2009/05/09

No Tarrafal Simpósio com tarrafalistas de Portugal, Cabo Verde, Angola e Guiné Bissau

Nota: A seguir às imagens,  está a intervenção neste simpósio de Raimundo Narciso, em representação do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória - NAM onde se encontra informação, obtida nomeadamente no arquivo nacional da Torre do Tombo, sobre os dois Tarrafais: o 1º como campo de concentração de presos políticos portugueses, de 1936 a 1954 e o 2º dos presos políticos dos movimentos de libertação de Angola, Guiné e Cabo Verde, de 1961 a 1974)

Imagens do antigo campo de concentração do Tarrafal (CCT), criado pelo regime fascista-colonialista de Salazar, na Ilha de Santiago em Cabo Verde, obtidas durante o Simpósio Internacional sobre o CC T (28 de Abril a 1 de Maio de 2009). Na origem deste simpósio está o Movimento Não Apaguem a Memória através dos denodados esforços de um dos seus  mais jovens "activistas" (então com 91 anos) o "tarrafalista" Edmundo Pedro, que passou 9 anos ali preso. Entre os prisioneiro estava também ali o seu pai, Gabriel Pedro, outro indómito lutador antifascista. 
O Simpósio foi promovido pela Fundação Amílcar Cabral com o patrocínio do Presidente da República de Cabo Verde, Comandante Pedro Pires, e a colaboração do NAM, da Fundação Mário Soares e outras fundações e associações de Angola e Guiné.








Estiveram presentes no simpósio várias dezenas de ex-presos políticos de Cabo Verde, da Guiné e de Angola (presos na "2ª vida" do CC T, de 1961 a 1974, só para presos políticos das ex-colónias portuguesas) e um de Portugal, Edmundo Pedro, um dos dois sobreviventes da "1ª vida" do Campo de Concentração do Tarrafal, só para presos políticos portugueses de 1936 a 1954.






Participaram o ministro da Cultura e o da Educação de Cabo Verde, a ministra da Cultura de Angola, o ministro da Cultura da Guiné. O Simpósio foi aberto com uma intervenção do 1ºM de CV e encerrado com um discurso de Pedro Pires, Presidente da República de CV. Esteve presente também a embaixadora de Portugal em Cabo Verde.
Notada a ausência de qualquer ministro português. Já em Portugal procurei saber porquê. O Governo não recebeu nenhum convite. O convite foi feito pelo PR de Cabo Verde ao PR Português .

O Governo português tinha participado, aliás, no financiamento da recuperação do campo do Tarrafal através da Secretaria de Estado da Cooperação. Houve falha de comunicação ou a falta de percepção de que PR e Governo português sendo órgãos distintos e de famílias políticas distintas podem ter dificuldades de comunicação...
 


O Presidente da República de Cabo Verde, Pedro Pires.

Participaram no Simpósio ex-presos políticos tarrafalistas que vieram a exercer ou exercem altas funções no Estado ou são representantes da intelectualidade (Poetas, escritores, professores universitários) de Cabo Verde, Guiné Bissau ou Angola.


O Poeta Mário Fonseca (Cabo Verde), o Embaixador Manuel Pacavira (Angola), jovem do protocolo do Simpósio.


Luandino Vieira, à direita


De frente Álvaro Dantas Tavares representante da Presidência da República de CV na organização do Simpósio. De Costas Alfredo Caldeira da Fundação Mário Soares.




Domingos Abrantes, (PCP) Aurélio Santos (PCP), Irene Pimentel historiadora, Raimundo Narciso presid Direção do Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória"- NAM e Raquel Bagulho





     Irene Pimentel historiadora e Fernanda Paraíso arquitecta activistas do NAM

     Raimundo Narciso


Por Portugal participaram, Mário Soares, em representação da sua Fundação que foi, aliás, responsável pela exposição do Simpósio organizada por Alfredo Caldeira, Edmundo Pedro, 9 anos preso no Tarrafal, o historiador e deputado Fernando Rosas, a historiadora Irene Pimentel, a jornalista (e membro da direcção do NAM) Diana Andringa,  Raimundo Narciso, do Movimentpo Não Apaguem a Memória!-NAM (que laboriosamente e com muitas lacunas vai colocando a notícia neste blog ), o presidente da URAP Aurélio Santos, o representante do PCP, Domingos Abrantes, e outros colaboradores da FMS e do NAM.



O ex-presidente da República de Portugal Dr. Mário Soares


Raimundo Narciso em representação do NAM, vendo-se na mesa a Ministra da Cultura de Angola.



O historiador Fernando Rosas.

No fim do Simpósio foi organizada uma visita ao cemitério, em homenagem aos ex-terrafalistas mortos no CCT. Raimundo Narciso e Aurélio Santos representaram Portugal colocando uma coroa de flores e pronunciando uma breve alocoção.


O Governo de Cabo Verde vai consagrar o CCT património Nacional de Cabo Verde mas pretende que seja também reconhecido como Património da Humanidade.
Do documento de conclusões do Simpósio (encontra-se na íntegra assim como algumas intervenções no Simpósio no post acima sob a forma de livro) transcrevo as seguintes recomendações:
·
Destapar e colocar em espaço de memória os outros “Tarrafais” espalhados pelo mundo, e em particular nos países integrantes da CPLP, tais como Ilha das Galinhas, na Guiné-Bissau, Campos de S. Nicolau, Missonbo e Colónia Penal do Bié, em Angola, Machava, em Moçambique, Vikeke e Ataúro, em Timor-Leste, e Tarrafal de S. Nicolau, em Cabo Verde;
· Manifestar o seu repúdio pela crescente utilização de campos de concentração e de tortura em conflitos recentes;
· Legislação apropriada e multinacional (Portugal, Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau) para garantir o carácter perene da importância do Campo de Concentração do Tarrafal, para que o seu destino não dependa das vicissitudes e vontades circunstanciais dos respectivos governos;
· Assegurar a integridade das instalações de Campo, tal como se encontravam no momento da sua libertação;

. Que o Campo se torne um espaço de memória de todos aqueles que aqui sofreram, fazendo dele um espaço memorial da conquista da Liberdade;

· Que seja criado, dentro do Campo de Concentração do Tarrafal, um Museu da Resistência e da Liberdade;
· Que se crie dentro do Campo um Centro Internacional de pesquisa da Luta pelas Independências;
· Criar no espaço envolvente do Campo, áreas dedicadas às Crianças e à Juventude para que elas possam apreender melhor a História;
· Criar nos terrenos adjacentes ao Campo valências capazes de assegurar a sustentabilidade do Campo;
· Inserir nos compêndios escolares mais matérias sobre a História e as Lutas de Libertação Nacional dos nossos países;
· O Simpósio apela aos governos de Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau e Portugal para que assegurem os encargos de edificação e manutenção do Campo de Concentração do Tarrafal como Memorial da Luta comum dos nossos povos.
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Abaixo mais fotografias do CCT preparado para o Simpósio. Ter em conta que o actual CCT é o de 1961-1974, que fez adaptações ao que vigorou até 1954. Assim por exemplo a célebre câmara de tortura "frigideira" desapareceu. As suas funções passaram a ser executadas noutra construção a que os africanos chamaram "Holandinha". Porquê tal nome? Porque havia muitos emigrantes na Holanda e a ida para o cela do castigo, uma "emigração" para o sofrimento.


 .


                                                                             Celas


 

 






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SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE O CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DO TARRAFAL
28 de Abril a 1 de Maio de 2009
Tarrafal - Cabo Verde
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Intervenção de Raimundo Narciso presidente da direcção do Movimento Não Apaguem a Memória (Portugal)

1 – O Campo de Concentração do Tarrafal no imaginário
      dos antifascistas portugueses.

