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2018/03/25

Raimundo Narciso em entrevista ao Jornal I - 2014-04-09 - Clandestinidade, 25 /NOV, MFA

No grupo "Fascismo Nunca Mais" obra da Helena Pato que tem granjeado os mais encomiásticos elogios e até apelos a condecoração! apareceu há dois dias /2018-03-23) um artigo que remete para uma entrevista que dei ao Jornal I, em 9 Abril de 2014.
A entrevista suscitou alguma curiosidade aos visitantes do Facebook mas entretanto o link não leva a lado nenhum porque a entrevista deixou de estar on line. Para remediar tão grande prejuízo ofereço-vo-la aqui - homem prevenido vale por dois - pois guardei-a numa das prateleiras do meu computador.
Ei-la:
___________________

Raimundo Narciso. "Estive no lado certo da barricada no 25 de Novembro"

Por Nuno Ramos de Almeida
publicado em 9 Abr 2014 - 12:49


Controlou homens armados. Teve uma vida saída de um filme de aventuras. Passados 40 anos continua a acreditar na Revolução de Abril

Foi um dos grandes responsáveis da ARA, organização armada ligada ao PCP. Viveu o 25 de Novembro no sector militar dos comunistas. Foi expulso deste partido depois do golpe de Estado contra Gorbatchev. Hoje, reafirma que voltaria a estar no lado dos derrotados do 25 de Novembro.

