
2015/04/04
Miguel Ângelo no tecto da Capela Sistina
Domingo de Páscoa... ofereço-vos umas imagens da obra de arte magistral do grande Miguel Ângelo, o tecto da Capela Sistina, no Vaticano, pormenores e as 5 Sibilas .
O Dilúvio
Deus separando a Luz das Trevas

A Criação de Adão
O Pecado Original (Se não fosse esta imprudência de Adão não estávamos a sofrer o Cavaco e o Passos Coelho)
Dafne a Sibila Délfica
Prisca a Sibila da Eritreia
Ciméria a Sibila de Cumas
A Sibila Líbia
Sambeta a Sibila Pérsica
2015/02/26
HUMILHAÇÃO
Pisando relva, olhando o cais de partida, a
maré subindo, com as netas pela mão, espiava os seus sorrisos e explicações -
Perguntavam os 8 anos da mais velha: "Oh avô, o que é um furacão?"
Anteciparam-se-me os 4 anos da mais nova, já seguros de sua ciência: "é um
furaco grande!"
Gozava os saberes dos mais novos e os indecisos raios de
sol. Ao longe "nítido, clássico à sua maneira" "um paquete
entrando". Eis que deparo, caído na amurada, cabeça pendida para o Tejo,
um velho, muito
velho, mas ainda forte, vomitava. Tentei socorrê-lo: que se
passa? Que se passa? Respondeu-me quase um eco.« Então não vê ao que isto
chegou!? Este Governo e este Presidente da República? A rendição. estúpida e álacre perante a troica. a
HUMILHAÇÃO? Tenho 875 anos. Já passei por muito mas isto é demais. »
Debrucei-me mais, vi-lhe o rosto, as rugas e as longas barbas, num sobressalto reconheci-o, era PORTUGAL.

Debrucei-me mais, vi-lhe o rosto, as rugas e as longas barbas, num sobressalto reconheci-o, era PORTUGAL.

2015/01/21
Conferências na Alemanha (RDA) em... 1986
Em 1986, era ainda militante e membro do CC do PCP, fui, nessa qualidade, à RDA, a Alemanha socialista, fazer um ciclo de conferências sobre a situação política, social e económica de Portugal. Estas conferências integravam-se no intercâmbio de informações entre o PCP e o PSUA (Partido Socialista Unificado da Alemanha) que governava a RDA.
Este relato sustenta-se apenas na memória pois alguma documentação, intervenções, recortes de notícias saídas na imprensa alemã, estão em arquivo que não tenho aqui, agora, à mão, salvo o livrinho e duas fotografias tiradas na conferência de Berlim e nas quais sou o tipo de barba com gravata.
(Clique nas imagens aumenta-as)
As conferências tiveram lugar nas cidades seguintes: Gera (cidade com cerca de 100 mil habitantes no Estado da Turíngia), Halle, Dresden e Berlin, aqui para jornalistas, da imprensa escrita, rádio e televisão.
A cidade é considerada a capital cultural do seu estado. É o berço do famoso compositor Handel, e, por isso, a cidade dedica-lhe especial atenção através da realização do Festival de Handel, ou do Festival dos Coros das Crianças. Famosas são também a Igreja do Dom, a Livraria de Marienkirche e a Casa da Ópera.
É ainda sede da Universidade Martin-Luther, fundada em 1694, que durante muitos anos foi também o centro principal do Pietismo e do Iluminismo do país
Com a industrialização da Alemanha, no século XIX, a "Leopoldine", a academia dos cientistas mais antiga do mundo, fundada em 1652, contribuiu para a ampliação das Ciências da "Alma Mater" de Halle.
Durante a época da República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), a sua periferia constituiu um importante centro da indústria química. Desde a reunificação, em 1990, a cidade passou a atrair empresas de outros sectores como a indústria de multimédia, alimentícia, entre outras.» ( in site da CM de Coimbra.)
2014/08/27
SUAD AMIRY: é a TERRA, a terra, o chão que pisamos e nos dá vida
É a explicação, mais humana, sensível e
inteligente que já vi sobre a grande tragédia da Palestina. É Suad Amiry. A entrevista é
longa, se não tiver tempo para a ver toda de uma vez veja o resto mais tarde
mas... não perca! Não perca o que há de melhor para se entender a essência da guerra Israel-Palestina, na terra martirizada por três religiões.
É escritora, é
arquiteta, é palestina, é SUAD AMIRY. Tudo com maiúsculas
porque não tenho letras maiores. SUAD AMIRY. Fixe o nome porque se conhecemos
tantos nomes do que há de pior entre nós porque não guardarmos os nomes das e dos
melhores de nós!
