2012/12/13

Um Comunicado da PIDE/DGS a um ano do seu fim

Como bem se indica na imagem isto diz respeito a 1973 portanto nada de confundir com a realidade atual. Por ora, em 2012, o governo de Portugal dos credores que dirige Portugal e onde ganha visibilidade o ministro Abebe Selassie, assessorado pelo Sr Passos Coelho, o Dr. Relvas, e o Sr.Gaspar estão apenas, como lhes compete, a tentar salvaguardar os interesses dos banqueiros lá de fora e cá de dentro. E de caminho, claro, também os seus, nem faria sentido admitir o contrário. Receiam os portugueses ser atirados para a miséria e que Portugal regrida umas dezenas de anos? Paciência, pensam eles e, "custe o que custar", levarão a cabo a sua missão... se nós consentirmos. 
 
Ofereço-vos aqui um comunicado da PIDE que, com Marcelo Caetano, se travestiu com o nome de DGS. É a conversa da PIDE para "o Bom Povo Português" com os pides preocupados com "as gentes ordeiras e trabalhadoras" prejudicadas por estes "terroristas" que tinham a extrema preocupação de não atingir pessoas, nem mesmo a eles os torturadores e assassinos da PIDE/DGS.
(Um clique nas imagens permite uma leitura sem óculos.)

2012/12/11

Jorge Martins apresenta-nos Maria Gomes

 
Maria Gomes é de Castelo Branco, tem duas filhas e dois filhos do primeiro casamento com António Rodrigues. Após ter enviuvado casou com Fernão Martins de quem não teve filhos.
É filha de Alonso Gomes, mercador, natural de Arronches e de Helena Fernandes natural de Castelo Branco.
Maria Gomes está presa há dois anos, período que durou os interrogatórios e o julgamento.
 
Convoquem todos os vossos “amigos” pelo Facebook para a cerimónia piedosa que decorre no próximo domingo, em Lisboa, a seguir à Santa Missa, no Largo da Ribeira Velha onde será erguida a fogueira e, após o sermão do padre Manuel Rebelo, queimada viva Maria Gomes, para salvação da sua e das nossas almas.
 
Não é bem assim, concedo, e não havia ainda, julgo eu ,nem Twiter nem Facebook e o dia exato é 5 de Setembro de 1638. Esclareça-se que Maria Gomes tinha então 117 anos de idade e foi a mais velha cristã-nova a ser "salva" pelo fogo purificador da Santa Inquisição.
Cumpre acrescentar que Maria Gomes esteve presa 2 anos, antes de condenada, foi submetida à brutal tortura da polée a interrogatórios e ameças sem fim. Como mandava o regulamento do Santo Ofício, nunca chegou a saber do que a acusavam em concreto para além de “seguir a lei de Moisés” nem quem a acusou. Era obrigada, na esperança de se salvar da fogueira a denunciar o que pensava e não pensava “em seu coração” e quem poderia ter, como ela, trato com o diabo ao “ser crente na Lei de Moisés”
Com ela foram queimados vivos nesse dia mais três mulheres e três homens.
Crueldade e Cinismo
Os inquisidores têm perfeita consciência da hediondez dos crimes e das consequências negativas para a imagem da Igreja, como agora se diria, das suas fogueiras onde chegavam a queimar os restos mortais de quem não tinham conseguido condenar em vida. Por isso a Inquisição condenava à fogueira mas depois relaxava (entregava) à justiça secular a execução. E fazia-o com requinte: assim o sermão do padre Manuel Rebelo não podia esquecer as palavras canónicas para Maria Gomes:
“… a condenam e relaxam à justiça secular a quem pedem com muita insistência e eficácia se aja com ela benigna e piedosamente e não proceda à pena de morte nem efusão de sangue.” Condenam à morte e pedem para que “não se proceda à pena de morte”. E ai dos Magistrados que não cumprissem à risca e prontamente as ordens da Inquisição. “Eram excomungados e tratados como hereges”.
A inquisição foi estabelecida em 1536, no reinado de D. João III e extinta ou, se preferirem, enviada para os infernos, em 1775, pelo Marquês de Pombal. A congregação desapareceu em Portugal mas continuou sob a proteção do papado e de transformação em transformação tem hoje como sua herdeira a Congregação para a Doutrina da Fé. Sim que uma congregação sagrada, com aquele passado de salvação de tantas almas, não se deve extinguir, mesmo que já não tenha lume para fogachar. Mas creio que o Papa, há uns anos, quando estava na moda pedir desculpa também a pediu para "certos exageros" da Inquisição.
Tudo isto e muito mais, relata Jorge Martins, historiador um dos maiores, senão o maior conhecedor da história dos Judeus portugueses, no seu muito interessante livro
MARIA GOMES CRISTÃ-NOVA, 117 ANOS A MAIS IDOSA VÍTIMA DA INQUISIÇÃO
agora editado pela Vega.
Jorge Martins conta-nos com proximidade e rigor o que se passou e como passou com Maria Gomes, essa nossa concidadã e avó, tão distante e tão próxima, trazida até nós como uma mulher igual a todas as mulheres que connosco no quotidiano convivem. Mas o autor oferece-nos também o regimento da Inquisição e o Sermão daquele Auto-de-Fé.
Post Scriptum: esqueci-me de dizer algo essencial. É que isto não era condenar por condenar, incendiar por incendiar, é que quem pagava todas as despesas e todo a aquele exército de "irmãos" dominicanos do Santo Ofício e enriquecia o seu inchado e sumptuoso património eram os bens, logo arrestados, dos judeus nacionais convertidos à força, denominados cristãos-novos.
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Li o livro fiquei a saber melhor o que nós somos e de onde viemos. E assim, até consigo perceber melhor que ainda se vá consentindo no governo de Portugal estes Passos e Relvas, estes Gaspares e Borges. (Pequeno Borges. Não confundir com o verdadeiro, o argentino José Luís).
Estou esperançado, no entanto, que lá para Abril ou Maio (são meses bons) consigamos um bom auto-de-fé para estes “crentes na lei dos Mercados”. Auto-de-fé mas apenas digital, sem fogo nem polé. Que é que acham.

2012/12/09

A Igreja e a Sexualidade

Um dos cafés que frequento tem o CM e, com o devido cuidado, folheio-o. Para saber se aquelas raparigas das últimas páginas continuam muito bonitas, para ver se o artigo de opinião da página 3 é de autor que mereça respeito. E há-os, vários. Ontem li "Fé e pensamento" do padre, Fernando Calado Rodrigues.
O Início da leitura surpreendeu-me. Era um apelo à razão, à racionalidade sobre assunto de fé. Padre, o autor… aumentava a minha expectativa. Prossegui:
“Amanhã celebramos um dos últimos dogmas definidos pela Igreja: o da Imaculada Conceição. Foi há quase 160 anos que o Papa Pio XI o proclamou.