O PCP sabia do 25 de Abril antes dele ter acontecido?
Sabia seguramente, não sei se conhecia os pormenores operacionais, mas havia um sector do PCP chamado "sector militar" que tinha contactos com oficiais que estavam ligados ao Movimento das Forças Armadas.
E na altura estava no sector militar
A ARA tinha cessado as acções em Maio de 1973, eu estava num interregno. Não estava ainda no sector militar, havia algumas pessoas que, estavam ligadas à ARA, tinham contacto directo com pessoas ligadas ao movimento dos capitães. Lembro--me de um, o Jorge Trigo de Sousa, com o qual fiz uma aposta, ele disse-me: "Na próxima semana os militares vão sair e tomar conta disto, não vai ser como as Caldas da Rainha". Mas eu, depois do fracasso das Caldas da Rainha, não estava muito optimista. Fiz uma aposta com desejo de perder, apostamos um almoço e eu perdi, mas ele, tendo em conta os salários de miséria dos funcionários do PCP, achou melhor pagar o almoço que foi com pompa e circunstância na Churrasqueira do Campo Grande.
Quando se dá o 25 de Abril, mantém-se na casa? Há alguma orientação?
Só voltei a ter contacto com o PCP, em concreto com o Jaime Serra, uma semana mais tarde. Ainda que com cautelas, saímos logo. Assisti à libertação dos presos em Caxias. E comecei a sair e a contactar as pessoas, achando que as coisas iam no bom caminho.
Passou na altura para o sector militar?
Sim, já tinha lá estado antes, quando estava na universidade e fui chamado a cumprir o serviço militar obrigatório.
Já em plena guerra colonial?
Sim, e a minha militância no PCP dividiu-se entre o sector universitário, no Técnico e Ciências, e no sector militar. Era aliás aí que estava organizado quando me foi dado, juntamente com o Rogério de Carvalho, a missão de fazer o levantamento de meios para a ARA.
O PCP tinha como orientação que os seus quadros deviam fazer o serviço militar obrigatório e não desertar, essa orientação era cumprida?
Acho que maioritariamente sim, mas havia excepções, eu conheci vários militantes que tendo tido a oportunidade de fugir ou emigrar, o fizeram. Nomeadamente algumas pessoas ligadas à ARA. De qualquer modo, cheguei a ter ecos do trabalho no terreno de alguns militantes do PCP que seguiram para a guerra com essa orientação. Recordo-me de relatos de companhias comandadas por oficiais milicianos a quem tinham dado determinado objectivo e que andavam às voltas com as viaturas para justificar a quilometragem, mas que evitavam o confronto com os guerrilheiros.
Qual era a resposta de um militante do PCP numa situação de combate com a guerrilha? Não havia um dilema?
As indicações que nos davam era que em guerra e aos tiros, tínhamos de nos defender, não se trata de dar o corpo às balas. Procurávamos era evitar essas situações conforme a capacidade e inteligência de cada um.
Acha que essa orientação pode ter contribuído para ajudar o 25 de Abril?
Não digo que seja responsabilidade exclusiva do PCP, mas a influência das lutas populares, e as lutas estudantis, que levavam à tropa elementos muito politizados que entravam em contacto com os oficiais do quadro permanente foram factores muito importantes de esclarecimento político.
Sai da tropa, vai imediatamente para a ARA, ou regressa às movimentações estudantis?
Parti para a clandestinidade, no Sud-Express no fim de 64. Tinha terminado a tropa em Dezembro de 1963. Nesse interregno, de perto de um ano, eu estava no Técnico, mas mesmo durante esse período eu continuei a ter trabalho com os militares e estava organizado no sector militar. Aliás, foi seguramente isso que me poupou à grande vaga de prisões da Pide no sector estudantil, visto que aqueles que foram presos e falaram não me conheciam como militante.
Como foi essa passagem para a clandestinidade, de comboio?
Tinha tido um convite insistente para passar à clandestinidade dois anos antes. Na altura recusei. Mas passados dois anos, as minhas responsabilidades no PCP aumentaram, e eu, como boa parte dos militantes do sector estudantil, defendíamos a necessidade de acções armadas, e depois parecia-me ser uma quebra de coerência defender essas acções e depois achar que deviam ser feitas por outros.
Foi a Paris para se encontrar com Álvaro Cunhal?
Não, fui a Paris para apanhar um comboio para Genebra e daí fui para Zurique, de onde segui de avião para Praga e depois para Moscovo. Só aí encontrei Álvaro Cunhal. Não foi necessária apresentação, já tinha ideia de como ele era, a sua figura carismática mostrava imediatamente quem estava diante nós. Conheci-o nesse momento, juntamente com o campeão das prisões políticas portuguesas, o Manuel Rodrigues da Silva que passou 23 anos na cadeia.
O que é que sentiu nesse duplo encontro com Moscovo e Cunhal?
Ele era uma pessoa bastante cativante. O primeiro encontro foi informal, a reunião de trabalho foi marcada para dois dias depois, no denominado "hotel do partido", sítio em que o PCUS [Partido Comunista da União Soviética] alojava dirigentes e convidados de partidos comunistas estrangeiros. Essa primeira reunião com Cunhal serviu para ele nos dar o seu ponto de vista do que deviam ser as acções especiais. Trocámos opiniões. Ele procurou conhecer o que já havia. Nós já tínhamos feito algum trabalho de aquisição de armas e montagem de infra-estruturas. Estivemos menos de 15 dias em Moscovo e depois seguimos para Cuba, onde estava previsto ministrarem-nos formação militar. Tanto eu como o Rogério já tínhamos tido treino militar, o mais importante para mim, e suponho que para ele, foi termos visitado toda a ilha num Cadillac americano descapotável.
Não havia por parte do PCP uma certa desconfiança na formação dos cubanos, eles não tinham tendência a querer influenciar ideologicamente os seus formandos?
Não me foi dado nenhum sinal nesse sentido. Mas de facto isso aconteceu com uma segunda leva de quadros formados em Cuba, destinados à ARA, que não chegaram ao campo de batalha.
E o que aconteceu a estes?
Não sei em pormenor o que se passou. Sei que eles eram todos quadros que viviam exilados. Depois, não sei se por influência dos cubanos, o certo é que, regressados a Paris, desinteressaram-se do regresso a Portugal. Tirando um, de nome Cruzeiro, que vinha para Portugal já não ligado ao PCP e foi apanhado num bar em Madrid com uma pistola de guerra no bolso, coisa que não era propriamente o procedimento dos militantes do PCP.
