2005/06/30

A Acção da Base Aérea de Tancos (1)

Para criar relações ou até, se possível, amigos na blogosfera usei a consagrada técnica de deixar um comentário nos seus blogs. Às vezes a iniciativa pega. Sucedeu, por exemplo, com a Mona Lisa, com o Alexandre Narciso ou com a Micas.
De vez em quando deixam aqui no Memórias ou no Puxa Palavra simpáticos comentários. Outras vezes chegam mesmo a atribuir-me virtudes ou feitos que relevam apenas da sua generosa amizade.
Gostam de visitar memórias antigas que aqui vou registando. Assim e para não desmerecer da sua amizade vou transcrever algumas breves passagens do livro que conta a história da ARA. Começo pela acção de Tancos.



Esta operação armada foi planeada e meticulosamente preparada pelo Comando Central da Acção Revolucionária Armada - ARA (Jaime Serra (50 anos), Francisco Miguel (63), Raimundo Narciso (33)) com a colaboração essencial do então furriel piloto de helicópteros na Base Aérea de Tancos, Ângelo de Sousa, durante cerca de 6 meses e descrita em 50 páginas do citado livro. A sua execução deve-se a três homens de coragem: Carlos Coutinho, jornalista (28 anos), Ângelo de Sousa, bancário (24) e António João Eusébio, estucador (28).



Eis um extracto do comunicado então emitido pela ARA:

"Um comando militar da Acção Revolucionária Armada levou a efeito, com pleno êxito, na madrugada do dia 8 de Março [de 1971], uma importante e complexa acção contra o aparelho militar da guerra colonial. Este comando penetrou audaciosamente no hangar principal da Base Aérea Nº3, em Tancos, destruindo completamente, com cargas explosivas, toda a frota de helicópteros militares estacionados nesta base militar, assim como vários aviões de treino."



Um relatório da Base Aérea que encontrei na Torre do Tombo, no arquivo da PIDE quando preparava o livro citado, mensionava:

"28 aeronaves atingidas, 12 totalmente destruídas, 1 irrecuperável, 15 com destruições de diferente grau e recuperáveis".

Também na Torre do Tombo encontrei um relatório secreto, da Secretaria de Estado da Aeronáutica de então onde se dizia que:

"...
1.- Cerca das 03.20 do dia 08MAR71, deflagrou no Hangar Norte da Base Aérea Nº 3 (Tancos), um violento incêndio iniciado por complexo sistema explosivo, cujo fulcro se localizou num engenhoso sistema de relojoaria."
..."

2005/06/15

Como conheci Álvaro Cunhal

O que se segue é um extracto do livro ARA - Acção Revolucionária Armada que publiquei em 2000 (Ed. D.Quixote)

Em Moscovo conheci Álvaro Cunhal e Francisco Miguel. Um dia depois da minha chegada à capital soviética, nos primeiros dias de Janeiro de 1965, Álvaro Cunhal veio ao Hotel do Partido. Quando desci do quarto e cheguei ao «hall» Cunhal estava com Manuel Rodrigues da Silva. Dirigiu-se para mim, com um aperto de mão vigoroso interrogou-me sobre a viagem, se estava bem alojado, se não me faltava nada.
Não o conhecia pessoalmente mas não foi necessária apresentação para perceber imediatamente com quem estava a falar. O carisma, a desenvoltura de líder, sem excessos, apenas quanto baste, saltava à vista. Conduzindo as operações, Cunhal convidou-nos para tomar o pequeno almoço no restaurante do hotel. Aproveitou para me observar e dar uma informação politicamente correcta, sem chavões, salpicada de notas críticas a aspectos secundários da sociedade soviética.
A conversa, agradável, solta, «fraternal», não era um desperdício de tempo. Era, como depois observei durante dezasseis anos, nas suas intervenções no Comité Central, uma permanente aula política e ideológica de formação de quadros. A rápida e sintética informação sobre a União Soviética caracterizava-se por revelar simultaneamente a grande superioridade do comunismo relativamente ao capitalismo e a capacidade de análise de Cunhal que não deixava em branco as insuficiências o que conduziria qualquer interlocutor a dar uma nota alta ao «líder» e a considerar credível a informação.
No fim do pequeno almoço Cunhal tratou assuntos importantes em breves palavras, dirigidas ao Manuel, relativamente às quais dei mostras de não estar a ouvir e disse, depois para nós dois, que não nos podia acompanhar no programa que os camaradas soviéticos já tinham preparado mas que voltaríamos a ver-nos antes de eu seguir para Cuba. Na realidade três dias depois, após a chegada de Rogério de Carvalho, Cunhal reapareceu para discutirmos sobre a organização que connosco estava a dar os primeiros passos.
O Secretário-Geral estava como na fotografia em que aparece com Humberto Delgado na altura em que o namoro político com o PCP levou o «General sem Medo» à Frente Patriótica de Libertação Nacional. Uma fotografia que circulou pelos corredores da clandestinidade nos anos sessenta e na qual se pode observar Álvaro Cunhal dez anos mais novo do que quando os portugueses o conheceram após o 25 de Abril.
Na capital da União Soviética, Álvaro Cunhal, estava como peixe na água. Mais ainda então, com o afastamento de Krustchev, quatro meses antes, de quem não apreciava as atitudes de extrovertida heterodoxia e a exuberância anti-estalinista.

2005/05/29

Cessa "direito de matar" mulher

A revolução de 25 de Abril de 1974 ao liquidar o regime fascista liquidou um mundo brutal e antigo, eivado de fundamentalismos católicos que nos lembra o actual fundamentalismo islâmico. Acabou por exemplo com o "direito" que o marido tinha de matar a mulher em caso de adultério.
Adelino Gomes na coluna "30 Anos de PREC", no Público de 27 de Maio de 2005, lembra notícias de há 30 anos, em pleno período revolucionário, em 1975:
"Entrou em vigor a lei do divórcio. No mesmo Diário do Governo é publicado o decreto-lei que revoga o artigo 272º do Código Penal... Na verdade a lei portuguesa estabelecia até agora, uma pena de desterro para fora da comarca, por seis meses, ao homem casado que, achando a sua mulher em adultério, a matasse a ela ou ao adúltero, ou a ambos, ou lhes fizesse qualquer ofensa grave."
Matou a mulher? O amante da mulher? Os dois? Então vai ter de ir a banhos. Vai ter de ir viver seis meses para fora da comarca.
E a Igreja? Amparava o regime do seu catolicíssimo protector Salazar. Amaldiçoava e amaldiçoa o aborto. Defendia a virtude. Abençoava.

2005/05/25

Morreu Ludgero Pinto Basto

Amigo dos seus três filhos e também colega do mais velho, o Ernâni Pinto Basto, tive o privilégio de conhecer e conviver com Ludgero Pinto Basto, um homem cativante, de vasta cultura, excelente conversador, médico de elevada craveira, sempre disponível para atender os mais carenciados, um grande lutador pela liberdade, um português eminente.

"Morreu Ludgero Pinto Basto, comunista e antiestalinista"

é o título do artigo do jornalista António Melo, hoje no Público, de que reproduzo os extractos seguintes:

O médico Ludgero Pinto Basto foi ontem a enterrar, em Lisboa, depois de uma vida inteiramente dedicada aos ideais de solidariedade humana e igualdade social. Cultivou-os na maçonaria, onde se iniciou em 1928, e no Partido Comunista Português de que foi militante e dirigente, a partir de 1931. Tinha 96 anos e encontrava-se enfermo há alguns meses. Em Abril do ano passado foi condecorado com a Grande Ordem da Liberdade.

...
Além de aprender a salvar a doença individual, abraçou também a causa da revolução social; e em 1931 tornou-se membro do PCP. Foi na semi-clandestinidade que, em 1935, concluiu o curso. Conseguiu iludir a vigilância da polícia política salazarista e abriu um consultório na zona da Penha de França, em Lisboa... Foram muitos os militantes clandestinos comunistas que recorreram aos seus cuidados, que nunca recusou, sem cuidar dos riscos.
De Setembro de 1938 a 1 de Dezembro de 1939 assegurou o funcionamento do secretariado político comunista, com Francisco Miguel e Álvaro Cunhal, que apoiou sempre, sem esconder a crítica e sem quebra de amizade. Nesse 1 de Dezembro foi preso em Benfica (Lisboa) quando, precisamente com Francisco Miguel, ia encontrar-se com outros elementos do comité central. Foi condenado a 20 meses de prisão, mas acabou por ficar quase quatro anos nos presídios do regime, dos quais dois em Angra do Heroísmo, de onde regressou em 1943, para Caxias e só então foi libertado.
Passou a viver na legalidade e retomou a actividade clínica. Especializou-se em endocronologia, disciplina clínica de que foi percursor em Portugal. A evolução política na União Soviética, sob a direcção de Estaline, sobretudo os "processos de Moscovo", onde os "companheiros de Lenine", acusados de contra-revolucionários, mereceu a sua crítica interna no PCP, mas sem pôr em causa a sua fidelidade à linha partidária. Por isso enfatizava a reabilitação política de Bukarine (executado em 1938), ainda durante a existência da União Soviética, dando pleno valor ao que deixara escrito no seu testamento clandestino.
...
Nos primeiros anos de estudante de Medicina, Ludgero passou pela maçonaria e pertenceu à loja Rebeldia, em Coimbra, de que fez parte outro médico, também resistente antifascista, mas do Partido Socialista, Fernando Vale. Foi desta loja que saíram os líderes da greve académica de 1931, contra a ditadura militar saída do 28 de Maio de 1926. Mas a sua permanência no Grande Oriente Lusitano Unido foi breve, pois os seus rituais pareceram-lhe fora do seu tempo. Foi no PCP que se realizou politicamente.

... mas sempre acusou Estaline de ter pervertido o projecto de Lenine.Esteve na guerra civil de Espanha, onde se encontrou com Togliatti, líder comunista italiano, de pequena figura, mas que ficou a admirar pela sua determinação.

A deliquescência do regime soviético só o surpreendeu por tardia, porque tinha fundadas dúvidas sobre aquele "socialismo real". Por isso discordava que se falasse de "utopia comunista" para caracterizar o século XX. Considerou, até ao fim, que um tal projecto de sociedade permanecia válido, convencido de que "todas as misérias do capitalismo se mantinham e até se exacerbaram em certos sítios". Preocupação séria para si era ver a tendência crescente para um individualismo egoísta e "as pessoas menos interessadas na evolução da sociedade do que no princípio do século XX".

