2019/09/17

EDWARD SNOWDEN HERÓI DA HUMANIDADE

Memórias do homem que denunciou o “capitalismo de vigilância”

No livro Vigilância Massiva, Registo Permanente, que publica hoje (ed. portuguesa da Planeta), o antigo espião explica porque divulgou um programa global de vigilância. Eis um excerto (Jornal Público 2019-09-17) 

A razão por que está a ler este livro é eu ter feito uma coisa muito perigosa para alguém na minha posição: decidi dizer a verdade.
[O governo americano] assumiu, em segredo, o poder da vigilância massiva, uma autoridade que por definição afecta mais os inocentes do que os culpados
O meu nome é Edward Joseph Snowden. Costumava trabalhar para o governo, mas agora trabalho para o público. Demorei quase três décadas a perceber que há uma diferença, e quando isso aconteceu tive alguns problemas no escritório. Em consequência, agora dedico o meu tempo a proteger o público do género de pessoa que então era: um espião da Central Intelligence Agency (CIA) e da National Security Agency (NSA), mais um jovem técnico desejoso de construir aquilo que, tinha a certeza, ia ser um mundo melhor.

A minha carreira na Comunidade da Informação (CI) americana durou sete curtos anos, ou seja — e foi uma surpresa quando me apercebi disto —, só mais um ano do que o tempo do meu subsequente exílio num país que não escolhi. Durante esses sete anos, no entanto, tive a oportunidade de participar na mais significativa mudança na história da espionagem americana — a passagem da vigilância de alvos individualizados para a vigilância massiva de toda a população. Ajudei a tornar tecnologicamente exequível para um governo coligir as comunicações digitais do mundo inteiro, armazená-las por períodos indefinidos e consultá-las à vontade.
Depois do 11 de Setembro, a CI ficou esmagada pela culpa de não ter conseguido defender a América, por ter deixado que o ataque mais devastador e destrutivo contra o nosso país desde Pearl Harbor acontecesse “no seu turno”, para usar uma expressão popular. Em resposta, os seus líderes procuraram construir um sistema que evitasse serem apanhados mais uma vez com um pé no ar. Esse sistema teria como base a tecnologia, uma matéria alienígena para o seu exército de cientistas políticos e doutores em gestão administrativa. As portas das mais sigilosas agências de informação abriram-se de par em par para jovens técnicos como eu. E os nerds herdaram a Terra.
Se naquela altura havia qualquer coisa de que eu percebia, era de computadores, de modo que subi depressa. Com vinte e dois anos, recebi da NSA a minha primeira autorização de nível Muito Secreto para um lugar na base do organograma da instituição. Menos de um ano mais tarde, estava na CIA, como engenheiro de sistemas com acesso ilimitado a algumas das mais sensíveis redes do planeta. O único supervisor adulto era um tipo que passava o turno a ler romances de espionagem de Robert Ludlum e Tom Clancy.
As agências estavam a violar todas as regras que elas tinham estabelecido no empenho de contratar talento técnico. Em circunstâncias normais nunca contratavam ninguém que não tivesse pelo menos um bacharelato, ou, mais tarde, no mínimo frequência universitária, e eu não tinha nenhuma destas coisas. À luz de todas as normas, não devia ser autorizado a entrar no edifício. (...)
Com vinte e seis anos era, no papel, empregado da Dell, mas mais uma vez trabalhava para a NSA. A procura de fornecedores de serviços tinha-se tornado a minha cobertura, como a da maior parte dos espiões com tendências tecnológicas do meu grupo. Mandaram-me para o Japão, onde ajudei a conceber o que na prática acabou por ser o backup global da agência — uma massiva rede clandestina graças à qual mesmo que a sede da NSA fosse reduzida a cinzas por um ataque nuclear havia a certeza de que nenhuma informação se perderia. Na altura, não me apercebi de que criar um sistema capaz de manter um registo permanente da vida de toda a gente era um trágico erro.
Voltei aos EUA dois anos mais tarde e recebi uma promoção estratosférica para a equipa técnica que assegurava o relacionamento da Dell com a CIA. A minha função era reunir-me com os chefes das secções técnicas da CIA para criar e vender a solução para qualquer problema que eles fossem capazes de imaginar. A minha equipa ajudou a agência a construir um novo tipo de arquitectura de computação: a “nuvem”, a primeira tecnologia que permitia a qualquer agente, fosse qual fosse a sua localização física, aceder e pesquisar quaisquer dados de que precisasse, independentemente da distância.
Em resumo, o trabalho de gerir e conectar o fluxo de informação levou ao trabalho de descobrir como armazená-la para sempre, que por sua vez deu lugar ao trabalho de garantir que essa informação estava acessível e podia ser consultada em qualquer parte do mundo. Foi nestes projectos que me concentrei quando, com vinte e nove anos, fui para o Havai depois de ter aceite um novo contrato com a NSA. Até essa altura, tinha funcionado com base na doutrina da Necessidade de Saber, incapaz de compreender o propósito cumulativo por trás das minhas tarefas especializadas e compartimentadas. Foi só no paraíso que estive enfim numa posição que me permitia ver como todo o meu trabalho funcionava em conjunto, como as rodas dentadas de uma gigantesca engrenagem, para criar um massivo sistema de vigilância global.
Nas profundezas de um túnel sob uma plantação de ananases — uma antiga fábrica subterrânea de aviões da era Pearl Harbor —, sentava-me diante de um terminal que me dava um acesso quase ilimitado às comunicações de praticamente qualquer homem, mulher ou criança que à face da Terra usasse um telefone ou um computador. Entre essas pessoas havia cerca de 320 milhões de cidadãos americanos, meus compatriotas, que na condução normal das suas vidas quotidianas eram vigiados numa grosseira contravenção não só da Constituição dos Estados Unidos como dos valores mais básicos de qualquer sociedade livre.
A razão por que está a ler este livro é eu ter feito uma coisa muito perigosa para alguém na minha posição: decidi dizer a verdade. Coligi documentos da CI interna probatórios da violação da lei por parte do governo dos EUA e entreguei-os a jornalistas, que os avaliaram e mostraram a um mundo escandalizado.
Este livro é a respeito do que levou a essa decisão, dos princípios éticos e morais que a en formaram, e de como nasceram… o que significa que é também a respeito da minha vida.