Voltaram a mandar militantes para Cuba?
Houve um terceiro grupo que se preparou mas já na União Soviética. Esse grupo integrava, entre outros, o Francisco Miguel, que apesar de ter passado 22 anos nas cadeias insistia com a direcção do PCP para regressar à clandestinidade e participar em acções armadas. Esses vieram e mantiveram-se até ao fim. Quando escrevi o meu livro [sobre a ARA] falei com todos, e mostrei-lhes o que escrevi. Houve alguns que pediram para não figurar.
Falou com Jaime Serra?
Falei com o Serra, não directamente, para lhe pedir uma fotografia e poder mostrar-lhe o texto sobre ele no livro. Mas ele não só não deu a fotografia como não quis ver os textos. Tudo o que vem sobre ele é de minha exclusiva responsabilidade, mas como tudo o que lá digo é elogioso e corresponde à realidade não creio que ele estivesse em desacordo.
Mas chegou a falar com ele depois de ter saído do PCP?
Não.
Tinha uma relação muito próxima com ele?
No XV Congresso do PCP no Porto, tempos antes da minha expulsão do partido, recordo-me que tinha pedido para intervir no congresso e, como não me davam a palavra, ameacei que ou me davam a palavra ou falava para as televisões que mo tinham pedido; nessa altura o Serra teve uma longa conversa comigo nos bastidores do congresso, bastante amigável e interessante, contando-me o seu percurso e as divergências que tinha tido e dizendo-me que era importante, apesar das diferenças de opinião, não cortar as amarras com o partido.
Conhecendo hoje como correu a Perestroika, teria a mesma posição de apoio a esse processo?
Depois de sabermos o que aconteceu revemos as nossas opiniões, mas em cada momento apenas podemos contar com aquilo que aconteceu e não com o que poderá vir a suceder. O grupo que se tornou dissidente do PCP teve parte da sua fundamentação crítica na Perestroika. Esse processo vinha confirmar um conjunto de dúvidas que tínhamos sobre o que se passava na União Soviética, e sobre o seu afastamento dos ideais comunistas.
Este movimento de dissidência tem bastantes pessoas no sector militar e no sector de informação e segurança?
Nós estávamos obrigados, por uma orientação a que aderimos voluntariamente, a transmitir a orientação da direcção do PCP. Eu, aos muitos militares com quem falava, nunca dei a entender sequer que havia divergências. Para muitos foi surpresa a minha saída. Alguns aproveitaram esse pretexto para se afastarem do PCP, alguns provavelmente com receio que esses contactos pudessem comprometer a sua carreira profissional.
Vocês foram expulsos do PCP e, no entanto, eram depositários de segredos do partido, como é que faziam essa gestão? Nunca foram abordados para que revelassem essas informações?
Havia um compromisso com a direcção do PCP e com os militares que a sua situação não devia ser conhecida, acho que é meu dever manter esta reserva. Nunca dei qualquer informação sobre quem é que tinha, ou não, ligações com o PCP.
No livro da Zita Seabra ela acusa-o de lhe ter colocado escutas em casa.
(risos) É uma infame mentira de uma mentirosa. Ela sabe que eu nunca fui a casa dela. Não entendo por que razão o meu nome aparece ali. Quando soube que ela tinha publicado que eu ter-lhe-ia posto escutas em casa, telefonei-lhe para a Assembleia da República, era ela deputada do PSD. Falei-lhe ao telefone e disse-lhe: "Dizes no teu livro que eu fui a tua casa, ora eu nunca lá fui, como sabes". E ela respondeu-me atrapalhada: "Disseram-me que tinhas lá estado". "Mas tu não estavas lá?", perguntei eu. "Sim, mas fiz confusão". Ela ficou na primeira oportunidade de desmentir isso. Depois, interpelada no "Correio da Manhã" sobre o meu desmentido, ela diz com um ar muito empertigado: "não tenho nada a alterar". Deixei de ter por ela um mínimo de consideração.
Mas houve alguma ida a casa dela ou de outras pessoas?
Aquilo que me contaram, posteriormente, foi que o Domingos Abrantes lhe pediu se ela autorizava que fossem a casa dela com um aparelho para detectar escutas, porque receavam que ela pudesse estar a ser espiada. Ela esteve de acordo, e foi com o acordo dela que foram três ou quatro pessoas do PCP, ligadas aos serviços de defesa do partido. Um deles, ligado aos sectores dissidentes, confidenciou- -me recentemente: "Nós fizemos uma vistoria superficial, achámos que aquilo não tinha pés nem cabeça".
Voltando à ARA, demoraram cinco anos a fazer a primeira acção. Porquê?
É verdade, de 1965 a 1970, houve muitas peripécias. A primeira foi a prisão do Rogério de Carvalho que dirigia a instalação da ARA comigo. As prisões tinham sido muito elevadas na zona de Lisboa e a direcção do PCP propôs-me que fosse frequentar um curso do Konsomol em Moscovo para dar tempo a reconstituir as condições para o trabalho conspirativo. Com a chegada do Jaime Serra deu--se um grande impulso, era uma pessoa muito influente na direcção do partido, membro da sua comissão executiva.
A primeira acção conseguida é a sabotagem do paquete Cunene?
Sim, em que insiste em participar o Gabriel Pedro, já com 70 anos, mas que tinha muita experiência do Tejo, e conhecia bem o porto de Lisboa. "Raptou" uma chata a remos e ele e o Carlos Coutinho com as cargas explosivas, confrontam-se com uma situação inesperada: junto ao Vera Cruz, que era o objectivo da acção, estava a Guarda Marítima. Eles adaptaram-se e descobriram um outro alvo: o mais moderno navio de transportes da frota portuguesa, o Cunene, curiosamente construído nos estaleiros Lenine em Gdansk . Os jornais até deram uma grande cobertura às explosões. Durante muito tempo a Pide não sabia o que era aquilo. Só cerca de três ou quatro meses depois, na sequência da acção de Tancos, é que eles começam a ligar a ARA ao PCP.
Como é que Tancos lhes dá essa pista?