O Campo de Concentração do Tarrafal ganhou no imaginário dos que em Portugal lutavam contra o regime fascista um lugar à parte como símbolo da pior repressão da ditadura que dominou o nosso país durante meio século.
Em Portugal tínhamos o forte de Peniche, o forte de Caxias, o Aljube, e sobretudo a sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso em Lisboa como locais da repressão e da tortura a que dificilmente escapavam os que em Portugal mais se destacavam na luta por uma vida melhor, pela liberdade e pela democracia.
Mas a todos esses locais se sobrepunha, na imaginação dos antifascistas, como centro do horror, o campo de concentração do Tarrafal. E esse lugar longínquo agigantava-se pela distância, que adensa o desconhecido, pelas notícias da exposição à insalubridade, à doença, à humilhação, ao sadismo de quem controlava a vida e a morte dos presos políticos.
Hoje estou aqui, onde se situava essa prisão, num simpósio internacional com o alto patrocínio do Senhor Presidente da República da República de Cabo Verde, num território que conquistou a independência com a luta do seu povo apesar deste e de outros Tarrafais. Estou aqui pela primeira vez, a conhecer a bela ilha de Santiago, a observar a acolhedora vila do Tarrafal a refazer as ideias feitas sobre esta parte de África, terra no meio de tanto mar, a comprovar que todas as terras, são boas ou más conforme o uso que delas os homens fazem. 
2- Os Primeiros testemunhos
Conheci o Tarrafal, pelas imagens que dele me deram, dois antigos prisioneiros para mim muito especiais. O primeiro testemunho foi-me dado por Francisco Miguel.Encontrava-me em 1968 a viver na clandestinidade, como quadro do PCP, escondido no anonimato da grande cidade de Lisboa, quando recebi na casa clandestina que alugara, Francisco Miguel membro do Comité Central do PCP, que aos 60 não se resignou a viver na emigração e insistiu em regressar clandestinamente a Portugal para lutar contra a ditadura fascista, e em lutar na organização que estávamos a criar para a realização de acções armadas e que veio a ser a Acção revolucionária Armada – ARA (1) . Francisco Miguel já tinha passado mais de 21 anos preso, nove dos quais no Tarrafal. De Junho de 1940 a Janeiro de 1946 e de Janeiro de 1951 a Janeiro de 1954.
Enquanto não alugou uma casa apropriada para viver com identidade falsa viveu comigo e a minha mulher cerca de um mês, esta foi a oportunidade para me falar da sua vida de luta, das suas quatro fugas da prisão em Portugal a última das quais no célebre automóvel blindado de Salazar, oferecido pela Alemanha nazi, e que passara a fazer parte dos veículos da prisão do Forte de Caxias, para me falar dos seu martírio no campo de concentração do Tarrafal, da tortura que era a “frigideira” e de tudo o que hoje é bem conhecido e tornava a vida neste campo uma morte em vida. Era um homem de rara coragem e espartano na sua vida pessoal. Teve a singularidade de ser o último preso político português a deixar o Tarrafal. Por aqui viveu ainda seis meses sozinho no limitado território do campo até à sua partida para Lisboa. Foi a minha primeira informação dada por quem viveu o Tarrafal por dentro e que está ilustrada nos seus dois livros de memórias (2).
Outra fonte indirecta do meu conhecimento da vida no campo do Tarrafal foi Edmundo Pedro aqui presente a participar neste simpósio já com a bonita idade de 90 anos e que foi um dos estreantes do Campo, em 29 de Setembro de 1936. De entre tantos jovens aqui sacrificados ele era o mais jovem deles, com 17 anos, e com a singularidade de aqui estar preso com o seu pai, Gabriel Pedro, também ele homem de indómita coragem. Dos seus relatos e da leitura empolgante do seu livro “Memórias. Um combate pela Liberdade”(3) fica-se com um retrato vivo do que foi a vida, o sofrimento, a coragem, a tenacidade na luta pelas grandes causas da esmagadora maioria dos presos que souberam resistir com dignidade exemplar às mais brutais tentativas morais e físicas para os vergarem aos ditames do fascismo.
Ele falará aqui bem melhor que eu dessa experiência de luta e do heroísmo dos que aqui souberam resistir, por isso apenas evocarei a memória do seu pai Gabriel Pedro outro dos estreantes deste campo prisão. Gabriel Pedro é outro exemplo de inaudita coragem, e determinação na luta contra o regime do “Estado Novo”. Participou com o filho e outros prisioneiros numa tentativa de fuga do campo que, como as outras, não teve sucesso. Conheci-o em 1970 num encontro clandestino numa noite de Outubro de 1970 junto ao Porto de Lisboa para um reconhecimento que nos permitisse executar daí a dias com outros companheiros, a primeira acção armada da ARA, a sabotagem do navio Cunene o mais moderno da frota mercante portuguesa de então, dedicado à logística das guerras coloniais. Gabriel Pedro estava então a viver com a mulher e a filha em Paris, depois de uma vida de luta e prisões, toda ela um calvário de sofrimentos. Mas a sua determinação em combater o inimigo de sempre levou-o a pedir para participar na primeira acção armada da ARA, em que teve, aliás, uma participação decisiva, tanto mais de admirar porquanto se tratava de um homem que já tinha 70 anos de idade.
3- O contexto Histórico da Abertura do Campo de Concentração do Tarrafal
A criação do campo de concentração do Tarrafal surge num contexto histórico de Portugal que remonta a 1926, ao golpe militar de 28 de Maio, que pôs fim à 1ª República portuguesa, iniciada em 1910 e que impôs uma ditadura que viria a dominar Portugal durante quase meio século. O ditador Salazar era um admirador do fascismo de Mussolini e apoiante de Hitler. Era no entanto um fascista sui-generis. Ex-seminarista muito ligado à Igreja era um académico rural, de mentalidade retrógrada, mais dado à violência mortificante sim mas dissimulada, até porque noutro contexto, do que aos brutais morticínios de Hitler ou às atléticas demonstrações de terror do Duce italiano. A onda fascista na Europa deu asas ao regime de Salazar e em 1936 o golpe militar de Franco que a breve trecho, com o apoio de Mussolini e Hitler venceu e pôs fim à República em Espanha, deu novo alento e arrogância ao fascismo de sacristia de Salazar que colaborou activamente nas chacinas dos franquistas espanhóis não apenas durante a guerra civil mas depois na perseguição e entrega a Franco de espanhóis que tinham procurado refugio em Portugal.

O regime saído do golpe militar de 28 de Maio de 1926 não se consolidou pacificamente e sofreu sucessivos sobressaltos o maior dos quais terá sido o protagonizado pelo General Sousa Dias (4). Ele é o chefe da revolta de 3 de Fevereiro de 1927 no Porto e volta a ser o chefe da revolta da Ilha da Madeira em 1931, com os seus prolongamentos nos Açores e na Guiné.
À fase das revoltas republicanas e militares – o reviralho - seguem-se ainda ameaças vindas dos sectores operários anarco-sindicalistas e comunistas como é o caso da tentativa de greve geral e levantamento armado de 18 de Janeiro de 1934 com particular incidência entre os operários vidreiros da Marinha Grande. Depois é a vez de grandes movimentações e greves operárias nos anos 40 dirigidas pelo PCP.
Preocupado com a resistência interna ao auto denominado Estado Novo e sentindo as costas quentes com o fascismo em maré alta na Europa a ditadura portuguesa engrossa a repressão e decide-se pela criação do campo de concentração na Achada Grande do Tarrafal. Não foi único, outros campos prisionais foram criados em Angola e Moçambique. Aliás a prática do desterro para as colónias não era nova. Aqui mesmo em Cabo Verde morrera desterrado o já referido General Sousa Dias, em 1932 em S. Vicente (4). O Campo do Tarrafal vinha na linha dos campos de concentração hitlerianos ainda que, é claro, não se possam estabelecer comparações do Tarrafal com os campos de extermínio nazis.
4 - O Campo de Concentração do Tarrafal de 1936 a 1954
O Presídio de Chão Bom do Tarrafal foi inaugurado em 29 de Outubro de 1936 com a chegada de 152 presos políticos. As suas profissões e origem social, dão uma importante indicação das camadas da população que mais enfrentam o regime e concitam a sua sanha persecutória.

A maioria dos presos políticos que inauguram o presídio são muito jovens e entre eles estão 51 marinheiros da revolta de 8 de Setembro de 1936 dos navios Dão, Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias, e 57 operários da tentativa de greve geral de 18 de Janeiro de 1934 contra a legislação de controlo dos sindicatos que o chamado “Estado Novo” então publicara (5). Predominam os operários, estão dirigentes políticos comunistas, anarquistas, quadros revolucionários do movimento sindical. Entre eles estão alguns dos principais ou futuros dirigentes políticos da esquerda revolucionária. Bento Gonçalves secretário-geral do PCP, Mário Castelhano dirigente anarco-sindicalista, Júlio Fogaça, Pedro Soares quadros comunistas, Edmundo Pedro e Sérgio Vilarigues, quadros da juventude comunista.
Um conjunto de documentos do dossiê da PIDE que consultei no arquivo nacional da Torre do Tombo (6) oferece-nos um retrato eloquente a vários títulos dos presos políticos existentes neste campo no ano de 1939 e que anexarei a esta intervenção. Faculta a identidade de todos os presos, profissões, idades, indicação dos que morreram nesse ano, situação jurídico/prisional, revela-nos o movimento impressionante dos presos doentes, dos dias de castigo infringidos a cada um na tristemente célebre “frigideira”. Num desses documentos de arquivo, um relatório da sub-delegação da PIDE de Cabo Verde para a delegação de Angola e a sede em Lisboa fica-se a saber que no início de 1939 existiam no Campo 187 presos, que a eles juntaram-se durante esse ano mais 27, um saiu e outro faleceu, Fernando Alcobia.  No fim de 1939 existiam no campo 212 presos. Eu acrescentaria 212 vivos e 11 mortos, tantos eram os que aqui faleceram desde a abertura  do campo 2 anos antes. De facto no campo do Tarrafal o 1º ano de vida foi o maior ano de morte. Em 1937 morreram, melhor seria dizer, foram mortos, com violência física e psicológica e falta de assistência médica sete presos do total de 32 que viriam a morrer neste campo, os dois últimos dos quais em 1948.
Da totalidade dos presos existentes em 1939, 53% são proletários, 23 % são trabalhadores dos serviços, 20% são marinheiros, 3% são estudantes 1 é oficial das forças armadas e 1 é advogado.
Não podemos extrapolar estas percentagens para a totalidade dos presos políticos nas prisões portuguesas no fim dos anos 30 nem esta amostragem pode retratar com fidelidade o envolvimento de outras camadas da população na resistência ao regime, mas em todo o caso estes números são eloquentes sobre quem se abatia a pior repressão e sobre quem naturalmente mais lutava contra o poder em Portugal. Se 212 eram os presos em 1939 a totalidade dos portugueses que passaram pelo campo do Tarrafal chegou aos 340.
Para o fim do regime a composição social das camadas em luta contra ele altera-se bastante. Nos anos 60 e até 1974 apesar de a participação peso e determinação de luta do proletariado industrial e agrícola ser incontornável aumenta muito o peso dos estudantes, de intelectuais, de camadas média da população. Um factor novo e decisivo para a queda mais rápida do regime é a guerra colonial. Se a luta dos portugueses e entre eles uma parte dos militares contra as guerras coloniais ajuda os movimentos de libertação das colónias a acelerar a sua vitória a luta dos povos de Cabo Verde e Guiné Bissau, de Angola e Moçambique, pela sua independência teve a maior importância para acelerar a queda do regime português.
Este campo de Chão Bom no Tarrafal, ao irmanar na repressão portugueses e africanos das ex-colónias portuguesas foi aliás o exemplo paradigmático de que a luta de uns era também a luta dos outros.
O exame à situação jurídico-criminal dos presos do Tarrafal no ano de 1939 é também reveladora de como o Estado Novo não se poupava a fazer leis que dessem uma imagem de legalidade à ditadura. Vejamos o que se passava com a situação dos presos em 1939 através de um relatório do arquivo da PIDE na Torre do Tombo.
Dos 212 presos do presídio do Tarrafal 124 encontravam-se em cumprimento de pena mas 34 já a tinham cumprido. Entre eles estão já conhecidos ou futuros dirigentes comunistas como Alberto Araújo, Júlio Fogaça, Militão Ribeiro, Sérgio Vilarigues, Américo de Sousa. 29 presos não tinham sido julgados como era o caso de Edmundo Pedro inscrito neste rol, e 20 estavam presos sem julgamento nem processo. Havia ainda 3 presos com processo no Tribunal Militar Especial e 2 com processo pendente.
Neste inventário geral de 1939 ficamos ainda a saber que para dirigir e guardar o Campo e os presos Lisboa colocara aqui um director o capitão João da Silva, o terceiro director desde o início do campo, e que para aqui bem executar as ordens de Salazar tinha feito um estágio na Alemanha nazi. O director tinha um adjunto, também capitão e a seguir na hierarquia surgia um médico o célebre Esmeraldo Prata que os presos consideravam mais assassino que médico.
Na estrutura seguia-se o chefe dos guardas Henrique Sá Seichas e 17 guardas. O restante pessoal era constituído por um enfermeiro, um motorista, um lampianista, uma profissão que a electricidade fez desaparecer e um servente.
Além desta estrutura interna de 25 elementos havia ainda nas proximidades da colónia penal o quartel da 1º companhia indígena de Infantaria Expedicionária de Angola sob o comando do capitão Numa Pompílio Correia com funções de guarda e vigilância dos presos.
Presos sem julgamento, sem processo, ou com a pena cumprida são bem o exemplo de como as leis apesar de feitas à medida da conveniência dos próceres do Estado Novo eram normas que o Governo e a PIDE cumpriam ou não cumpriam conforme as conveniências. 

