2006/09/22

Com Álvaro Cunhal no funeral de Tito

Estive duas vezes na ex-Jugoslávia com Álvaro Cunhal. A primeira ainda antes de 25 de Abril de 1974, com a presença, também, na delegação do PCP, de Pedro Soares (falecido num acidente em 13 de Maio de 1975).
Mais tarde na era pós-Jusgoslávia estive mais duas vezes nesta zona dos Balkãs. Na Bósnia, de visita às tr0pas portuguesas e outra vez na Sérvia, partícipe de uma equipa internacional de fiscalização de umas eleições que foram dadas como livres e justas. Histórias para outra altura.
Na primeira visita, (encontrámo-nos em Belgrado. Eu ido clandestinamente de Portugal, Pedro Soares da clandestinidade na emigração, talvez de Roma e Cunhal julgo que de Paris) no decorrer do encontro com a delegação da Liga dos Comunistas da Jugoslávia Cunhal apresentou-me como um combatente da luta armada, na clandestinidade, em Portugal. Foi uma referência à ARA e creio que o fez ali atendendo à relevância dada pela Liga ao seu passado de luta armada contra Hitler durante a II Guerra Mundial.
A segunda visita teve lugar em Maio de 1980 e partimos, legais! de Lisboa. Cunhal conversou quase toda a viagem que fizemos de avião sobre histórias do seu passado na guerra civil de Espanha. Coisa rara falar de si.

O funeral de Tito foi uma das maiores concentrações de dirigentes políticos e chefes de Estado de todo o mundo. Para quem goste de números: 209 delegações de 137 países e segundo a Time: four Kings, 32 Presidents and other heads of state, 22 Prime Ministers, more than 100 secretaries or representatives of Communist or workers parties.
Estava a Senhora Tatcher, o vice-presidente dos EUA, Walter Mondale, com uma grande e vistosa delegação, Hua Guofeng, presidente da China, com não menos chineses, Breznev que já estava doente e envelhecido. Ia praticamente levado em braços por dois ajudantes e o único que teve de ser sentado num cadeirão para evitar os assentos baixos da grande tribuna, no jardim interior, junto ao mausoléu. Também se evidenciavam o rei de Espanha Juan Carlos e o chefe do Governo Adolfo Suarez, Arafat, Sadam Hussein, Kadafi e muitas figuras políticas de todo o mundo.
De Portugal lembro-me de ver o Presidente Eanes, o primeiro ministro Sá Carneiro, e creio que estavam também Mário Soares e Otelo, entre outros.

Recordo-me de seguir num carro oficial com Álvaro Cunhal, numa das avenidas de Belgrado, a alta velocidade, batedores com sirenes a fazerem um chinfrin incrível e afastarem todo o trânsito. Cunhal segredou-me: "vês! Eis um exemplo da arrogância do poder."
Uma das cerimónias fúnebres era o desfile no Palácio das Flores perante a urna de Tito com um minuto de silêncio e uma vénia. Não gosto muito de vénias e quando têm de ser feitas procuro evitar excessos. Em momentos como aqueles avançando lentamente com a fila inventamos maneira de passar o tempo e dei comigo a medir as flexões para ver se correspondiam à identificação política. Por exemplo, vaticinei Sá Carneiro a fazer apenas uma ligeira inclinação da cabeça mas enganei-me, não foi avaro na vénia.
Nestas cerimónias públicas, de políticos como de outras estrelas, percebe-se logo quem tem experiência ou é novato. São, por exemplo, aqueles momentos informais e sem arrumação protocolar na presença das sôfregas televisões e batalhões de fotógrafos. É ver os menos conhecidos a correrem para junto dos que atraem todas as atenções para também ficarem na fotografia.
Álvaro Cunhal conseguia não ser ignorado mas com tanto Chefe de Estado e de Governo nada que se parecesse com a atracção que suscitava nas reuniões restritas ao universo comunista.
Reparei na arte de, sem se dar por isso, Cunhal acabar por estar com muita frequência nos locais onde as luzes mais incidiam. Quase naif era o esforço de algumas figuras, muito importantes noutras circunstâncias e lugares mas que ali ficavam esquecidas, para se chegarem à frente ou cruzarem com estrelas de primeira grandeza para um efémero momento de glória.