As principais acções, Tancos e os ataques à Nato, têm atrás de si elementos de informação que são decisivos. Esta informação era muitas vezes canalizada pelo PCP e não pela pequena organização da ARA. No caso de Tancos é o Jaime Serra que nos põe em contacto com um piloto de helicópteros da base, o Ângelo de Sousa. Na conversa que tivemos com ele, disse--nos: "A gente podia obter as chaves do hangar dos aviões e sabotá-los", "como obter a chaves?", pergunto-lhe eu. "Muito simples, é que lá toda a gente vai roubar gasolina ao hangar". E assim foi, ele trouxe a chaves num fim-de-semana e nós fizemos um molde em sabão. Foi uma acção que exigiu muita coragem do comando que lá foi.
A acção de Tancos é uma acção marcante, vocês destroem grande parte dos meios da Força Aérea Portuguesa
Destruímos toda a frota de instrução de pilotos para as guerra coloniais. Eram cerca de 30 aeronaves. Foram usadas 20 cargas explosivas, mais uma série delas incendiárias, ligadas por uma rede eléctrica. A acção decorre assim: o Carlos Coutinho vai fardado de alferes da Força Aérea, leva o Ângelo de Sousa, que era furriel naquela base, e, no banco de trás do carro, mascarado de cabo da Força Aérea, o António João Eusébio. Cumprimentam o sargento que está na porta de armas, dizendo: "Vou aqui com uns amigos da base da Ota ao bar". Estacionam perto do hangar. Entram e fazem toda a colocação das cargas explosivas às escuras.
Qual é o momento em que vocês percebem que têm cerco montado por parte da Pide?
Quando é preso um funcionário, membro do Comité Central, Lindolfo. Passados alguns meses chega-nos a informação, via partido, que ele podia conhecer alguns dos operacionais, nomeadamente o Carlos Coutinho, Ramiro Morgado e Manuel Policarpo. Porque eram pessoas que estavam na organização dele e foi-lhe exigida a sua transferência. Tanto eu como o Francisco Miguel começámos a avisar esses camaradas de que deviam fugir. Mas deixarem a sua vida era muito complicado e eles subestimaram esse perigo.
Em que circunstâncias se dá o atentado ao Lindolfo [o antigo militante do PCP tinha passado a colaborar com a Pide e é metralhado e sobrevive]?
Há quem afirme, como a Pide, que foi o PCP. E até a ARA. Não tenho nenhuma opinião sobre isso. Suponho aliás que outros atentados que são apontados ao PCP sejam do conhecimento, para além do executante, de mais uma outra pessoa que tenha o poder de decidir. Há quem diga que foi a Pide, mas não me inclino para isso, porque ele estava a colaborar com a polícia política.
Onde é que estava no 25 de Novembro?
(risos) Naturalmente no âmago dos acontecimentos. Em todo esse processo o meu trabalho era estar com os oficiais do quadro permanente do MFA, procurando, não só dar-lhes a conhecer as orientações do PCP, como atraí-los para esses ideais. Tentava-se conseguir que eles se identificassem com o partido ou também neutralizar a sua hostilidade.
Chegou a falar com Jaime Neves?
Cheguei a almoçar ao mesmo tempo que o Jaime Neves, no Regimento de Comandos, quando lá estive. Os comandos têm essa particularidade, o comandante e os oficiais não almoçam numa messe separada dos soldados. Eu fui lá almoçar com um oficial, o qual não me lembro exactamente do nome. Não cheguei a falar com o Jaime Neves.
Se o PCP tivesse querido, os comandos não teriam saído no 25 de Novembro?
Há um conjunto de ideias completamente disparatadas...
Mas havia militares do PCP nos comandos, eu pelo menos lembro-me do filho de um dirigente histórico do partido...
Durante todos esses momentos eu contactei, perto do regimento, com muitas dessas pessoas. Alguns dos elementos próximos do PCP nem sempre actuavam da melhor maneira. Mas eu li recentemente afirmações da historiadora Raquel Varela, que garante que o PCP colaborou no 25 de Novembro com o PS e a direita na eliminação dos militares de esquerda do MFA. Isso não tem nenhum fundamento e são completamente absurdas. Estive quase para acrescentar uma informação: certamente o Álvaro Cunhal no Verão anterior, para preparar o 25 de Novembro, mandou incendiar as sedes do PCP pelo país fora. O PCP, no 25 de Novembro, fez tudo o que estava o seu alcance no sentido de defender a revolução e as suas conquistas, mas naturalmente que frequentes actividades aventureiras de alguns sectores militares ajudaram o trabalho da parte contrária.
Mas o PCP não fez, no 25 de Novembro, com que os fuzileiros não saíssem?
Não é verdade. Com a saída dos comandos havia uma força operacional capaz de se opor com vantagem numérica e operacional que eram os fuzileiros. Mas os fuzileiros na altura disseram: "Nós somos uma tropa especial e só saímos se saírem todos e saímos de acordo com a linha de comando e se não for assim não saímos". Não estou a dizer que o PCP quisesse que eles saíssem e eles recusaram. O que houve foi um levantamento durante todo o dia das possibilidades do que se poderia ou não accionar. O problema não se resolveria com a confrontação militar. Se os fuzileiros saíssem podiam vencer os comandos, mas o país estava muito dividido. A parte do país favorável à revolução era minoritária. Poder-se-ia ganhar alguma batalha, mas o que estava no horizonte era uma derrota. Finalmente, o PCP não comandava militares. Aqueles que eram mais próximos ideologicamente tinham as suas linhas de comando, havia o Otelo e os gonçalvistas, mas eles não iam à Soeiro Pereira Gomes [sede do PCP] perguntar o que deviam fazer.
A esta distância como lê o 25 de Novembro?
Tive a oportunidade de dizer isto várias vezes: o 25 de Novembro foi o resultado de uma sucessiva confrontação de forças dos dois sectores. A saída dos paraquedistas para tomar bases aéreas foi feita perante a ameaça que a Força Aérea pudesse bombardear as forças de esquerda, mas quando saíram não tinham nem plano, nem forças preparadas para suster uma reacção. A esquerda não estava preparada para a execução de um golpe ao contrário da direita militar.
Olhando para trás, esteve no lado certo no 25 de Novembro?
Eu disse uma coisa que criou um grande escândalo na sede do PCP: "No 25 de Novembro eu e o PCP fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para o triunfo das forças revolucionárias, mas tenho impressão que se calhar foi melhor assim. Se ganhássemos aquela batalha, talvez perdêssemos a guerra com mortos e feridos".
Se voltasse atrás, com o PS do outro lado, estaria no mesmo campo?
Sem dúvida que estaria do campo da revolução. Joguei sempre do lado certo. Acho que tive a posição certa no 25 de Novembro.