2005/05/16

Ao princípio era ...a Coisa

Depois, ao longo de um ano, os posts acrescentaram bonitos textos e belas fotos da Westfália com tanto engenho que "A Coisa da Micas" se transformou n' "A Casa da Micas". Parabéns

2005/05/13

Ainda sobre W.Bush em Riga

No Público de hoje diz-se que documentos do FBI confirmam aparentemente que o dissidente Luis Posadas Carriles autor em 1976 de um ataque terrorista que derrubou um avião cubano e matou 73 pessoas, afinal actuava já como agente da CIA. Outros atentados de Posadas e a protecção de que gozava podem ser lidos [aqui]. Moral da história (para certas pessoas e certos Estados) o terrorismo é bom ou mau conforme convém ou não.
Vem isto a propósito de um post que coloquei [aqui]. e que, em resumo, diz que não faz sentido a crítica de Bush a Roosevelt ou Churchil que teriam sido indulgentes com Stalin nos acordos de Yalta.
Victor Sousa do Estranho Estrangeiro teve a amabilidade de deixar um comentário, que agradeço, no qual, demarcando-se de Bush, considera fazer sentido a posição que ele expressou em Riga:

"O Mundo Ocidental livre, que englobava as potências que emergiram da 2ª Guerra Mundial ostentando o poder decorrente da vitória, sentiram pudor em aplacar os intentos de Estaline. O erro, indubitavelmente, existiu. Os presentes na conferência em Yalta anuiram à subjugação dos países do Báltico devido à descortesia que isso representaria para com os soviéticos."

Contrariando esta ideia sustento que as bandeiras da "liberdade" e dos "direitos humanos" , são grandes bandeiras dos democratas mas na boca de imperialistas servem apenas para combater com "legitimidade" as ditaduras que não lhes convêm, no caso, ao Tio Sam.
Assim os dólars jorram para libertar a Ucrânia, a Geórgia, a Bielorúcia e outros Estados mais ou menos ditatoriais ou invadem o Iraque, ou conquistam Granada, ou bombardeiam Manágua e levam preso o Chefe de Estado da Nicarágua, ou derrubam Governos democraticamente eleitos como o de Allende no Chile ou de Arbentz na Guatemala. Mas ou reina a maior indiferença ou são mesmo amparadas as ditaduras que servem os interesses dos EUA, como a Arábia Saudita, o Kuwait, o Paquistão, o Egipto, a Indonésia (enquanto durou Suharto), Portugal de Salazar, Espanha de Franco, a Grécia dos coronéis e todas as que enxameavam a América Latina.
Mesmo relativamente à 2ª Guerra Mundial anotemos os "escrúpulos" dos grandes poderes que comandam o Estado norte-americano.
De 1939 a 45 as filiais da General Motors (proprietária da Opel desde 1929) na Alemanha nazi produziram 50% dos motores dos melhores bombardeiros da Luftwaffe, os Junker 88. GM e Ford produziram 80% das viaturas médias e 70% dos camiões pesados do Exército Alemão. Em 1943 no auge da guerra as filiais da GM, conceberam e construiram os motores para o primeiro avião a jacto do mundo, o Messerschmitt 262.
Depois da guerra a GM e a Ford conseguiram que o Governo norte-americano as indemnizassem pelos prejuízos sofridos nas suas fábricas, ao serviço de Hitler, pelos bombardamentos cegos da aviação dos... Estados Unidos. A primeira recebeu 33 milhões de dóllars, a Ford só um milhão.
Menos sorte teve Prescot Bush, avô do actual W.Bush que acabou por ver contrariados os seus interesses em várias empresas que possuia na Alemanha e negócios com o regime nazi relativamente ao qual tinha uma atitude simples e ordeira: fazer dinheiro. Não tinha qualquer simpatia especial pelo Fuher. Nem tão-pouco qualquer rebate de consciência com os campos de concentração ou a morte dos soldados americanos. Era um cidadão do mundo, um homem de negócios. Aproveitava a oportunidade. Como manda a moral comercial. Como faz W. Bush.

Memórias da 2ª GM. O massacre de Katyn

Quando em Setembro de 1939 Hitler invadiu a Polónia por Ocidente, Stalin invadiu-a por Oriente. A Polónia foi mais uma vez repartida. Quase todo o país ficou sob a posse da Alemanha e uma parte menor, confinante com a URSS, para esta.
420 mil militares polacos foram aprisionados pelos alemães e 250 mil pelos soviéticos.
Em 1943, as tropas nazis durante a ocupação da Rússia, descobrem na floresta de Katin valas comuns com milhares de corpos de oficiais polacos assassinados. Informam o mundo e atribuem o crime ao Exército Vermelho. Os soviéticos negam e atribui-o aos nazis. Para não prejudicar a aliança necessária com a URSS os aliados (EUA,Inglaterra) não procuraram aclarar o caso.
Só com Ieltsin após a queda do regime comunista, a Rússia reconheceu a autoria do crime de Katyn.
Por ordem de Stalin, na Primavera de 1940, foram assassinados na floresta de Katyn, cerca de 22 mil oficiais "reaccionários" polacos. Um dos mais repugnantes crimes do ditador soviético.
Os comunistas, com a boa fé que resultava da fé no comunismo, tinham passado a vida a negar, a denunciar a "intriga" e as "falsas acusações imperialistas" sobre esse nefando crime "nazi".

2005/05/03

Casa na Duna - Dia de Sol


Hoje sentei-me sobre a duna
Olhei o brilho curvo até ao céu
Olhei embriaguei-me de olhar
O sol voltou como eu não queria
Pensei na noite negra e nas estrelas

Não sei olhar a luz assim tão forte
Enquanto não voltares

Não quero o sol não quero a chama
Enquanto não voltares

Quero as ondas do mar só nos meus olhos

Depois? Voltar a casa
Talvez voltar…

(Poesia de Monalisa, no Sítio da Saudade e fotografia de João Coutinho)

O Aborto? Por cá tudo bem!

O aborto, por causa da data do referendo, voltou à actualidade.
Ainda há pouco éramos o país do "Cá vamos cantando e rindo..." do hino da Mocidade Portuguesa, a organização da juventude do fascismo lusitano, de filiação obrigatótia no ensino secundário.
Há uns anos atrás, digamos 50 anos, na minha aldeia (a 60 Km de Lisboa!) as mulheres andavam de lenço na cabeça (cabeça tapada como as do Islão!). Se alguma fazia uma "permanente" (arranjar o cabelo) era estigmatizada e tido tal propósito como sinal claro de mau comportamento moral. O fundamental da moral católica girava e ainda roda em torno do sexo!
A mulher não votava, mesmo nas eleições-farsa do nosso fascismo-católico-apostólico-romano do ex-seminarista Salazar e do seu amigo e confrade de lutas político-académicas de ultra-direita, cardeal-patriarca Cerejeira.
O marido era "dono" da mulher e dos filhos. Marido ultrajado na sua honra de macho podia assassinar a mulher sem perigo de grande pena se a apanhasse em flagrante delito com o amante ou mesmo sem flagrante. O divórsio era proibido. Entretanto pedofilia e abuso sexual de menores era, quando muito, apenas coisa que não caía bem, em conversa pública.
Mulher que fosse "desonrada", que se soubesse ter deixado de ser "virgem" e o namorado não casasse com ela estava condenada à tragédia pessoal. Era uma desgraça à mercê de um casamento de favor, com um desgraçado qualquer, sem brio nem honra, ele também, ou então, um convento.
Em Lisboa só se via, e raro, mulher com calças, no Parque Mayer, local de teatros de revista e maus comportamentos.
A revolução do 25 de Abril deu uma volta nos costumes. Foi uma lufada de ar fresco no bafio da sacristia em que o ditador fascista transformara o país. Mas a nossa gentinha reaccionária tem oposto, também nos costumes, a sua muito "católica" resistência e mantido peado o país. Por isso ainda somos o resto da Europa onde mulher que faça aborto é presa.
Os "católicos" reaccionários (numa linha simétrica às dos fundamentalistas do Islão) querem, e têm conseguido, impôr como lei, aos outros portugueses, incluindo outros católicos, o seu preconceito religioso sobre o aborto, supostamente em defesa da "vida". Eles que, como o papa Voytila e Ratzinger, aceitam a pena de morte. Os mesmos que, em geral, são o suporte ideológico das políticas da máxima exploração que condenam grande parte da humanidade à marginalização, à fome e à morte precoce.
Poderiam proibir, no plano religioso, o aborto aos católicos mas sabem que nem mesmo com a excomunhão impediriam as mulheres católicas de o fazer. Em última instância, já se sabe, pois nenhuma mulher anseia por abortar.
Os católicos reaccionários de outrora, num espírito de "tolerância" obrigaram toda a gente a ser católica e aos que resistissem, como no caso dos judeus, "apenas" os mandavam para a fogueira. Agora os tempos são outros, mas onde o tempo é mais antigo, como em Timor, até a casa do bispo serve para fazer "justiça" privada. Por cá as mulheres, não as deles, não as católicas obedientes à ortodoxia, mas todas, escapam à fogueira é certo, mas não escapam à prisão, se em última instância abortarem.

2005/04/24

Faltam poucas horas

Preparem-se! Preparemo-nos todos!!Para a alegria. Para a alegria sem limites. Para a euforia, a loucura.

A ditadura que amordaça este país há 48 anos vai cair. A Liberdade, a Liberdaaaaaaaaaade vem aí.

Gerações sucessivas de democratas viveram, lutaram e morreram sem ver o maior sonho da sua vida.

Será possível? Será mesmo possível? Logo? Logo à noite? Logo à meia-noite? Quando esses rapazes, os capitães do Movimento das Forças Armadas, começarem em todo o país, ao som da "senha", no Rádio Clube Português, a canção E Depois do Adeus de Paulo de Carvalho, a sair dos quartéis e ao som de Grândola Vila Morena, de José Afonso, o cantor da revolução, a pôr fim à ditadura que há meio século sufoca, este povo no conservadorismo retrógrado e tacanho de Salazar, mecenas do obscurantismo, intérprete dos interesses de umas centenas de fortunas e de uns milhares de privilegiados.

1974. 48 anos depois de um golpe militar, em 28 de Maio de 1926, que pôs fim à República, nascida em 5 de Outubro de 1910.

Vamos festejar.

CONNOSCO FOI ASSIM

[25 de Abril de 1974]Manhã cedo, Maria Machado apercebeu-se de movimentos desusados no patamar do prédio, junto à nossa porta. Abrir e fechar de portas e um estranho bichanar. Era António Bernardo e João Gomes, nossos vizinhos. Encostou o ouvido à porta para melhor entender o que se dizia.