Margaret Thatcher

Sadam Hussein

2006/08/04

Quatro casos de subversão da lei


Quatro histórias verdadeiras. Duas são dos tempos da (minha) clandestinidade. A primeira (1972) é transcrita do livro ARA, início do cap XII (Ed.D. Quixote,2000)


1972 - Sintra - O Almendra

"Almendra é pseudónimo. De momento não estou autorizado a revelar o nome. Hoje um conhecido artista, Almendra era o jovem estudante que estivera com Francisco Miguel* no curso militar de Moscovo, tinha 25 anos e estava casado com uma estrangeira a “Mary” que não quis deixar os seus pergaminhos revolucionários por mãos alheias e acompanhou o marido nesta corajosa e revolucionária aventura pela Liberdade do Povo Português. Nunca lho perguntei mas convenci-me que se inspirara no Che Guevara. Era uma mulher corajosa, simpática e bonita. Confirmei que não tinha razão um elemento do Partido Comunista Italiano que em Roma convictamente me tentava convencer que revolucionárias e bonitas não havia.
— Se são bonitas não vão para revolucionárias! Garantia-me.
A primeira casa ilegal alugou-a Almendra na Portela de Sintra onde fizemos algumas reuniões com a participação de Francisco Miguel e também de Joaquim Gomes** da Comissão Executiva do partido. Para o aluguer da casa e outras actos "legais" o Almendra necessitava de bilhete de identidade falso e em certo momento necessitou de abrir sinal num notário. Abrir sinal é registar a assinatura para posteriormente poder servir para autenticar outras assinaturas por comparação com aquela. Para bem se desembaraçar nesta operação que requeria duas testemunhas presenciais no cartório notarial de Sintra comuniquei-lhe a minha experiência na matéria.
— É muito simples — explicava eu ao Almendra— chegas lá olhas para as pessoas que estão por ali e é fácil identificares rapidamente as que estão no cartório como tu a tratar de qualquer assunto e as que estão por ali para servirem de testemunhas. São “testemunhas” de ofício e ganham um dinheirito que a falta de emprego lhes nega com o acto de garantiram ao notário, em tácita cumplicidade, que fulano de tal é mesmo fulano de tal porque o conhecem muito bem quer conheçam quer não conheçam.
— Mas estão nalgum local especial? Estão na sala de espera? Explica-me bem como é isso.
A sala de espera é apenas uma parte de uma sala grande dividida por um balcão. De um lado está o público do outro estão os empregados, uns a atender outros lá mais para trás a escrever à máquina. O notário, esse deve estar noutra sala e raramente aparece ao balcão.
— Então peço-lhes para serem minhas testemunhas?
— Isso mesmo. Testemunham de boa fé e com convicção que és quem não és como nos convém. Para eles tanto faz. Já estão ali para ser testemunhas. Passas-lhes uns vinte paus para as mãos, ficam todas contentes e confirmam logo que tu és o José Maria da Silva ou o Joaquim da Cunha Santos. Não lhes passa pela cabeça que és um clandestino nem ninguém ali sabe o que é isso.
Normalmente num clandestino a dar os primeiros passos na clandestinidade o estado de alma dominante perante situações novas é o medo, por isso reforçava o carácter banal e pacífico daquela transacção. Devo ter exagerado. O Almendra precisaria antes que eu o acautelasse. Chegou ao cartório notarial e não vendo lá ninguém com o ar de testemunha falsa como eu as retractei Almendra não esteve com meias cerimónias chegou-se ao balcão e interrogou a funcionária que estava mais próxima.
— Por favor sabe-me dizer quem são aqui as testemunhas? O que o Almendra foi dizer?! A senhora fez-se de novas e indignada vai de o admoestar, de ameaçar, que aquilo não era o da Joana, com ar assanhado. O Almendra terá feito cara de espanto, arrependimento, ignorância, pediu desculpa e serenou a impoluta funcionária que, bem impressionada pelo aspecto garboso do nosso guerrilheiro urbano, avaliou melhor a situação, recompôs-se e aproximando-se dele disse-lhe ao ouvido, já cúmplice, então não vê que são ali aqueles! E eram. E cumpriram honestamente a sua tarefa."

* - Francisco Miguel Duarte (Baleizão, 1907- Lisboa 1988) Operário. Membro do Comitá Central do PCP. 22 anos de prisão. 4 fugas (uma delas, em 1961, no carro blindado de Salazar, guardado na prisão de Caxias) Regressou à clandestinidade em 1969, por sua insistência, após alguns anos em Moscovo, para participar nas "acções especiais", na ARA)
** - Joaquim Gomes membro da Comissão Executiva do CC do PCP. (Marinha Grande 1917) operário vidreiro (aprendiz aos 6 anos). Preso 3 vezes fugiu 2.
1968 – Lisboa. Rua Veloso Salgado