2005/11/27

O 25 de Novembro de 1975


Entrevista conduzida por José Manuel Barroso, publicada no DN de 26 de Novembro de 1995,

***
 
Diário de NotíciasO 25 de Novembro foi um conjunto de sublevações miIitares coincidentes ou uma tentativa articulada para mudar a composição dos órgãos do poder a favor da esquerda militar e do PC?
 
Raimundo Narciso – O 25 de Novembro foi o momento em que a esquerda revolucionária, no plano militar, respondeu à última «provocação» do campo oposto com uma parada demasiado alta e que com espanto e desespero, verificou a seguir não estar em situação de sustentar.
Essa parada demasiado alta foi a ocupação das bases e do comando da Força Aérea, por parte dos pára-quedistas de Tancos, na madrugada de 25 de Novembro. Com essa medida os pára-quedistas respondiam à provocação do chefe do Eslado-Maior da Força Aérea, Morais e Silva, que actuando de acordo com o Grupo dos Nove e o de militares mais à direita, seus aliados, ordenara a sua extinção.
Com esta medida, os «páras», a esquerda militar (EM) e a esquerda revolucionária em geral, não pretendiam desencadear a «mãe de todas as batalhas». Pretendiam «apenas» ganhar a importante batalha da substituição de Morais e Silva, no EMFA e no Conselho da Revolução, e se possível, na passada, conseguir a inversão do processo de constante perda de posições nos órgãos do poder político-militar, que ocorria desde a Assembleia do MFA de Tancos, em 6 de Setembro. E não era pouco. Para isso julgavam que podiam contar com Otelo e que conseguiriam, para o efeito, ganhar o Presidente da República, Costa Gomes, para o seu lado.
 
DN – E a força dos «páras» era suficiente?
 