"Não foi uma imposição do papado aos fiéis. Mas foi uma vivência dos crentes que se impôs à Igreja. Séculos antes da proclamação dogmática da concepção da Virgem Maria sem mácula, já se acreditava e celebrava essa verdade.”
... “Contudo, também ela [a Igreja] reconheceu que jamais os poderá compreender perfeitamente e que nunca os conseguirá explicar e provar de uma forma puramente racional.
Maria, escolhida por Deus para ser a Mãe do Salvador, foi preservada do pecado, mas não foi dispensada de se interrogar nem de encontrar razões para a sua fé: é esta a perspetiva evangélica.
“Quando o Anjo lhe anuncia que vai ser a Mãe de Jesus, ela interroga-se: Como será isso possível? O Anjo responde que a Deus nada é impossível. …
"Então Maria (mesmo continuando sem compreender plenamente a missão que lhe é confiada) dá o salto da fé e disponibiliza-se para ser a Escrava do Senhor. Maria torna-se, assim, um modelo para todos os cristãos. Como ela, também todos se deverão interrogar, refletir e pôr mesmo em questão as suas crenças. Só assim poderão desenvolver uma fé mais consciente e consistente.”
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O autor começa por um apelo à racionalidade para a certa altura quanto tudo deixa de fazer qualquer sentido (a gravidez por obra e graça do Espírito Santo) devemos dar o salto de fé para aceitarmos como muito razoável, sem prejuízo da razão, a… mais absoluta irracionalidade. Por fim aconselha "Como ela [a virgem Maria], também todos se deverão interrogar, refletir e pôr mesmo em questão as suas crenças." E faz bem, mas põe em perigo a aceitação do absurdo!
Claro que respeito a religião e a religiosidade e seria a última coisa a passar-me pela cabeça discutir a racionalidade do irracional questionando o absurdo dos dogmas, pois eles são dogmas exatamente por serem absurdos. E sabemos que fins serve a alienação da mente humana.
Mas o ponto a que queria chegar não era o de pôr em dúvida a virgindade da menina tornada mãe por obra e graça do Espírito Santo e elevada a Santíssima Mãe de Deus. Isso eu dou de barato. O meu ponto é o qualificativo de “imaculada” , é a designação de mulher “sem mácula”, que vem a ser a condenação divina da mulher, por ser mulher, da mulher por ser mãe, a condenação absurda da faculdade mais essencial para a existência da humanidade. É a condenação do ato sexual, do ato que dá a vida, do ato fonte de prazer e essencial, para lá da maternidade, à saúde física e frequentemente mental dos homens e das mulheres.
Por fim e não menos relevante, do acto sexual de homem e mulher o pecado fica só para ela.

Nisto a Igreja Católica tem grandes afinidades com o Islão.

2012/11/27

Que casamento mais insólito, pá

 
O meu amigo quiz pôr o seu casamento "no ar", "nas núvens", "na internete, ou lá o que é isso mas não ponhas o nome." E assim, mesmo sem pedir autorização aos outros implicados deixo-vos aqui, anónima, a história deste casamento ou, mais rigorosamente, do seu registo civil.
 
À esquerda está a madrinha, a seguir a noiva, chegado a ela o noivo e à direita, o padrinho. Os noivos eram funcionários do PCP e os padrinhos professores de Matemática. No registo a conservadora pediu a profissão e o noivo respondeu que era funcionário de partido político. Isso não é profissão, reagiu, legal, a Drª. Estávamos em 27 de Novembro de 1975! São profissões novas, redarguiu o meu amigo que se casava e, para maior desconcerto da conservadora, acrescentou: e já agora aproveitamos para registar um filho com um ano e "legitimar" uma filha com cinco que apesar de registada o regime fascista que há pouco foi derrubado, só porque os pais não estavam casados considerava "filha ilegítima".
Os noivos, digo-vos aqui à puridade, se bem que hoje isso seja trivial, estavam amigados. Amigados, ou juntos ou amantizados como preferirem.
Registado o enlace foram festejar o casamento com um almoço muito privado, só os quatro, ao Ginjal, um restaurante simpático, em Cacilhas.
 
A singularidade do casamento não fica por aqui. É que dois dias antes tinha havido o golpe do 25 de Novembro: comandos com Jaime Neves na rua a cercar o Regimento de Lanceiros (Polícia militar) na Ajuda, estado de sítio... Melo Antunes, uma referência central da revolução portuguesa (uma sua biografia saiu agora), foi à TV travar a extrema direita que queria galgar o Grupo dos Nove (Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pezarat,...) e garantir que o PCP não seria ilegalizado porque "era indispensável ao regime democrático". Na dúvida, os principais dirigentes do PCP abandonaram nesses dias as sedes do partido e o noivo reunia na manhã do casamento com Álvaro Cunhal, Jaime Serra e vários outros dirigentes, em local secreto, na residência do camarada JM.
- Camaradas queria informar-vos que tenho o meu casamento marcado para hoje, 27, ao meio dia. Há um mês quando marquei data não adivinhava um 25 de Novembro assim. É aqui perto, na Av. Guerra Junqueiro (Lisboa), de modo que não demoro, saio um quarto de hora antes e vou lá numa corrida. Dispensaram o meu amigo de regressar à reunião e o noivo lá foi  a pensar que se lixe a troica que se lixe a contra-revolução, ela que espere!

2012/11/06

1966: 90 presos políticos no Forte de Peniche


Para que "Não Apaguem a Memória" ofereço-vos aqui a cópia (digitalizada) de uma informação que circulou no início de 1967 entre os quadros clandestinos do PCP, talvez destinada também à Comissão de Socorro aos presos políticos. Nela se informa sobre a situação dos 90 presos políticos, no Forte de Peniche, em 1966. Nome, idade, profissão, terra de origem, pena, incluindo ou não medidas de segurança (continuação da prisão após cumprida a pena, por tempo indeterminado, ao critério da PIDE), prisões e anos de prisão sofridos em prisões anteriores, advogados de defesa.
Uma análise deste documento será muito elucidativa sobre a luta contra a ditadura. Sobre quem luta, e sobre as duríssimas penas a pessoas que apenas reclamavam, pão, trabalho, justiça, democracia, liberdade. Há muitos operários, alguns estudantes e intelectuais. São 53 operários, 18 empregados, 7 estudantes, 4 engenheiros, 1 médico, 1 professor, um capitão do Exército. Há penas monstruosas. Uma de 21 anos, outra de 16 anos, outra de 14 anos e seis meses. 81 presos com penas de muitos anos e outras de 1 e meio ou 2 anos com "medidas de segurança" que tanto podem representar 3, 6, 9 anos ou os que a PIDE entender. Pouco tempo antes fora libertado Manuel Rodrigues da Silva depois de 23 anos preso, Francisco Miguel fugiu de Caxias já com quase 22 anos de prisão, José Magro´é um dos que está nesta relação de presos de Peniche foi condenado a 10 anos mas quando sair perfez cerca de 21 anos de prisão. Que crimes? Delitos de opinião, de luta pela liberdade, sem armas nem sangue. E todos formam submetidos a torturas durante semanas e meses. Alguns até à beira da morta e da loucura a que alguns não resisitiram.
Entre os presos não encontrei nenhum... banqueiro nem latifundiário. 
Que os exemplos do passado nos inspirem nos combates políticos que hoje em democracia temos de travar quando estão em causa muitas das conquistas sociais que o 25 de Abril nos trouxe.
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Este dispositivo digital do ISSUU oferece a informação sob a forma de um livro. Um clique na imagem abre o "livro". Um clique na seta lateral da folha do livro, à esquerda ou à direita, folhea-o.  Para ampliar a imagem se a letra for pouco legível mais um clique.
Boa leitura.
 