...Os nossos vizinhos, ali no patamar do prédio, davam largas à sua alegria com a queda iminente da ditadura. Afinal são antifascistas, verificávamos com agrado.

...O milagre acontecera. Ainda nos custava a acreditar. Podia ser?

A nossa ansiedade era extrema. Até por estarmos ali escondidos sem poder participar na acção. Falávamos baixo não fosse qualquer palavra mais alta ou gesto descuidado perturbar o bom andamento das operações militares.

... Corríamos as diferentes rádios e fixávamo-nos no Rádio Clube Português. A manhã foi passada num desespero eufórico e meio louco. Eu interrogava-me e «dava ordens» ao comando do Movimento. Ainda não sabia que o quartel general dos capitães era no Regimento de Engenharia da Pontinha, relativamente perto de nossa casa.

Já terão tomado a televisão? – interrogava eu.
– Assaltem a PIDE! A PIDE é absolutamente essencial – protestava eu – ignorante do plano. Prendam o Tomás e o Marcelo! Neutralizem a GNR. E o Banco de Portugal? Se calhar esqueceram-se do Banco – repreendia os capitães e olhava para a Maria a ver o que me dizia.

A manhã íamo-la passando num estado de espírito entre a exaltação, a alegria desmedida e a ansiedade por não conhecermos suficientemente a situação político-militar e também por causa da nossa inacção e impossibilidade de entrar em contacto com os outros membros do Comando Central da ARA ou com a direcção do PCP.
– Escuta, escuta, escuta!
– Olha apanharam um rádio do Comando da GNR!
– É um comandante a dar ordens a uma força inimiga. Para ir para o Rossio.
– Grava, grava as ordens – tínhamos um gravador de som onde íamos gravando as principais informações para no intervalo das notícias as voltarmos a apreciar e nos convencermos que era tudo bem real...

–Não podemos dar fôlego ao inimigo! – aconselhava eu, platonicamente, do meu esconderijo, os insurrectos e associava-me a eles mas infelizmente só em espírito.
Se não atacam depressa ainda perdem, prevenia, senhor da teoria de muitas revoluções. É preciso atacar, atacar, atacar, sem dar fôlego ao inimigo!
– E os presos políticos? Oh caraças. Deviam ir a Caxias e a Peniche! Depressa!
...
E assim passámos a manhã bebendo cada palavra da rádio e levitando.
...
Os nossos filhos deviam estar espantados com a nossa agitação. O José Alexandre, que viria a ser o último português a nascer na clandestinidade, com um mês e meio de idade, não se impressionou muito com o curso dos acontecimentos ao longo do dia. Talvez tenha notado algum desacerto no horário das mamadas. À Leonor, com quatro anos, já podíamos explicar alguma coisa mas era ainda prematuro dar-lhe explicação de coisas que podiam voltar atrás e depois tornar-se mais difícil controlar o uso que faria de tais informações.
À tarde saímos. A ver o ambiente. Com cautelas.
À noite saí afoito. A Maria teve de ficar em casa a tomar conta dos filhos e da casa. Sempre as mulheres… Fui a Lisboa e fiz contactos. A euforia era indescritível mas ainda contida. Nunca fiando. Os fascistas há quase cinquenta anos no poder podiam ter sete fôlegos como os gatos.
No dia seguinte saímos, quase sem cerimónias, para dar largas à nossa alegria, mas longe de casa, é claro. Dois dias depois gritava, com a multidão que rodeava a prisão de Caxias, pela libertação dos presos políticos. Todos os presos políticos. Incluindo os da ARA e da LUAR e de outras organizações revolucionárias. E não apenas alguns, como ainda tentou impor Spínola, o general que, na circunstância, os capitães aceitaram por Presidente da República provisório.
Entretanto fomos contactados por Jaime Serra que nos anunciou a chegada de Cunhal no dia seguinte. Disse-nos que já podíamos sair mas que mantivéssemos a casa completamente clandestina, sem revelar nada a vizinhos, amigos ou família. Era o que já estávamos a fazer.
Depois foi o regresso do exílio de Mário Soares e de Álvaro Cunhal. E por fim a manifestação do 1.º de Maio em Lisboa. Aquele 1º.º de Maio!… Uma euforia. Uma loucura. Toda a gente veio para a rua. Em todo o país. Em quase todo o país!
No Dia do Trabalhador, o primeiro que era festejado em liberdade nas últimas dezenas de anos, em Lisboa formou-se um mar de gente como nunca se vira antes. Nem depois…! De todas as ruas confluía uma multidão para o estádio da Avenida do Rio de Janeiro que viria a se chamar Estádio 1.º de Maio. Uma alegria e fraternidade incontidas. Pais com bebés às cavalitas. Jovens e velhos. Gente de todas as condições. Ricos e pobres. Operários e intelectuais. Até as crianças partilhavam os risos, as saudações, sem perceberem bem o que se passava. As nossas também lá iam connosco e participavam a seu modo. Naquele momento todos nos julgámos irmãos. Nunca mais se repetiu uma coisa assim. Nem podia repetir. Era a Libertação. Libertação duma ditadura de meio século. As pessoas ainda não vinham enquadradas por partidos, que ainda não existiam legalmente, nem por cartazes ou palavras de ordem partidárias e «politicamente correctas». Cada um trazia no olhar uma alegria incontível, no gesto solidariedade a transbordar e à volta da cabeça ver-se-ia com certeza uma auréola de esperança do tamanho do universo.

Fomos à procura da família. A minha mãe estava na terra, no Vilar, uns quilómetros ao norte de Torres Vedras, e foi fácil encontrá-la. Para ela o fim do fascismo era também o fim da solidão e amargura em que se encontrava, com o falecimento do meu pai em 1970, com a filha exilada em França e o filho algures em parte incerta. Encontrar os pais da Maria não foi tão fácil assim.
José Pulquério e Úrsula Machado viviam há muitos anos na clandestinidade quando em 1968 foram presos pela PIDE. A mãe, libertada em Novembro de 1972 e o pai em Março, de 1973 viviam com a filha mais nova Maria José e tinham mudado de residência há pouco tempo. A irmã mais velha, Úrsula, mas conhecida por Luísa Basto, pseudónimo, primeiro da clandestinidade, depois artístico, encontrava-se em Moscovo onde completou um curso superior de canto e só regressou a Portugal em Junho de 1974. Visitávamos a família mas ainda não a podíamos convidar para a nossa casa que se manteve clandestina durante mais algum tempo.

Inesquecíveis foram também os reencontros com os amigos que não víamos há dez anos. Muitos tinham novas moradas que tentávamos descobrir. Outros tinham casado e com pessoas que não conhecíamos ou não esperávamos. As festas, as reuniões, os jantares, os serões, as tertúlias eram vividos em festa contínua. A intervenção política, social, a revolução cultural e dos costumes, na rua, nos locais de trabalho, na universidade, nas sedes dos partidos, nos convívios, nas casas dos nossos amigos, nas nossas casas, a discussão, a disputa e o combate político com os colegas, com a família, com os amigos, com os aliados, com os adversários e com os que ainda restassem, era a nossa irreprimível e ininterrupta festa-revolução.

A luta contra o fascismo, o empenhamento total que nos exigiu, foi uma experiência tão marcante que não se esquece mais. A Revolução e o envolvimento permanente e empolgante com que nos arrebatou durante ano e meio foi uma experiência que raras gerações tiveram oportunidade de usufruir.
A actividade da ARA, parcela importante da luta dos antifascistas que ao longo de muitos anos combateram o regime salazarista e ajudaram a preparar as condições para a revolução de Abril, tinha chegado ao fim. Agora era a vez dos capitães do Movimento das Forças Armadas darem o golpe decisivo na ditadura e, com o povo, sujeito da História, novamente de pé, participarem na construção do Portugal moderno.

Lisboa, 15 de Junho de 2000.

In "ARA - Acção Revolucionária Armada" - A história secreta do braço armado do PCP, Publicações D. Quixote e de que se fala [aqui]

2005/04/20

Um caso de bradar aos céus

O que se passou com a EDAB - Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja,SA, é bem o exemplo da degradação do Governo do PSD-CDS e das práticas de aproveitamento do poder para o saque dos dinheiros públicos.
Tal prática não é, todos sabemos, exclusivo dos partidos da direita, e atinge todos os partidos que exercem poderes. Mas este caso é a muitos títulos paradigmático da sensação de impunidade, do estilo da nossa direita de raizes salazaristas.
Apesar da gravidade trata-se de um caso menor, no contexto do Estado.

O Governo encontrava-se demitido e em gestão, as eleições marcadas para 20 de Fevereiro de 2005, a perspectiva de o PSD/CDS conservar o poder, nula.

A EDAB é uma empresa de capitais públicos com o objectivo de criar no aeroporto militar de Beja um aeroporto civil, principalmente vocacionado para carga, mas não só, que articulado com o Alqueva, o porto de Sines, (entrada na Europa) o parque industrial de Sines e a base Logística aí a ser implantada, pudesse constituir um triângulo de desenvolvimento do Alentejo. O aeroporto civil de Beja é uma grande e já velha aspiração da região e a EDAB tem os seguintes accionistas:

• Direcção Geral do Tesouro - DGT - (Ministério das Finanças) - 77,5 %;
• Associação de Municípios do Distrito de Beja - AMDB - 10%;
• Núcleo Empresarial da Região de Beja - NERBE - 2,5%;
• Empresa de Desenvolvimento de Infra-estruturas do Alqueva -EDIA- 2,5%;
• Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região do Alentejo-CCDRA- 2,5%;
• Promoção, Gestão de Áreas Industriais e Serviços - PGS - (parque industrial e futuro polo logístico de Sines) 2,5%;

Fora da tutela do PSD apenas estava a AMDB de influência PCP e o NERBE onde a influência do PSD é afinal também dominante.
A Assembleia Geral da empresa teria lugar em Março de 2005. Mas em Março… Já seriam outros a mandar.
O aparelho local do PSD estava desunido na repartição das prendas e alguns, alheios à divisão dos despojos, talvez estivessem sinceramente contra tão escandaloso descaramento.
O presidente do Conselho de Administração, Mourato Grilo, que não ia ser reeleito, estava contra a manobra.
O presidente da mesa da assembleia geral seguido da maioria dos accionista, que não do capital social, adiou a AG para 28 de Março e com vários accionistas abandonou a sala. O accionista DGT reúne de seguida nova AG e procede à

- Eleição de novo Conselho de Administração (substituição do presidente e de um vogal);
- Aumento dos ordenados dos membros do CA;
- Contratação de 6 funcionários e mais 3 assessores;
- Autorização de acumulação de funções do presidente no vogal José Gaspar.