2014/07/08
2014/06/27
Umas são de Joan Miró e as outras são da minha neta
Agora sucedeu uma grande complicação. A PARVALOREM sabendo do meu apreço pelas pinturas de Juan Miró facultou-me algumas para uma exposição que organizei aqui no bairro. São da coleção que ajudei a não deixar fugir do país com aquela petição que vocês provavelmente também assinaram. Finda a exposição arrumava os quadros no escritório quando me ausentei uns momentos deixando a guardá-las a minha neta, já uma conceituada artista plástica, a dar os últimos retoques nuns belíssimos quadros seus. Saiu com os pais antes de eu chegar e deixou-me num grande embaraço: misturou as pinturas dela com as do grande Miró.
Tenho que devolver agora as pinturas do grande pintor catalão e não sei quais são as dele e quais são as da minha neta. Na esperança de que algum de vós seja especialista na matéria agradeço que me indiquem quais das 6 pinturas que abaixo vos mostro são de Joan Miró ficando assim eu a saber quais as da minha neta. É que ela, mora longe e como tem só 7 anos e não usa ainda telemóvel não tenho forma rápida de deslindar o melindroso caso. Não queria devolver ao Estado português as pinturas da minha neta no lugar das do Miró porque estou certo ficaria a perder com a troca como daqui a uns anos todos perceberão.
O problema é que se eu as trocar inadvertidamente eles, aqueles rapazes do Governo lá da PARVALOREM que queriam vendê-las a todo o custo para fazer mais uns cobres não vão dar pela troca. E eu trocá-las é que não quero.
Numerando-as, da esquerda para a direita, de 1 a 6 digam-me por favor, aí na caixa de comentários, quais as do grande pintor catalão que assim logo descubro quais são as da minha neta.
Numerando-as, da esquerda para a direita, de 1 a 6 digam-me por favor, aí na caixa de comentários, quais as do grande pintor catalão que assim logo descubro quais são as da minha neta.
2014/06/11
Mário de Carvalho condecorado pelo PR
Desde ontem, 10 de Junho, Dia de Portugal, que o escritor Mário de Carvalho é Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada. É o reconhecimento público, conferido pelo Presidente da República, da obra de um dos mais credenciados escritores contemporâneos de língua portuguesa.
A Ordem Militar de Sant'Iago da Espada é uma ordem honorífica portuguesa que herdou o nome da
Ordem de Santiago extinta em 1834, e que é concedida por mérito literário,
científico e artístico. O seu nome completo é Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de
Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico. Tanta erudição está agora ao
nosso alcance na Wikipedia. De Santiago só sabia que começou por ser o
padroeiro das nossas hostes reais e que em campo aberto os cavaleiros gritavam
Por Santiago e assim lá iam ganhando as batalhas em que tinham superioridade de
forças. Mas depois o fortalecimento da independência do reino era feito a
custas de Castela e as batalhas se não eram com os mouros de mafamede eram com
os nossos vizinhos castelhanos, irmãos em Cristo. Ora eles também gritavam por
Santiago e assim obrigavam o santo a opções difíceis entre cristãos. Nesta
encruzilhada mudámos de padroeiro para S. Jorge, que já o era dos ingleses e nos
ajudavam contra Castela.
Mas o assunto não é este. O
assunto é a condecoração do meu amigo Mário de Carvalho um escritor que sempre leio com o maior prazer.
No meu tempo de estudante terçávamos armas em torno de
muito retóricas polémicas sobre a falsa dicotomia entre a forma e o conteúdo. E
a rapaziada mais alinhada com o comunismo, o antifascismo prevalecente, estava
religiosamente pela absolutização do conteúdo e tinha um ufano desprezo pela
forma. Isto era só para dizer que sem desprezar a importância do conteúdo e
antes de sobre ele concluir em cada romance, conto ou novela do Mário de
Carvalho, vou saboreando, frase a frase, palavra a palavra a sua belíssima escrita.
Lamentavelmente não li todos os seus livros mas a
culpa é dele que escreve livros demais. Tenho mais de uma dezena de livros
seus. Julguei que tinha todos ou quase todos mas afinal não. Estou mesmo muito
longe, segundo me informam aqui já
vai lá para a trintena. Por um lado não me dá tempo para os ler a todos e
depois criar-me-ia um problema do género “dívida soberana”.
Um dos livros que
mais me impressionou foi “Um Deus
Passeando pela Brisa da Tarde “.É também, segundo julgo, o seu livro
mais premiado, nomeadamente com alguns dos mais prestigiados prémios, como o Grande
Prémio de Romance, Conto e Teatro da APE, o prémio do Pen Clube ou o prémio
internacional Pégaso. É também, creio, o mais traduzido, 9 línguas.
Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde «é simultaneamente
um estudo envolvente sobre a conduta moral de um homem e uma reflexão
provocadora sobre a dificuldade de se levar uma vida virtuosa numa era em
constante mudança». Não sou eu que o diz é o The New York Times Book Review.
Aqui há umas semanas atrás convidei o Mário de Carvalho (e ele aceitou)
para funções de grande prestígio, Presidente da Assembleia Geral do Movimento
Cívico Não Apaguem a Memória - NAM! na lista em que
concorremos e ganhámos. Por sorte não havia mais listas a concorrer.
Portanto ficam todos a saber que a partir de agora o NAM conta com um
Grande Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada nos seus corpos
sociais e Mário de Carvalho conta no seu curriculum além de prémios e mais
prémios, condecoração e dezenas de livros e sei lá que mais títulos, a prestigiosa função de Presidente da
AG do NAM.
__________________________
Informação confidencial de última hora cuja fonte não
posso revelar diz que o fanico do Senhor Presidente da República, nas cerimónias
do 10 de Julho, que tanta consternção lavrou por todo o país, não tem nada a ver com a grande vitória do PS nas eleições para
o PE. Está antes relacionado com o caso
da condecoração de Mário de Carvalho. Segredaram-lhe: “Então o Sr. Presidente foi dar uma
condecoraçãozona destas a um escritor de esquerda, que até está contra o nosso
governo?” O Presidente que nunca lera uma linha dos romances, contos ou novelas
do Mário de Carvalho e sabia lá agora por que bandas ideológicas andaria a escrita do
escritor… caiu em si. Ou seja, teve o chilique que se viu.
2014/05/11
Durão Barroso, Paulo Portas, Submarinos. Corrupção. Silêncio
Na Alemanha condenaram os corruptos/corruptores. Em Portugal os corruptos/corrompidos andam por aí impantes e governantes.
O video é sobre a polémica compra por Portugal dos tão falados dois submarinos à Alemanha por 500 milhões de euros cada um e da corrupção a ela associada. Na Alemanha os tribunais condenaram os corruptores alemães dos que em nome do Estado português os compraram com o nosso dinheiro. A decisão foi de Durão Barroso, 1ºM e de Paulo Portas, MDN.
"O vídeo passou na TV pública da Alemanha. São 43 minutos de informação detalhada e bem documentada" e é da autoria do jornalista António Casais
"No
final deixa a informação de uma cláusula contratual que obriga a que a revisão
dos submarinos seja anual, pelo preço de 5 milhões de €, pelo período de 30 anos,
e feita nos estaleiros que construiu o submarino."
Recebi o vídeo e os comentários por mail, de pessoa idónea, de modo que coloco-o aqui antes mesmo de o visionar completamente.
Porque não terá passado em nenhum canal de TV português? Boa pergunta. Mas... Paulo Portas é, para nossa desgraça, outra vez ministro e Barroso anda por aí à procura de emprego, a ver se ganha balanço para Belém, chegada a hora.
2014/05/07
Ana Aranha: Serviço Público na RDP com "NO LIMITE DA DOR"
António
Louçã apresentou o livro de Ana Aranha e Carlos Ademar “NO LIMITE DA DOR - a
tortura nas prisões da pide” e sublinhou como a série de entrevistas radiofónicas que deram origem ao livro e a série que se lhe seguiu "Conversas clandestinas" representam verdadeiro serviço público, uma conquistas do 25 de Abril que é preciso defender.
Foi, hoje, pelas 18:30, no auditório da RTP, em Lisboa.
Foi, hoje, pelas 18:30, no auditório da RTP, em Lisboa.
Na assistência estavam muitos dos ex-presos e torturados pela PIDE/DGS cujos testemunhos Ana Aranha tão bem soube recolher. Estavam, nomeadamente, Pedro Soares, Gina Azevedo, Conceição Matos e Domingos Abrantes, Helena Pato e Edmundo Pedro, único tarrafalista ali presente, firme nos seus 96 anos e que me disse estar a preparar para breve... mais dois livros.
(Um clique amplia as imagens)
Nas duas primeiras imagens Ana Aranha e nas duas seguintes António Louçã, Ana Aranha e Carlos Ademar.
2014/04/27
Francisco Miguel
[um clique nas imagens e elas revelam-se-nos em toda a sua grandeza]
Arrumava papéis quando duas folhinhas me surpreendem.
Era o texto que Francisco Miguel Duarte - Chico Miguel para os amigos - leu num
almoço de homenagem, organizado pelos seus amigos, em janeiro de 1988, pelo seu 80º aniversário e 4 meses antes do seu inesperado falecimento.
A sua
intervenção deixa-nos entrever um pouco do que foi a sua vida e também o homem que ele era.