RN - Para sustentar esta subida da parada não bastava que o Ralis e a EPAM accionassem, como o fizeram, o seu dispositivo de defesa (ou ataque?) era necessário que os fuzileiros com a sua formidável força de 12 companhias operacionais entrassem na dança. Não entraram, como se sabe.
As forças militares que se opunham ao projecto do PCP e ao prosseguimento do processo revolucionário, lideradas pelo sector moderado do MFA, os "Nove", conseguiram, neste contexto, a adesão do Presidente Costa Gomes para o seu plano e assim dispor do importante factor legalidade traduzido no controlo da cadeia de comando militar oficial.
Reunidas estas condições, os "Nove", onde pontificavam Vasco Lourenço e Melo Antunes mas também figurava Canto e Castro, juntamente com os seus aliados, desencadearam a ofensiva para a qual há um certo tempo se vinham preparando. Este agrupamento de forças militares, que não respondia só, nem principalmente, à linha de comando oficial que tinha Vasco Lourenço logo abaixo do PR, desferiu um golpe decisivo que pôs fim à revolução e minou de caminho o poder do próprio sector moderado do MFA, os "Nove".
 
DN - Mas os «páras» saíram às ordens do PCP, da esquerda militar, ou por sua própria iniciativa?
 
RN — Sobre o assunto dos pára-quedistas podia-lhe dar uma excelente «caixa» porque, acompanhei ou participei em todos os acontecimentos decisivos da revolução, incluindo este — acontecimentos que, por vezes, mudavam a situação hora a hora ou minuto a minuto. Mas mesmo se vinte anos depois, é tempo para disponibilizar todos os elementos aos historiadores não quero desvendar alguns segredos que não são só meus.
 
DN – A Direcção do PCP e os militares seus aliados acharam que era necessário avançar, para uma acção de força, nesse momento, para evitar que fosse submergida mais tarde por um golpe de direita?
 
RN — Acharam que era necessário fazer qualquer coisa para inverter a crescente perda de posições políticas e militares institucionais. Tinham perdido o Governo, tinham perdido quase toda a força de que dispunham no Conselho da Revolução. Até o incerto mas importante Otelo, comandante do Copcon, tinha sido neutralizado e substituído por Vasco Lourenço no comando da Região Militar de Lisboa, dois dias antes do 25 de Novembro, pelas forças adversárias. Estou convencido que a saída dos pára-quedistas não foi uma acção que fizesse parte de um plano de operações político-militar amadurecido. Tal como o campo contrário, a ala do MFA próxima do PCP estava a organizar-se para uma eventual futura confrontação militar mas não tinha ainda um comando, sistema de forças e dispositivo consistentes.
 
DN— A influência do PCP nos quartéis da área de Lisboa era suficiente para determinar o avanço ou recuo de um processo militar como o do 25 de Novembro? Passava-se o mesmo com os pára-quedistas de Tancos?
 
RN — É uma pergunta a dirigir ao PCP. Como observador posso concluir que essa influência em 25 de Novembro, foi a que se viu. Tanto em Lisboa como em Tancos. Em minha opinião, a influência do PCP, medida pelo número de militares do quadro permanente que lhe eram afectos ou próximos era muito pequena no 25 de Abril mas cresceu sempre até, ao 25 de Novembro.
Já entre, os milicianos, o PCP tinha, em 25 de Abril de 1974, uma grande influência. O papel dos oficiais milicianos na preparação e eclosão do 25 de Abril e em toda a revolução, cuja história está por fazer, foi importante. Pela, sua influência ideológica junto dos oficiais do QP e como seus auxiliares no comando de tropas. Os oficiais milicianos também tiveram um importante papel na derrota do 11 de Março e, posteriormente, nas assembleias e outras estruturas do MFA.

«Uma derrota relativa»

DN— Em termos políticos, o saldo do 25 de Novembro foi uma vitória ou uma derrota do PC e da esquerda militar?

RN – O 25 de Novembro foi uma derrota para o PCP e para a esquerda militar. Em todo o caso, foi apenas uma derrota relativa — devido ao papel moderador de Costa Gomes, Melo Antunes, Vasco Lourenço e, nalguma medida, de Ramalho Eanes, também.
Foi uma derrota porque o 25 de Novembro impediu o prosseguimento da revolução no sentido do projecto de sociedade do PCP e que, à parte as particularidades nacionais, era na essência, igual ao da sociedade comunista de Leste. Derrota por que afastou o PCP do Governo e de um modo geral dos órgãos do poder de Estado, porque impediu a estabilização de conquistas da revolução já adquiridas, tais como a Reforma Agrária, as nacionalizações, etc.
Para o PCP, o 25 de Novembro também pode ser considerado uma vitória no sentido em que uma pessoa que parte uma perna tem imensa sorte por não ter partido as duas.
Assim, o 25 de Novembro representa uma vitória parcial porque o PCP não foi ilegalizado e pôde viver em democracia, numa democracia que, como se sabe, o comunismo nunca facultou aos seus adversários.