2012/10/31

A ditadura portuguesa e a sua polícia política


Este é o título do excelente artigo da historiadora Irene Pimentel (Público de 2012-10-29) que a seguir se reproduz.
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Nota: acabei de "reciclar" o post. Tive uma trabalheira para alinhar aqui o artigo do Público. Digitalizei-o, mas a imagem não ficava legível, então dividi-o ao meio e coloquei as duas imagens. Mas também não resultou. Parei então para pensar, coisa que nem sempre ocorre a um cidadão atormentado por um governo submetido, por vocação e gosto, à tutela dos mercados financeiros. Espera aí (sou eu a pensar) mas a Irene escreve no JUGULAR será que ela colocou o artigo no blog?
Pois é, está lá e melhorado, na versão original que não teve de sofrer as limitações de espaço dos jornais. Pensei então substituir o artigo pelo link para o blog mas reconsiderei: convém pensar, sem dúvida, mas não demais! E aqui fica o artigo copiado, tim tim por tim tim, do JUGULAR com uma vénia para a Senhora Historiadora.
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"Versão mais alargada do meu texto relativo à Ditadura portuguesa e à sua polícia política, publicado no jornal «Público», de 29 de Outubro de 2012. Por razões de espaço, a versão do jornal teve de ser abreviada.

Escrever História ou «fazer História» é uma prática baseada num conjunto de regras que, a partir da colheita e análise de fontes, propõe encadeamentos e interpretações para transmitir um conhecimento que se pretende o mais próximo possível da verdade – sempre provisória e relativa -, ou, melhor, da veracidade de uma determinada realidade passada. O historiador, porém, produz um local e um tempo diferentes do local e do tempo onde ele próprio está, e depende dos testemunhos, sabendo que, ao tentar conhecer, analisar e organizar o passado através de um discurso narrativo, o faz em função do presente e perspectivado por este. O historiador pode ser de direita ou de esquerda, mas deve porém, tender para o máximo de imparcialidade. A escrita da História não é neutra e é sempre modelada por escolhas e figuras de retórica e interpretativas, certamente moldadas pela ideologia e a mundivisão do investigador, mas não deve estar ao seu serviço.

O «fascismo» não existiu em Portugal?
Nos anos 80 do século XX, Eduardo Lourenço colocou a pergunta retórica: «o fascismo nunca existiu?» Hoje, segundo penso, não interessa tanto, no estado actual da investigação histórica em Portugal, afirmar que o regime político existente em Portugal entre 1932/33 e 1974 era «fascista», «totalizante» ou «autoritário». Afirmar que se tratava de uma ditadura com características conservadoras, reaccionárias e uma matriz católica não provocará grandes divergências. Ou seja, não interessa tanto saber se o «fascismo» existiu em Portugal, como interessa afirmar que vigorou uma Ditadura em Portugal durante muitos anos, tendo até sido a que maior longevidade teve na Europa do século XX.
O que interessa é caracterizar com o máximo de profissionalismo, capacidade interpretativa e veracidade como funcionava esse regime ditatorial, através das suas diversas instituições, dos diferentes factores e aspectos sociais, económicos e políticos devidamente contextualizados. Interessa também verificar de que forma isso tudo foi vivido no dia-a-dia dos portugueses, sabendo-se que estes não eram uma entidade colectiva mas uma colectividade de indivíduos com interesses e vivências diferentes. A cronologia e a contextualização obrigam a matizar essas mesmas experiências, que foram vividas de forma diferente nos anos 30 do que o foram nos anos setenta do século XX.

Outro aspecto muito importante é a análise comparativa, mas esta, quanto a mim, só deveria ser feita em períodos coevos e entre regimes afins, em contextos com um mínimo de denominadores comuns. Comparar permite não só detectar as semelhanças, como distinguir as diferenças e singularidades. Por exemplo, tão errado, quanto a mim, é concluir que a ditadura salazarista nos anos trinta e quarenta se assemelhava, na sua essência, ao nacional-socialismo alemão, sem ter em conta a diferença de monta que é a ausência de anti-semitismo na ideologia e no eStado salazarista, como o faz Manuel Loff (O Nosso Século é Fascista!, 2008), como afirmar que a ditadura portuguesa seria «moderada», o que já em si e uma contradição em termos, ou permitiria um pluralismo limitado ou «contido», exemplificando com a existência, entre 1932 e 1934, de um partido fascista – o movimento nacional-sindicalista, como faz Rui Ramos (História de Portugal, 2009, pp. 634 e 653, 698).

Mortes e prisões por razões políticas
Num estudo sobre a polícia política da ditadura de Salazar e Caetano, entre 1945 e 1974, procurei saber quantas detenções e mortes houve por razões políticas em Portugal, comparando esses números com outros em regimes ditatoriais, no mesmo contexto histórico. Eu própria fui surpreendida, ao detectar que a PIDE/DGS – na chamada metrópole – prendeu e matou menos do que eu pensava. Já a sua antecessora, a PVDE, entre 1933 e 1945, prendeu e matou mais que a PIDE. A tentação, sobretudo se é voluntária e ideologicamente motivada, pode ser retirar daí a conclusão de uma «moderação» da ditadura portuguesa. Mas há muitas outras explicações e factores explicativos. Por exemplo, um deles é que a sociedade «civil» em Portugal era muito menos forte e plural, na primeira metade do século XX, que noutros países europeus.
Em complemento a esta explicação, pode-se referir o facto de, entre 1926 e 1932, a ditadura militar, depois chamada Ditadura Nacional, ter vivido em clima de «guerra civil», aproveitando para eliminar progressivamente os diversos opositores políticos. À medida que fracassavam os movimentos civis e militares «reviralhistas” de 1927, 1928, 1930 e 1931, que se saldaram aliás por centenas de mortos, sucediam-se as vagas de prisões, deportações administrativas e saneamentos políticos. E não eram necessários os julgamentos para se enviar alguém durante dez anos para o Tarrafal. Após os republicanos e os «reviralhistas», foram derrotados os anarco-sindicalistas, até Salazar erigir como principal adversário político o comunismo, «a grande heresia da nossa idade» e, dessa forma, o PCP manteve-se como o principal adversário político até à irrupção das organizações de esquerda radical e de luta armada, no «marcelismo».
Quanto às mortes físicas, já se viu que houve muitas entre 1926 e 1932 e, entre esse ano e 1945, mas menos de então até 1974. Lembre-se sempre que me refiro aqui à na chamada metrópole. Depois, surgiu o contexto do pós-II Guerra, em que o regime português se enquadrou na NATO e na ONU, em clima de ditadura interna e de guerra-fria externa, a polícia política continuou a torturar, mas sem que isso se soubesse, ou que houvesse mortes. Francisco Martins Rodrigues foi submetido, em 1966, a uma simulação de fuzilamento, mas não acreditou que o fossem matar, pois sabia que não acontecia. Isso aconteceu, depois de dias e noites de tortura do sono e de constantes espancamentos. Sim, porque, tal como existiram saneamentos políticos «gerais» na ditadura portuguesa (Ramos, p. 634) – com picos em 1935 e 1947, mas sem deixarem de se verificar ao longo de toda a Ditadura –, e ninguém ingressava na Administração Pública, sem uma informação “boa” da PIDE, esta recorreu à tortura.