A seguir a Manuel Rodrigues da Silva o Chico Miguel
foi o português que o fascismo manteve preso mais tempo. 21 anos e 2 meses. É
também um campeão das fugas, a par de Jaime Serra, com4 fugas das cadeias da
ditadura. Uma em Janeiro de 1960 com Cunhal e mais oito companheiros e depois em
Dezembro 1961, com mais 8 camaradas, numa fuga só imaginável em filme de
aventuras, no carro
blindado de Salazar que estava ao serviço da prisão de Caxias.
Chico Miguel estava por Paris quando insistentemente
requereu à direção do PCP em regressar a Portugal clandestino para participar
na organização que desde há alguns anos no meio de grandes dificuldades criadas
por sucessivas prisões, organizava meios humanos e materiais para as ações
armadas e que viria a ser a ARA.
A direção do PCP esteve muito relutante em aceder à pretensão
de FM porque não o queria ver de novo na prisão e o risco não era pequeno.
Assim, em 1968, Francisco Miguel frequenta um curso para as ações armadas, na União
Soviética, com mais alguns voluntários. Era o segundo curso para o efeito pois
o primeiro tinha sido o que eu e Rogério de Carvalho frequentámos em Cuba, de
Janeiro a Abril de 1965.
Conhecera Francisco Miguel no inicio de Janeiro de
1965, em Moscovo, simultaneamente com Álvaro Cunhal quando vieram tomar o
pequeno almoço comigo e Manuel Rodrigues da Silva, no "hotel do
partido" (designação do hotel que acolhia os convidados estrangeiros do
Partido Comunista da União Soviética).
Em Outubro de 1968 Francisco Miguel está em Portugal
e, enquanto não arranja casa sua, está a viver comigo e a Maria Machado, cerca
de mês e meio, num apartamento clandestino que alugáramos na Estrada dos Arneiros
a Benfica, em Lisboa. Esse convívio diário permitiu um melhor conhecimento
mútuo e fortalecer a nossa amizade. Falava-nos da sua vida de luta, do seu
Alentejo, de Baleizão e de Serpa, discutíamos a politica e as ações armadas
futuras que só viriam a ter lugar finalmente, após novos atrasos devidos a prisões,
em Outubro de 1970, já com Jaime Serra na direção do Comando Central da ARA constituído
por ele e nós os dois.
Francisco Miguel levantava-se muito cedo, entre as 6 e
as 7 horas e quando nos levantávamos ele logo nos apresentava várias folhas com
poesias que todos os dias escrevia sentado na cama, papel em cima de um livro,
sobre os joelhos, em folhinhas A5. Ora poesia lírica e de amor (amores
frustrados pela luta e desencontros reais na clandestinidade que sofreu e de
que nos chegou a falar) ora de poesia revolucionária. Recordo-me de lhe dizer
que me parecia melhor conseguida a primeira do que a segunda.
Depois participámos diretamente ou na sua direção, com Jaime
Serra, nas ações armadas da ARA, entre Outubro de 1970 e Agosto de 1972.
Francisco Miguel link para biografia
2014/04/23
Maria Flor Pedroso entrevista 25 heróis do 25
Aqui estão os links para ouvir 2 dos 25 heróis entrevistados. Qualquer destes links levam à página onde se pode aceder a todas as entrevistas.
A jornalista Maria Flor Pedroso entrevista Andrade da Silva, que teve que prender o comandante da sua unidade no 25 de Abril de 1974.
A jornalista Maria Flor Pedroso ouviu Lourenço Gonçalves, que era primeiro-tenente na esquadrilha de submarinos na altura do 25 de Abril de 74
2014/04/15
O Demétrio oferece-nos esta bela música
Apanhei isto no
Facebook. A música cativa-nos e o link remete-nos para Demétrio Antonio
Zacharias. Brasileiro. Na sua página do Facebook diz-nos de si:
|
Crenças religiosas
|
Espiritismo, a promessa de Jesus como terceira revelação.
|
|
Ideologia política
|
Apolitico . A política virou uma máfia um gueto
de previlégios a seus pares.
|
Não importa. A
obra musical vale bem o espiritismo, Jesus, a terceira revelação e o
apolítico. Paciência. Ouçamos a bela obra musical. E agradecemos ao Demétrio.
2014/04/12
ARA - O Corte das telecomunicações
Marcelo Caetano tinha finalmente
conseguido uma importante vitória a NATO que se distanciava (na aparência, é
claro) do regime fascista aceitou realizar a reunião ministerial em Lisboa. Estávamos em 3 de Junho de 1971.
A ARA achou oportuno participar nos
festejos. Para mais com tantas dezenas de jornalistas estrangeiros vindos a
Lisboa.
O plano era cortar todas as telecomunicações,
deixar os jornalistas e agências de comunicação sem poder comunicar com o mundo.