Quartel-General da CIA em Langley - Virginia 

O que faz uma vida? Mais do que aquilo que dizemos; mais, até, do que aquilo que fazemos. Uma vida é também aquilo que amamos, e aquilo em que acreditamos. Para mim, aquilo que mais amo e em que mais acredito é conexão, conexão humana, e as tecnologias através das quais é conseguida. Essas tecnologias incluem livros, claro. Mas, para a minha geração, conexão tem significado sobretudo a internet.
Antes que recue, sabedor da loucura tóxica que infesta esse vespeiro nos nossos dias, compreenda que para mim, quando a conheci, a internet era uma coisa muito diferente. Era um amigo, e um pai. Era uma comunidade sem fronteiras nem limites, uma voz e milhões, um território comum ocupado mas não explorado por várias tribos que viviam em amizade lado a lado, e cada um era livre de escolher o seu nome e a sua história e os seus costumes. Todos usavam máscaras, e no entanto esta cultura de anonimidade-através-da polinomia produzia mais verdade do que falsidade, porque era criativa e cooperativa em vez de comercial e competitiva. Claro que havia con flito, mas era mais do que compensado pela boa vontade e os bons sentimentos: o verdadeiro espírito dos pioneiros.
Compreender-me-á, então, quando digo que a internet dos nossos dias está irreconhecível. Não importa que esta escolha tenha sido consciente, resultado de um esforço sistemático por parte de alguns poucos privilegiados. O impulso inicial para transformar comércio em “e-comércio” levou muito depressa à criação de uma bolha, e então, logo a seguir ao virar do milénio, a um colapso. Depois disso, as empresas perceberam que as pessoas que entravam online estavam muito menos interessadas em gastar do que em partilhar, e que a conexão humana possibilitada pela internet podia ser monitorizada. Se o que a maior parte das pessoas
online queria era poder dizer à família, aos amigos, a desconhecidos o que estava a fazer, e em troca saber o que estavam a fazer a família, os amigos e os desconhecidos, a única coisa de que as empresas precisavam era arranjar maneira de situar-se no meio destes intercâmbios sociais e lucrar com isso.
Foi o começo do capitalismo de vigilância, e o fim da internet tal como eu a conhecia.
Ora bem, foi a web criativa que colapsou, e inúmeros sites individualizados, criativos e difíceis fecharam portas. A promessa de conveniência levou as pessoas a trocar os seus sites pessoais — que exigiam uma manutenção constante e trabalhosa — por uma página no Facebook e uma conta Gmail. Era fácil tomar a aparência de propriedade pela sua realidade. Poucos de nós o compreenderam na altura, mas nada daquilo que passaríamos a partilhar continuaria a pertencer-nos. Os sucessores das empresas de e-comércio que tinham falhado por não conseguir encontrar qualquer coisa que estivéssemos interessados em comprar tinham agora um novo produto para vender.
O novo produto éramos Nós. 
