2015/04/11

Por dois votos o Ernâni não foi presidente da Associação de Estudantes de Ciências

1958, foi um ano da maior agitação política com a candidatura do general Delgado à presidência da República a fazer tremer o salazarismo. Envolvi-me ainda mais na política e a consequência foi o chumbo a duas cadeiras no 2º ano de engenharia do IST. Para não perder o ano, drama que não conhecera antes, mudei-me para a Faculdade de Ciências onde poderia frequentar além das duas cadeiras do 2º ano de engenharia quase todas as do 3º.
Eis-me assim na Faculdade de Ciências de que guardo gratas recordações. Em primeiro lugar pelo mar de raparigas, género que rareava nas engenharias do IST. Depois pelo lindo Jardim Botânico, ao lado, que propiciava um ambiente a exaltadas paixões entre colegas.
Comparada com a do IST a Associação de estudantes da FCL era pouco mais que incipiente e um grupo de estudantes que se conheciam de reuniões políticas da "oposição", na sede da Seara Nova, logo resolveu ali organizar uma lista concorrente às eleições para a direção da AE que se aproximavam. Escolhemos o Ernâni Pinto Basto para candidato a presidente da direção.


A lista do Ernâni tinha planos pedagógicos, cívicos e culturais mas foi logo alcunhada de comunista pelos "Jovens Portugal", um movimento de jovens ligados à ditadura que tinha ali três ou quatro aderentes. A lista oposta dizia-se apolítica e era quase toda de boa gente.
A votação foi renhidíssima e durou até tarde, para lá das onze da noite. O Ernâni perdeu por dois votos. Mas teve a compensá-lo ter oferecido a oportunidade a umas dezenas de raparigas nossas colegas que viviam em lares religiosos das redondezas, de gozar o ar da rua e da noite para lá das 20h limite a que o recolher daqueles lares as obrigavam para salvaguarda da virgindade e da honra.
Como era para derrotar a lista dos "comunistas" aquelas colegas puderam, excecionalmente, estar fora do lar e da vigilância das religiosas até altas horas. Como era para uma boa acção, a defesa do "santo" Salazar e para barrar o caminho ao "comunismo" na associação de estudantes, os lares consideraram aceitável o risco da virgindade que tais saídas noturnas, com o diabo sempre à espreita, obviamente propiciam.
Para preparar o programa eleitoral organizávamos passeios à praia e piqueniques que as fotos ilustram e onde se vê, entre colegas de Ciências, o Ernâni Pinto Basto. E para nos ressarcirmos da derrota passámos o Agosto em Lagos, na praia de Don' Ana. A prova é a foto aqui em baixo.
 

2015/04/07

Ernani Pinto Basto - nosso amigo


O Ernâni morreu. Para a família, para os seus amigos a notícia foi brutal. Chegou sem preparação, assim mesmo, brutal. E depois já no velório, todos dissemos, desacreditando no acontecido, que tínhamos estado com ele a semana passada, há uns dias, há umas semanas e ele estava bem, parecia tão bem! Parece impossível - exclamava-se em confidência como se a morte não fosse dona da vida.
Como foi?
Estava na terra dos antepassados, na Lixa, lá em cima no Minho, passeava com o filho Sérgio e o irmão Eugénio. Viram-no, a despropósito, inclinar-se para a frente e... cair. Cair sem uma palavra. Cair sem um adeus. Uma síncope fulminante. Coração. Explicávamos uns aos outros mesmo sabendo que já sabiam. E lembrámos junto do Sérgio e da filha Elisa e dos irmãos, o Eugénio e o Ludgero e de toda a família ali, ainda incrédula, lembrámos como nos faz falta e custa aceitar. O Paulo Almeida que já não ensina Matemática no IST, aos futuros engenheiros, dizia-me, no crematório, baixinho: "sou muito tradicional, agora devia dizer-se umas palavras".

2012, convívio no "palácio" do Jaime. 

2009 Maio - Convívio no terraço da casa do Tó e da Manela
 
2010 Setembro, lançamento de livro do Rui Martins na Barata, Lisboa

1999 - 40º aniversário de início do serviço militar obrigatório, cadetes na EPA, em Vendas Novas.  
 
 
1960-GACA 2 Torres Novas. Oficiais milicianos e comandante da 2ª bateria de Artilharia Anti-Aérea
 
1960 - GACA 2 Torres Novas. Oficiais milicianos.


1961 - Convívio de colegas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
 
 
 1963, no campo de futebol da Associação de Estudantes do IST em Lisboa.