O êxito foi total. O país ficou isolado. O centro das notícias foi, não a
"tão importante" reunião ministerial da NATO, mas o caos comunicacional e a existência de uma “oposição armada”, no caso a ARA.
A alma do "negócio" foi o Jaime
Serra, no Comando Central da ARA e o seu irmão Alberto Serra, técnico na
Central de Correios e Telecomunicações, na Praça D. Luís, em Lisboa, ali junto
ao Mercado da Ribeira e que deu a informação preciosa: indicou o ponto por onde
todas as comunicações passavam.
Lembrei-me de vos falar desta “ação” da ARA não por causa do mais
importante, o grande impacte comunicacional e político que ela teve, mas por causa de um ou
dois episódios picarescos de que vos darei conta a seguir.
O António Pedro Ferreira
transportou-me até ao local. Estacionou fora das vistas do Carlos Coutinho e do
António João Eusébio a quem fui entregar umas vestes de empregados dos correios, uma
pequena cancela em madeira para colocar no passeio junto da
boca de acesso à câmara subterrânea onde dormiam os cabos das telecomunicações internacionais
e afinal também as nacionais, situada por
baixo do passeio da rua que circunda o edifício dos CTT. Queríamos dar ao nosso
“trabalho” um aspeto interno, de trabalho dos Correios. Entreguei-lhes também,
já se vê, a carga explosiva com um sistema de retardamento, um relógio de pulso
adaptado à boa causa que ali nos levava. Eles dirigiram-se para a tampa de ferro no
passeio, já vestidinhos, dispuseram a cancela para que nenhum tresnoitado transeunte
se precipitasse naquela goela de comunicações. Eu e o Alberto Serra ficámos por
perto para o que desse e viesse, à distância que nos pareceu regulamentar de
uns 40 metros, com ar de que não nos conhecíamos, nem nós nem aqueles.
A argola da tampa de ferro, ferrugenta, teimava em não se levantar o Carlos puxava-a
com a ponta do bico de um forte gancho de ferro que o Jaime Serra me
arranjara e a argola, contumaz, não tugia nem mugia. O Carlos considerou que para
grandes males grandes remédios, equilibrou o forte gancho e usou-o como alavanca
com uma resoluta pezada . O forte gancho era, afinal, de ferro forjado e…
partiu-se. Drama. Ação falhada por uma insignificância. Desespero. Avanço
então para eles para os amaldiçoar? Não. Num estado pouco menos que
apocalíptico explicam-me o que estava à vista, o gancho partiu-se! Partiu-se!! Respondi-lhes
com ar calmo, como se tivesse previsto tudo em bola de cristal. Não há problema, vou buscar
outro. Olharam-me com um ar rancoroso, como quem olha para alguém que está a gozar com a desgraça. Dêem uma voltinha por aí e reencontramo-nos dentro
de meia hora. Corri ao Pedro Ferreira ao virar da esquina, fora de olhares e
fui à arrecadação da Rua Maria Pia, a Alcântara, onde tinha um segundo gancho.
Parece mentira? Pois parece. Quando o
Jaime Serra me entregou dois ganchos em vez de um eu observei: para quê dois?
Dois é melhor que um. Nunca se sabe. Respondeu-me. Poderia ter deitado fora um
mas não me parecia bem e guardei os dois. O que se partiu e o gancho salvador.
O João Eusébio tentou a sorte dele e
sem ajuda de calcanhar de bota lá conseguiu levantar a argola e depois a tampa de ferro. Dispôs a
cancela e o Coutinho enfiou-se chão dentro. Enquanto amarrava àqueles
internacionais cabos de telecomunicações o trotil amigo, para nosso desespero aproxima-se
deles, badalando chaves, a despropósito, um guarda noturno. Mau (porra! ou coisa mais apropriada, foi o que, baixinho disse para comigo) Avancei uns passos para o caso de ter
de ajudar à festa. Mas o guarda noturno aproximou-se disse boa noite, companheiro de trabalhadores fora de horas como ele, espreitou para dentro maquinalmente,
badalou o molho de chaves e lá foi à sua vida, de guarda noturno. Respirámos fundo.
E no fim, reposta no seu sítio a pesada tampa de ferro, reencontrámo-nos do outro lado do mercado, não demos efusivos e espalhafatosos abraços, apenas um fraternal, cúmplice e vitorioso aperto de mãos. Para não chamar a atenção de ninguém. Nem mesmo das atentas, gigantes e perplexas árvores do Jardim, olhando os homens cá em baixo, rentes ao chão, há um milhões de anos a deambular pelo inóspito planeta e ainda tão longe da perfeição.