5 - O Campo de Concentração de 1961 a 1974
No já referido arquivo da PIDE e também no de Oliveira Salazar estão abertos ao público muitas centenas de documentos sobre o Tarrafal quer relativos ao primeiro quer ao segundo período da sua existência. A reabertura do campo é feita pela portaria nº 18.539, assinada pelo ministro do Ultramar, Adriano Moreira e publicada no Diário do Governo com a data de 17 de Junho de 1961 cujo primeiro ponto diz:

“É instituído em Chão Bom um campo de trabalho”. 
Nela se refere que “o pessoal necessário ao funcionamento do campo deverá ser recrutado em regime de comissão entre os servidores da província de Angola que suportará todos os encargos.”

Como curiosidade registe-se que o Ministro que metia num campo de concentração os seus adversários políticos pôde usufruir no regime democrático português da oportunidade de ter uma carreira política e chegar a ser deputado.A guarda aos presos nesta segunda vida do Campo do Chão Bom ficará a cargo de um pelotão de infantaria do comando de um tenente, com 3 sargentos e 26 praças aquartelado no Tarrafal. Não menos interessante é o ofício do Director da PIDE da “província” de Angola ao Inspector da PIDE em Cabo Verde um mês depois. Nele se recomenda que “de futuro o presídio que foi criado no Tarrafal, deve ser sempre designado pelo seu nome oficial que conforme a portaria nº 18.539 de 17 de Junho findo [ 1961, portanto] é “Campo de Trabalho de Chão Bom”.
Mas a máquina burocrática padece de algumas desafinações. O Governador Geral de Angola, General Deslandes, com os carimbos de confidencial e urgente interpela o Ministro do Ultramar Adriano Moreira. Refere que 50 cidadãos (brancos e mestiços) detidos à ordem da PIDE em Luanda vão ser “removidos” para Chão Bom em Cabo Verde - sem prévio julgamento ou simples formação de culpa – e faz o reparo de que “são actos que  salvo melhor opinião, não têm apoio legal.”
Receia o Governador de Angola, no mesmo ofício, que o julgamento necessário para respeitar a lei deveria ser em Lisboa pois receia as consequências do julgamento em Luanda e tendo em conta a situação económica e social de alguns teme ainda que a “removê-los” para Chão Bom em situação ilegal eles possam recorrer ao habeas corpus.
Três anos depois um ofício da delegação da Pide de Angola, de 22 de Abril de 1964, para o director em Lisboa tratando da inconveniência da transferência de presos da Guiné para Chão Bom em Cabo Verde dá colateralmente a informação de que no campo de prisioneiros do Cubango em Angola se encontram 874 presos. Número impressionante e revelador das centenas e milhares de presos espalhados por diferentes campos e por todas as colónias portuguesas para reprimir os movimentos de libertação das colónias.
Grande parte desta correspondência entre delegações da PIDE e entre a PIDE e o director do Campo de Chão Bom ocupa-se da censura à correspondência entre os presos e suas famílias, ao desvio dessa imprensa, a tentativas para impedirem visitas de família a presos que não dão sinais de arrependimento e consideram “completamente irrecuperáveis”, do desvio de livros e até de dinheiro enviado aos presos.
Em 3 de Dezembro de 1968 o director da prisão de Chão Bom, Eduardo Vieira Fontes, comunica ao chefe da subdelegação da PIDE de Cabo Verde que lhe vai “remeter os livros e discos que vieram endereçados ao recluso José Vieira Mateus da Graça, (o escritor Luandino Vieira) e foram interceptados devido ao seu conteúdo de carácter político-subversivo.”
E que livros e discos eram esses que poderiam atentar contra o novo rumo que a PIDE queria impor ao espírito de Luandino Vieira? Era a Praça da Canção de Manuel Alegre, “ O sentido e a forma da Poesia Neo-realista” de Eduardo Lourenço e o disco de Adriano Correia de Oliveira “Trova do vento que passa”. (7)
Luandino Vieira, aliás, ocupa longamente a atenção do director do campo e da PIDE que sonega e espia a sua correspondência nomeadamente com o seu advogado em Lisboa, Joaquim Pires de Lima.
Os anos 70 ocupam importante parte deste lote de documentos do arquivo da PIDE.  Assim a 14 de Maio de 1970 um relatório do director da prisão do Tarrafal informa que por despacho do ministro do Ultramar foram para aqui enviados mais 14 angolanos com penas de 6 a 10 anos. Entre eles estão Aldemiro da Conceição, Alcino de Carvalho Borges, Alberto Correia Neto, Justino Pinto de Andrade, Vicente Pinto de Andrade, Eduardo Santana Valentim, Gilberto Saraiva de Carvalho, Jaime Gaspar Cohen.
Muita desta documentação revela a permanente pressão psicológica sobre os presos, os constantes arbítrios e prepotências a que são submetidos. 
Em Agosto de 1970 o director da prisão de Chão Bom e a PIDE procuram a melhor maneira, sem dar muito nas vistas para o exterior, de impedir que a mãe de Eduardo Santana Valentim visitasse o filho aqui condenado a 10 anos de prisão apesar de a senhora já estar em Cabo Verde depois de uma longa viagem de Luanda para Lisboa e de Lisboa para aqui. E porque querem recusar a visita? Porque, e passo a citar:
“o preso tem espírito orgulhoso e irreverente sobre o qual se terá de exercer a nossa acção de esclarecimento” e “o isolamento da família e o exercício de uma apertada censura em que se inclui a interdição de noticiário e leitura de temas políticos, subversivos e sociais - reivindicativos têm sido óptimos meios de recuperação social dos internados.”
Dizer isto aqui, hoje, é absolutamente risível mas há 39 anos estas mesquinhas e odiosas considerações eram verdadeiras sentenças sobre a vida dos presos que aqui estavam por lutarem pela liberdade dos seus países. 
6 – O dever de preservação da Memória
A consciência da necessidade de preservação da Memória das lutas travadas contra o fascismo e contra o colonialismo é um tema actual em Portugal mas também na Europa e, como este simpósio bem comprova, na República de Cabo Verde. Importa sublinhar que aqui a tomada de consciência dessa importância leva ao empenhamento das autoridades, do próprio Presidente da República e do Governo o que não é frequente suceder noutros países.
Em Portugal, como noutras latitudes, a defesa da preservação da Memória com os objectivos que aqui nos reúnem, confronta outras correntes de opinião. Umas não negam essa importância mas não a valorizam suficientemente. Outras correntes de opinião, estão contra a defesa desse património histórico e cívico. Tais correntes já se vê, têm como principais defensores, ou quem tenha cadastro neste tipo de crimes, ou sectores que se identificam no fundo com as ideologias que conduziram a tais tragédias e que em nova oportunidade estariam prontas para soluções da mesma natureza como aliás se viu recentemente na Guerra do Iraque, nas práticas de Guantânamo ou Abhu Graib para citar só os locais mais conhecidos.
O Movimento Não Apaguem Memória sustenta ter grande importância cívica e política a defesa desta memória que no caso Português passa pela preservação de locais tão emblemáticos como por exemplo o da Sede da PIDE/DGS em Lisboa, a antiga cadeia do Aljube, os fortes-prisão de Peniche e Caxias, com soluções adequadas e naturalmente diferentes.
Que valores estão em causa afinal neste debate que atravessa Portugal, a Europa e a América Latina e também certamente Cabo Verde. Pois o da defesa da Liberdade, dos direitos humanos, da justiça, da solidariedade. Em Portugal os que defendem a preservação da memória, e não apenas em palavras mas em actos, querem fortalecer a consciência dos portugueses com as lições do passado para que não possa regressar, ainda que sob novas formas e disfarces, o triunfo das ideias que almejam, à custa da liberdade e da dignidade humana, uma repartição da riqueza que dê a poucos uma vida de escandalosa opulência e à esmagadora maioria a pobreza, a insegurança e o desespero. 
7 – O Movimento Não Apaguem a Memória