 Dezembro 1959. Cadetes, no CIAAC, Cascais, a preparar novos Caminhos Marítimos para a Índia


27 de Novembro de 1975, com a Céu, nossos padrinhos de casamento.
 

2015/04/04

Miguel Ângelo no tecto da Capela Sistina

Domingo de Páscoa... ofereço-vos umas imagens da obra de arte magistral do grande Miguel Ângelo, o tecto da Capela Sistina, no Vaticano, pormenores e as 5 Sibilas .
 

O Dilúvio
 
Deus separando a Luz das Trevas

 

A Criação de Adão

O Pecado Original (Se não fosse esta imprudência de Adão não estávamos a sofrer o Cavaco e o Passos Coelho)
 
Dafne a Sibila Délfica
 
Prisca a Sibila da Eritreia
 
 Ciméria a Sibila de Cumas
 
A Sibila Líbia
 
 
Sambeta a Sibila Pérsica

2015/02/26

HUMILHAÇÃO

Pisando relva, olhando o cais de partida, a maré subindo, com as netas pela mão, espiava os seus sorrisos e explicações - Perguntavam os 8 anos da mais velha: "Oh avô, o que é um furacão?" Anteciparam-se-me os 4 anos da mais nova, já seguros de sua ciência: "é um furaco grande!"
Gozava os saberes dos mais novos e os indecisos raios de sol. Ao longe "nítido, clássico à sua maneira" "um paquete entrando". Eis que deparo, caído na amurada, cabeça pendida para o Tejo, um velho, muito velho, mas ainda forte, vomitava. Tentei socorrê-lo: que se passa? Que se passa? Respondeu-me quase um eco.« Então não vê ao que isto chegou!? Este Governo e este Presidente da República? A rendição. estúpida e álacre perante a troica. a HUMILHAÇÃO? Tenho 875 anos. Já passei por muito mas isto é demais. »
Debrucei-me mais, vi-lhe o rosto, as rugas e as longas barbas, num sobressalto reconheci-o, era PORTUGAL.



2015/01/21

Conferências na Alemanha (RDA) em... 1986


 
   
 
Ofereceram-me este livro miniatura sobre Halle há quase 20 anos. Reencontrei-o agora no fundo do baú e para satisfazer a vossa curiosidade conto-vos como chegou ele aqui.
Em 1986, era ainda militante e membro do CC do PCP, fui, nessa qualidade, à RDA, a Alemanha socialista, fazer um ciclo de conferências sobre a situação política, social e económica de Portugal. Estas conferências integravam-se no intercâmbio de informações entre o PCP e o PSUA (Partido Socialista Unificado da Alemanha) que governava a RDA.
Este relato sustenta-se apenas na memória pois alguma documentação, intervenções, recortes de notícias saídas na imprensa alemã, estão em arquivo que não tenho aqui, agora, à mão, salvo o livrinho e duas fotografias tiradas na conferência de Berlim e nas quais sou o tipo de barba com gravata.
 
(Clique nas imagens aumenta-as)
As conferências tiveram lugar nas cidades seguintes: Gera (cidade com cerca de 100 mil habitantes no Estado da Turíngia), Halle, Dresden e Berlin, aqui para jornalistas, da imprensa escrita, rádio e televisão.
Berlin, toda a gente conhece, dispensa apresentação. De Dresden talvez valha a pena referir que lhe chamam a Florença do Elba e é considerada a capital barroca da Saxónia. É uma cidade linda. E foi destruída durante a 2ª Guerra Mundial, entre 13 e 15 de Fevereiro de 1945, com a Alemanha já derrotada, por "tapetes de bombas" de sucessivas vagas de bombardeiros ingleses e norte-americanos e os seus habitantes chacinados durante a 2ª Guerra Mundial. Foi uma represália terrorista contra o terror nazi de Hitler à custa de população civil e de uma cidade sem bases nem interesse militar. 1300 bombardeiros, 3.900 toneladas de bombas incendiárias desencadearam uma tempestade de fogo que deu o resultado que a imagem revela e a morte demais de 25 mil pessoas e um número incalculável de feridos.
Halle é uma cidade com uma universidade muito antiga, a universidade de Lutero e suponho que por tal razão geminada com Coimbra. Por isso e porque me ofereceu aquele livrinho, leva maior descrição
« Halle, situada nas margens do Rio Saale, é a maior cidade do estado regional de Saxónia-Anhalt, na Alemanha, ficando a cerca de 150 km a sudoeste de Berlim. Tem aproximadamente 300 000 habitantes e uma área administrativa de 135 km2.
A cidade é considerada a capital cultural do seu estado. É o berço do famoso compositor Handel, e, por isso, a cidade dedica-lhe especial atenção através da realização do Festival de Handel, ou do Festival dos Coros das Crianças. Famosas são também a Igreja do Dom, a Livraria de Marienkirche e a Casa da Ópera.
É ainda sede da Universidade Martin-Luther, fundada em 1694, que durante muitos anos foi também o centro principal do Pietismo e do Iluminismo do país
Com a industrialização da Alemanha, no século XIX, a "Leopoldine", a academia dos cientistas mais antiga do mundo, fundada em 1652, contribuiu para a ampliação das Ciências da "Alma Mater" de Halle.
Durante a época da República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), a sua periferia constituiu um importante centro da indústria química. Desde a reunificação, em 1990, a cidade passou a atrair empresas de outros sectores como a indústria de multimédia, alimentícia, entre outras.» in site da CM de Coimbra.)