O escândalo é público e ocupa durante semanas a rádio local Rádio Pax, jornais locais e... blogs.
Para além de assegurar por três anos o "job" no Conselho de Administração a uns amigos, o Governo que sabe que a empresa não tem dinheiro, aumenta-lhes os vencimentos e contrata injustificadamente mais pessoal.
A EDAB prescindiu do período experimental inicial dos novos contratados para que ficassem logo após as eleições imediatamente efectivos e pudessem ser como tal indemnizados. Em Fevereiro a empresa não tinha dinheiro para os vencimentos!

Eis o que nos diz a Rádio Pax:

"Em declarações exclusivas à Rádio Pax, João Pulo Ramôa o governador civil de Beja (PSD) defende que José Gaspar e Mário Rui Resende (vogais do Conselho de Administração da EDAB) deveriam ser imediatamente despedidos."
"Recorde-se que, na passada sexta-feira avançámos, em exclusivo aqui na Rádio Pax, que os dois vogais do conselho de Administração propuseram em reunião do conselho de administração da EDAB, a contratação de mais pessoal. Para além desta proposta, foi apresentada outra que prevê a delegação de poderes no vogal José Gaspar, detentor do pelouro de pessoal, para que este seleccione, admita e elabore os respectivos contractos a celebrar com os novos funcionários.

No final desta reunião, Mourato Grilo (presidente do CA que não será reeleito) afirmou que se dissocia clara, pública e completamente de todas as contratações que vierem a ser feitas na EDAB até à tomada de posse do novo conselho de administração e que não tenham a sua assinatura. …Perante esta situação, João Pulo Ramôa (governador Civil de Beja) confessa-se revoltado e triste com o que se está a passar na EDAB, condenando o facto de se estarem a colocar os interesses pessoais e de grupos acima dos interesses da empresa. O Governador Civil de Beja afirma que, as contratações pretendidas pelos vogais da Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja são feitas sem o aval do governo. [Desculpas tolas - digo eu aqui no Memórias - pois se foi o Governo através da DGT (Ministério das Finanças) que tudo autorizou e fez!] João Paulo Ramôa vai mais longe e diz mesmo que José Gaspar e Rui Resende devem ser despedidos e responsabilizados pelos danos e prejuízos causados à EDAB.
Luís Serrano diz que estas contratações cheiram mal. O Presidente do NERBE, um dos accionistas da EDAB, sublinha que é uma pouca-vergonha o que se está a passar na empresa que gere os destinos do aeroporto de Beja.
A Associação de Municípios do Distrito de Beja acha estranho que se avance agora com contratações. Segundo Carlos Beato, Presidente da AMDB, esta situação é inaceitável. Luís Ameixa, o presidente da Federação do Baixo Alentejo do P.S. diz que, se trata de uma atitude completamente incorrecta.
Opinião partilhada por José Soeiro, o cabeça de lista da CDU por Beja".
[Está tudo aqui na Rádio Pax].

Isto passou-se sob a tutela e nas barbas do impoluto e muito cristão ministro Bagão Félix. Estaria o ministério nesta fase em roda livre e o ministro a leste?
Este minúsculo caso não ilustra apenas o santanismo, um barrosismo de Parque Mayer no seu estertor. Ilustra por um lado a corrupção do poder que obviamente não atinge só a direita. Ilustra por outro lado a degradação sofrida pelo PSD, que aplaudiu e acompanhou Durão e Santana, no sentido do populismo e da falta de escrúpulos e ilustra ainda a tradição da direita se sentir dona do país e a única com verdadeiro direito ao poder.

2005/04/15

Truca Truca

A propósito da suspenção do programa de Júlio Machado Vaz "O Amor é..." de que falei aqui, lembrei-me da Natália Correia.

1982. Discutia-se na Assembleia da República o aborto e a IVG. João Morgado, deputado do CDS sai em defesa do obscurantismo da direita:

"O acto sexual é para ter filhos!"

Natália Correia deputada, creio que independente na lista do PSD, respondeu ao colega com um poema que distribuiu profusamente nas bancadas do parlamento e provocou a gargalhada geral.

O Truca Truca

Já que o coito - diz Morgado-
Tem como fim cristalino,
Preciso e imaculado
Fazer menina ou menino;
E cada vez que o varão
Sexual petisco manduca,
Temos na procriação
Prova de que houve truca- truca.
Sendo pai de um só rebento,
Lógica é a conclusão
De que viril instrumento
Só usou – parca ração!-Uma vez.
E se a função
Faz o órgão – diz o ditado –
Consumada essa excepção,
Ficou capado o Morgado.

Natália Correia

2005/04/11

As estações da CP ai que bonitas são


O texto que acompanhava a fotografia pura e simplesmente desapareceu num daqueles passes de mágica em que a informática por vezes é tão fértil. Tentava corrigir o Português e ao sublinhar o texto vai ele... evaporou-se. Pelo lapso as minhas desculpas. Tentarei refazê-lo mais tarde, se tiver paciência e vagar, apesar da sua nenhuma importância.
Na essência dizia que a Estação do Pinhão (fotografia roubada ao João Tunes no seu Água Lisa 2) é muito bonita e mais ainda pelos afectos a ela ligados que a sua memória revisitou. E que cada um de nós tem a sua estação. Bonita com seus azulejos e jardins que guarda momentos felizes ou amargos aonde às vezes voltamos.
Pinhão e Torres Vedras cada uma com sua estação.

ELECTROZAVODSKAYA



As estações do Metro da capital soviética (agora da Rússia) eram o cartão de apresentação da cidade e também a mim elas causaram uma surpreendente e favorável impressão quando pela primeira vez cheguei a Moscovo, em Janeiro de 1965.
As impressões, boas ou más, estão muito condicionadas pelos "pré-conceitos" que transportamos connosco. Mais do que tirar essa conclusão aos 28 anos, na segunda vez que visitava a URSS, agora por um período de nove meses, confirmava-a diariamente ao confrontar as minhas impressões e das portuguesas minhas colegas no curso do Konsomol com as de alguns colegas italianos do PSIUP, um pequeno partido "compagnon de route" dos comunistas. Onde nós estávamos sempre prontos a exaltar as maravilhas da sociedade soviética eles, um dos grupos do nosso círculo de amigos, eram frequentemente, ainda que nem sempre com razão, muito críticos.
O uso, frequente, uma ou duas vezes por semana, da Electrozavodskaya, banalizou a sua imagem e retirou aos nossos olhos os brilhos que a fotografia ostenta.
Os bilhetes, 5 copecks, 5 cêntimos de rublo, eram baratos e davam para viajar nas muitas dezenas ou talvez centenas de quilómetros da rede do metro.
Quanto a bilhetes o que nos impressionava era não haver praticamente nenhum controlo, nos autocarros. Cada passageiro entrava pela porta de trás e retirava, se quisesse, o bilhete de um dispensador mecânico. Concluí que havia um certo controlo social. Se alguém se esquecia ou retardava, era olhado significativamente ou mesmo advertido para tirar o bilhete.
A mim e às duas colegas que comigo constituíam o grupo dos portugueses (nesse ano de 1966/67 só de 3 alunos) foi dado um passaporte soviético que nos dava liberdade de movimentos num raio de 80 ou 100 Km em redor de Moscovo e munidos de tal documentos íamos a Moscovo à ópera ou ao ballet no Teatro Bolshoi ou no Palácio dos Congressos, no Kremlin, a concertos musicais na célebre Tchekovskaya Zal, a museus, ao teatro de marionetas, ao circo e até, uma vez ao futebol.
Dizíamos que éramos brasileiros aos soviéticos com quem eventualmente falávamos (uns meses de lições diárias já nos permitia falar) nos passeios por Moscovo. Na Escola eu era Carlos, a Maria Machado, Leonor e a Mariana era Ana.
Assistimos nesse ano à exibição de alguns dos maiores solistas do mundo, no piano como Sviatoslavsky Richter (talvez se escreva assim) ou David e o filho Igor Oiastrak no violino e o primeiro, depois, na regência de orquestra ou Plisetskaya no ballet.
Ou íamos ao GUM, uma espécie de armazém gigante do Grandela onde tudo tinha um ar antiquado e onde imperava, como em todo o comércio, a lógica não da pressão da oferta sobre a procura mas a inversa. Havia rublos mas a oferta ou era limitada ou era pouco apelativa e "demodé".
Também frequentávamos os restaurantes caros dos hotéis que não eram assim tão caros. E por vezes íamos a restaurantes georgianos ou arménios onde se podia comer essa coisa estravagante que aqui em Portugal chamamos azeitonas . E comprávamos discos de música a preços impressionantemente baixos.
Quando deixávamos o Metro em Electrozavdskaya apanhávamos o comboio suburbano até Vichnyki. Aí via sempre à volta da Igreja Ortodoxa, pequena mas muito bonita, vários crentes, em geral mulheres idosas réplicas perfeitas das célebres matrioscas. Depois apanhávamos um "taxi", uma carrinha de dez lugares, um tanto avelhada, para os 4 ou 5 km que nos separavam do complexo escolar, num bosque de bétulas paradisíaco.
Paradisíaco era qualificativo que provinha de muitas fontes. Por um lado porque comunistas vindos da clandestinidade em Portugal, os três, eu com 28 e as raparigas com 17 e 18 anos, estávamos em segurança, longe da PIDE, por outro, eu acabara de passar em Portugal longos meses de abstinência sexual e ali havia centenas de raparigas de todos os continentes (e hela, não havia sida! Essa maldição recente. Mas recomendaram-nos logo, particularmente às raparigas que não faziam abortos a quem fosse originário de país em que ele não fosse permitido, como aliás era o caso de Portugal) Depois o convívio, a troca de informação política e cultural, entre jovens de dezenas de países, culturas e situações políticas muito distintas, era um verdadeiro banquete espiritual. Também ajudava a região e a floresta serem muito bonitas e haver ali à mão, ginásios, desporto, piscina, cinema, música e baile (ao Sábado à noite, depois dos seminários da parte da manhã em que prestávamos provas sobre a matéria da semana), passeios pela floresta, ou ski no inverno.
Electrozavodskaya, portanto, é isto!