DN — No Verão de 75, tendo a esquerda revolucionária sofrido grandes derrotas, porque avança o PCP para a agudização das lutas sociais e militares?

RN — O PCP tentou com a agudização de todo o tipo de lutas, fomentando umas, dando cobertura ou não se demarcando de outras, compensar o seu crescente isolamento político, social e militar e conduzir a revolução por aí fora. Caso República, cerco da Assembleia da República, manifestação dos SUV (Soldados Unidos Venceremos!).
É necessário, para compreender a situação, não esquecer a rede bombista e a vaga de assaltos às sedes do PCP, do MDP de sindicatos e outras organizações de esquerda, no Verão quente, desencadeada pela extrema-direita. A 13 de Julho é assaltada e destruída a sede do PCP e da FSP em Rio Maior, a 16 assaltada a sede da Batalha, a 17 a do Cadaval, a 18 a da Lourinhã e assim até ao 25 de Novembro e depois.

DN — Tendo a revolução entrado em derrapagem e o PCP em perda de posições não deveria antes moderar a sua acção e aproximar-se do PS e do sector moderado do MFA?

RN — Uma particularidade do comunismo português na revolução do 25 de Abril, foi o PCP, muito cedo, pensar que podia dispensar o PS, na sua política de alianças. Para tanto utilizou a fórmula Aliança Povo-MFA em que o povo estaria suficientemente representado pelo PCP e o MDP ou, no Verão quente, em estado de desespero, também pelas outras organizações da FUR. Pareceu ao PCP que a aliança com a base social representada pelo PS poderia ser assegurada através do sector moderado do MFA complementada pela Intersindical.
O PCP reconhece, no plano teórico, no Verão de 75, a urgente necessidade de lutar pela unidade do MFA e de evitar a radicalização da luta que isole o PCP. É esse o resultado do debate havido na reunião do Comité Central em Alhandra, a 10 de Agosto, um dia depois da publicação do Documento dos Nove. Também o discurso de Vasco Gonçalves, em Almada, a l8 de Agosto, é apreciado de modo negativo. O PCP esperava desta intervenção uma tentativa de aproximação aos "Nove" e o que saiu foi radicalização.
Curiosamente a par desta análise teórica a intervenção prática do PCP não vai no sentido de travar a radicalização das lutas, umas por si organizadas, outras pelos sectores da esquerda mais radical, outras espontâneas.
 
A «unidade de pensamento»

DN — Houve no PCP uma luta entre moderados e radicais face ao ritmo do processo revolucionário? Muitos militares, então próximos do partido, e alguns ex-militantes dizem ter ela existido.

RN — Que eu conheça não. Havia — e provavelmente continua a haver — dirigentes mais radicais e outros mais moderados. Isso acontece em todas as formações partidárias, mesmo que não seja reconhecido. Mas a liderança incontestável de Álvaro Cunhal não dava abertura para um debate que pudesse pôr em causa a sua orientação – e em risco a tão desejada «unidade de pensamento».

DN — Que representa a FUR no contexto do Verão quente de 1975?

RN — A necessidade de ocultar o crescente isolamento político do PCP resultante da crescente radicalização da sua acção política.

DN — O comportamento do PCP teve por objectivo um regime de matriz soviética ou democrática do tipo ocidental?

RN — Logo a seguir ao 25 de Abril e até ao auto-afastamento de Spínola, a preocupação fundamental do PCP era a consolidação do regime democrático do tipo ocidental. Depois do 11 de Março o PCP orientou a sua luta para as conhecidas «grandes conquistas da revolução».
No entanto, em momento nenhum, o PCP esquecia que o objectivo último da luta era o socialismo. Isso mesmo fazia questão de constantemente lembrar, internamente, aos militantes. Havia a fase da revolução democrática e nacional e a fase da revolução socialista. Mas a passagem de uma a outra fase não era tanto um questão de meses ou anos mas de relação de forças.

DN — Até que ponto PCP acompanha as movimentações da área militar?


RN — Não só acompanha como intervém, no sentido de influenciar os acontecimentos militares. Os próprios acontecimentos militares do 25 de Novembro não aparecem como um acto isolado, mas de sucessivas acções da esquerda militar, dos “Nove” e da direita — no sentido de cada um ganhar posições, para o seu lado. E havia o claro entendimento de um provável choque militar.