A tortura
E por que não utilizar a expressão, uma vez que as torturas foram os principais métodos de “investigação” da polícia política? A escolha de certas expressões, em detrimento de outras, dá um tom a uma realidade, iluminando-a ou deturpando-a. Dizer que a polícia utilizava «agressões verbais e físicas (especialmente a privação de dormir)» (Ramos, op. cit., p. 695) p. Ti., é uma verdade, mas não referir a duração da tortura do sono, nem as consequências para a vida, pode distorcer a realidade. Em 1965, Alvaro Veiga de Oliveira, foi torturado pela PIDE durante 37 dias, dos quais 17 dias na “estátua” e “sono”, além de espancado «com um cassetête eléctrico». Existem inúmeros outros testemunhos sobre o sofrimento causado pelas torturas, a pontos de presos desejarem a morte e lamentarem que esta não surgisse.
A detenção política, em Portugal, combinou três lógicas: a lógica de afirmação da autoridade, de carácter preventivo; a lógica da correcção, de carácter correctivo e a lógica, de neutralização. A primeira lógica, com carácter dissuasivo e intimidatório, era utilizada para a população em geral, sobre a qual pairava a ameaça do que lhe poderia acontecer, caso se metesse em «política». A segunda lógica era reservada aos que tinham sido “momentaneamente transviados” e, através do “susto” da prisão preventiva e correccional, nunca mais terem a ousadia de actuar contra o regime. Finalmente, a terceira lógica, de neutralização, tinha como objectivo retirar do espaço público os dirigentes e funcionários dos partidos considerados subversivos, nomeadamente os comunistas, através da prisão e das medidas de segurança.
A durabilidade do regime deveu-se a diversos factores, dois dos quais decisivos: por um lado, o sucesso da desmobilização/intimidação cívica/repressão, através de vários instrumentos, entre os quais se contou PIDE/DGS e, por outro lado, o facto de o regime ditatorial, nos momentos de crise ter conseguido manter a coesão das Forças Armadas em seu redor. Razão tinha Silva Pais (cit. por Ramos, p. 695), ao afirmar, em 1966, que, depois de Salazar, «apenas as Forças Armadas» aguentariam «isto». O estertor do regime foi acompanhado por uma maior repressão e um aumento da violência policial, que coincidiram com a multiplicação dos problemas enfrentados pelo regime, entre os quais se contou a diversificação da oposição. No “marcelismo”, Portugal parecia então uma “panela de pressão”, pronta a explodir, por si própria, ou com ajuda. Esta surgiu, mas de outro meio - do seio de uma parte das Forças Armadas, com as quais a PIDE/DGS colaborava nos teatros de guerra.

2012/07/22

Fiquei amigo do bispo mas, para meu prejuizo, ele... não sabe

D. Januário Torgal, o capelão-mor das forças armadas é conhecido pela sua frontalidade. Fazendo jus dessa sua virtude há dias, nos media, criticou asperamente o governo pela sua insensibilidade social, por descarregar sobre os mais necessitados os custos da crise e poupar os ricos que dela beneficiaram e beneficiam. Não receou acusar de “altamente corrupto" o governo de Passos Coelho e, sem subterfúgios, colocou-se do lado dos mais fracos.
Os catolicíssimos membros do Governo e seus papagaios de serviço logo se manifestaram escandalizados com o bispo, perderam a compostura, produziram acusações e aleivosias contra o prelado e revelaram assim que a sua igreja é a antiga, a do Cardeal Cerejeira. Passos e Ciª, desnorteados com as vaias que vão colecionando quando visitam o povo, revelaram-se afinal uns assanhados filisteus.
Sou um contumaz incréu, não frequento a igreja e não tenho convivência com bispos. Creio, aliás, que apenas uma vez surgiu a oportunidade de conversar com um bispo e esse foi, não por acaso, D. Januário Torgal. Não por estarmos ambos do lado dos mais fracos, não por ambos estarmos visceralmente contra a corrupção ou contra as prepotências de poderosos. D. Januário Torgal cruzou-se comigo e, dispensando apresentações, convidou-me para um “cafezinho”.

Foi assim:

As Forças Armadas organizaram no Instituto de Altos Estudos Militares, em Lisboa, à Junqueira, em 1998, salvo erro, um pomposo debate sobre o serviço militar obrigatório, cuja extinção estava em debate na Assembleia da República, em ligação, por videoconferência, com os comandos de todas as outras regiões militares. Presente o ministro da defesa de então, António Vitorino, muitos deputados em especial os da comissão parlamentar de Defesa, qualidade que ali me levou, e umas largas dezenas de generais, coronéis e outras altas patentes militares. Pedi a palavra a seguir a uma intervenção do então deputado do PSD Durão Barroso e, para além de dizer o que me parecera adequado e necessário, acerca do tema em discussão, aproveitei o momento para dizer com bonomia e educação que o que Durão Barroso acabara de dizer era um disparate e revelava  que não sabia do que falava. Durão para atrair a simpatia dos chefes militares defendeu a continuação do serviço militar obrigatório mas com um argumento  falso o  de que em toda a história de Portugal, da fundação à atualidade, o serviço militar tinha tido a natureza que ainda então conservava, de serviço militar obrigatório.
Falou a seguir Ângelo Correia, um dos grandes especialistas em assuntos militares, e com quem já mais de uma vez me encontrara em debates sobre assuntos de defesa nacional. Começou por elogiar a minha intervenção e atirou à ilustre assistência uma “boutade”: “ queria afirmar que o deputado … (e disse o meu nome) é, entre os civis, um dos maiores especialistas em assuntos militares". Não sei o que levou Ângelo Correia a fazer ali tal afirmação. É do seu estilo fazer destas coisas. Talvez que o motivo tenha sido o justo reconhecimento, que eu confirmo e aplaudo, dos meus conhecimentos mas inclino-me para que pretendeu, por algum despique partidário, afrontar Durão Barroso, sublinhando a ignorância de que eu o acusara.