Memória de Barros Moura

Em 5 de Abril de 2005, a Biblioteca- Museu da República e da Resistência, em Lisboa, tomou a iniciativa de homenagear José Barros Moura por ocasião do 2º aniversário do seu falecimento ocorrido a 25 de Março de 2003.
Na presença da viúva, Margarida Lucas Barros Moura, do filho, Manuel Barros Moura e outros membros da família e muitas dezenas de amigos foram apresentados depoimentos que evocaram a vida de José Barros Moura, do estudante da Universidade de Coimbra, do político, como lutador anti-fascista e depois como deputado europeu, deputado da Assembleia da República e autarca, do jurista e académico. Depoimentos onde sobressaiu, sem excepção, o retrato do homem de carácter e inteligência que deixa na universidade, na política, no seu país, uma marca indelével.
Entre os seus amigos estavam muitas figuras públicas, nomeadamente da política e da universidade como o ministro da Saúde, Correia de Campos, o Secretário de Estado da Administração Interna José Magalhães, o deputado Manuel Alegre, o presidente da Câmara Municipal de Évora, José Ernesto Oliveira, professores universitários ou eminentes constitucionalistas como Joaquim Gomes Canotilho, José Manuel Correia Pinto, Álvaro Veiga de Oliveira, Garcia Pereira, e muitas outras.
Manuel Alegre leu dois poemas do seu "Livro do Português Errante" (Publicações D. Quixote), "O Mês" e "O Cravo e o Travo".
Encontram-se disponíveis os depoimentos de Raimundo Narciso, de José Manuel Correia Pinto e a mensagem enviada pelo Ministro Mário Lino [aqui].

2005/02/06

Jerónimo de Sousa admite fazer parte de um Governo do PS?

Na realidade, Jerónimo de Sousa não admitiu nada de novo. O que parece ser uma abertura, como Judite de Sousa insinuou no debate de hoje à noite, na RTP, não passa de uma imutável posição do PCP.
O Partido Comunista sempre considerou o PS e ainda na clandestinidade as figuras que lhe deram origem, como forças de esquerda ou personalidades de esquerda, quando fazia a contabilidade nacional esquerda-direita e, numa contradição insanável, sempre os considerava de direita na actividade prática. Por isso na clandestinidade estava sempre disposto e interessado na aliança com tais forças mas sempre e sempre sob a liderança hegemónica do PCP. Era fundamental marcar bem o terreno para o pós-fascismo. Para que não se questionasse quem mandaria em quem e se comprometesse o futuro socialista de Portugal após o derrube da ditadura fascista.
Depois do 25 de Abril a política de alianças, particularmente com o PS, manteve-se firmemente nessa posição. Pretendeu-se até, habilmente, fazer "a aliança da classe operária com os camponeses e a pequena e média burguesia - estratégica para a vitória da revolução," fazendo a aliança POVO-MFA curtocircuitando a aliança política PCP-PS. Aliás, manifestamente impossível, por falta de vontade óbvia dos dois lados. Óbvia porque para a revolução o PS não aceitava tal aliança e para a "democracia burguesa" não a ceitava o PCP.
Desde a institucionalização do regime democrático que o PCP mete o PS na esquerda para através da soma de deputados (ou votos) na AR mostrar que no país há uma maioria de esquerda. Mas sistematicamente o considera de direita no que à política diz respeito. E que se saiba os partidos não dizem respeito a nada mais do que à política.
Apesar desta insuperável contradição (táctica) havia no passado, ainda que questionável (enquanto houve União Soviética, países socialistas e perspectivas de o capitalismo vir a ser substituido por aquele socialismo) alguma lógica na táctica e na estratégia da orientação política de Cunhal. Lutava o PCP pela revolução que levasse a Moscovo. Com a queda de Moscovo não faz sentido Jerónimo querer fazer aquela revolução. Não sabe para aonde a poderia levar. E não menos sentido faz usar a táctica e a estratégia para o mesmo desiderato.
Já não fazia qualquer sentido com Carvalhas. Nem com Cunhal no seu ocaso. Mas Cunhal tem atenuantes, depois do que foi a sua vida, e que vida! não esteve para dar o braço a torcer perante os seus inimigos. Não me enganei. Não eram adversários, eram inimigos. De vida ou morte. E, noutros tempos, talvez não só no plano político. De um e outro lado.
Portanto a descoberta de Judite de Sousa, na entrevista a Jerónimo de Sousa, hoje à noite, na RTP, não é notícia.

2005/01/30

Viver na clandestinidade

A Sandra Cristina Almeida que tem um excelente blog História e Ciência, pediu um depoimento à Maria Machado sobre a sua vida na clandestinidade que publicou em 11 de Outubro de 2003. Aqui se reproduz o seu depoimento e uma fotografia sua com a nossa a filha Ilda Leonor, em 1970, na clandestinidade, em Alcabideche-Cascais:


Notas sobre a minha vida na Clandestinidade


Maria Machado
Odivelas, 7 de Outubro de 2003


Vale de Vargo é uma aldeia do concelho de Serpa na margem esquerda do Guadiana, quase na fronteira com Espanha. São daí os meus pais e foi aí que eu nasci, em 1949.
Na aldeia quase todas as pessoas eram trabalhadores assalariados sem terra. Durante o ano havia muitos dias e muitas semanas sem trabalho e isso era imediatamente a fome. Lembro-me duma manifestação, à qual se juntou toda a nossa família, em que as pessoas levavam bandeiras pretas e gritavam temos fome, temos fome. Quando o trabalho faltava muitas pessoas iam pelos campos para comerem a fruta que encontrassem.

Esta insustentável situação só se mantinha com a GNR. Volta não volta ouvia os meus pais comentarem a prisão de vizinhos. Receávamos que mais tarde ou mais cedo também levassem o meu pai. Foi o que acabou por acontecer. A nossa casa estava entre aquelas que a GNR "visitava" de cada vez que havia protestos dos trabalhadores agrícolas. Eu e as minhas irmãs, como muitas outras crianças de Vale de Vargo, crescemos no medo da GNR.

Tinha 8 anos quando os meus pais tiveram de passar à clandestinidade. Foram para local desconhecido que depois soube ser o Barreiro. Levaram a minha irmã mais velha porque já tinha terminado a instrução primária e a mais nova porque ainda não chegara à idade da escola.
Três anos depois, aos 11 anos, passei eu também à clandestinidade mas, apesar de me terem dito que era uma vida muito difícil e não podia fazer a vida das outras crianças, a clandestinidade para mim vinha acompanhada da alegria de ir viver com os meus pais e as minhas irmãs. No entanto, com a minha chegada deu-se o regresso da irmã mais nova (Maria José) para frequentar a escola e poucos meses depois partiu a mais velha (Luísa Basto) para a União Soviética onde foi estudar e depois terminou um curso superior de canto.

Ajudava os meus pais a imprimir o Avante, O Militante, panfletos, em papel bíblia muito fininho para os seus leitores o poderem esconder facilmente da PIDE.
Era um trabalho feito nas casas que habitávamos e os meus pais alugavam com nomes falsos. Usávamos umas impressoras primitivas, em que colocávamos letra a letra, as letrinhas de chumbo até completarmos os artigos e as páginas e comprimíamos contra elas manualmente, o papel e a tinta, com um pesado rolo metálico forrado de flanela. Muito primitivo mas saia bem. O quebra-cabeças era...
(O depoimento continua aqui no In Extenso)



2005/01/28

Auschwitz e o Holocausto

Em 1983 visitei com a Maria Machado e um casal amigo "O Campo da Morte" de Auschwitz (Oswiecim em Polaco)e o campo anexo Birkenau. Não há palavras para descrever o horror, a raiva, a indignidade humana do que ali se passou. É preciso conhecer e não esquecer. Para que não se repita.

 Vão a caminho das câmaras de gás. Velhos e crianças produziam pouco. 

Direito à distração: no Campo os guardas e as ajudantes a divertirem-se entre duas chacinas de prisioneiros.


Adolf Hitler:

“I freed Germany from the stupid and degrading fallacies of conscience, morality... we will train young people before whom the whole world will tremble. I want young people capable of violence, imperious, rentlessiously and cruel.”


Heinrich Himmler, october 1943:

“We came to the question: what to do with the women and children? I decided to find a clear solution here as well. I did not consider myself justified to exterminate the men - that is, to kill them or have them killed - and allow the avengers of our sons and grandsons in the form of their childreen to grow up. The difficult decision had to be taken to make this people disappear from the earth.”



Em cima à esquerda:Auschwitz I. Entrada do campo com a cínica legenda “Arbeit Macht Frei” (o trabalho liberta).Auschwitz was established by order of SS Reichführer Heinrich Himmler on 27 April 1940.
Em cima à direita: vista do Campo de Birkenau: About 3 km outside the mother camp, Auschwitz I, another camp, KL Auschwitz II – Birkenau, was located. This was the largest section of all three camps. The camp was built in March 1942 in the village Brzezinka. It consisted of about 250 barracks divided on 175 ha of land. Today only a small number of the barracks remain.
The prisoners in August, 1944, numbered around 100,000. As many as 200,000 prisoners were confined here during its peak.On the left (as seen from the tower) are the brick barracks of which only 45 remain today. On the right 22 wooden barracks may be seen. The rest were destroyed by the SS near the end of the war. Remnants of these barracks can be recognized by their chimneys. The camp had 4 crematoriums with gas chambers. The SS also used fire pits and funeral piles to burn bodies.
Em baixo à esquerda Um forno crematório: One out of the three chambers in the crematorium at Auschwitz I. When in operation, the crematorium had a capacity for incinerating 350 bodies per day. In each chamber 2-3 bodies were placed. In 1941 and 1942 Soviet prisoners of war and Jews from the ghettos established by the Nazis in Schlesien were murdered in this crematorium.
The crematorium was in use from 1940 - 1943. The ashes were used as fertilizer or as filling in nearby creeks and ponds. The last gassings took place in November 1944. Just prior to the liberation of the camp the SS dismantled and blew up the crematoriums. The ruins can be seen today.
Em baixo à direita: o interior de uma câmara de gás: Auschwitz I. Crematorium, mortuary used as a gas chamber.It was originally used as storage room for ammunition. September 3, 1941 experimental gassing on Soviet prisoners using Zyclon-B.

2005/01/27

Freitas Socialista

Ia eu no trânsito a tiritar com a anunciada vaga de frio que, talvez para contrariar os bem avisados alertas não veio mas depois quando já não vinha afinal veio
… ia eu na estrada quando a Antena I me anuncia:

"na sua crónica da Visão que hoje saíu, o Professor Freitas do Amaral diz que vai votar no PS. Afirma que Sócrates foi um bom Ministro do Ambiente e vai ser um 1º Ministro à altura de pôr isto na ordem. E… e para que reste alguma coisa do país, após as experiências de Santana Lopes, é indispensável que o Partido Socialista tenha maioria absoluta."
Foi isto. Mais ou menos. Estou a citar de memória. E, para a alegria do trânsito, o atento locutor, acrescentou: agora o nosso analista Raul Vaz vai fazer o seu comentário.