O Movimento Não Apaguem a Memória surgiu há 4 anos em protesto contra a transformação da sede da PIDE em Lisboa num condomínio privado de luxo sem que o Estado português tivesse tido a preocupação de intervir no sentido da preservação da memória do local.
A nossa associação tem como razão de ser a preservação da memória da luta da resistência à ditadura fascista, e o colonialismo e pela liberdade e procura cooperar  com quem tenha os mesmos objectivosPretendemos que os principais símbolos da opressão e da luta contra ela sejam condigna e adequadamente preservados. Procuramos, de acordo com as nossas possibilidades, exercer o magistério da influência junto do Governo, das autarquias, das instituições do Estado português para que adoptem uma política de preservação da memória que honre o país e a democracia e que seja uma componente da preservação da nossa identidade. 
Vimos, aliás, consagrado tal desiderato numa Resolução Parlamentar (nº 24/2008 de 16 de Junho) de nossa iniciativa, sob a forma de recomendação da Assembleia da República ao Governo para que exerça o dever de Memória e que teve o apoio, raro, de todos os grupos parlamentares.

Temos tido insucessos e êxitos. Entre estes merece especial relevo a assinatura no passado dia 25 de Abril de um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa, na presença do seu presidente, do ministro da Justiça, ele próprio um antigo preso político, e do ministro das Finanças que tem por objectivo o apoio
  • à criação de um museu da resistência e da liberdade na antiga e simbólica cadeia de presos políticos do Aljube, em Lisboa;
  • à realização de um memorial às vítimas da PIDE junto do local onde se encontrava a sua sede em Lisboa;
  • à criação de um roteiro cultural na cidade de Lisboa dos locais mais simbólicos da repressão da ditadura e das lutas mais importantes contra ela;
  • à realização de uma exposição, durante um ano, denominada “A voz das vítimas” no edifício da antiga cadeia do Aljube, no âmbito das Comemorações Nacionais do Centenário da República em parceria com a Fundação Mário Soares e o Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.
O Campo de Concentração do Tarrafal também mereceu do Movimento Não Apaguem a Memória especial atenção. Realizámos um colóquio internacional para assinalar o aniversário da abertura do Campo de Chão Bom, em 29 de Outubro de 2008, com o apoio do presidente da Assembleia da República, do Ministro da Justiça, do ministro da Cultura e da Fundação Mário Soares. Apraz-nos sublinhar a presença que muito nos honrou de antigos presos do Tarrafal, como o diplomata Luís Fonseca e Maria da Luz Boal de Cabo Verde, o embaixador da Guiné Bissau em Lisboa, Constantino Lopes da Costa, o embaixador de Angola em Roma, Manuel Pedro Pacavira o Professor Universitário Justino Pinto de Andrade, de Angola além dos ex-tarrafalistas portugueses Edmundo Pedro, aqui presente e Joaquim de Sousa Teixeira, falecido entretanto. 

7) A Importância do Simpósio Internacional sobre o Tarrafal 

Os projectos que as autoridades da República de Cabo Verde planeiam para o antigo Campo de Concentração do Tarrafal onde europeus e africanos tanto sofreram têm uma grande importância para Cabo Verde mas também para Portugal, Angola e Guiné onde cidadãos e até alguns actuais dirigentes do Estado estivem presos. O Campo do Tarrafal evoca momentos importantes da história comum a estes países. Por isso achamos que comum deve ser também o esforço e o empenho para levar avante neste importante projecto e em particular por parte de Portugal, que como membro da União Europeia tem a obrigação de procurar envolver também a Europa nesta evocação histórica comum aos dois continentes. 
Por fim queria agradecer à Fundação Amílcar Cabral e à Presidência da República de Cabo Verde que lhe deu o seu alto patrocínio a distinção que para nós representa o convite feito ao Movimento Não Apaguem a Memória para participarmos neste importante simpósio internacional.
Esta iniciativa revela como a Fundação Amílcar Cabral, a Presidência e o Governo da Cabo Verde têm a viva percepção da importância da preservação da memória deste local de sofrimento e luta de portugueses e cidadãos de Angola, Guiné e Cabo Verde irmanados no combate ao fascismo e ao colonialismo e pela independência dos seus países.

Este simpósio com o patrocínio das autoridades de Cabo Verde no presente, assim como a luta comum no passado, de homens e mulheres do país colonizador e de homens e mulheres dos países então colonizados são o exemplo impressivo de que o que une ou separa os Homens não são as fronteiras dos Estados ou da cor da pele, não são as fronteiras da raça ou da cultura. O que separa ou une os Homens é a sua atitude perante o outro, perante o seu semelhante, é o seu posicionamento perante a solidariedade, a justiça social, a dignidade humana, a liberdade.

Notas
(1) Acção Revolucionária Armada- ARA – Raimundo Narciso, Editorial D. Quixote 1970 .
(1) As explosões que abalaram o fascismo Jaime Serra Edições Avante – 1969
(2)– Francisco Miguel “Uma vida na Revolução” A Opinião Fev 1977 e  Das Prisões à Liberdade Edições Avante 1986.
(3)– Memórias Um Combate pela Liberdade 1º Volume Edmundo Pedro. Editora Âncora Jan 2007
(4)-  Em Memória do General Adalberto Gastão de Sousa Dias revista militar Dez 2005 http://www.revistamilitar.pt/modules/articles/article.php?id=3


2009/04/12

RN no colóquio sobre o Tarrafal na AR

Mas que é isto? É uma nova forma de ver um documento. Folheando-o. Para isso é necessário um clic sobre a imagem e depois mais um clic na seta à direita da página para ir folheando. Pode ampliar o texto se não estiver muito legível. O segredo é um clic sobre a imagem e em cima pode ampliar a imagem a seu gosto. Depois escape para fechar. Entre sem medo e domine estas tecnologias simples da web.

Para usar esta técnica nos seus documentos ou livros que queira publicar vá a http://issuu.com/ inscreva-se, faça o upload de um documento que tenha no seu computador ou que esteja disponível na net. Preencha o formulário que lhe pedem quando faz o upload. Estude a coisa, é simples. Por fim clic em embed. Oferecem-lhe então um código. Copie-o e coloque-o no seu post mas atenção na área do html. E já está. Você não é menos que eu e a mim ninguém explicou nada.

2009/03/22

Jaime de Magalhães Lima Mascarenhas

Morreu, na 6ª feira, dia 20 de Março, às 23 horas, com 65 anos, no IPO, acompanhado pela filha, Helena, e a companheira, Ana, pouco depois de pôr em ordem planos de quem preza a vida e não se resigna a morrer.
Foi cremado hoje, às 14h e 30 m, no cemitério do Alto de São João. Aonde acompanharam o féretro muitos dos seus familiares e amigos. Estes de muitas origens. Dos seus muitos interesses. Profissionais, políticos, culturais.
No momento da partida da urna, no crematório, um amigo, de amizades que vinham dos tempos do exílio em Paris e do Maio de 68, pronunciou para todos nós a sua despedida que era também a nossa. Não foram palavras circunstanciais num acto formal. Foram palavras espontâneas que evocavam o grande Homem, o Amigo exemplar, que ele foi. O homem abnegado, frequentador da utopia que se expressa na ajuda ao seu semelhante, na solidariedade (nele tão natural) para com todos os que à sua volta com ele conviviam ou trabalhavam.
Era neto de Jaime Magalhães Lima, filósofo e ensaísta e sobrinho-neto de Sebastião Magalhães Lima grande figura de intelectual e revolucionário da República e Grão Mestre da Maçonaria (Grande Oriente Luzitano).
Jaime Mascarenhas era Matemático. Era Director no Instituto de Informática do Ministério das Finanças. Tinha, como informático, uma carreira muito auspiciosa e bem remunerada na IBM, em Paris, que trocou pelo regresso rápido ao Portugal novo saído do 25 de Abril, de 1974 para dar a sua contribuiçãso cívica à revolução que virava de pernas para o ar o Portugal o antigo. O Portugal colonial e da ditadura salazarista de botas e atacadores, retrógrado, bisonho e clerical. Depois quando tudo acalmou e se percebeu que o "Céu" não estava ali à mão, Jaime voltou à Matemática aplicada à informática outra das suas paixões, no ministério das Finanças.
Ontem, quando alguns dos amigos de Jaime Mascarenhas se davam a conhecer a amigos de outras latitudes intelectuais do largo leque dos seus interesses e amizades que à casa mortuária da Igreja de S. João de Deus acorreram ao último adeus, fiquei a saber que muitos deles eram seus colegas de trabalho. De equipas de trabalho actuais ou antigas na informática do MF. Quem não conhecesse o Jaime ficaria impressionadíssimo com os penhorados elogios que ali à volta todos (e eram muitos) queriam dar. À sua capacidade profissional, ao gestor de equipas, à sua capacidade de todos agregar com "savoir faire", com calor humano, nos objectivos profissionais do seu Insttituto de Informática. E alguns diziam como ele tinha sido o seu "professor" e o "chefe" sempre disponível a ajudar alguém da equipa aflito com algum problema maior. E de como era capaz de passar o fim de semana a estudar um problema para na 2ª feira "desenrascar" um colega que lhe pedira socorro. E como todos queriam pertencer à sua equipa. E como estava sempre a par "como se não tivesse aquela idade" dos últimos desenvolvimentos da informática. E de como descobriram com surpresa que afinal não era apenas na Matemática e na Informática que era um grande senhor. Era de Política, de História ou de qualquer dos muitos saberes que fazem de um técnico um homem de cultura.Claro que adorava a filha Lena, também ela Matemática, filha da minha irmã Helena, e os dois netinhos que, com 2 e cinco anos, suponho, ainda não se preocupam muito com o futuro informático da Humanidade nem com o uso que da Web 2 ela faça.