E no fim, reposta no seu sítio a pesada tampa de ferro, reencontrámo-nos do outro lado do mercado, não demos efusivos e espalhafatosos abraços, apenas um fraternal, cúmplice e vitorioso aperto de mãos. Para não chamar a atenção de ninguém. Nem mesmo das atentas, gigantes e perplexas árvores do Jardim, olhando os homens cá em baixo, rentes ao chão, há um milhões de anos a deambular pelo inóspito planeta e ainda tão longe da perfeição.
2014/04/10
Alexandra Lucas Coelho cativou um lugar no coração dos portugueses.
Alexandra Lucas Coelho escritora premiada.
Alexandra Lucas Coelho mulher de coragem.
Alexandra Lucas Coelho alvo de ataque do Sec. Est. da "Cultura".
Alexandra Lucas Coelho cativou um lugar no coração dos portugueses.
____________________________
Perante as
criticas de Alexandra Lucas Coelho a Cavaco Silva e ao governo PSD/CDS-PP, que
acusou de mandar embora os portugueses como se fosse “senhor da casa”, Jorge
Barreto Xavier hostilizou a escritora, afirmando que a mesma deveria “estar
grata por estarmos em democracia” e por poder dizer o que disse e que deveria
agradecer ao governo pelo prémio que estava a receber.
“Referia-se
ele, assim, a um prémio com décadas de existência; atribuído a alguns dos mais
extraordinários escritores de língua portuguesa; cujo montante em dinheiro
resulta de vários patrocínios, sendo que os públicos resultam do dinheiro dos
contribuintes; e que tem atravessado os mais variados governos, sem que nunca,
que me recorde, algum governante o tenha tentado instrumentalizar”, refere
Alexandra Lucas Coelho na sua nota.
“Foi a mais
escancarada confusão de Estado com Governo que já presenciei, para além do tom
chantagista ao nível de jardim de infância das ditaduras. E, apesar dos apupos,
de quem lhe gritava da plateia 'Mentira!' e 'O Estado somos nós!', o SEC
insistia”, sublinha a escritora.O Secretário
de Estado da Cultura declarou ainda que durante anos os portugueses se
endividaram acima das suas possibilidades e que, ao contrário do que Alexandra
Lucas Coelho disse, “ninguém saíra de Portugal por incentivo deste governo”.
No final da
cerimónia, Jorge Barreto Xavier dirigiu-se ainda à escritora, “visivelmente
irritado”, acusando-a de ter sido “primária”.
O
Esquerda.net transcreve, na íntegra, a nota de Alexandra Lucas Coelho,
publicada na sua página de facebook:
“Não há
gravações do que se passou durante a entrega do Grande Prémio de Romance e
Novela da APE, na sala 2 da Fundação Gulbenkian, a 7 de Abril. Havia
jornalistas presentes mas não em trabalho, a tomar notas. Por isso não há forma
de citar “ipsis verbis” o que disse o Secretário de Estado da Cultura (SEC),
Jorge Barreto Xavier. Mas há algumas dezenas de testemunhas que podem
acrescentar ou corrigir o que vou tentar resumir agora aqui, por tudo se ter
passado numa cerimónia pública.
Sendo este
prémio tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, decidiu o actual
presidente, Cavaco Silva, à semelhança de anos anteriores, fazer-se
representar. Neste caso, pelo seu Consultor para Assuntos Culturais, Diogo
Pires Aurélio. Isto era o que eu sabia quando escrevi o discurso para a
ocasião.
Já no átrio
da Gulbenkian, perto da hora marcada, 18h, a APE comunicou-me que a cerimónia
estava um pouco atrasada porque esperavam o Secretário de Estado da Cultura.
Quando
Barreto Xavier chegou e entrámos todos para a sala, o protocolo sentou-o ao
centro da mesa, junto a Diogo Pires Aurélio. Nas pontas, Gulbenkian
(representada por Rui Vieira Nery), APE (José Manuel Mendes, José Correia
Tavares), júri (representado por Isabel Cristina Rodrigues) e eu. Vieira Nery
abriu, sucintamente; seguiram-se discursos da APE; Isabel Cristina Rodrigues
leu o texto em que o júri justifica a atribuição do prémio a "E a Noite
Roda". Diogo Pires Aurélio e eu levantámo-nos para que ele me entregasse o
sobrescrito do prémio, um minuto de formalidade, sem palavras, para a
fotografia. Chegou a minha vez de discursar, li as páginas que trazia. No fim,
houve uma ovação de pé. Digo isto para dar conta da atmosfera que os
representantes do poder político tinham diante de si.
A APE
convidou então o SEC a intervir. Ele escolheu falar sentado, sem se deslocar ao
púlpito. Uma das coisas que disse, na parte, digamos, cultural da intervenção,
foi que eu bem podia declarar que não fazia ficção porque claro que fazia
ficção porque é isso que um escritor faz, ficção. Foi o primeiro arroubo
dirigista, que nos devia ter preparado para o que aí vinha.