"Bom… já se sabe… o Professor Freitas do Amaral quer ser candidato à presidência da República e precisa do apoio do PS. Isto é, quero dizer, ele está a dizer isto por profunda convicção e não tem relação nenhuma com a sua hipotética candidatura. Aliás ele é de direita ou seja é de esquerda. Foi fundador do CDS apoiou Durão Barroso e pede o voto para os socialistas porque não gosta de Santana Lopes. Nada disto admira porque ele apoia totalmente Francisco Louçã e a extrema esquerda. Estou a falar do Iraque, certamente…

travei a fundo para não bater no carro da frente que surpreendentemente resolveu parar num sinal amarelo, Como se isto do Iraque pudesse ser critério de separação de águas entre esquerda e direita!!!…Ainda apitei instintivamente mas logo me arrependi, ou melhor, não, reparei que era uma mulher por sinal bastante mais nova que eu, sorri, abanei com a mão a fazer as pazes e compus o cabelo. Tenho uma secreta inveja das mulheres que guiam e conseguem parar nos sinais amarelos. Paciência. Lóbulo esquerdo do cérebro na mulher e o direito no Raul Vaz, a ouvi-lo…

… dizendo isto – dizia ele - não estou a concluir que o Professor Freitas do Amaral seja esquerdista porque sem dúvida que é um homem da direita excepto naturalmente quando não é. E estando ele agora a dizer isto também pode noutras circunstâncias pensar o contrário. Portanto não há dúvida que o Profess …

Não conseguindo ultrapassar o Golf da rapariga do sinal amarelo nem sequer, por causa do trânsito, pôr-me a seu lado, passei para a TSF.

Não estou com isto a pôr em causa a límpida análise de Raul Vaz. O relato que aqui faço todo ele assente nos balbuciantes alicerces da memória pode não estar ipsis verbis mas, isso posso garantir, é rigorosamente fidedigno. Raul Vaz é um comentarista altamente qualificado penso eu que não o conheço e as suas considerações são profundamente esclarecedoras. Quando esclarecem. Podendo ser vago ou muito rigoroso depende. Penso eu. Portanto isto não sendo uma crítica também não é um elogio.

Puxa vida. O estilo pega-se…

2004/12/02

João de Freitas Branco e o Ginásio Ópera

De longe em longe tenho notícia do Ginásio Ópera e há dias encontrei no email, um convite do João de Freitas Branco para

uma iniciativa inédita em Portugal
1ª Temporada de Ópera Vídeo
de 11 de Dezembro de 2004 a 12 de Fevereiro de 2005 .

"Viva a Ópera em diálogo com o público, e em contacto directo com artistas e especialistas, ficando a conhecer os mecanismos da produção e realização desse espectáculo que é a Ópera e suas histórias."
Viva! Respondo eu.
Cada uma das sessões, que têm lugar no Hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa, será dedicada a uma grande obra do reportório operístico e será constituída por três momentos distintos:

1º MOMENTO - um Colóquio/Recital dedicado à apresentação da obra e em que participam especialistas e cantores que interpretarão alguns trechos da ópera em questão. A 1ª é já a 11 de Dezembro com Madame Butterfly e no recital temos Ana Ester Neves (soprano) e Pedro Chaves (tenor).
2º MOMENTO - Um jantar no restaurante Falstaff.

3º MOMENTO - a projecção do filme sobre a ópera. Em colaboração com o Hotel Vila-Galé Ópera e com o apoio de várias instituições ligadas à vida cultural.

Os bilhetes podem ser adquiridos directamente na recepção do Hotel Vila-Galé Ópera até à hora do espectáculo ou nas lojas Fnac Chiado, Fnac Colombo, Fnac CascaiShopping, Fnac Almada Fórum . 28,00 € para sócios do Ginásio Ópera e 35,00 € para não sócios.
Mais informações? O secretariado do Ginásio Ópera: TM 96 5096820
Outros contactos? http://www.ginasioopera.com/ ginasioopera@mail.telepac.pt
Hotel Vila-Galé Ópera: Travessa Conde da Ponte 1300-141 Lisboa (junto á antiga FIL actual Centro de Congressos) Tel.:213 605 400 Fax.: 213 605 450.
O Ginásio Ópera tem o João a presidente da Direcção. Todos conhecem o João de Freitas Branco. Mas, mesmo assim, para aqueles que o não conheçam, acrescento umas palavras acerca do meu amigo filósofo, melómano e crítico musical da Antena 2.
Estou a falar do filho que é esse que conheço melhor. Mas, para falar do filho parece-me bem começar por dizer alguma coisa sobre o pai João de Freitas Branco, musicólogo e crítico de excelsas qualidades, que exerceu a cátedra na Universidade Nova e a Direcção do Teatro Nacional de S. Carlos, nos deixou, na imprensa generalista ou especializada, em revistas e colóquios muitos e valiosos testemunhos da sua intervenção na vida cultural portuguersa. Mas talvez mais que tudo isso ele cativou e cultivou os Portugueses com o seu programa radiofónico "Gosto pela Música" durante quase trinta anos. Falar do avô do meu amigo João, Luís de Freitas Branco e do tio-avô, Pedro de Preitas Branco seria levar longe demais esta breve conversa e ter de falar de dois dos maiores vultos musicais portugueses do século XX.

João de Freitas Branco, pai, foi quem me ensinou a gostar de música. A mim e a mais umas dezenas ou centenas de milhar de portugueses no referido "curso" de excelência "O Gosto pela Música". João de Freitas Branco falava da música, da grande música! e dava-a a ouvir na Lisboa 2. Mas com palavras tão próximas e amigas e com trechos tão bem seleccionados que mesmo os mais avessos à cultura e mesmo os que só tinham ouvidos para o fado, o vira ou passe-dobles paravam. E escutavam. E aí residia a armadilha. Ou o encanto.

Afinal "aquela música", com piano, violinos, grandes orquestras e cantores de óperas em tudo diferentes das cançonetas que o paupérrimo panorama cultural português da ditadura nos oferecia talvez até "aquela música" também fosse música. E o português do país de camponeses que éramos com ouvido apenas treinado pelo chilreio dos pássaros ou o marulhar dos regatos ainda nãopoluidos parava e ouvia. E aí estava a armadilha. Ficavam presos. Ou libertos. Do gosto embotado. Da penúria estética. E ganhos para a liberdade. Que gostar de música dá força à liberdade! e à vontade de viver e de ser solidários com os outros homens.
João de Freitas Branco, o pai, tinha ficado para mim, para sempre, um Grande Senhor da Música. E um Grande Amigo. Mas distante. Até um tanto inatingível... porque não o conhecia. Os homem de dotes raros julgamo-los inatingíveis, ou intocáveis e em geral não é assim. Os grandes homens os homens de grande cultura, os sábios, são em geral pessoas simples que ao estarem com pessoas simples como nós nos tratam quase com familiaridade. Por isso quando mais tarde alguém amigo vinha com João de Freitas Branco e me disse não conheces o João, o João de Freitas Branco? Eu estendi-lhe a mão, ele apertou-me a mão e pôs-se a falar, a falar comigo como uma pessoa igual às outras... e eu até disse várias coisas de que não me lembro.

O João, o filho, além de musicólogo e um amante da música e da Catarina e da filha Madalena e do filho João, é também filósofo.
Digo que ele é filósofo não apenas porque ele se licenciou em filosofia mas porque o ouvi dizer uma vez, quando lhe perguntaram o que era e ele respondeu filósofo. É questionável, tendo em conta os usos da terra, que um licenciado em Filosofia deva ser apontado como filósofo mas por um lado ele disse que era e por outro eu sei pelas conversas que ao longo de anos tive com ele que, como aliás muitos de nós, o João é um filósofo!
Mas se ele ministrava filosofia na Universidade do Atlântico até Marques Mendes deputado do PSD, ter tomado as rédeas desta universidade, no concelho de Oeiras, e despedido os professores de ideias demasiado à esquerda para seu gosto, o que mais relevo no João, depois da amizade, é os seus inesgotáveis conhecimentos de música que de vez em quando tem oportunidade de os colocar ao serviço da musicalmente pobre comunidade luzitana, na Antena 2.
O João que habita uma simpática vivenda em Caxias, residência que foi dos pais, tenta salvar a tradição familiar das tertúlias, eventos culturais de proximidade e reune periodicamente, em sua casa, ilustres representantes do meio cultural, particularmente da música e da poesia e os felizes convidados, seus amigos, petiscam aprimoradas vitualhas e disfrutam de momentos de apaziguamento, que nos fazem esquecer certas coisas desagradáveis do país, com belo canto, poesia e peças ao piano ou ao violino.
Conheci o João de Freitas Branco na política e travámos do mesmo lado da barricada, nos últimos anos de oitenta e primeiros de noventa do século vencido, algumas vigorosas escaramuças contra o que nos parecia então o descaminho de um património de luta pela liberdade do povo português que, de queda em queda, veio parar a Jerónimo.

Anos depois encontrei João em azáfama organizatriva numa das suas muitas iniciativas, era O Ginásio Ópera. Na altura convenci-me que os "muitos afazeres", me impediam de aceitar o seu convite para participar na construção de obra tão aliciante. Se algum de vocês tiver um convite destes, mesmo com muitos afazeres, aconselho a que aceitem.

2004/11/01

Memórias da Rússia em Paris






































EU E A ALDEIA é um belíssimo quadro (óleo sobre tela 191x150,5 cm) de Marc Chagall pintado em Paris, cerca de 1911, na célebre La Rouche (Colmeia) um prédio onde havia um pavilhão de madeira com mais de 100 ateliés baratos e onde se concentravam artistas de todo o mundo.

O quadro, onde são perceptíveis influências de Delaunay, tem uma estrutura radial e é clara uma utilização de concepções do cubismo postas aqui ao serviço de um surrealismo poético.

O quadro de Chagall, judeu russo então com 24 anos, evoca as recordações e saudade da infância em Vitebsk, na Rússia, que estão aliás patentes em muitas outras obras suas.