Pouco depois fez-se um intervalo no debate. Foi aí que ao caminhar para o coffe break  me cruzei com D. Januário Torgal que, sem que tivéssemos tido anterior conhecimento, se me dirigiu cordialmente e me desafiou: “Venha daí beber um cafezinho”. Uma coisa assim, simples e cativante, da parte de um representante de Deus para um relapso ateu, fez-me ficar amigo do bispo e sem que ele, para meu prejuízo, até hoje, o saiba. Pensei para comigo, terá acreditado naquelas balelas do Ângelo Correia?

2012/06/10

Jorge Sampaio e o reitor da Universidade de Lisboa no lançamento de "A Foto"

Estão todos convidados.

O lançamento do livro dos tais oito autores é amanhã, dia 11/Junho, às 18:30, no salão nobre da reitoria da Universidade de Lisboa. Lá vos esperamos. A entrada é livre.
Se querem saber quase tudo sobre o livro (e a conspiração que está por trás) é ir aqui mas, por favor, não espalhem.

2012/05/15

Homenagem aos 56 portuguese mortos na Galiza pelo franquismo



Notícia obtida junto do Núcleo do Porto do Movimento Não Apaguem a Memória (NAM):

«No passado sábado 12 de Maio, em Monção, teve lugar uma cerimónia oficial de homenagem aos antifascistas portugueses que, na Galiza, no contexto da Guerra Civil de 1936-39, foram assassinados pelos franquistas. O Movimento Cívico “Não Apaguem a Memória!” esteve lá, representado por dois membros do núcleo do Porto, Maria Rodrigues e Manuel Loff.

Com a presença de cerca de 50 participantes, a homenagem aos portugueses que morrerem na Galiza às mãos dos franquistas, realizada em Monção, na margem do rio Minho, junto à ponte internacional, foi uma comemoração plena de dignidade, tendo sido inaugurado oficialmente um monumento granítico em que se inscreve uma placa metálica que fixa o nome de 53 dos portugueses, homens e mulheres, vítimas da repressão franquista durante o período da Guerra Civil.

A cerimónia iniciou-se com a proclamação de cada um dos nomes desses cidadãos portugueses pelas vozes de uma activista do NAM, de um neto de uma das vítimas e de um membro da associação galega “Os Amigos da República”, intercaladas pelo som dos tambores do Grupo de Gaiteiros Galegos.

Depois de desfraldada a lápide, foram proferidos os discursos oficiais do Presidente do Município de Monção, que patrocinou o evento, do reitor da Universidade do Minho e do historiador Fernando Rosas, tendo sido lida a mensagem de Mário Soares, ausente por motivo de doença.

Depois, na Casa-Museu da Universidade do Minho, dirigida por Viriato Capela, que fez a apresentação do projecto “Nomes e Voces”, seguiram-se as comunicações dos investigadores em História Contemporânea Lourenzo Fernandez e Dionísio Pereira, da Universidade de Santiago de Compostela, e da antropóloga Paula Godinho, do ISCTE.

O evento constituiu um momento importante de um ciclo que, particularmente na Galiza, desencadeia linhas de investigação histórica que desocultam os processos de perseguição do regime franquista contra os republicanos.

Dado que esta homenagem se insere num movimento cultural que visa o aprofundamento do conhecimento e a preservação da memória das lutas dos povos peninsulares contra os fascismos, o espectáculo de música popular e dança folclórica que encerrou as comemorações, dinamizado pelo “Grupo da Sé”, reflectiu as variações no gosto e as permutas culturais entre os povos da região correspondente à Galaecia romana.»
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Ver também aqui, ou aqui:

2012/05/13

Homenagem a 56 portugueses mortos pelo franquismo na Galiza

"Monção inaugurou ontem um monumento com os nomes e as cidades de onde eram provenientes de todas as vítimas portuguesas do Franquismo, que foi colocada junto à ponte transfronteiriça."

"Ao início da tarde, os nomes foram lidos durante longos minutos por membros da Associação de Amigos da República de Ourense, União de Resistência antifascistas de Portugal e da associação Não Apaguem a Memória. "

"As conquistas democráticas para as quais contribuíram aqueles que lutaram contra o fascismo em Espanha estão ameaçadas pela actual conjuntura europeia, que afecta
os dois países ibéricos. A ideia foi ontem defendida durante uma homenagem aos 56 portugueses que foram mortos pelo franquismo na região da Galiza, que decorreu junto
à fronteira de Monção."
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As imagens reproduzem a reportagem publicada hoje no jornal Público . (Um clique amplia-as)

2012/01/21

50º Aniversário da revolta de Beja: intervenções dos historiadores Irene Pimentel e António Louça



Notícia saída na revista VISÃO de 2012 01 19

Intervenção da historiadora e membro da direcção do NAM Irene Pimentel na sessão do 50º aniversário da revolta de Beja (ver posts abaixo):
«Em primeiro lugar, gostaria de manifestar o meu contentamento por poder estar aqui nesta sessão, onde, creio, é principal objectivo retirar do esquecimento um importante acontecimento na luta contra a ditadura. Deve-se dizer que a memória da revolta armada de Beja, na passagem do ano de 1961 para 1962, foi apagada evidentemente, por razões óbvias, pelo próprio regime salazarista, mas também o foi por uma parte da oposição ao regime, que nela não participou. E, no entanto, o punhado de homens e algumas mulheres que generosamente se envolveram no movimento de Beja fê-lo de forma algo nova e diferente do que até aí tinha acontecido, durante o regime ditatorial.
Ao abordar alguns dos episódios de que aconteceu em Beja, procurarei reflectir sobre essa revolta...
Intervenção do historiador António Louçã:
Agradeço às pessoas presentes o interesse pelo tema, que sa fez deslocarem-se aqui nesta tarde de sábado. Aos participantes da Revolta de Beja não agradeço que se tenham levantado em armas contra a ditadura salazarista, porque não procuravam gratidão - procuravam apenas fazer o que era preciso e esse “apenas” era muito. Para alguns foi tudo: o sacrifício de si próprios e de familiares seus, dos confortos, das carreiras, da liberdade e até da vida. E continuam hoje, os vinte e três subscritores do comunicado evocativo da Revolta, a dar testemunho contra esta voragem neo-liberal que ameaça as gerações vindouras.

Valha esta referência como declaração de intenções. O historiador, o jornalista, o investigador ou o estudioso, segundo a amável apresentação do Raimundo Narciso, ao debruçar-se sobre uma iniciativa da envergadura que teve a Revolta de Beja, não pode deixar de vibrar com ela e de tomar partido. Eu, partidário dos insurrectos, me confesso e declaro desde já este parti pris.

