsabilidades e qualificações por estas exigidas. O igualitarismo justificava-se na clandestinidade e mesmo no período revolucionário, mas depois tornou-se inadequado e até fonte de alguma suspeição no exterior ao extrapolar-se para o tipo de sociedade que o PCP desejaria instaurar. A maioria dos funcionários, na altura, dada a fraca formação política tomava o igualitarismo por conceito revolucionário por excelência e defendia-o.
 
Creio que mais tarde ( ou já haveria então?) passou a haver diferenciação salarial, mas num leque muito estreito, levando em conta a responsabilidade de tarefas e antiguidade.
Também a favor do PCP prevalecia e creio que prevalece o critério de que deputado ou autarca ganha o que ganhava na profissão de origem, antes de ser eleito e se for funcionário do PCP ganha o salário de funcionário, acrescido de um pequeno subsídio para despesas de representação e não ter no trajar o mau aspeto dos pedintes da Senhora Isabel Jonet.
Seria interessante conhecer a situação atual no PC e nos outros partidos.
Na corrupta sociedade capitalista que vivemos encontramos nas maiores empresas nacionais salários que vão dos 485 euros aos 100.000 euros mensais se incluirmos os prémios. Pornográfico! como diria Bagão Félix.
A contensão salarial no PCP era indicativa da atitude "revolucionária" dos seus principais quadros mas não podia ser confundida com um padrão para a sociedade que almejavam. Aliás ficou célebre e teve um forte impacte negativo uma declaração de Álvaro Cunhal ao declarar o seu salário (à volta do salário mínimo) no fim dos anos 70, creio, e acrescentar que não precisava de mais, num momento em que a CGTP e o PCP exigiam e lutavam por salários bastante mais altos para os trabalhadores. 
 
Quando no início de 1989,  me demiti do  meu emprego, de funcionário do PCP, não tinha nenhuma perpetiva de emprego e aos 50 anos com um currículo todo no PCP a expetativa era negra. A decisão de me demitir vinha na sequência da rotura com a orientação política do partido, contestada por mim e mais alguns outros militantes, durante um ano e meio, no comité central e vencida, como sabíamos, no congresso de Dezembro de 1988.
Felizmente alguns meses depois consegui emprego, numa empresa cooperativa, a PROMOCOOP, como diretor de projetos e a seguir como secretário-geral da Federação Nacional das Cooperativas de Serviços - FECOOPSERV. Passei a ganhar um pouco mais! Quatro vezes mais. Mas nunca me queixei nem me queixo do baixo salário no PC. Era um opção assumida. Vou ver se encontro o registo do meu último salário como funcionário do PCP na clandestinidade. Se o conseguir informo-vos. Creio que com os subsídios de filhos e de renda de casa (o valor desta estava condicionado, por razões conspirativas, à zona que era distribuída a cada funcionário) andava pelos 900$00. Mas não garanto.

O Empire State Building


 À procura de outro papel encontrei este que aqui ao lado vos mostro.  É um bilhete de 10 dólares, preço que podereis confirmar aguçando a vista, para ir lá acima, ao Empire State Building, observar a urbe. Desde há um ano que o Empire State Building, com a tragédia das Twin Towers, voltara a ser o edifício mais alto da grande metrópole.

Cá em baixo não se notava muito mas quando cheguei ao terraço e alonguei a vista para ver o espectáculo de NY a meus pés foi um choque. Estava um nevoeiro serradíssimo que não deixava ver um palmo à frente do nariz. A minha decepção foi grande mas sem companhia com que desabafasse não exteriorizei o que me ia na alma. No entanto, acompanhada do namorado ou do marido, a jovem ao meu lado, não se conteve e forte da impunidade que lhe dava a barreira da língua de Camões em terra de Yankees despejou, do cimo do Empire State Building, toda a sua frustração. "Filho da p... do nevoeiro, c... f... isto tudo, perdemos tempo e dinheiro e olhava para o rapaz à espera de consolação." Eh lá! Balbuciei mas só com o olhar. Quando regressámos ao rés-do-chão passados poucos minutos observei: vejo que são portugueses. E de gema. A moça fez uma cara de pânico, mas o rapaz informou-me simpaticamente: estamos cá a trabalhar, somos emigrantes, somos do Norte. Isso eu percebera pelo léxico da moçoila. Boa sorte e até à vista devo ter dito ou algo semelhante. 