2004/10/22

VOTO SECRETO: O MAL AMADO

O Comité Central (CC) do PCP vai pela primeira vez, senão nos seus 83 anos de vida pelo menos desde 1974, ser eleito por voto secreto dos delegados que se reunirão no 17º Congresso, em Almada, nos próximos dias 26, 27 e 28 de Novembro.
Foi uma decisão do CC reunido no passado dia 19 do corrente mês que, no entanto, decidiu não se vergar totalmente ante o império da "antidemocrática" lei dos partidos e resolveu que o CC eleito vote com o BRAÇO NO AR a comissãopolítica, o secretariado e o secretário-geral.
O CC do PCP considerou-se entre a espada e a parede e "aprovou" o voto secreto para a eleição do Comité Central como quem aprova veneno para a ementa da próxima ceia.
Melhor que esta imagem sobre a consternação, o furor, o frémito de revolta "democrática" que atingiu os 183 membros do CC do PCP, eleitos há quatro anos pelo simpático método do braço no ar, só a própria Resolução do CC. Com a vossa licença e sublinhados meus, dou a palavra ao CC do PCP:

"Resolução do CC sobre as leis dos partidos"

"As forças dominantes e os seus representantes políticos (PSD, CDS-PP, PS), com a colaboração do Presidente da República, aprovaram leis (Lei dos partidos e Lei sobre o financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais) que são um ataque frontal a um dos aspectos essenciais da liberdade conquistada com o 25 de Abril.
..... Estas leis são uma aberração democrática, são inaceitáveis no quadro do regime democrático e o Partido deve na sua acção desenvolver um combate sistemático contra elas com o objectivo final da sua revogação... Os autores e responsáveis por estas leis, dirigidas contra o PCP, têm em vista, o enfraquecimento e destruição do Partido...
O Comité Central considera necessário o desenvolvimento de uma acção de combate a estas leis... Assim, o Comité Central considera e propõe ao XVII Congresso que: ... - as votações no Congresso sejam em geral de braço no ar; - a eleição do Comité Central ... seja feita por voto secreto. O Partido reserva a sua posição e atitude futura para com estas leis iníquas, antidemocráticas e inconstitucionais, ..."

Para que os militantes do partido não afrouxem a indignação e o combate ao voto secreto e a outras iniquidades daquelas leis o próprio regulamento quebra a boa prática de apenas regular para não descurar nem por um momento o necessário combate ideológico. Senão veja-se o ponto VI do regulamento:

VI

1. Cada delegado tem direito a um voto.
2. As votações são feitas de braço levantado.
3. A eleição do Comité Central, por disposição antidemocrática da lei dos partidos, contrária ao direito e à possibilidade que os delegados ao Congresso sempre tiveram de decidir democraticamente sobre o método de votação que entendem mais adequado, é feita por voto secreto.
4. As deliberações são tomadas por maioria dos delegados presentes no Congresso.

Indo lá atrás.

O Comité Central, em 1988, sob a direcção do autêntico Álvaro Cunhal abordou "cientificamente" o método das votações.

Álvaro Cunhal explicou que lá fora metade dos partidos comunistas elegiam o CC com o braço no ar e outros tantos, mais coisa menos coisa, com voto secreto. Revelou com superior "fair play" a um CC que bebia as suas palavras que uma solução ou outra solução cabia sem ofensa no centralismo-democrático do correcto marxismo-leninismo. Acrescentou, no entanto, como não quer a coisa, que também se pode ter em conta a tradição dos partidos.
Os 193 membros do CC, treinados como estavam, perceberam de imediato que uma coisa era igual à outra mas tendo em conta a tradição do PCP uma coisa era afinal mais igual que a outra. E assim o braço no ar foi, durante 12 interessantes meses, arma de arremesso da maioria fidelíssima do CC, que estava certa, contra a cabeça desnorteada de um grupo que com o andar dos meses e os solavancos do caminho foi diminuindo até se fixar em 5 teimosos. Que felizmente estavam errados.
Eleger órgãos directivos de um partido ou pessoas para qualquer cargo por voto secreto é uma forma que o senso comum considera mais democrática do que a de braço no ar porque evita naturais constrangimentos de quem vota e, eventualmente, represálias ou antipatias de quem foi eleito apesar do seu voto contrário.
Por isso dar notícia de que o voto vai ser secreto numa eleição poderia parecer tão insólito como, por exemplo, o Gabinte de um 1º Ministro desmentir com um comunicado a revelação na imprensa de que o chefe do Governo teria batido uma soneca numa sesta num tal dia entre uma sessão no Parlamento e outra num desfile de moda. Mas... o insólito acontece. Num e noutro caso. E, no caso do PCP, vários têm sido os jornais a dar destaque ao explosivo voto secreto.
O CC do PCP está numa fúria por se ver constrangido pela nova lei dos partidos. Ninguém gosta de ser condicionado para mais sobre uma norma interna que na opinião de muitos dos mais alinhados membros desse partido tem o aspecto de ilegítima intromissão.
Mas há mais duas razões para que o VOTO SECRETO abale e indigne a direcção do PCP.
Uma de menor importância estratégica mas mesmo assim de grande impacte psicológico é que o grupo dirigente do PCP vem desde 1988 travando um braço de ferro com os seus "críticos" e "renovadores".

O voto secreto foi assunto recorrente e obcecação nas seis reuniões do CC que, no ano de 1988, se ocuparam da preparação do 12º congresso do PCP, em Dezembro desse ano, no Porto. Com a União Soviética e o Muro de Berlim a abrirem fendas, o CC do PCP teve de arrostar e dar combate a uma fronda que incendiava as organizações e ateava nas suas próprias fileiras.

Eis os principais focos de incêndio:
em 1987/88 A 1990/91
O Grupo dos Seis - Vital Moreira , Álvaro Veiga de Oliveira, Victor Louro, Silva Graça, Fernando Marques, Dulce Martins e muitos outros como Zita Seabra, José Magalhães, Jorge Lemos, João Labescat, Delgado Martins, Ana Merelo;
A Terceira Via com José Saramago, Baptista Bastos, Mário de Carvalho, António Borges Coelho, Urbano Tavares Rodrigues, Joaquim Gomes Canotilho, António Hespanha, António Teodoro, Mário Vieira de Carvalho, José Barros Moura, Pina Moura, José Luís Judas, António Mendonça, José Ernesto Oliveira, Helena Neves, João Rodrigues, Victor Neto, Clara Boléo, Manuel Correia, João Galacho, Olga Areosa, Rogério Moreira, Mário Lino, José Garret, João Abel de Freitas, Fernando de Castro, Alfredo Cardoso, João Tunes, António Graça, Carlos Cidade, Raimundo Narciso.
O Grupo dos 24 de Almada com Francisco Simões, Ronaldo da Fonseca, Francisco Rocha e outros;
O Grupo da Marinha Grande com Osvaldo de Castro, Joaquim Carreira e outros.

E a partir de 2000

Os Renovadores com Carlos Brito, Luís Sá, Edgar Correia, João Amaral, João Semedo, Carlos Luís Figueira, Domingos Lopes, Paulo Fidalgo, Cipriano Justo, Elvira Nereu, Eufrásio Filipe, Helena Medina, Carreira Marques, Jorge Gouveia Monteiro, Henrique de Sousa, Paulo Sucena, Rogério de Brito, Vasco Paiva, Vidal Pinto, Viriato Jordão e muitos outros.

A outra e essencial razão contr o voto secreto é a profunda descrença na bondade do método eleitoral quando este se aplica a um universo que não seja o restritíssimo "círculo dos entendidos". Só nesse caso o voto e a opinião é fundamentada. Subentende-se. O secretário-geral deve ser escolhido pelo núcleo duro do secretariado e da comissão política. O grupo restrito que domina e controla tudo o que é essencial. A proposta deverá ser então submetida à apreciação da comissão política e do secretariado. Este é o primeiro círculo decisivo para a escolha do secretário-geral quando o caso se ponha porque a tendência é para lugar vitalício. É também este círculo que deve fazer a lista do futuro secretariado, futura comissão política e futuro comité central.
A lista de nomes para o CC é apreciada e aprovada pelo CC cessante e depois submetida à discussão e votação dos delegados numa sessão especial do congresso, fechada para o efeito.
Neste processo o voto de braço no ar é fundamental. Pelos contactos, conversas, reuniões prévias com cada organismo e organização a que cada um dos felizes contemplados pertença foi criado uma predisposição, sempre determinantemente influenciada de cima para baixo, para a sua eleição. De modo que, mesmo por VOTO SECRETO, o risco em congresso não é grande para mais com delegados escolhidos a dedo. Por proposta de cima, em geral, e por votação de braço no ar.
O risco de uma votaçãop surpresa é menor ainda sabido como é fortíssimo no PCP o respeito pelas opiniões ("muito mais fundamentadas") vindas de cima. Mas princípios são princípios e o braço no ar é uma garantia para qualquer inesperada ou incontrolável surpresa. Além do que tudo o que seja menos de 90% dos votos é já do domínio do insuportável.
O CC eleito irá eleger ou mais propriamente ratificar, a proposta para o secretariado, a comissão política e coisa rara, para secretário-geral acordada pelo núcleo duro do partido.

2004/09/21

Foi o Comboio e não os Enciclopedistas ou a Revolução Francesa

O Público do último Domingo dá notícia das preocupações de José Pacheco Pereira e Guilherme Oliveira Martins sobre a extinção do Serviço Militar Obrigatório (SMO) agora ocorrida, findo o período de transição determinado pela lei do serviço militar que o extinguiu, aprovada pela Assembleia da República em 1999.
São referidas, razões de princípio relacionadas com a cidadania, a formação cívica, o conceito de nação e de Defesa Nacional. Argumentos que têm grande relevância para o Estado e a nação.
Na altura da elaboração da Lei (1997/99) houve animada polémica acerca da extinção do Serviço Militar Obrigatório. Os chefias militares principalmente porque receavam a falta de voluntários em número suficiente mas também porque a conscrição dá mais poder e autoridade às forças armadas sobre a nação, e um maior entrosamento e identificação com a comunidade nacional.
Jornalistas, estudiosos, analistas dividiram-se. Da esquerda (mas também de alguma direita) surgiram muitos argumentos para a manutenção do SMO. A importância do SMO para a formação cívica e disciplinar do povo. Para o enraizamento do amor à pátria, para a democratização das forças armadas. Com o SMO estas seriam o "povo em armas". "As origens do SMO eram de esquerda e democráticas". "Tinha sido concebido pelos enciclopedistas e posto em prática pela Revolução Francesa". Etc, etc.
Outros também de esquerda, como eu, e outros de direita, sustentavam com alguns argumentos comuns e outros diferentes, a favor da extinção do SMO.
Eu já defendi o SMO. E julgo que com razão. E depois a sua extinção. Creio também que acertadamente. Porque a realidade mudou radicalmente com o fim da União Soviética, da guerra fria e do mundo bipolar. E também, ainda que paulatinamente, com a revolução tecnológica.
Poderei voltar a defender o SMO se as condições mudarem. As virtudes filosóficas, sociológicas, políticas do SMO, invocadas por alguma esquerda, existiram (algumas) mas com o tempo... deixaram de existir. Estudei a matéria e com acerto ou sem ele tentei defender consistentemente a extinção do SMO e o pouco fundamento de algumas ideias de "esquerda" como a de que o SMO é garantia de democratização das forças armadas (FA) pois como se sabe os golpes militares de direita foram quase todos feitos por FA baseadas no SMO. O que é natural sabendo-se como se sabe que os militares do SMO não têm nenhuma influência nas decisões militares dos exércitos, excepto em períodos de guerra ou revolucionários. Mas atenção, estamos a falar sempre, sempre! em SMO em tempo de paz. Porque em tempo de guerra, se o SMO servir para alguma coisa, tendo em conta que a guerra moderna é altamente tributária das novas tecnologias, será imediatamente posto em prática.
Para o estudo que fiz então foi absolutamente decisiva a Internet. Obtive de imediato mais de 300 páginas da audição feita pelo Senado francês sobre o tema a ilustres especialistas franceses e estrangeiros. Hoje já existem mais estudos e mais aprofundados sobre o serviço militar, editados em Portugal.