2009/03/08

O Negacionismo


Os comandos neste monitor são mesmo para usar. No Lado direito do quadrado pode arrastar o cursor de alto a baixo e fica logo a saber o que há. Mas pode optar por um clic no botão rectangular à direita e em abaixo para abrir tudo. Em baixo à esquerda o comando permite ampliar e diminuir a imagem. Por fim para sair disto não se esqueça: tecla escape.

A crise do subprime



A crise do subprime explicada com muita perspicácia e um belíssimo humor (muito british) e muito moradaz.

2008/11/13

AGUSTINA

Ultrapassei os primeiros escaparates e as segundas prateleiras com o lixo editorial. Capas exotéricas, resplandescentes de sóis matinais, mistérios anunciados. O azulão e a capa limpa atraíram-me. Só depois vi que era da Agustina Bessa-Luís. A Corte do Norte. Suécia, Dinamarca, ou czares? Li a primeira página e sem ver mais, sem saber do que tratava, sem leitura de recensões, decidi comprar, ali, no acto. Uma página inteira de escrita como esta quase paga um livro. E quem escreve assim uma página muitas outras terá escrito lá para diante.

CAPÍTULO I


“João Gomes, conhecido por «Trovador», que casou no Funchal com a filha dum companheiro de Gonçalves Zarco, foi homem de cuidados e suspiros. Além de vereador da Câmara em 1472, entrou na abundante polémica do Cancioneiro Geral acerca de quem melhor ama: se o que cuida ou o que suspira. Isto não impressionava se não fosse a elegância das trovas, dignas dum pajem do Livro do Infante D. Henrique, que, pelo que se diz, ele foi. João Gomes da Ilha teve a sorte de produzir bons versos, decerto antes que o cargo de juiz ordinário lhe embotasse a veia poética. «Da lembrança do passado / com desejo do futuro / em o tear do cuidado / se tece mui restorçado / terçopelo verde escuro.»
Esta é uma primeira definição de saudade de que a ilha gasta há séculos. Porque de penar airoso é o coração do insular e nisso doutorado; «sentido com desejar em que a esperança cabe», é como João Gomes explica o limbo das paixões e cuidado manso que outra cousa não é senão saudade. Para entender esse romance é preciso entender a linguagem nobre que foi prelúdio de poesia mística castelhana. Mas que nos portugueses se chamou «aquele cuidado esquivo / que não dá mais que sofrer / ao coração cativo, / no qual eu morrendo vivo, / em grado de bem querer».
Deixando as trovas e os trovadores, que à Madeira vieram com outras vontades e ilusões, como a de casar e refinar a cana-de-açúcar em que a Flandres se afreguesou, vamos a outros campos romanescos. A Madeira tem plantações de romance, como de bananais e vinha jacquet. É um nunca acabar de personagens, situações, vidas e histórias, que não se entende o silêncio das letras acerca delas."

2008/11/01

TARRAFAL uma prisão dois continentes

No dia 29 de Outubro, das 9h e 30m às 20h, decorreu na Assembleia da República, um colóquio comemorativo do 72º aniversário da abertura do Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. A assistência encheu o anfiteatro logo desde início e a sessão decorreu com a seguinte ordem de trabalhos:
A intervenção do ministro da Justiça encontra-se disponível no portal do ministério e também aqui. A intervenção de Raimundo Narciso pode ser lida aqui.






O presidente da AR, Jaime Gama, ofereceu um almoço no restaurante dos deputados aos participantes do colóquio.















O ministro da Justiça, Alberto Costa, ofereceu no Centro de Estudos Judiciários, um jantar aos participantes do colóquio.

PINTAR a MEMÓRIA (da sede da PIDE)



Em 5 de Outbro de 2008 o Movimento Não Apaguem a Memória comemorou o seu 3º aniversário com a pintura de um painel gigante na Rua António Maria Cardoso em Lisboa em frente da antiga sede da PIDE.
Objectivo: Conclamar o apoio da opinião pública para a realização junto daquele muro de um memorial às vítimas da PIDE.
O painel foi pintado por 16 finalistas da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa sob a orientação do professor Lima de Carvalho.
O filme foi realizado por Jorge Martins da direcção do NAM.

2008/10/06

Não Apaguem a Memória

No dia 5 de Outubro, entre as 15 e as 18 horas, na Rua António Maria Cardoso, em frente ao local da antiga sede da PIDE, 16 finalistas da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa pintou uma tela gigante, com o apoio de um seu professor, para sensibilizar a opinião pública para o objectivo do Movimento Não Apaguem a Memória - NAM de criar no muro ali situado um memorial às vítimas da PIDE/DGS.
Juntaram se à iniciativa cerca de uma centena e meia de apoiantes do NAM.


















2008/08/05

José Brandão. Mais um livro.

José Brandão é meu amigo mas a razão que o traz hoje aqui não é essa mas a publicação, de mais um livro, agora mesmo, (Editora Prefácio). A Introdução ao livro diz-nos quantos mortos, feridos , estropiados, doentes a guerra ceifou entre os militares portugueses em cada uma das guerras coloniais, na de Angola, Guiné e Moçambique, e faculta entre a muita informação outros interessantes números, cada um encerrando uma tragédia em Portugal e abrindo portas para outras infindáveis tragédias, em África, entre os que defendiam a libertação das suas terras. A Introdução do livro está aqui abre o apetite ao mais fastiento e já me decidiu: vou, sem dúvida, comprá-lo.

José Brandão começou por ser operário, foi dirigente sindical e é um autodidacta. Mas foi também um lutador contra a ditadura e foi preso pela PIDE que o acusou de pertencer à ARA. Chegou ao tribunal para julgamento, com uma sentença de uma mão cheia de anos de prisão, já lavrada pela PIDE/DGS no dia... vá, adivinhem... no dia 25 de Abril de 1974!

2008/08/03

A tragédia do Sebastião Correia, a teoria da relatividade e a dupla natureza dos ratos.


Sebastião Correia, tem 26 anos é natural da freguesia de Santa Marinha de Chorense, arcebispado de Braga é filho do cirurgião António Correia e de Maria Carvalha. É mascate que o mesmo é dizer que é vendedor ambulante de bugigangas ou coisas de maior valor e está casado com Luísa Teresa da Conceição. Está ou estava porque depois casou com a Inácia Maria. Longe da terra, no Brasil lá no Recife. E, é claro, para tanto falsificou papéis. Rapazes, cabeças no ar, perdem-se de amores e fazem o que não devem. Ai a juventude de agora…
Mas a vida é mais complicada do que parece a esta estouvada juventude e o Sebastião foi apanhado e levou com um processo em cima:
Crime/Acusação: bigamia, falsificação de documentos.”

O que me levou a escrever esta notícia foi a desproporção da sentença. O crime da sentença é muitíííííííísimo maior que o crime do réu.
“Sentença: auto-de-fé privado de 20/12/1784. Abjuração de leve, ser açoitado publicamente, degredo por cinco anos para as galés, penitências espirituais, pagamento de custas.O réu encontrava-se preso no aljube de Olinda, bispado de Pernambuco. Data da prisão: 31/08/1784”
Tinha-me esquecido de advertir que tudo isto se passou já há um certo tempo. Ainda o Brasil era “uma província ultramarina”, colónia, colónia, que nessa altura ainda Salazar estava para nascer e não era preciso atirar areia à cara dos portugueses e à cara da ONU com essa coisa de “províncias ultramarinas”. Colónia era colónia e com muita honra (deles). Portanto Brasil ainda estava muito longe do Brasil de Lula da Silva e o tribunal de comarca, da Relação e do Supremo era a Santa Inquisição.