Na parte,
digamos, política, destaco quatro coisas: o SEC disse que eu devia estar grata
por estarmos em democracia e eu poder dizer o que dissera; que durante anos os
portugueses se tinham endividado acima das suas possibilidades; que, ao
contrário do que eu dissera, ninguém saíra de Portugal por incentivo deste
governo; e, sobretudo, que eu tinha dito que não devia nada a este governo mas
que isso não era verdade porque este governo também subsidiava o prémio.
Foi a mais
escancarada confusão de Estado com Governo que já presenciei, para além do tom
chantagista ao nível de jardim de infância das ditaduras. E, apesar dos apupos,
de quem lhe gritava da plateia "Mentira!" e "O Estado somos
nós!", o SEC insistia.
Referia-se
ele, assim, a um prémio com décadas de existência; atribuído a alguns dos mais
extraordinários escritores de língua portuguesa; cujo montante em dinheiro
resulta de vários patrocínios, sendo que os públicos resultam do dinheiro dos
contribuintes; e que tem atravessado os mais variados governos, sem que nunca,
que me recorde, algum governante o tenha tentado instrumentalizar. Foi a mais
escancarada confusão de Estado com Governo que já presenciei, para além do tom
chantagista ao nível de jardim de infância das ditaduras. E, apesar dos apupos,
de quem lhe gritava da plateia "Mentira!" e "O Estado somos
nós!", o SEC insistia.
Como cabe ao
Presidente da República, ou seu representante, encerrar a cerimónia, a APE
instou Diogo Pires Aurélio a falar. O representante do Presidente da República
declinou e encerrou a sessão. No fim, cumprimentou cordatamente todos os
presentes na mesa e retirou-se.
Já Barreto
Xavier, aproximou-se de mim na confusão da retirada. Julguei que se vinha
despedir, depois de dizer o que tinha a dizer. Nada disso. Queria dizer-me,
visivelmente irritado, que o que eu fizera tinha sido de um grande
"primarismo". Respondi-lhe que então devia ter dito isso mesmo ao
microfone, que eu já dissera o que tinha a dizer e não lhe ia dizer mais nada.
Fui andando, para contornar a mesa e acabar com a cena, mas o SEC insistia: que
eu tinha sido “primária”.
O
"Público" pediu-me o discurso para publicar online na tarde do dia 8.
Quatro horas depois, 89 mil pessoas tinham lido o texto. Ontem, o post no FB do
"Público" tinha sido visto por 170 mil. Obrigada a todos pela
partilha”.
2014/04/09
Alexandra Lucas Coelho - Prémio da APE
O
Público informa que "Alexandra Lucas Coelho recebeu nesta segunda-feira o prémio APE pelo
romance E a Noite Roda. Este
é o texto do discurso que fez, no qual critica o atual poder político.
Não era
necessária esta surpreendente observação final do Público para ir ler a Alexandra Lucas Coelho, porque gosto da sua escrita. Mas assim, com este acicate, fui lê-la de imediato.
O discurso Já sabia que seria excelente porque leio todas as suas crónicas no
Público de domingo. Leio-a no fim da leitura do jornal, depois de ler as ordens de Berlim para mais austeridade em Portugal, de ler todas as mentiras do
governo, depois de me cansar com a revolta que elas provocam. Então vou ler Alexandra Lucas Coelho para descansar, para saborear a sua cativante escrita. E fico a gostar mais do Brasil daquele Brasil que
quase já conheço por ela o saber tão bem contar.
O que Alexandra Lucas Coelho diz de Cavaco e deste governo que ele
engendrou! E gostei não apenas pela sua opinião sobre estes inimigos do Portugal
renascido em 1974 mas em especial pela sua coragem. Coragem política. E coragem é uma qualidade que sobremaneira admiro. Coragem perante os fortes,
frente aos poderosos, face aos delinquentes perigosos. Para mais ali na
cerimónia. Especialmente ali ao receber o prémio. Vou dar os parabéns à Alexandra
Lucas Coelho não só por escrver tão bem mas por ser, seguramente, uma Mulher de muita coragem.
O discurso completo, a não perder, está aqui no Público . Mas reproduzo aqui uma pequena parte para que ganhem vontade de ler o resto. Alexandra Lucas Coelho:
O meu país não é
deste Presidente, nem deste Governo
Por
Quero agradecer em
primeiro lugar à equipa da Tinta da China, minha casa, Bárbara Bulhosa, Inês
Hugon, Vera Tavares, Madalena Alfaia, Rute Dias, Pedro Serpa.