Sobre o que penso acerca do serviço militar (SM) veja-se a intervenção que fiz no plenário da Assembleia da República em Março de 1999, ou o artigo no Janus 98-suplemento especial e outros trabalhos e artigos [aqui] ou o artigo, mais desenvolvido, sobre o SM ao longo da História de Portugal, publicado na revista Nação e Defesa nº91-Outono 99 - 2ª Série (revista do Instituto de Defesa Nacional) disponível [aqui]
O artigo que se segue, é um dos artigos publicados na revista JANUS/98 Suplemento Especial, publicação anual da Universidade Autónoma de Lisboa e é uma síntese que procura relativizar a tese do SMO como uma instituição republicana e de esquerda.

O SMO na História


Diderot, na "Enciclopédia" diz que "É necessário que... o cidadão envergue dois hábitos, o hábito do seu Estado e o hábito militar" (1). Com Montesquieu e Rousseau, os filósofos, criaram o conceito de serviço militar obrigatório (SMO) como um dever do cidadão. Mas sem o comboio o conceito talvez não tivesse feito história.

O SMO generalizou-se quando a guerra deixou de ser "um desporto de reis" e passou a pôr em confronto as nações com todo o seu potencial humano.
No século XVIII, as dificuldades em garantir os abastecimentos aos exércitos envolvidos na guerra tornavam inúteis, em geral, formações com mais de 80 mil homens. As guerras napoleónicas que se seguiram à revolução francesa mercê do saque dos territórios envolventes permitiram chegar ao limite do Grande Exército que invadiu a Rússia, com 600 mil homens. Mas foi um período de excepção. Aliás ao saque, os russos, com Kutuzov, opuseram a terra queimada e quando gelado e exausto, o Grande Exército chegou a Moscovo, em vez de víveres e abrigo encontrou uma capital deserta e incendiada e foi destruído.
A revolução nas comunicações e em especial o aparecimento do comboio (2) trouxe uma revolução à forma de fazer a guerra. Passou a ser possível abastecer continuamente o campo de batalha de víveres, de armas, de munições e... de homens. Foi então que o SMO universal se tornou verdadeiramente útil e só por isso se generalizou. E, apesar de esboçado na revolução francesa, mas iniciado em 1814, pela Prússia, monárquica e semifeudal, a desmentir a radicação da sua origem prática em razões filosóficas, só passou verdadeiramente a ser um trunfo a partir da via férrea.
Frederico Guilherme I, da Prússia, em 1870 munido de duas armas revolucionárias, o comboio e o SMO, esmagou a França com um exército de um milhão e duzentos mil homens.
A guerra dos profissionais do século XVIII e as guerras revolucionárias do período seguinte, deram lugar às guerras das nações, baseadas no SMO em tempo de paz para prepararem milhões de homens para a guerra. Hitler conseguiu assim um exército quase dez vezes maior que o de Frederico Guilherme I, 70 anos depois.
A predominância (a exclusividade?) das razões militares para a existência do SMO (extensivo a todos os cidadãos masculinos) é exemplificada pela excepção das Ilhas Britânicas. A Inglaterra por ser uma ilha, ao abrigo de fáceis invasões, nunca cultivou o SMO. Não precisava de exércitos grandes para se defender. Desde 1679, com o acto institucional do habeas corpus, ao garantir o primado da liberdade individual em matéria de justiça tornou se inaceitável para os ingleses o constrangimento físico para assegurar a defesa do país, fora de circunstâncias excepcionais, como a de perigo de guerra. (3).
Notas: (1) - M. Raoul Girardet. Exposição ao Senado francês, em 1996, no debate sobre a profissionalização.
(2) - Michael Howard: "A Guerra na História da Europa", Europa América, 1997, pág. 119.
(3) - Gerard Bonnardot: "De la conscription à l’armée de métier: le cas britannique" - Defense Nationale" de 22/02/96.

2004/09/18

Carta da Sibéria para Nova York. Em... 1933

A semana de férias na terra mata-nos saudades, permite-nos rever os amigos, saber quem nasceu ou morreu e visitar o único moinho de vento a moer trigo como antes, entre os muitos que alvejavam e alguns ainda alvejam, ao cimo dos montes que se levantam em redor da terra e são a antecâmara da Serra de Montejunto.
E constatamos o envelhecimento da população e também como surgem iniciativas culturais. A terra tem um ginásio, classe de ginástica, futebol de salão, sala de exposições, escola de música, rancho floclórico. Na minha infância só havia o salão paroquial, que ainda existe, onde passavam de longe em longe uns filmes, em 12 partes, em que o padre da terra ocultava com a mão em frente do projector, cenas de mulheres decotadas ou saias curtas e os homens menos respeitadores protestavam com longas assobiadelas contra o zelo do prior com a saúde moral do seu rebanho.

É do Vilar do Cadaval que estou a falar. Sede de freguesia já tem um posto público de internet ainda que só 3 dias por semana.
Mas agora não vinha falar da terra mas sim como aproveitei o tempo a revolver arcas que estão no sótão e guardam coisas velhas.

Entre os papéis encontrei molhos de cartas atados com fitas de cores debotadas e num deles uma carta de um tal F. Lourenço dirigida ao meu pai, em Nova York, com a data de 29 de Julho de 1933.
A carta tem um interesse particular porque é dirigida da... Sibéria.

Infelizmente a carta não tem o nome da cidade de onde é dirigida, talvez não se tratasse de nenhuma cidade, talvez uma vila ou mais provavelmente um povoado perdido na imensidão da Síbéria. Em todo o caso muito perto da linha do Transiberiano linha férrea que atravessa dois continentes.
O meu pai falava-nos de colegas de trabalho, amigos e namoradas, quando evocava com saudade a sua aventurosa vida nos EUA. E falava de um desses colegas, que julçgo ser este F. Lourenço, que tinha ido como "voluntário com outros operários e técnicos especializados para a Sibéria na União Soviética para ajudar a construir o socialismo e o país dos trabalhadores." Sociedade que não teve um fim feliz como ardentemente desejavam.

A carta, com uma pequena mancha ferrosa, está muito bem conservada. Escrita à mão, com tinta que se percebe ter sido azul, letra bonita, muito legível, inclinada para a direita, em papel de carta com linhas, enchendo frente e verso da única folha.
A última mensagem já não coube nas linhas e vai na margem, em cima à esquerda, no verso.
A transcrição que está a seguir, respeita a ortografia da época, erros ortográficos e gralhas.
Ei-la:
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Cruz

Estimo a sua saude, igoalmente de todos os seus, eu bem felismente.
Já há bastante tempo que era para lhe escrever, mas como só agora nos foi dada a nossa localidade permanente, pois queria-lhe dar as minhas impressõis da nossa situação aqui. Começo por lhe diser que quando cá chegamos e que começámos a trabalhar, os nossos diretores de cá nem só nos fiseram uma grande recepção in “Moscow” como apenas viram que nós produsiamos melhor serviço de que eles esperavam trataram de nos transferir para uma localidade maior e melhor, aonde já tinha electricidade, e uma grande oficina com todas as maquinas já montadas temos cazas com aquecimento temos um grande restaurante aonde vamos comer, temos uma grande caza de banho construída a tijolo, assim como a nossa oficina e tambem tijolo. Mas as cazas de viver e o restaurante e fábrica de sarração, e fabrica de “shingles” para construção de telhados, são construídas a madeira uma construção muito sólida – então.
Estão agora construindo uma grande caza moderna estilo americano para nós americanos. Eles teem cá boas cazas, mas o grupo parece que não gosta muito de elas, e então eles para lhes fazer a vontade estão construindo esta caza. Temos rádio na caza de jantar, temos cinema lá uma vêz por outra, em fim não estou desanimado com isto. As comidas não são más, quase todos os dias temos carne duas veses, não é com muita abundância mas é fresca e é mais do que eu comia em Portugal, pão temos 800 gramas é suficiente para uma peçôa.
Já me esquecia de lhe dizer que também temos estação de caminho de ferro neste sitio que ultimamente nos foi dado. Esta é a linha que vai de Moscow a “Vladisvostok” Sibéria. Então como vão as coisas por aí? Então tem visto “a minha Vaccarela” eu escrevilhe á dias. Mande-me diser se ela tem frequentado o movimento radical. Eu queria ver se ela aqui vinha ter comigo. Por hoje nada mais, Sou quem sabe
F. Lourenço.

Agradeço que me escreva e me dê as novidades de aí.

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É claro que para mim e a minha irmã a carta tem um valor estimativo muito especial mas para além disso parece-me, ainda que singelo, um enternecedor testemunho com interesse histórico, que evoca ao vivo a grande esperança dos trabalhadores e muitos intelectuais no mundo novo que se construia na antiga Rússia dos czares desde a Grande Revolução de Outubro de 1917. E dá notícia das condições de vida na imensa taiga siberiana e também do estado de espírito do português-americano na União Soviética.

Fala na sua Vaccarela, provavelmente uma italiana, que não sei se terá ido ou não ter com o seu Lourenço como ele desejava. Lourenço está preocupado com o comportamento político da namorada e quer saber de fonte segura, o meu pai, seu companheiro do movimento radical, leia-se comunista, se ela continua a frequentar o Movimento. Isso seria também uma garantia maior para a eventual decisão, decisão muito arrojada, de se juntar ao companheiro, naquela perdida Sibéria, que apesar da inigualável beleza da infinita floresta, era uma Sibéria sem conforto e sem a oportunidade de uma visita à Broadway, à 5ª Avenida, ao Central Park ou lá acima junto às nuvens, ao terraço do Empire State Building (ainda não havia as Twin Towers).