2014/08/27

SUAD AMIRY: é a TERRA, a terra, o chão que pisamos e nos dá vida

 É a explicação, mais humana, sensível e inteligente que já vi sobre a grande tragédia da Palestina. É Suad Amiry. A entrevista é longa, se não tiver tempo para a ver toda de uma vez veja o resto mais tarde mas... não perca! Não perca o que há de melhor para se entender a essência da guerra Israel-Palestina, na terra martirizada por três religiões.
É escritora, é arquiteta, é palestina, é SUAD AMIRY. Tudo com maiúsculas porque não tenho letras maiores. SUAD AMIRY. Fixe o nome porque se conhecemos tantos nomes do que há de pior entre nós porque não guardarmos os nomes das e dos melhores de nós!


2014/06/27

Umas são de Joan Miró e as outras são da minha neta

Agora sucedeu uma grande complicação. A PARVALOREM sabendo do meu apreço pelas pinturas de Juan Miró facultou-me algumas para uma exposição que organizei aqui no bairro. São da coleção que ajudei a não deixar fugir do país com aquela petição que vocês provavelmente também assinaram.  Finda a exposição arrumava os quadros no escritório quando me ausentei uns momentos deixando a guardá-las a minha neta, já uma conceituada artista plástica, a dar os últimos retoques nuns belíssimos quadros seus. Saiu com os pais antes de eu chegar e deixou-me num grande embaraço: misturou as pinturas dela com as do grande Miró.
Tenho que devolver agora as pinturas do grande pintor catalão e não sei quais são as dele e quais são as da minha neta. Na esperança de que algum de vós seja especialista na matéria agradeço que me indiquem quais das 6 pinturas que abaixo vos mostro são de Joan Miró ficando assim eu a saber quais as da minha neta. É que ela, mora longe e como tem só 7 anos e não usa ainda telemóvel não tenho forma rápida de deslindar o melindroso caso. Não queria devolver ao Estado português as pinturas da minha neta no lugar das do Miró porque estou certo ficaria a perder com a troca como daqui a uns anos todos perceberão.
 
O problema é que se eu as trocar inadvertidamente eles, aqueles rapazes do Governo lá da PARVALOREM que queriam vendê-las a todo o custo para fazer mais uns cobres não vão dar pela troca. E eu trocá-las é que não quero.
Numerando-as, da esquerda para a direita, de 1 a 6 digam-me por favor, aí na caixa de comentários, quais as do grande pintor catalão que assim logo descubro quais são as da minha neta.

2014/06/11

Mário de Carvalho condecorado pelo PR


Desde ontem, 10 de Junho, Dia de Portugal, que o escritor Mário de Carvalho é Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada. É o reconhecimento público, conferido pelo Presidente da República, da obra de um dos mais credenciados escritores contemporâneos de língua portuguesa.

A Ordem Militar de Sant'Iago da Espada é uma ordem honorífica portuguesa que herdou o nome da Ordem de Santiago extinta em 1834, e que é concedida por mérito literário, científico e artístico. O seu nome completo é Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico. Tanta erudição está agora ao nosso alcance na Wikipedia. De Santiago só sabia que começou por ser o padroeiro das nossas hostes reais e que em campo aberto os cavaleiros gritavam Por Santiago e assim lá iam ganhando as batalhas em que tinham superioridade de forças. Mas depois o fortalecimento da independência do reino era feito a custas de Castela e as batalhas se não eram com os mouros de mafamede eram com os nossos vizinhos castelhanos, irmãos em Cristo. Ora eles também gritavam por Santiago e assim obrigavam o santo a opções difíceis entre cristãos. Nesta encruzilhada mudámos de padroeiro para S. Jorge, que já o era dos ingleses e nos ajudavam contra Castela.