2012/12/13

Um Comunicado da PIDE/DGS a um ano do seu fim

Como bem se indica na imagem isto diz respeito a 1973 portanto nada de confundir com a realidade atual. Por ora, em 2012, o governo de Portugal dos credores que dirige Portugal e onde ganha visibilidade o ministro Abebe Selassie, assessorado pelo Sr Passos Coelho, o Dr. Relvas, e o Sr.Gaspar estão apenas, como lhes compete, a tentar salvaguardar os interesses dos banqueiros lá de fora e cá de dentro. E de caminho, claro, também os seus, nem faria sentido admitir o contrário. Receiam os portugueses ser atirados para a miséria e que Portugal regrida umas dezenas de anos? Paciência, pensam eles e, "custe o que custar", levarão a cabo a sua missão... se nós consentirmos. 
 
Ofereço-vos aqui um comunicado da PIDE que, com Marcelo Caetano, se travestiu com o nome de DGS. É a conversa da PIDE para "o Bom Povo Português" com os pides preocupados com "as gentes ordeiras e trabalhadoras" prejudicadas por estes "terroristas" que tinham a extrema preocupação de não atingir pessoas, nem mesmo a eles os torturadores e assassinos da PIDE/DGS.
(Um clique nas imagens permite uma leitura sem óculos.)

2012/12/11

Jorge Martins apresenta-nos Maria Gomes

 
Maria Gomes é de Castelo Branco, tem duas filhas e dois filhos do primeiro casamento com António Rodrigues. Após ter enviuvado casou com Fernão Martins de quem não teve filhos.
É filha de Alonso Gomes, mercador, natural de Arronches e de Helena Fernandes natural de Castelo Branco.
Maria Gomes está presa há dois anos, período que durou os interrogatórios e o julgamento.
 
Convoquem todos os vossos “amigos” pelo Facebook para a cerimónia piedosa que decorre no próximo domingo, em Lisboa, a seguir à Santa Missa, no Largo da Ribeira Velha onde será erguida a fogueira e, após o sermão do padre Manuel Rebelo, queimada viva Maria Gomes, para salvação da sua e das nossas almas.
 
Não é bem assim, concedo, e não havia ainda, julgo eu ,nem Twiter nem Facebook e o dia exato é 5 de Setembro de 1638. Esclareça-se que Maria Gomes tinha então 117 anos de idade e foi a mais velha cristã-nova a ser "salva" pelo fogo purificador da Santa Inquisição.
Cumpre acrescentar que Maria Gomes esteve presa 2 anos, antes de condenada, foi submetida à brutal tortura da polée a interrogatórios e ameças sem fim. Como mandava o regulamento do Santo Ofício, nunca chegou a saber do que a acusavam em concreto para além de “seguir a lei de Moisés” nem quem a acusou. Era obrigada, na esperança de se salvar da fogueira a denunciar o que pensava e não pensava “em seu coração” e quem poderia ter, como ela, trato com o diabo ao “ser crente na Lei de Moisés”
Com ela foram queimados vivos nesse dia mais três mulheres e três homens.
Crueldade e Cinismo
Os inquisidores têm perfeita consciência da hediondez dos crimes e das consequências negativas para a imagem da Igreja, como agora se diria, das suas fogueiras onde chegavam a queimar os restos mortais de quem não tinham conseguido condenar em vida. Por isso a Inquisição condenava à fogueira mas depois relaxava (entregava) à justiça secular a execução. E fazia-o com requinte: assim o sermão do padre Manuel Rebelo não podia esquecer as palavras canónicas para Maria Gomes:
“… a condenam e relaxam à justiça secular a quem pedem com muita insistência e eficácia se aja com ela benigna e piedosamente e não proceda à pena de morte nem efusão de sangue.” Condenam à morte e pedem para que “não se proceda à pena de morte”. E ai dos Magistrados que não cumprissem à risca e prontamente as ordens da Inquisição. “Eram excomungados e tratados como hereges”.
A inquisição foi estabelecida em 1536, no reinado de D. João III e extinta ou, se preferirem, enviada para os infernos, em 1775, pelo Marquês de Pombal. A congregação desapareceu em Portugal mas continuou sob a proteção do papado e de transformação em transformação tem hoje como sua herdeira a Congregação para a Doutrina da Fé. Sim que uma congregação sagrada, com aquele passado de salvação de tantas almas, não se deve extinguir, mesmo que já não tenha lume para fogachar. Mas creio que o Papa, há uns anos, quando estava na moda pedir desculpa também a pediu para "certos exageros" da Inquisição.
Tudo isto e muito mais, relata Jorge Martins, historiador um dos maiores, senão o maior conhecedor da história dos Judeus portugueses, no seu muito interessante livro
MARIA GOMES CRISTÃ-NOVA, 117 ANOS A MAIS IDOSA VÍTIMA DA INQUISIÇÃO
agora editado pela Vega.
Jorge Martins conta-nos com proximidade e rigor o que se passou e como passou com Maria Gomes, essa nossa concidadã e avó, tão distante e tão próxima, trazida até nós como uma mulher igual a todas as mulheres que connosco no quotidiano convivem. Mas o autor oferece-nos também o regimento da Inquisição e o Sermão daquele Auto-de-Fé.
Post Scriptum: esqueci-me de dizer algo essencial. É que isto não era condenar por condenar, incendiar por incendiar, é que quem pagava todas as despesas e todo a aquele exército de "irmãos" dominicanos do Santo Ofício e enriquecia o seu inchado e sumptuoso património eram os bens, logo arrestados, dos judeus nacionais convertidos à força, denominados cristãos-novos.
--------------
Li o livro fiquei a saber melhor o que nós somos e de onde viemos. E assim, até consigo perceber melhor que ainda se vá consentindo no governo de Portugal estes Passos e Relvas, estes Gaspares e Borges. (Pequeno Borges. Não confundir com o verdadeiro, o argentino José Luís).
Estou esperançado, no entanto, que lá para Abril ou Maio (são meses bons) consigamos um bom auto-de-fé para estes “crentes na lei dos Mercados”. Auto-de-fé mas apenas digital, sem fogo nem polé. Que é que acham.