DN – Pode dizer-se haver uma clara aliança entre a esquerda militar e o PCP?

RN – Pode dizer-se, com clareza, que a esquerda militar foi-se constituindo como a expressão da influência militar do PCP no MFA.

DN — Havia, portanto um relacionamento constante, entre a direcção do PCP e a da esquerda militar?

RN – A esquerda militar era o sector do MFA que estava mais próximo do projecto político do PCP e o que melhor podia defender as suas posições no plano político-militar.

DN – Otelo foi uma cartada mal jogada, no 25 de Novembro?

RN—Foi uma cartada que não foi possível controlar, apesar de haver esperanças e esforços no sentido de o aliar à esquerda militar. Como se sabe, houve um período em que dirigentes do PCP se deslocaram com alguma regularidade ao Copcon para troca de opiniões políticas — e que não tinham outro objectivo que não fosse poder aproximar Otelo da posição do PCP, com vista a uma unidade entre o sector do Copcon e a esquerda militar.

DN — Quando foi compreendido por parte do PCP, que essa unidade não era possível?

RN — O 25 de Novembro comprovou, definitivamente, que o PCP não podia contar com Otelo Saraiva de Carvalho.

DN – O PCP tinha uma significativa influência, entre os graduados do corpo de pára-quedistas de Tancos?

RN – Tinha, sobretudo, uma grande influência entre os sargentos «páras». Foram públicas várias sessões de esclarecimento para sargentos da Força Aérea — que incluía, em especial, sargentos pára-quedistas – num cinema da região.

DN — Seria normal que militantes do PCP, sobretudo sendo militares, tomassem decisões de grande importância, no campo da acção, sem aviso ou consulta ao partido?

RN — Não era normal — mas, por vezes, sucedia.

DN—E no caso da saída dos «páras» de Tancos?

RN — O partido teve informação da movimentação dos «páras», ante destes terem saído.

DN — O «trabalho militar» do PCP constituía uma área de actuação privilegiada?

RN — A actividade e a atenção do PCP às Forças Armadas é uma orientação muito antiga. Seria de uma grande irresponsabilidade e negaria a natureza revolucionária do PCP se, numa revolução como a do 25 de Abril, não prestasse a maior das atenções aos militares.

DN— Quando, logo a seguir ao 25 de Abril, António Spínola não consegue um apoio claro dos militares do MFA, no final do plenário da Manutenção Militar (que precedeu a crise Palma Carlos) que análise fez o PCP?

RN — Considerou ser urgente a coordenadora do MFA se auto-institucionalizar e traduzir assim no plano institucional, o seu papel de verdadeiro autor do 25 de Abril.
Sabia-se que o «imparável» movimento popular antifascista, liderado pelo PCP não deixaria de influir muito o MFA, ou parte dele, no sentido da revolução.

O PCP e as eleições

DN — Houve debate Interno e divergências, no PC, sobre a realização de eleições para a Constituinte?

RN — A realização de eleições livres era um dos principais pontos do programa do PCP na clandestinidade — estávamos no fascismo, não no comunismo! Após o 25 de Abril, as eleições para a Constituinte era um objectivo a conquistar tanto mais importante quanto Spínola preferia um referendo que lhe conferisse poderes mais ou menos ditatoriais. Num encontro, em que participei, de uma delegação do PCP com elementos do MFA, suponho que em 1974, foi informalmente colocada a questão. Vasco Gonçalves que estava presente, respondeu que a data era um compromisso inalienável do MFA. Mais tarde, e em especial após o 11 de Março, surgiram dúvidas sobre a bondade de tal acto, a tão curto prazo. Mas foi assunto discutido à puridade.
No PCP, os resultados eleitorais das primeiras eleições livres, em 25 de Abril de 1975, eram aguardados ora com receio, porque comunismo e eleições eram coisas que nunca ligaram bem, ora com esperança. Neste caso, assente nos comícios sempre maiores do que os de qualquer outro partido, nas sondagens obtidas pelos camaradas em conversas de autocarro — ou, até, porque a gratidão do povo, de cuja representação julgávamos ter monopólio, não nos faltaria nesse momento.
As primeiras eleições, ao darem 12,5 por cento dos votos ao PCP e quase 38 por cento ao PS, revelaram um quadro de opções dos Portugueses completamente diferente do que era dado pelas mobilizações populares e foram um factor decisivo para a derrota a prazo do projecto do PCP.