“açoitado publicamente, degredo por cinco anos para as galés, penitências espirituais, pagamento de custas”
Deus!!! a avaliar pelos seus representantes na colónia do Brasil, era na altura, muito pouco indulgente. Era ainda aquele Jeová velho rancoroso e despeitado por já não ser jovem nem poder conquistar nenhuma Inácia Maria. E daí… talvez até Deus nem soubesse de nada e fosse tudo obra daqueles malvados dominicanos da PIDE da Inquisição.
A violência bruta daquele tempo, o desprezo pela pessoa humana… mas o ponto é outro e onde eu queria chegar era aqui: ao problema do espaço e do tempo. Como tudo isto se passou há muito tempo temos de contextualizar e considerar que aqueles açoites em público aplicados ao Sebastião Correia e os incríveis cinco anos de trabalhos forçados nas galés, o pagamento das nunca esquecidas custas além de tormentos ou penitências espirituais, foram uma pena muito razoável e bem aceite pela opinião pública que ainda não usufruía da Internet.
O Tempo! Mas tempo é espaço e vice-versa. Todos sabemos, mais ou menos, que as categorias de espaço e tempo foram correlacionadas já faz um certo tempo (ou espaço?), lá pelo fundo do século XX e a relação entre elas traduzida em fórmula matemática pelo simpático e distraído judeu alemão Einstein o que, se mais não tivesse feito, o tornaria no génio que ninguém poderá deixar de admirar mesmo que nunca tenha subido os Himalaias da Física ou da Matemática.
O tempo é espaço. Ora não aconselho ninguém, especialmente em férias, a ir rever a teoria da relatividade pois bastar-lhe-á a rápida explicação, a bem dizer um exemplo, que grátis aqui ofereço para se perceber a lei de forma simples. O tempo é espaço porque para encontrar aquele tempo de açoites, galés e pior, basta deslocar-se no tempo? não, no espaço. Vá ali à terra dos talibãs, ou a certos países africanos, sem ofensa para África ou, esmiuçando, a certas aldeias remotas ou bairros degradados da grande e Ocidental Civilização e lá encontra o que se encontrava ao virar da esquina no Rossio ou no bispado de Pernambuco em 1784, a 224 quilómetros de distância 224 anos antes.

Porquê toda esta conversa fiada? Ora porque fui calmamente passear aos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo que repousam agora no moderno edifício da cidade universitária em Lisboa. Passeio-me por lá num agradável exercício lúdico mas sem deixar a quietude do meu escritório e o rumorejar álacre das buganvílias da minha varanda, graças ao mundo virtual que a Internet nos traz a casa com um clic do rato. Bicho, aliás, que nos últimos tempos tenho vindo a encarar com alguma bonomia.

Para ver o proc. 7039 (de Sebastião Correia ou de José Sebastião de Araújo: dois nomes mesma pessoa) - Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, link:
http://digitarq.dgarq.gov.pt/details?id=2307108

2008/07/13

Sentencia Juicio Von Wernich

Ver post abaixo sobre este tema.

Sentencia Juicio Von Wernich

Tenho o hábito de me comprometer com trabalhos que no conjunto exigem de mim não o milagre da multiplicação dos pães mas o milagre da duplicação das horas. Se acham que isto é uma forma de me desculpar por não colocar aqui nem um mísero post desde Janeiro... acertaram.
E a explicação para o recomeço é esta: num esforço hercúleo para abrir um pequenino espaço na balbúrdia de papéis que viceja pela superfície da minha secretária fui lendo e rasgando, lendo e atirando para o lixo, papéis atrás de papéis, excepto uns que para meu tormento se rebelam e... conservo. O último papelinho renitente tinha sentenciado a lápis e letra miudinha "o que é mais grave não é o padre Christian von Wernich ter participado no assassínio de 6 argentinos, vários sequestros e nas torturas a 41 presos e em consequência ter sido, depois de muitos e muitos anos de generoso e conciliador perdão, condenado a prisão perpétua (2007-10-09), o que é mais grave, dizia eu, é ter tido sempre o apoio e a protecção da Igreja que até o escondeu numa aldeia remota do Chile para fugir à justiça". O padre era capelão militar confessava as vítimas católicas e entregava aos torturadores as informações obtidas em confissão. Outras vezes fazia o gosto ao dedo e torturava até à morte. Para bem dos mortos e glória de Deus (se é que alguma vez pensara em Deus).

Rasguei o papel mas depois os pedaços juntaram-se no que reconheci acto milagroso e a mão de Deus. Onde é que isto vinha escrito, interroguei-O. Talvez por não estar em Sua plena Graça fui ao Google que nisto de milagres pede meças ao mais sábio Deus.
O assunto apaixonou a Argentina e até a restante América cristianizada a fio de espada e golpe de canhão por portugueses e espanhóis, que sofreu a onda de ditaduras militares (Brasil, Chile, Argentina, Paraguai (a deste era uma ditadura ancestral), Bolívia, Colombia, etc, mais ou menos fascistas dos anos 70/80 do século passado.

O Padrinho de tais ditaduras que causaram muitas dezenas de milhar de assassínios e centenas de milhar de seviciados, perseguidos e desterrados por quererem liberdade e mais independência nacional foi o paladino dos direitos humanos... nas ditaduras comunistas, Kissinger secretário de estado de Nixon e depois do impeachment deste, na sequência do Whatergate, de Gerald Ford. A barbárie era repugnante as torturas e outros crimes eram requintados. Desde levarem os presos de avião para os atirarem ao mar depois de convenientemente torturados, até ao roubo de filhos aos presos para, com outra identidade, serem criados (noutra cultura política) por sicários da ditadura, respeitabilíssimas famílias católicas, com suficientes teres e haveres, para uma educação como deve ser.
Sobre a matéria podem consultar o Globo, ou aqui na Procuradoria Geral da República do Brasil, ou num site ateista:
"En Argentine, de 1976 à 1983, l'armée impose un régime barbare et 30 000 personnes "disparaissent". 30 000 assassinats perpétrés après les tortures les plus sauvages..." "Qual foi então o papel da Igreja Argentina? Um número resume o conjunto da obra de Emilio Mignone: em 80 membros do corpo episcopal argentino só 4 bispos protestaram contra os militares. Foi um apoio de 95% da hierarquia católica aos golpistas..."

ou, como contraponto, num sítio que defende o padre condenado, a Igreja Argentina, os militares golpistas e toda a sua redentora acção conta o "comunismo diabólico":

"Um fato insólito, perverso e demoníaco acaba de ocorrer na Argentina, com a condenação à prisão perpétua do Padre Christian Federico Von Wernich, pelo “crime” de ter sido durante a ditadura dos anos 70-80 Capelão da Polícia de Buenos Aires. Este caso arrasta-se há 4 anos, desde os quais o Padre Von Wernich esteve preso mesmo antes do julgamento, na penitenciária Marcos Paz.
___________
Nota o link fonte da informação do post ficou. Agora em 2013 06 23 coloquei estes: O Globo ; MNN ; Rede DemocráticaWikipedia 

2008/01/12

Passa por mim no Rossio


Passo por ali todos os dias. Excepto quando vou pela Praça da Figueira e apanho a outra entrada do Metropolitano. Passo por ali todos os dias mas nem sempre lá está. Ou nem sempre reparo.
Entre o que acabo de fazer, dois quarteirões atrás, no escritório sempre igual e o que planeio para as horas que me restam, quando chegar a casa, avanço contra o mar de gente que se atropela e, pensamento errando por largo, não vejo caras e não vejo corações. Por isso talvez ela lá esteja mais vezes. Talvez lá esteja todos os dias. Entre as montras faiscantes da Camisaria Moderna e os apelos da última moda exibidos pela Primaz, ela está, encostada ao umbral, em cantaria, do número 113, da Praça de D. Pedro IV. O Rossio.

Não sei o que se passou mas hoje dei por mim parado, a olhar, quase inconveniente, empurrado pela onda humana que desliza alhe­ia, insensível, fugindo cansada para casa.

Parei. Voltei atrás. Fingi observar as camisas, os pulóveres, da Primaz. E olhava aquela mulher.

Era uma mulher. Seria uma mulher? Pensamentos desordenados, sentimentos opostos, piedade, revolta... olhava a mulher disfarçadamente e olhei à volta, também.

A mulher, a velhinha, era cega, como se via pela bengala meio caída que só os cegos usam. Tinha pendurada ao pescoço uma tabu­leta. Andei para trás e para a frente, "a ver as montras", até conseguir ler as letras encarnadas em fundo branco de madeira: ajudem-me sou ceguinha e sofro do coração. Estava sentada, caída, num tripé de lona velha, corcovada, quase um novelo, tombada sobre a direita, rente ao chão. Não se via. Ninguém a via. Por isso tocava uma campainha. Tocava com mão pouco segura, aos soluços, desesperadamente, uma sineta que atraía ( não atraía...) as atenções.
Agora me lembro melhor... aquele som..., aquele som agreste da campainha! agora me lembro que a "via" mais vezes. Olhei à volta. Reconfortei-me. Parado, como eu, com o espanto no olhar e um estertor na alma, estava ali, também, especado, um homem. Olhei de novo a velha que não parava de badalar sem resultado visível a estridente sineta. Virei-me então para o homem, cúmplice, para lhe dizer com um olhar, vejam isto! ao que pode chegar um ser humano! porque era disso que se tratava. Um ser humano! E naquela torrente de homens e mulheres que apressada, a um metro, corria, ninguém parava, ninguém se indignava, ninguém congeminava em revolta, deitar governos a baixo, esventrar a ordem social que permite isto, despejar o mundo em toalha limpa e, peça sobre peça, encaixar tudo de novo, sem exploração do homem pelo... sem afinal...