2012/12/09

A Igreja e a Sexualidade

Um dos cafés que frequento tem o CM e, com o devido cuidado, folheio-o. Para saber se aquelas raparigas das últimas páginas continuam muito bonitas, para ver se o artigo de opinião da página 3 é de autor que mereça respeito. E há-os, vários. Ontem li "Fé e pensamento" do padre, Fernando Calado Rodrigues.
O Início da leitura surpreendeu-me. Era um apelo à razão, à racionalidade sobre assunto de fé. Padre, o autor… aumentava a minha expectativa. Prossegui:
“Amanhã celebramos um dos últimos dogmas definidos pela Igreja: o da Imaculada Conceição. Foi há quase 160 anos que o Papa Pio XI o proclamou.

"Não foi uma imposição do papado aos fiéis. Mas foi uma vivência dos crentes que se impôs à Igreja. Séculos antes da proclamação dogmática da concepção da Virgem Maria sem mácula, já se acreditava e celebrava essa verdade.”
... “Contudo, também ela [a Igreja] reconheceu que jamais os poderá compreender perfeitamente e que nunca os conseguirá explicar e provar de uma forma puramente racional.
Maria, escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador, foi preservada do pecado, mas não foi dispensada de se interrogar nem de encontrar razões para a sua fé: é esta a perspetiva evangélica.
“Quando o Anjo lhe anuncia que vai ser a Mãe de Jesus, ela interroga-se: Como será isso possível? O Anjo responde que a Deus nada é impossível. …
"Então Maria (mesmo continuando sem compreender plenamente a missão que lhe é confiada) dá o salto da fé e disponibiliza-se para ser a Escrava do Senhor. Maria torna-se, assim, um modelo para todos os cristãos. Como ela, também todos se deverão interrogar, refletir e pôr mesmo em questão as suas crenças. Só assim poderão desenvolver uma fé mais consciente e consistente.”
________________

O autor começa por um apelo à racionalidade para a certa altura quanto tudo deixa de fazer qualquer sentido (a gravidez por obra e graça do Espírito Santo) devemos dar o salto de fé para aceitarmos como muito razoável, sem prejuízo da razão, a… mais absoluta irracionalidade. Por fim aconselha "Como ela [a virgem Maria], também todos se deverão interrogar, refletir e pôr mesmo em questão as suas crenças." E faz bem, mas põe em perigo a aceitação do absurdo!
Claro que respeito a religião e a religiosidade e seria a última coisa a passar-me pela cabeça discutir a racionalidade do irracional questionando o absurdo dos dogmas, pois eles são dogmas exatamente por serem absurdos. E sabemos que fins serve a alienação da mente humana.
Mas o ponto a que queria chegar não era o de pôr em dúvida a virgindade da menina tornada mãe por obra e graça do Espírito Santo e elevada a Santíssima Mãe de Deus. Isso eu dou de barato. O meu ponto é o qualificativo de “imaculada” , é a designação de mulher “sem mácula”, que vem a ser a condenação divina da mulher, por ser mulher, da mulher por ser mãe, a condenação absurda da faculdade mais essencial para a existência da humanidade. É a condenação do ato sexual, do ato que dá a vida, do ato fonte de prazer e essencial, para lá da maternidade, à saúde física e frequentemente mental dos homens e das mulheres.
Por fim e não menos relevante, do acto sexual de homem e mulher o pecado fica só para ela.

Nisto a Igreja Católica tem grandes afinidades com o Islão.

2012/11/27

Que casamento mais insólito, pá

 
O meu amigo quiz pôr o seu casamento "no ar", "nas núvens", "na internete, ou lá o que é isso mas não ponhas o nome." E assim, mesmo sem pedir autorização aos outros implicados deixo-vos aqui, anónima, a história deste casamento ou, mais rigorosamente, do seu registo civil.
 