Agradeço à associação “Não Apaguem a Memória” o convite para participar nesta comemoração. No nome da associação vai toda uma intenção programática. [continua aqui].

2012/01/16

Homenagem aos heróis da revolta armada de Beja

Da direita para a esquerda: Luis Carlos, Victor Quintão Caldeira, Venceslau de Almeida, Alfredo Guaparrão, Delmar Silva, Varela Gomes, Raul Zagalo Coelho, Manuel Peralta Bação, Eugénio de Oliveira, António Pombo Miguel, José Hipólito Santos, António dos Santos Pereira e José Duarte Galo.


O jornal A BOLA online traz uma boa reportagem, de Irina Iglésias, sobre a sessão de comemoração do 50º aniversário da revolta armada de Beja, realizada pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória - NAM em cooperação com a Comissão de Participantes, em 2012-01-14 na Biblioteca Museu da República e da Resistência, em Lisboa. [Link para A Bola online]


Das fotos, a de cima e as duas seguintes (de Álvaro Isidoro/ASF) foram tiradas do site da Bola.online



 
 


50º Aniversário da revolta armada de Beja

 
 
A sessão comemorativa do 50º aniversário da revolta armada de Beja e de homenagem aos seus participantes, promovida pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória - NAM em cooperação com a Comissão de Participantes, realizada em Lisboa, na Biblioteca Museu da República e da Resistência em 14 de Janeiro de 2012, teve uma grande afluência de público que encheu o anfiteatro os corredores e salas anexas.

Entre os presentes estavam muitos dos participantes na revolta de Beja, nomeadamente o coronel João Varela Gomes e Edmundo Pedro, assim como conhecidos “capitães de Abril”, alguns dos quais, em representação da Associação 25 de Abril, como o general Pezarat Correia, o comandante Contreiras, os coronéis Aniceto Afonso, Mário Tomé, Rosado da Luz,  além de conhecidas figuras da intelectualidade e da vida pública como o ex-ministro das Obras Públicas Eng. Mário Lino, professores universitários como Paulo Almeida ou Luís Salgado Matos, historiadores como Jorge Martins ou Luisa Tiago de Oliveira, o Dr. Ernâni Pinto Basto ou a Drª. Luisa Corte Real.

As intervenções dos historiadores Irene Pimentel e António Louçã e do coronel Carlos Matos Gomes despertaram muito interesse. O debate, na segunda parte da sessão, trouxe o testemunho de vários participantes e de pessoas que viveram os acontecimentos como Ramiro Morgado.

Especialmente tocante foi o testemunho de Maria Eugénia (na fotografia), mulher do então capitão e hoje coronel Varela Gomes, que a ditadura levou a julgamento e, numa atitude de revoltante vingança, manteve presa durante um ano e meio.
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Participantes na acção revolucionária de Beja presentes na sessão promovida pelo NAM

Que participaram directamente nalguma(s) das três tentativas (a 2 e 9 de Dezembro/61 e 1 de Janeiro/62) do assalto ao quartel de Beja:

Airolde Casal Simões, Alfredo Guaparrão, António dos Santos Pereira, António da Graça Miranda, António Pombo Miguel, Delmar Silva, Edmundo Pedro, Eugénio Filipe de Oliveira, Francisco Leonel Rodrigues Lobo, Fernando Roxo da Gama, família de Gualter Nunes Basílio, João Paulo Varela Gomes, José Duarte Galo, Luís Carlos, Manuel da Costa, Manuel Pedroso Marques, Manuel Peralta Bação, Viúva de Manuel Serra, Maximino Serra, Raul Zagalo Gomes Coelho, Venceslau Lopes de Almeida, Victor Quintão Caldeira

Envolvidos na acção revolucionária de Beja:

António Brotas, Maria Eugénia Varela Gomes, Carlos Veiga Pereira, José Hipólito dos Santos e a família de Carlos Prazeres Ferreira.

2011/12/30

Homenagem aos participantes no assalto ao quartel de Beja

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória – NAM, vai comemorar o 50º aniversário do assalto ao quartel de Beja, uma acção revolucionária, inserida num plano para o derrubamento do regime fascista, ocorrida em 1 de Janeiro de 1962.

Realizar-se-á uma sessão aberta ao público, na Biblioteca Museu da República e da Resistência, na Rua Alberto de Sousa, nº 10 A - Zona B, do Rêgo, com início às 15h horas, do dia 14 de Janeiro de 2012. Serão oradores a historiadora Irene Pimentel, o historiador António Louçã, e o coronel Carlos Matos Gomes e contamos com a presença de participantes naquela acção.

O NAM pretende, assim, homenagear todos os heróicos protagonistas desta acção revolucionária que consideramos um marco histórico na luta contra a ditadura do Estado Novo e manter viva a sua memória.

2011-12-28

A direcção do NAM

Beja 1962 - Evocação de uma Efeméride


 
"Os subscritores, participantes sobrevivos da Revolta Armada de Beja - cujo quinquagésimo aniversário ocorre no próximo 1º Janeiro – pretendem, através da divulgação pública desta evocação, contribuir para resgatar a “memória apagada” dessa efeméride, remetida como está para o limbo dos acontecimentos avulsos, insignificativos; situação, aliás, em consonância com muitas outras relativas à memória da resistência antifascista; e em contraste flagrante com o desvelo comemorativo dedicado ao chamado Estado Novo, seus personagens e afins.

Na realidade, o combate e a resistência contra a ditadura e o fascismo em Portugal, constituíram um processo histórico contínuo ao longo de metade do séc. XX. Nesse processo insere-se a Revolta de Beja...porque aconteceu e ficou selada em sangue e morte. A sua importância e significado são-lhe conferidos pelo fluxo histórico no seu todo. Não foi um episódio isolado, fora do contexto da luta comum do povo português pela libertação de um regime ditatorial.

Com efeito, no caso da Revolta de Beja, é fácil estabelecer a sua ligação orgânica com o grandioso movimento de massas/levantamento popular provocado pelas eleições presidenciais em 1958; vindo a ser, exactamente, o general Humberto Delgado o impulsionador da Revolta de Beja e, como tal, figurando em 1º lugar na lista dos 87 incriminados pronunciados para julgamento no Tribunal Plenário Fascista.

Na sequência imediata da Revolta de Beja, eclodiu em Março desse mesmo ano de 1962, a revolta estudantil de maiores proporções contra o regime; o 1ºde Maio desse ano foi assinalado pelos trabalhadores e outros sectores da população com a maior força e amplitude de sempre. E o processo histórico continuou, já com a guerra colonial, por mais 12 anos, até 1974.