…
Sempre quis
escrever, desde que me lembro. Os livros tinham todas as vidas. Passei a
adolescência a ler romances. Lia os portugueses, os franceses, os ingleses, os
russos, os alemães, mais tarde os americanos, os japoneses, os levantinos. O
mundo não acabava, eu lia e queria sair pelo mundo. O jornalismo era a
possibilidade disso, uma bela possibilidade quando eu tinha 17 anos e as rádios
piratas explodiam, ainda nem havia TSF, nem PÚBLICO, nem telemóveis, nem
computadores pessoais. A minha geração viveu essa promessa de aventura no
trabalho, que hoje parece arqueológica.
....
Estou
a voltar a Portugal 40 anos depois do 25 de Abril, do fim da guerra infame, do
ridículo império. Já é mau um governo achar que o país é seu, quanto mais que
os países dos outros são seus. Todos os impérios são ridículos na medida em que
a ilusão de dominar outro é sempre ridícula, antes de se tornar
progressivamente criminosa.
Entre
as razões por que quis morar no Brasil houve isso: querer experimentar a
herança do colonialismo português depois de ter passado tantos anos a cobrir as
heranças do colonialismo dos outros, otomanos, ingleses, franceses, espanhóis
ou russos.
E volto para morar
no Alentejo, com a alegria de daqui a nada serem os 40 anos da mais bela
revolução do meu século XX, e de o Alentejo ter sido uma espécie de terra em
transe dessa revolução, impossível como todas.
Este prémio é
tradicionalmente entregue pelo Presidente da República, cargo agora ocupado por
um político, Cavaco Silva, que há 30 anos representa tudo o que associo mais ao
salazarismo do que ao 25 de Abril, a começar por essa vil tristeza dos
obedientes que dentro de si recalcam um império perdido.
E fogem ao
cara-cara, mantêm-se pela calada. Nada estranho, pois, que este Presidente se
faça representar na entrega de um prémio literário. Este mundo não é do seu
reino. Estamos no mesmo país, mas o meu país não é o seu país. No país que
tenho na cabeça não se anda com a cabeça entre as orelhas, “e cá vamos indo, se
deus quiser”.
Não sou crente,
portanto acho que depende de nós mais do que irmos indo, sempre acima das
nossas possibilidades para o tecto ficar mais alto em vez de mais baixo. Para
claustrofobia já nos basta estarmos vivos, sermos seres para a morte, que
somos, que somos.
Partimos então do
zero, sabendo que chegaremos a zero, e pelo meio tudo é ganho, porque só a
perda é certa.
O meu país não é do
orgulhosamente só. Não sei o que seja amar a pátria. Sei que amar Portugal é
voltar do mundo e descer ao Alentejo, com o prazer de poder estar ali porque se
quer. Amar Portugal é estar em Portugal porque se quer. Poder estar em Portugal
apesar de o Governo nos mandar embora. Contrariar quem nos manda embora como se
fosse senhor da casa.
Eu gostava de dizer
ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é
seu, nem do Governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista
Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram
chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o Governo
de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em
ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este Governo rebentou com tudo o que fora
construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total
anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles
grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé
de página”.
Este país é dos
bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou
trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais
bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos
leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar
que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.
Eu estava no
Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu Governo
disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o
mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não
temos alternativa.
Este país é de
todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a
morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os,
estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela
relação Portugal-Brasil do que qualquer discurso oco dos políticos que neste
momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do
ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso,
contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.
Este país é do
Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a
levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros,
uma tonelada, para um 11.º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e
depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este
país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual Presidente da
República.
E é de quem faz
arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou
os braços quando o Governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal.
Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no
Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser
o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores,
artistas sem dinheiro para pagarem dívidas à Segurança Social, luz, água, renda
de casa. E tanta gente esquecida. E, ainda assim, de cada vez que eu chegava,
Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e
baixos.
Não devo nada ao
Governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui
Horta, que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa, que fez a
editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e
entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.
Os actuais
governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho
deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm
a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é
compromisso.
Portugal
talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para
acabar, sabemos. Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes.
Este romance também
é sobre Gaza. Quando me falam no terrorismo palestiniano confundindo tudo,
Al-Qaeda e Resistência pela nossa casa, pela terra dos nossos antepassados,
pelo direito a estarmos vivos, eu pergunto o que faria se tivesse filhos e
vivesse em 40km por seis a dez de largura, e antes de mim os meus antecedentes,
e depois mim os meus filhos, sem fim à vista. Partilhei com os meus amigos em
Gaza bombardeamentos, faltas de água, de luz, de provisões, os pesadelos das
meninas à noite. Depois de eu partir a vida deles continuou. E continua
enquanto aqui estamos. Mais um dia roubado à morte.
Subscrever:
Mensagens (Atom)













.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.bmp)