À esquerda está a madrinha, a seguir a noiva, chegado a ela o noivo e à direita, o padrinho. Os noivos eram funcionários do PCP e os padrinhos professores de Matemática. No registo a conservadora pediu a profissão e o noivo respondeu que era funcionário de partido político. Isso não é profissão, reagiu, legal, a Drª. Estávamos em 27 de Novembro de 1975! São profissões novas, redarguiu o meu amigo que se casava e, para maior desconcerto da conservadora, acrescentou: e já agora aproveitamos para registar um filho com um ano e "legitimar" uma filha com cinco que apesar de registada o regime fascista que há pouco foi derrubado, só porque os pais não estavam casados considerava "filha ilegítima".
Os noivos, digo-vos aqui à puridade, se bem que hoje isso seja trivial, estavam amigados. Amigados, ou juntos ou amantizados como preferirem.
Registado o enlace foram festejar o casamento com um almoço muito privado, só os quatro, ao Ginjal, um restaurante simpático, em Cacilhas.
 
A singularidade do casamento não fica por aqui. É que dois dias antes tinha havido o golpe do 25 de Novembro: comandos com Jaime Neves na rua a cercar o Regimento de Lanceiros (Polícia militar) na Ajuda, estado de sítio... Melo Antunes, uma referência central da revolução portuguesa (uma sua biografia saiu agora), foi à TV travar a extrema direita que queria galgar o Grupo dos Nove (Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pezarat,...) e garantir que o PCP não seria ilegalizado porque "era indispensável ao regime democrático". Na dúvida, os principais dirigentes do PCP abandonaram nesses dias as sedes do partido e o noivo reunia na manhã do casamento com Álvaro Cunhal, Jaime Serra e vários outros dirigentes, em local secreto, na residência do camarada JM.
- Camaradas queria informar-vos que tenho o meu casamento marcado para hoje, 27, ao meio dia. Há um mês quando marquei data não adivinhava um 25 de Novembro assim. É aqui perto, na Av. Guerra Junqueiro (Lisboa), de modo que não demoro, saio um quarto de hora antes e vou lá numa corrida. Dispensaram o meu amigo de regressar à reunião e o noivo lá foi  a pensar que se lixe a troica que se lixe a contra-revolução, ela que espere!

2012/11/06

1966: 90 presos políticos no Forte de Peniche


Para que "Não Apaguem a Memória" ofereço-vos aqui a cópia (digitalizada) de uma informação que circulou no início de 1967 entre os quadros clandestinos do PCP, talvez destinada também à Comissão de Socorro aos presos políticos. Nela se informa sobre a situação dos 90 presos políticos, no Forte de Peniche, em 1966. Nome, idade, profissão, terra de origem, pena, incluindo ou não medidas de segurança (continuação da prisão após cumprida a pena, por tempo indeterminado, ao critério da PIDE), prisões e anos de prisão sofridos em prisões anteriores, advogados de defesa.
Uma análise deste documento será muito elucidativa sobre a luta contra a ditadura. Sobre quem luta, e sobre as duríssimas penas a pessoas que apenas reclamavam, pão, trabalho, justiça, democracia, liberdade. Há muitos operários, alguns estudantes e intelectuais. São 53 operários, 18 empregados, 7 estudantes, 4 engenheiros, 1 médico, 1 professor, um capitão do Exército. Há penas monstruosas. Uma de 21 anos, outra de 16 anos, outra de 14 anos e seis meses. 81 presos com penas de muitos anos e outras de 1 e meio ou 2 anos com "medidas de segurança" que tanto podem representar 3, 6, 9 anos ou os que a PIDE entender. Pouco tempo antes fora libertado Manuel Rodrigues da Silva depois de 23 anos preso, Francisco Miguel fugiu de Caxias já com quase 22 anos de prisão, José Magro´é um dos que está nesta relação de presos de Peniche foi condenado a 10 anos mas quando sair perfez cerca de 21 anos de prisão. Que crimes? Delitos de opinião, de luta pela liberdade, sem armas nem sangue. E todos formam submetidos a torturas durante semanas e meses. Alguns até à beira da morta e da loucura a que alguns não resisitiram.
Entre os presos não encontrei nenhum... banqueiro nem latifundiário. 
Que os exemplos do passado nos inspirem nos combates políticos que hoje em democracia temos de travar quando estão em causa muitas das conquistas sociais que o 25 de Abril nos trouxe.
______________________
 
Este dispositivo digital do ISSUU oferece a informação sob a forma de um livro. Um clique na imagem abre o "livro". Um clique na seta lateral da folha do livro, à esquerda ou à direita, folhea-o.  Para ampliar a imagem se a letra for pouco legível mais um clique.
Boa leitura.