Tem sido prática corrente, após o derrubamento do fascismo até aos dias de hoje, minimizar a importância e o significado da Revolta de Beja. Obras antigas e recentes, de pretensa intenção histórico/cronológica, nem sequer anotam o acontecido. Mas bastaria ter consultado a imprensa da época para ver em grandes parangonas a dimensão do impacto e do sobressalto que provocou no País e além-fronteiras. O ditador tão emocionado ficou (citando) “com os acontecimentos das últimas semanas” que perdeu a voz e alguém teve de ler-lhe o discurso na sessão da Assembleia Nacional de 3 Janeiro; e cancelada teve de ser a costumada manifestação de desagravo.

Mas não serão certamente, a contrafacção histórica ou a posição negacionista, até hoje dominante, que conseguirão alterar o significado patriótico/cívico/ético da Acção Revolucionária de Beja; que conseguirão apagar no registo da história o facto de “ter acontecido”; que abalarão as convicções e o orgulho, mantido sempre enquanto houve/houver alento pelos revoltosos de Beja, por terem dado corpo e presença e não terem recuado na hora de confirmação.

A 50 anos de distância temporal, neste ensejo evocativo os abaixo-assinados sentem-se felizes por poderem afirmar que a Revolta Armada de Beja insere-se, com honra, no processo histórico de luta e resistência do Povo Português contra a ditadura e o fascismo.

Simultaneamente, manifestam óbvia solidariedade, respeito e admiração, para com todas as outras “memórias apagadas”, por idênticos e obscuros propósitos de desvalorização do historial da resistência antifascista portuguesa.

Resta portanto, aos resistentes sobreviventes da Revolta de Beja saírem em defesa da causa pela qual empenharam as suas vidas, que continua a ser a Causa da Liberdade pela Justiça Social, a qual, neste século XXI, corresponde a ser a Causa contra o retrocesso civilizacional, contra o neoliberalismo que retira todos os recursos da economia real para entregá-los ao capital financeiro, avassalando o mundo e ameaçando o destino das gerações vindouras.

Assim foi aqui feito,
Evocando o Cinquentenário da Revolta Armada de Beja.
Em Lisboa, na última semana do ano 2011

ass)

Airolde Casal Simões, Alexandre Hipólito dos Santos, Alfredo da Conceição Guaparrão Santos,
António da Graça Miranda, António Pombo Miguel, António Ricardo Barbado, António Vieira Franco, Artur dos Santos Tavares, Edmundo Pedro, Eugénio Filipe de Oliveira, Fernando Rôxo da Gama, Francisco Brissos de Carvalho, Francisco Leonel Rodrigues, Francisco Lobo, João Varela Gomes, José Galo, José Hipólito dos Santos, Manuel da Costa, Manuel Joaquim Peralta Bação, Raul Zagalo, Venceslau Luís Lopes de Almeida, Victor Manuel Quintão Caldeira, Victor Zacarias da Piedade de Sousa.
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Nota: a fotografia não faz parte da "Evocação".

50º aniversário da revolta armada de Beja (2)

Na sequência do post anterior sobre o assalto ao quartel de Beja, em 1 de janeiro de 1962, aqui fica agora novo relato, de José Hipólito dos Santos:

Segunda tentativa de assalto, em 9 de Dezembro de 1961

A primeira tentativa, em 2.12.1961, permitiu confirmar que era possível atacar de surpresa e assaltar o quartel de Beja, verificar as condições indispensáveis para a deslocação de dezenas de pessoas e a melhor forma de estacionamento discreto nas proximidades do quartel.
O empreendimento era viável mas necessitava de mais gente.
Por indicação de Lígia Monteiro, foi organizado um encontro com Piteira Santos, que envolveu ainda Edmundo Pedro e Eduardo Pereira, com a sua pronta adesão ao projecto Ikaro, a disponibilização de um alojamento em Lisboa para Manuel Serra, assim como algumas armas e explosivos e a provável adesão de bastantes pessoas a que estavam ligados.
Por outro lado, Manuel Serra encontrou-se no Pinhal Novo com um seu amigo, José Artur Cardoso, empregado da CP na estação local, que logo se lhe juntou e organizou uma reunião com um pequeno grupo de elementos do PCP do Barreiro. E, sem hesitações, não só aderiram ao projecto de assalto a um quartel como prometeram a adesão de novos elementos.

O grupo de Piteira Santos e o grupo de Almada

Piteira Santos jogava um papel importante nas movimentações legais e clandestinas da oposição. Preso em 1945, foi expulso do PCP em 1950 (com Ramos da Costa e Mário Soares), manteve-se sempre muito dinâmico, nomeadamente estabelecendo pontes nas difíceis relações entre a oposição democrática e o PCP. Seguia com atenção as transformações na “União Soviética” e juntava à sua volta pessoas como Edmundo Pedro, Gilberto de Oliveira, Adolfo Ayala, e, mais tarde, Eduardo Pereira e Alípio Rocha, gente que se afastara do PCP, ou ainda seus militantes, mas em desacordo com a linha “pacifista”. O caso de Joaquim Eduardo Pereira era o mais representativo.
Militante desde 1943, participou no V Congresso do PCP, clandestino, em S. João do Estoril, em 1957, tornou-se funcionário com responsabilidades na reorganização do estratégico sector da Margem Sul, na corda Almada/Seixal, como na zona Barreiro/Montijo, situação que abandonou bem depois das eleições de Delgado.
Posto ao corrente do projecto da acção revolucionária a partir de Beja, não só aderiu como iniciou uma intensa actividade na zona de Almada para aliciar companheiros. Em dois ou três dias, cerca de duas dezenas de elementos aderiram e prontificaram-se a partir para a segunda tentativa de assalto ao quartel. Eram, na sua maioria, operários qualificados do tecido industrial da zona Seixal/Almada, quase todos jovens e casados, mas também outros menos jovens.

O grupo do Barreiro, do PCP

Com o apoio de prestigiados membros do PCP do Barreiro, foi organizado um encontro no Montijo em que participaram novos elementos como Francisco Leonel Lobo e Artur Tavares, além de Manuel Serra e seus companheiros, Eduardo Pereira e Edmundo Pedro. Também eles aderiram de imediato, gizando mesmo um esboço de plano de acção complementar a levar a cabo no Barreiro - poderiam levar a Beja cerca de duas dezenas de companheiros do Barreiro, a maior parte viria com armas tiradas do quartel, para as distribuir por grupos organizados afim de, ainda nessa madrugada, atacarem de surpresa o quartel da companhia da GNR do Barreiro e os postos da mesma na CUF.