Mas o assunto não é este. O assunto é a condecoração do meu amigo Mário de Carvalho um escritor que sempre leio com o maior prazer.  

No meu tempo de estudante terçávamos armas em torno de muito retóricas polémicas sobre a falsa dicotomia entre a forma e o conteúdo. E a rapaziada mais alinhada com o comunismo, o antifascismo prevalecente, estava religiosamente pela absolutização do conteúdo e tinha um ufano desprezo pela forma. Isto era só para dizer que sem desprezar a importância do conteúdo e antes de sobre ele concluir em cada romance, conto ou novela do Mário de Carvalho, vou saboreando, frase a frase, palavra a palavra a sua belíssima escrita. 

Lamentavelmente não li todos os seus livros mas a culpa é dele que escreve livros demais. Tenho mais de uma dezena de livros seus. Julguei que tinha todos ou quase todos mas afinal não. Estou mesmo muito longe, segundo me informam aqui já vai lá para a trintena. Por um lado não me dá tempo para os ler a todos e depois criar-me-ia um problema do género “dívida soberana”. 

Um dos livros que mais me impressionou foi Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde.É também, segundo julgo, o seu livro mais premiado, nomeadamente com alguns dos mais prestigiados prémios, como o Grande Prémio de Romance, Conto e Teatro da APE, o prémio do Pen Clube ou o prémio internacional Pégaso. É também, creio, o mais traduzido, 9 línguas.

Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde «é simultaneamente um estudo envolvente sobre a conduta moral de um homem e uma reflexão provocadora sobre a dificuldade de se levar uma vida virtuosa numa era em constante mudança». Não sou eu que o diz é o The New York Times Book Review.

Aqui há umas semanas atrás convidei o Mário de Carvalho (e ele aceitou) para funções de grande prestígio, Presidente da Assembleia Geral do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória - NAM! na lista em que concorremos e ganhámos. Por sorte não havia mais listas a concorrer.

Portanto ficam todos a saber que a partir de agora o NAM conta com um Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada nos seus corpos sociais e Mário de Carvalho conta no seu curriculum além de prémios e mais prémios, condecoração e dezenas de livros e sei lá que mais títulos, a prestigiosa função de Presidente da AG do NAM.

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Informação confidencial de última hora cuja fonte não posso revelar diz que o fanico do Senhor Presidente da República, nas cerimónias do 10 de Julho, que tanta consternção lavrou por todo o país, não tem nada a ver com a grande vitória do PS nas eleições para o PE. Está antes  relacionado com o caso da condecoração de Mário de Carvalho. Segredaram-lhe: “Então o Sr. Presidente foi dar uma condecoraçãozona destas a um escritor de esquerda, que até está contra o nosso governo?” O Presidente que nunca lera uma linha dos romances, contos ou novelas do Mário de Carvalho e sabia lá agora por que bandas ideológicas andaria a escrita do escritor… caiu em si. Ou seja, teve o chilique que se viu.

2014/05/11

Durão Barroso, Paulo Portas, Submarinos. Corrupção. Silêncio

Na Alemanha condenaram os corruptos/corruptores. Em Portugal os corruptos/corrompidos andam por aí impantes e governantes.
O video é sobre a  polémica compra por Portugal dos tão falados dois submarinos à Alemanha por 500 milhões de euros cada um e da corrupção a ela associada. Na Alemanha os tribunais condenaram os corruptores alemães dos que em nome do Estado português os compraram com o nosso dinheiro. A decisão foi de Durão Barroso, 1ºM e de Paulo Portas, MDN.  
"O vídeo passou na TV pública da Alemanha. São 43 minutos de informação detalhada e bem documentada" e é da autoria do jornalista António Casais
"No final deixa a informação de uma cláusula contratual que obriga a que a revisão dos submarinos seja anual, pelo preço de 5 milhões de €, pelo período de 30 anos, e feita nos estaleiros que construiu o submarino." 
Recebi o vídeo e os comentários por mail, de pessoa idónea, de modo que coloco-o aqui antes mesmo de o visionar completamente. 
Porque não terá passado em nenhum canal de TV português? Boa pergunta. Mas... Paulo Portas é, para nossa desgraça, outra vez ministro e Barroso anda por aí à procura de emprego, a ver se ganha balanço para Belém, chegada a hora.