A nossa atenção, a nossa actividade, os nossos lugares, os nossos desejos — tudo a nosso respeito que revelávamos, tendo ou não consciência disso, estava a ser vigiado e vendido em segredo, de modo a adiar a inevitável sensação de violação que, para a maior parte de nós, só agora começa a aparecer. E esta vigilância continuaria a ser encorajada de uma forma activa, e até financiada, por um exército de governos gulosos do enorme volume de informação que iriam obter. Exceptuando o acesso e as transacções financeiras, poucas ou nenhumas comunicações eram encriptadas na primeira década dos anos 2000, o que significa que em muitos casos os governos nem tinham de dar-se ao trabalho de abordar as empresas para saber o que os respectivos clientes andavam a fazer. Bastava-lhes espiar o mundo sem dizer nada a ninguém.
O governo americano, em total desrespeito pela sua carta fundadora, foi vítima desta tentação, e uma vez provado o fruto desta árvore venenosa foi assaltado por uma febre incurável. Assumiu, em segredo, o poder da vigilância massiva, uma autoridade que por de fi nição afecta mais os inocentes do que os culpados. Só quando cheguei a uma compreensão mais profunda desta vigilância e dos seus males comecei a ser perseguido pela consciência de que nós, o povo — o povo não de um só país mas do mundo inteiro —, nunca tivemos direito de voto, e nem de expressar a nossa opinião, neste processo. O sistema de vigilância quase universal tinha sido criado não só sem o nosso consentimento, mas também de uma forma que escamoteava ao conhecimento, de intenção deliberada, todos os aspectos dos seus programas. A cada passo, a mudança dos procedimentos e as suas consequências eram ocultadas a toda a gente, incluindo a maior parte dos legisladores. 
Para quem podia voltar-me? Com quem podia falar?

2019/04/28

A Libertação dos presos políticos de Caxias pelos capitães de Abril

A convite da Associação 25 de Abril participei numa comissão com alguns " capitães de Abril" numa comissão que apoiou a CM de Oeiras nas comemorações do 45º aniversário da revolução dos cravos, que inclui uma estátua a erigir mais tarde e a inauguração de uma lápide em homenagem aos presos políticos no jardim em frente da prisão (Reduto Norte) no dia 26 de Abril de 1974, exactamente 45 anos depois da libertação.

Deixo aqui algumas fotografias da homenagem aos que tanto lutaram e sofreram para usufruirmos hoje da Liberdade que gozamos.
Na 1ª foto vê-se, de costas, a Ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, o presidente da CMOeiras Isaltino Morais e Manuel Alegre autor do poema impresso na lápide, no momento em que a inauguravam.
Na 2ª foto estou eu com Mário Pinto, o então capitão e agora coronel reformado, comandante da força de paraquedistas que libertou os presos em 26 de Abril de 1974.
Nas outras fotos, se as ampliarem com um clique, reconhecerão vários outros "capitães de Abril" nomeadamente o Otelo.
Depois dos discursos da Ministra da Justiça, de Manuel Alegre e de Isaltino Morais, fez-se a abertura simbólica do grande portão de ferro da prisão e dele saíram não os ex-presos mas um lindo e vibrante  grupo de miúdas e miúdos, alunos dos primeiros anos de escolaridade, alguns deles netos de ex-presos. Correram para nós e ofereceram-nos um saco com os versos da lápide que se vê na foto onde estou com Mário Pinto e dentro um cravo vermelho e uma folha decorada com uma pintura e uns versos da autoria de cada um. A mim uma jovenzinha ofereceu-me a "obra de arte" que vai reproduzida aqui em baixo que no verso tem escrito EBS. Bruno 3º ano Maria L Leonor.
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