Virei-me para o homem. Mais alto do que eu. Vestia com gosto. Calças de flanela bege a condizerem com uma camisola de malha castanha e um agradável lenço de seda ao pescoço. O homem - não acreditei - passado aquele momento de incredulidade inicial e perce­bendo melhor o exótico, mesmo o ridículo, da mulher da campainha, quando a esposa, ou namorada a sair da casa de modas já a ele se chegava, riu-se, riu-se, riu-se francamente, com gosto. E olhava-me para que risse. Talvez da boa ideia da sineta. Talvez da coleira com a tabuleta de pau. Talvez porque a velha estava tão inclinada para o chão que parecia cair. Ou porque tocava irregular mas desesperadamente a campainha e nem uma única pessoa deitava uma moeda no mealheiro a tiracolo levan­tado desajeitadamente com a outra mão cega.

Meti-me então rapidamente na multidão. E foi provavelmente o homem, aquele homem, estrangeiro, talvez sem culpa, mas desapiedado ou inconsciente que me obrigou a registar, ainda que só mental­mente, enquanto vinha, sardinha em lata e absorto, no Metro, isto que agora aqui vos conto.

25 de Outubro de 1991.

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O título é o de uma peça da autoria de La Féria levada à cena no Teatro D. Maria II, em Lisboa (estreia em 16 de Maio de 1991). Foi um espectáculo de retumbante sucesso a que uma certa Lisboa acorria entusiasmada, trepidante e frívola, a divertir-se. Foi por isso e pelo contraste, que escolhi o título da peça para título deste conto. Relato exacto de algo que presenciei ali, entre a Camisaria Moderna e a Primaz, encostada ao umbral em cantaria do número 113, da Praça do Rossio.
Trabalhava então num escritório na Baixa e o Rossio atravessava-se no meu caminho, diariamente, entre a estação do Metro e a Rua dos Fanqueiros. E aquela mulher ali. Sem incomodar ninguém sem que ninguém se incomodasse.

2007/12/22

Prémio Pessoa 2007


O Pémio Pessoa foi este ano atribuído a Irene Flunser Pimentel, historiadora que recentemente publicou um estudo sobre a polícia política PIDE.
"Irene Pimentel é, de acordo com o comunicado do júri, "uma das figuras mais notáveis da actual historiografia portuguesa". Com recentes trabalhos publicados em 2007 sobre a história da PIDE, a Mocidade Portuguesa Feminina, os judeus em Portugal e a história das organizações femininas do Estado Novo, Irene Pimentel estuda "temas difíceis e polémicos".
Os seus livros, afirma o júri, "nunca negam adesão à causa das liberdades e dos direitos humanos, num esforço de rigor intelectual e objectividade académica".
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Irene Flunser Pimentel: 57 anos, licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, em 1984. Concluiu o mestrado em História Contemporânea (variante Século XX) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, com a tese Contributos para a História das Mulheres no Estado Novo. É investigadora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa...
...

É autora dos seguintes livros: História das Organizações Femininas do Estado Novo, "Textos relativos a Portugal" in Contai aos Vossos Filhos. Um Livro sobre o Holocausto na Europa, 1933-1945, de Stéphane Bruchfeld e Paul A. Levine, Fotobiografia de Manuel Gonçalves Cerejeira, Fotobiografia de José Afonso e "A PIDE/DGS, 1945-1974".

O Prémio Pessoa é um dos importantes galardões do país, atribuído anualmente a uma figura de nacionalidade portuguesa com "intervenção relevante na vida científica, artística ou literária". [link]

2007/10/07

Não Apaguem a Memória


O Movimento não Apaguem a Memória (NAM) assinalou a passagem do 2º aniversário da sua criação, que teve lugar no dia 5 de Outubro, com um novo impulso às principais iniciativas em curso. Para isso pediu audiências às entidades com elas relacionadas, o Presidente da Assembleia da República, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e o Ministro da Justiça.

A primeira ocorreu no dia 4 de Outubro tendo o dr. Jaime Gama recebido uma delegação do NAM da qual fizeram parte, a dr.ª Maria Barroso, o arquitecto Nuno Teutónio Pereira, a socióloga Lúcia Ezaguy Simões e eu próprio. No encontro participou também o pesidente da 1ª Comissão Parlamentar - Direitos, Liberdades e Garantias - deputado Osvaldo de Castro.

Esta audiência destinava-se a conhecer o ponto da situação relativa à Resolução parlamentar que vincule o Estado português ao “Dever de Memória” e a pedir a urgência possível na sua aprovação.

Ao Presidente da Assembleia da República foi entregue o seguinte memorando das diligências do NAM agora promovidas:

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! nasceu de uma acção de protesto realizada no dia 5 de Outubro de 2005 por um grupo de cidadãos indignados com a demolição do antigo edifício-sede da polícia política portuguesa, a PIDE, e sua substituição por um condomínio fechado, sem que nele figurasse uma menção à memória do sofrimento causado pelo regime ditatorial, que vigorou durante quase 50 anos, aos portugueses que lutaram pela liberdade e ali foram submetidos a interrogatórios, vexames e tortura.

Desta iniciativa cívica resultou um vasto movimento de cidadãos, democrático, plural e aberto, motivado pela exigência da salvaguarda, investigação e divulgação da memória da resistência antifascista. Este Movimento considera ser responsabilidade do Estado a preservação condigna desta memória para o que lhe incumbe tomar iniciativas e apoiar outras que lhe sejam propostas e considere adequadas.

Pese embora a intensa mobilização cidadã, as diversas audiências havidas com representantes de todos os grupos parlamentares, com membros do Governo e com vereadores da Câmara Municipal de Lisboa, é forçoso admitir que o Movimento está longe de ter alcançado os resultados possíveis dois anos após a sua criação, nomeadamente nos casos que a seguir se mencionam.

Assembleia da República:O conjunto de acções levadas a cabo pelo Movimento culminou com a entrega, na Assembleia da República, de uma petição nacional que reuniu 6.007 subscritores – entre eles os antigos Presidentes da República, Jorge Sampaio e Mário Soares – e que foi objecto de debate parlamentar no passado dia 30 de Março.A petição deu origem a dois projectos de Resolução parlamentar e espera-se a aprovação de uma resolução que recomende um conjunto de medidas, de ordem política e jurídica, passíveis de criar condições para a concretização da memória da resistência à ditadura e da liberdade conquistada em Abril de 74.

Câmara Municipal de Lisboa:As negociações com vista à constituição de um espaço museológico no edifício ex-Sede da PIDE/DGS, em Lisboa, apesar do promotor imobiliário ter disponibilizado um espaço no futuro condomínio da Rua António Maria Cardoso e das diversas reuniões havidas do Movimento com a anterior vereação do Urbanismo e da Cultura da Câmara Municipal, não lograram qualquer resultado.A expectativa do Movimento é de que a nova Presidência da CML retome, o mais breve possível, este processo negocial, de forma a estabelecer bases sólidas para a elaboração do projecto arquitectónico e museológico já em discussão. Este projecto conta com a colaboração de um grupo técnico de arquitectos, designers e historiadores que apoiam esta iniciativa e do qual fazem parte, entre outros, o designer Henrique Cayatte e os arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Raul Hestnes Ferreira.

Ministério da Justiça:A promessa do Ministro da Justiça, em audiência havida com o Movimento, de ceder as instalações da antiga cadeia do Aljube criou a expectativa da criação do Museu da Resistência e da Liberdade que venha a constituir-se como importante centro dinamizador, em articulação com universidades e outras instituições e organizações que desenvolvem relevante actividade neste domínio. No entanto não foram ainda tomadas medidas no sentido da concretização desta expectativa.É nossa expectativa de que, a curto prazo, tendo em conta a audiência para o efeito já acordada, o Senhor Ministro da Justiça dê início a este processo.

No momento em que comemora dois anos de existência, o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! Apela aos poderes públicos para que seja dado andamento a estas iniciativas e se mantenha aberto ao diálogo relativamente a outras iniciativas que lhe sejam colocadas.Passadas mais de três décadas após o derrube da Ditadura e a instauração da Democracia, urge adoptar medidas que tornem efectiva a preservação da memória da resistência e da liberdade conquistada pelo povo português em Abril de 74.

Lisboa, 5 de Outubro de 2007

2007/08/30

Histórias do Sol nascente



Uma leitora do Puxa Palavra enviou-nos esta fotografia com o título O acordar do estádio e explica que este é o estádio do Odivelas e aquele um Sol que terá pernoitado pelo Parque das Nações e se levanta por detrás da Alta de Lisboa.

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Aproveito a fotografia e a mensagem, acrescento-lhe mais alguma coisa e fica feito o post para o Memórias.

Entre o estádio e o Sol, num baixio invisível na fotografia, corre a Ribeira de Odivelas que em 1967, num outro 25 de Novembro, saltou as margens, avalanche de água e lodo, derrubou e matou. os Bombeiros Voluntários de Odivelas recolheram 64 cadáveres de habitantes ribeirinhos. Gente de poucos haveres, a dormir em casebres, meios escondidos em terras de ninguém, apanhados pela torrente e a escuridão da noite. Salazar tomou medidas drásticas à altura da tragédia deu ordens severas à censura para, nas notícias, não deixar passar nem mortos nem feridos. A ordem (fascista) foi mantida.

Mas a ribeira em si não é má e no seu quotidiano serviu dedicadamente com seu fio de água, desde a fundação, em 1295, o mosteiro de S. Dinis, casa das freiras bernardas, da Ordem de Cister. "As residentes eram filhas da nobreza, que não casavam por não disporem de bens, quando a família não lhes atribuía um dote. Não estando prometidas em casamento a algum nobre, as raparigas recolhiam à sombra protectora dos mosteiros, enriquecidos com as doações dos reis e dos nobres, para aí levarem uma vida segura, em termos económicos."