Preparação e execução

A semana depois da primeira tentativa de assalto ao quartel de Beja decorrera relativamente bem. Podia-se contar, além dos vinte e nove participantes na tentativa de 2 de Dezembro, com uma vintena de pessoas do grupo de Almada e outra vintena do Barreiro. Este último grupo trazia ainda um alargamento importante (ataque do quartel da GNR do Barreiro) da própria acção revolucionária.
O contacto com os militares que se fizera infrutiferamente antes da primeira tentativa continuava bloqueado dado o cepticismo persistente de Varela Gomes.
O plano de acção para a nova tentativa mantinha-se fundamentalmente o mesmo: concentração da totalidade dos efectivos na proximidade do quartel, aproximação, entrada de surpresa saltando um muro lateral e tomada da casa da guarda; seguir-se-ia a distribuição das armas e fardamentos, explicação da acção aos militares presentes no quartel, pedindo a sua adesão, considerada como muito provável.
Edmundo Pedro e David Abreu deviam, depois, ficar em Beja e assegurar o controlo da cidade e do Quartel.
Utilizando carros e camionetas do quartel, partiriam duas colunas para o Sul do país, tentando chegar rapidamente ao Algarve, para ocupar Faro e outras cidades. Pelo caminho, postos da GNR seriam atacados de surpresa.
Para impedir uma resposta rápida do regime, duas pontes seriam destruídas: a de Alcácer do Sal, importantíssima na época para assegurar a ligação Norte/Sul do país e a ponte da Vidigueira, entre Beja e Évora, para impedir a aproximação de tropas vindas de Évora ou Estremoz.
Entretanto, no Barreiro, depois da chegada de camiões com armas, já portanto depois da tomada do quartel de Beja, elementos revolucionários previamente avisados e concentrados procederiam ao assalto do poderoso quartel da GNR, a partir das traseiras onde não havia sentinelas, mas com janelas por onde seriam lançadas granadas, e as sirenes das fábricas chamariam a população para dar continuidade à acção revolucionária.

Pouco depois da meia-noite de sábado, 9 de Dezembro, sob o comando de Manuel Serra, os revolucionários encontraram-se no local combinado em Beja. Contudo, enquanto se esperava pela chegada de mais elementos comprometidos, nomeadamente o grupo do Barreiro, tornou-se evidente que a acção não era exequível naquela noite de lua cheia, sem nuvens. A aproximação ao quartel tornava-se perigosa, não era possível atacar de surpresa, condição fundamental. Foi consensual que era necessário adiar novamente o assalto ao quartel.
Mas também não foi possível juntar os cinquenta elementos que Manuel Serra considerava o mínimo indispensável para prosseguir a acção revolucionária com sucesso.
Avarias de carros, desencontros no local de partida, hesitações, descoordenação tinham reduzido substancialmente o efectivo que se posicionou para o início das operações. Do Barreiro chegaram sete elementos a Beja, mas tendo chegado atrasado ao ponto de encontro não se pôde juntar ao grupo de Manuel Serra que acabara por suspender o assalto; frustrados, e sem saber o que se passara, regressaram ao Barreiro depois de avisar os companheiros que esperava em Alcácer do Sal o sinal e os explosivos para dinamitar a ponte.
Contudo, Manuel Serra, ao fazer o balanço da situação, mostrou-se contente e confiante de que era possível pôr em execução a Operação Ikaro e apanhar toda a gente de surpresa.
As semanas seguintes vão passar-se a consolidar a organização e a tentar envolver os militares para além da simples promessa de apoio no caso de conseguirem dominar o quartel de Beja.

50º aniversário da revolta armada de Beja (1)

Na madrugada de 1 de Janeiro de 1962 um grupo de revolucionários tomou de assalto o quartel de Beja, ponto de partida de um plano para o derrubamento do regime fascista de salazar. Mas a acçao teve antecedentes e deles fala José Hipólito dos Santos que em Janeiro de 2012, editará um livro sobre tais acontecimentos:
«Primeira tentativa para assaltar o quartel de Beja, em 2 de Dezembro de 1961.

«Neste mês de Dezembro comemoram-se os 50 anos da tentativa revolucionária, vulgarmente conhecida por Golpe de Beja e que se concretizou em 1 de Janeiro de 1962. Foi precedida de duas tentativas que se realizaram em 2 de Dezembro e outra em 9.
Antes, Manuel Serra entrara clandestinamente em Portugal em fins de Outubro de 1961. Queria pôr em acção o Projecto Ikaro que elaborara em S. Paulo com o general Humberto Delgado. Depois de contactos diversos no Norte do País e com o grupo de Varela Gomes, que não se mostraram confiantes na possibilidade de uma acção militar tal como lhe estava sendo proposta, Manuel Serra decidiu assaltar o quartel de Beja. Tinha a vantagem de estar localizado fora da zona urbana, o que facilitava a aproximação para uma acção de surpresa, além de se situar numa região onde se pensava ser fácil conseguir um grande apoio popular.
Programou o assalto ao quartel num dos dois seguintes fins-de-semana alargados por serem feriados as sextas-feiras (1 e 8 de Dezembro). Era previsível que as guarnições militares, em geral, estivessem muito desfalcados dos seus comandos e que o mesmo se passaria com as restantes forças policiais.
Foi assim que, dispondo de uma trintena de pessoas, resolveu avançar para Beja, prevenindo Humberto Delgado, em Marrocos, através de um telegrama cifrado que lhe enviou, em 28 de Novembro, o que significaria que a acção seria desencadeada no dia 2 de Dezembro.
Efectivamente, nesse dia pela tarde, começaram a partir carros para Beja para fazer um percurso que, naquela época, exigia 4 horas e meia sem paragens. Deviam concentrar-se num pequeno bosque a dois km do quartel, após o que seguiriam a pé, em fila indiana, dos dois lados da estrada até á proximidade do muro que envolvia o quartel .
O plano consistia em cortar, num dado ponto, o arame farpado que rodeava uma parte do quartel, avançar, a coberto da escuridão, para a “Casa da Guarda”, e tomá-la de surpresa. Com as armas ali obtidas assaltariam o edifício de comando e prenderiam os oficiais presentes que não aderissem à acção revolucionária. Depois esperavam mobilizar uma parte dos soldados ali alojados e sair para assaltar a esquadra da polícia e o quartel da GNR, com pequenos “comandos” de civis e militares aderentes.
Mas, Manuel Serra ainda que tivesse comunicado a Humberto Delgado que iria pôr em execução o projecto Ikaro, manteve-se atento à situação, tudo foi posto em marcha, verificaram que era possível achegar-se ao quartel sem problemas, ainda que este tivesse uma considerável extensão de perímetro, mas entendeu que era melhor esperar as promessas de mais homens para passar ao ataque. Mandou retroceder a sua força de ataque que se concentrara num local a cerca de 1 km do quartel e o acompanhara até às imediações do quartel. Sem entusiasmo, mas confiantes de voltar em maior número, regressaram às suas casas.
Esse primeiro grupo de pessoas era constituído essencialmente por amigos do Manuel Serra, do Bairro da Liberdade e do Bairro da Serafina, mas também por amigos da Lígia Monteiro (Gualter Basílio, António da Graça Miranda e Raul Zagalo G. Coelho) e um pequeno grupo de católicos monárquicos.
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[1] Naquela época a circulação automóvel era muito reduzida, sobretudo à noite…