2014/05/07

Ana Aranha: Serviço Público na RDP com "NO LIMITE DA DOR"

António Louçã apresentou o livro de Ana Aranha e Carlos Ademar “NO LIMITE DA DOR - a tortura nas prisões da pide” e sublinhou como a série de entrevistas radiofónicas que deram origem ao livro e a série que se lhe seguiu "Conversas clandestinas" representam verdadeiro serviço público, uma conquistas do 25 de Abril que é preciso defender.
Foi, hoje, pelas  18:30, no auditório da RTP, em Lisboa.
Na assistência estavam muitos dos ex-presos e torturados pela PIDE/DGS cujos testemunhos Ana Aranha tão bem soube recolher. Estavam, nomeadamente, Pedro Soares, Gina Azevedo,  Conceição Matos e Domingos Abrantes, Helena Pato e Edmundo Pedro, único tarrafalista ali presente, firme nos seus 96 anos e que me disse estar a preparar para breve... mais dois livros.
(Um clique amplia as imagens)


Nas duas primeiras imagens Ana Aranha e nas duas seguintes António Louçã, Ana Aranha e Carlos Ademar.

2014/04/27

Francisco Miguel

    

 [um clique nas imagens e elas revelam-se-nos em toda a sua grandeza]
Arrumava papéis quando duas folhinhas me surpreendem. Era o texto que Francisco Miguel Duarte - Chico Miguel para os amigos - leu num almoço de homenagem, organizado pelos seus amigos, em janeiro de 1988, pelo seu 80º aniversário e 4 meses antes do seu inesperado falecimento. 
A sua intervenção deixa-nos entrever um pouco do que foi a sua vida e também o homem que ele era.
A seguir a Manuel Rodrigues da Silva o Chico Miguel foi o português que o fascismo manteve preso mais tempo. 21 anos e 2 meses. É também um campeão das fugas, a par de Jaime Serra,  com4 fugas das cadeias da ditadura. Uma em Janeiro de 1960 com Cunhal e mais oito companheiros e depois em Dezembro 1961, com mais 8 camaradas, numa fuga só imaginável em filme de aventuras, no carro blindado de Salazar que estava ao serviço da prisão de Caxias.
Chico Miguel estava por Paris quando insistentemente requereu à direção do PCP em regressar a Portugal clandestino para participar na organização que desde há alguns anos no meio de grandes dificuldades criadas por sucessivas prisões, organizava meios humanos e materiais para as ações armadas e que viria a ser a ARA.

A direção do PCP esteve muito relutante em aceder à pretensão de FM porque não o queria ver de novo na prisão e o risco não era pequeno. Assim, em 1968, Francisco Miguel frequenta um curso para as ações armadas, na União Soviética, com mais alguns voluntários. Era o segundo curso para o efeito pois o primeiro tinha sido o que eu e Rogério de Carvalho frequentámos em Cuba, de Janeiro a Abril de 1965.

Conhecera Francisco Miguel no inicio de Janeiro de 1965, em Moscovo, simultaneamente com Álvaro Cunhal quando vieram tomar o pequeno almoço comigo e Manuel Rodrigues da Silva, no "hotel do partido" (designação do hotel que acolhia os convidados estrangeiros do Partido Comunista da União Soviética).

Em Outubro de 1968 Francisco Miguel está em Portugal e, enquanto não arranja casa sua, está a viver comigo e a Maria Machado, cerca de mês e meio, num apartamento clandestino que alugáramos na Estrada dos Arneiros a Benfica, em Lisboa. Esse convívio diário permitiu um melhor conhecimento mútuo e fortalecer a nossa amizade. Falava-nos da sua vida de luta, do seu Alentejo, de Baleizão e de Serpa, discutíamos a politica e as ações armadas futuras que só viriam a ter lugar finalmente, após novos atrasos devidos a prisões, em Outubro de 1970, já com Jaime Serra na direção do Comando Central da ARA constituído por ele e nós os dois.

Francisco Miguel levantava-se muito cedo, entre as 6 e as 7 horas e quando nos levantávamos ele logo nos apresentava várias folhas com poesias que todos os dias escrevia sentado na cama, papel em cima de um livro, sobre os joelhos, em folhinhas A5. Ora poesia lírica e de amor (amores frustrados pela luta e desencontros reais na clandestinidade que sofreu e de que nos chegou a falar) ora de poesia revolucionária. Recordo-me de lhe dizer que me parecia  melhor conseguida a primeira do que a segunda. Depois participámos diretamente ou na sua direção, com Jaime Serra, nas ações armadas da ARA, entre Outubro de 1970 e Agosto de 1972. 
Francisco Miguel link para biografia