O tempo foi dando as suas voltas ao mosteiro, distante de Lisboa bem uma hora a cavalo e no reinado de D. João V o Magnânimo, um rei tão piedoso quão concupiscente e desprezível, a vida tinha outra animação dada pelas sortidas noturnas de fidalgos em visita a noviças e freiras mais maduras. O exemplo vinha de cima pois a Madre Paula era nem mais nem menos que a célebre amante do rei, de quem chegou a ter um filho para logo ser desprezada. A missa era ouvida pelo rei e por esta duvidosa "rainha" de uma câmara que se abriu para a frente para o púlpito da igreja, para a hóstia e o cálice e para trás, para o lupanar. Costumes da época. Nada de dramático afinal.

"Em 1834 extinguiram-se as ordens religiosas, durante a Monarquia Constitucional, e em 1902 o convento foi entregue ao infante D. Afonso que nele promoveu a instalação do actual Instituto de Ensino." Colégio interno para filhas de militares.

À tarde, 1971, com sol, o jardim do mosteiro era muito aprazível, pelo silêncio bucólico, pela restrita frequência de dois ou três idosos, um cão e dois gatos das casinhas de rés-do-chão circundantes. Os plátanos de braços retorcidos e torturados por podas a preceito, o coreto, o fio de água a fingir de cascata e na outra ponta do largo um cafézinho minúsculo, sem frequência certa nem suficiente. E nós. Eu a Maria e a Leonor com 2 anos. Era a nossa praia, o nosso cinema, o nosso centro comercial. E mesmo assim só a certas horas e de longe em longe. Mas só até 1972 porque a PIDE/DGS interessada, vá-se lá saber porquê, na minha presença não achou nada de mais interessante que colocar a minha fotografia nos jornais e na televisão e pedir que, por desconhecer a minha morada, alguém lhe desse qualquer pista para poder chegar à conversa comigo. A fotografia era antiga, os leitores de jornais e espectadores de televisão, estavam lá agora dispostos a fazer o trabalho da PIDE, nós lemos as notícias e vimos as imagens. Apenas deixámos de ir ao jardim. E preferir a noite ao dia para saídas de casa.

Nada de dramático afinal. Eram os costumes da época. Que acabariam em 1974.

2007/05/15

Núcleo museológico do "Posto de Comando do 25 de Abril

No passado Sábado, pelas 10 horas um grupo de 30 "defensores da memória" visitou o núcleo museológico do "posto de comando do 25 de Abril" no quartel da Pontinha, Regimento de Engenharia nº.1, em 1974. Foi uma iniciativa do grupo de trabalho Roteiros da Memória, do movimento Não Apaguem a Memória, em que participo, dinamizado entre outros por Jorge Martins, licenciado em História e principal obreiro da iniciativa e deste núcleo museológico.
Sobre a visita escreveu o jornalista José Teles, membro do movimento e aqui apresento alguns extractos do seu relato (integral aqui) que inclui a saborosíssima conversa telefónica entre os ministros da Defesa e do Exército da ditadura.

Diz José Teles da visita e do "posto de comando":
“Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas… – uma memória discreta, como deve ser. Mas insuficiente.
Estivemos lá. Lá onde o 25 de Abril se coordenou e decidiu. Regimento de Engenharia 1, na Pontinha, ao tempo uma discreta arrecadação militar pouco utilizada no meio do aquartelamento, hoje pouco mais do que isso, como vamos contar. Mas foi a “sala de operações” do movimento que derrubou a Ditadura, já lá vão 33 anos. Um local para lembrar o sucesso da Revolução dos Cravos. Para gozo e fruição do Povo como nós.
[relatos do levantamento militar]



25ABR74, das 03H05 às 04H20: temos a RTP connosco, o Mónaco caiu. México conquistado sem incidentes – é o Rádio Clube ocupado, já temos emissor. É nosso o Canadá – o Quartel-General passa para os revoltosos. Nova Iorque nas mãos do Povo – é o Aeroporto da Portela sob controlo.
...
RE 1, 25ABR74, 03H15: Palavra de honra? Isso é porreiro, pá! Exultante pela facilidade da ocupação da Emissora Nacional, o capitão Frederico Morais, do CTSC, liga para o PC: – Daqui Maior de Lima 18. Informo ocupámos Tóquio sem qualquer incidente. – OK. Parabéns e um abraço. Do outro lado, o cap Morais não pousa o telefone, hesita e insiste: – Alô, Óscar. Peço informe se estamos sós ou se já houve outras ocupações. – Afirmativo quanto à segunda parte da pergunta. Não estão isolados: Mónaco e México já caíram nas nossas mãos. A “seca linguagem das transmissões militares” cede perante a boa notícia: – Eh pá! Palavra de honra? Isso é porreiro, pá! – Ok, aguentem firme. Está tudo a correr bem.
...

E sobretudo como este? Ouçam bem (ah se houvesse gravação, uma reconstituição, o texto deste diálogo, nas paredes nuas do auditório, por exemplo!):



RE 1, 25ABR74, 03H16: Está tudo sossegado, senhor ministro… Os homens do MFA na EPTm interceptam e transmitem para o posto de comando esta conversa entre Silva e Cunha, ministro da Defesa, e o general Andrade e Silva, do Exército, o celebrado vencedor do golpe das Caldas um mês antes.



– Está, senhor general? Daqui ministro da Defesa.
– Como está, senhor ministro?
– Então ainda a trabalhar a uma hora destas?
– É verdade. É que tenho de me deslocar ao Alentejo e não estarei cá todo o dia, pelo que estou aqui a arrumar os papéis.
– Alguma coisa no Alentejo?
– Não, nada de importante. Mas interessa-me sobretudo ir até Beja, onde vou assistir a uma transmissão de comando e inspeccionar a Companhia de Ordem Pública. O comandante que lá está é muito amigo do homem do monóculo, a quem telefona muitas vezes. Por isso mandei mobilizá-lo para o Ultramar e coloquei lá outro de confiança, que hoje toma posse.
– Óptimo. E como é que está a situação? Corre tudo bem?
– A situação está sem alteração e perfeitamente sob controlo. Peço-lhe que não se preocupe, pois está tudo sossegado e não há qualquer problema em qualquer ponto do País. Se houvesse alguma coisa, era evidente que eu não ia hoje ao Alentejo, não acha?
– Claro, claro, só perguntei para ir para casa dormir descansado. Então não o maço mais. Boa viagem pelo Alentejo.
Comentário de Otelo:



“ Eram três horas e dezasseis minutos. Tínhamos na mão três objectivos fundamentais para a informação pública e o QG/RMP, raras eram as unidades do Exército que em todo o território não rolavam na estrada ou estavam prestes a fazê-lo, havia vários quartéis onde os comandantes se encontravam detidos ou tinham a sua acção neutralizada, e… os mais altos responsáveis militares do velho regime preparavam-se para dormir, tranquilos, as horas a que se sentiam com direito!”

Ainda assim o que está [no núcleo museológico] vale uma visita – palavra de repórter! A sala de operações tem em tamanho natural as estátuas dos “sete magníficos”, em cera e em acrílico, nos locais que ocuparam naquela noite:
· Otelo Saraiva de Carvalho, major de artilharia, no seu blusão de cabedal, de pé, junto ao mapa de 1973 do Automóvel Clube de Portugal

– “especial para sócios” – onde ia colocando as bandeirinhas assinalando os avanços de cada coluna militar pelas estradas do País.
· Amadeu Garcia dos Santos, tenente-coronel de transmissões, sozinho numa mesa, às voltas com os seus rádios, antenas e telefones.
· Fisher Lopes Pires, tenente-coronel de engenharia, com um telefone de discar, como eram todos naquele tempo, sempre com o cachimbo na boca, dizem os cronistas.
· Sanches Osório, major de engenharia, enviado por Vítor Alves como representante do Estado-Maior naquele grupo de comando, à esquerda de Lopes Pires, tomando notas.
· Luís Macedo, capitão de engenharia, responsável pela segurança do edifício, que protegeu com um perfeito “black-out”, com cobertores nas janelas, e organizara rondas permanentes no exterior: de pé, na única estátua de cera.
· Hugo dos Santos, major de transmissões, sozinho, ao lado, numa pequena mesa, com vários rádios.
· Vítor Crespo, capitão de fragata, de pé junto à porta do fundo, em uniforme de gala, azul-escuro, com botões dourados e o boné branco dos dias de festa Junto às paredes, armários, tão austeros como as mesas, com brochuras e encadernações, de ordens de serviço do quartel e outros documentos.
...
Resta referir que, no final da visita, Raimundo Narciso fez uma interessante exposição sobre a vida na clandestinidade que viveu durante muitos anos, onde se encontrava no dia 25 de Abril, precisamente no que é hoje o Concelho de Odivelas, e Jorge Martins, em nome do Movimento, referiu os objectivos inerentes ao espaço visitado: Preservar a Memória do local em que na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 foram dadas as directivas para que a Revolução fosse um êxito.

José Teles
(Imagens obtidas aqui e aqui )

2007/04/04

Capela do Rato - 1972

A luta de um grupo de católicos, de que os presentes na fotografia faziam parte, assumindo-se nessa condição, contra a guerra colnial e contra a ditadura, foi em 1972 muito importante, por mostrar que Marcelo Caetano e o regime fascista contava com a oposição de uma parte significativa dos crentes católicos. [Ver um relato dessa luta no blog "Não Apaguem a Memória"]