Estava a viver na clandestinidade desde 1964 já tinha uma certa experiência desta forma de viver. Pouco apelativa, diga-se em abono da verdade. Tocaram a campainha. Tocaram, tocaram, tocaram. Arre. A Maria, que ali era Helena, espreitou pelo óculo e perguntou o que era.
- Abra se faz favor.
- Desculpe mas estou só em casa não abro a porta a desconhecidos.
- Bem então vamos chamar a porteira.
Pelo óculo da porta a Maria viu chegar a porteira. Trocámos impressões e a "Helena" abriu a porta.
- Somos fiscais da rádio.
Naquele tempo de Salazares pagava-se um taxa pela posse de um aparelho de telefonia e, apesar de raro, podia suceder aparecerem fiscais. A porteira foi-se embora. Pareceu-me melhor assim.
- Aaahh... estava a dizer que não abria… que estava sozinha em casa e afinal com o seu marido aqui!
A casa não estava boa para ser vasculhada pelos fiscais à procura de telefonias sem licença. O guarda-vestidos em vez de roupa escondia uma copiadora a stêncil, manual, grande e feia. As gavetas da mesa de cozinha estavam cheias de papéis uns já impressos outros por receber os gritos de revolta do povo trabalhador que estávamos incumbidos de reproduzir. O aparador da sala isso então é melhor nem contar. Até uma pistola de guerra tinha disfarçada de sapatos numa caixa própria para estes. Pensei.Vou-lhes dizer que sim senhor, estávamos a ver se escapávamos. Tínhamos de facto uma telefonia que, como bons portugueses, tinha lá agora licença! Pensei ainda melhor. Vou mesmo dizer que tenho dois rádios, revelando franqueza e parvoíce e reduzindo à partida suspeitas de mais que um.
- Pois é desculpe lá, tá a ver, olhe vou ser franco. Nós até temos dois rádios. Aquela telefonia ali e um transístor que até vou buscar. Mas veja lá, agora uma multa, fica sempre mal.
Fui resoluto à carteira puxei de uma nota de 50 mil réis e dei-a delicadamente ao chefe dos fiscais. Fiquei para morrer. Então não é que me calha um fiscal sério, incorruptível?!
- Mas quem é que o Senhor julga que sou. Está a querer comprar-me? Mais isto, mais aquilo e eu ali - suponho que mais branco que o meu natural o que já não era pouco, estávamos neste sufoco ou impasse, eu sem estratégia que tivesse previsto tão imprevisível como reprovável atitude do fiscal, quando o chefe (o que falava era o chefe, o outro coitado…)
- Olhe - e chamou-me para o lado como se a coisa ficasse mais limpa. Está a ver - e desembrulha-me um papel grande, maior que jornal, cheio de letras miudinhas que eu não tinha tenção de ler. Olhe aqui - e apontava com o dedo sapudo - está a ver aqui, dois aparelhos... ganho de comissão 60 escudos. Um banho de felicidade inundou-me de alto a baixo. Resplandecia disse-me depois a Maria que ali era Helena.
- Ah, pois, com certeza, que estupidez a minha, e rapei de uma segunda nota de cinquenta. Aí o chefe praticamente tirou-me as notas da mão enquanto fingia perguntar ao colega o que é que acha… aqui estes senhores coitados também não são gente de posses… que é que acha está de acordo?
O inferior só abanava com a cabeça num pró-forma enquanto o outro me instruía.
- Bem agora muito cuidado não diga nada a ninguém que eu já multei aqui um seu vizinho no prédio. - Claro, claro, esteja descansado. Fica entre nós. Fechámos a porta aos bons fiscais, quase uns amigos, como quem afugenta a PIDE.

1956 - Torres Vedras

Estava à beira de uma das minhas mais sonhadas aventuras, partir às 13 horas e 50 minutos de Santa a Polónia, no Sud-Express, chegar à Gare de Austerlitz às 17 horas e trinta minutos do dia seguinte e... passar oito dias em Paris. Um hotel baratinho do Quartier Latin.
Miúdas francesas, livros proibidos pela PIDE, filmes sem os cortes da censura nas cenas de sexo, o Boulevard de Saint-Michel, o Boulevard Saint-Germain, dançar no Caveaux da Rue du Chat qui Peche, percorrer os alfarrabistas na margem do Sena, o Louvre, os impressionistas então no Jeu de Paumme.
No Governo Civil não se contentaram com o bilhete de identidade para o passaporte, exigiram uma certidão de nascimento. Fui à pressa a Torres, à Conservatória do Registo Civil. A mulher que me atendeu tomou boa nota do que lhe pedia e, ao que tinha a pagar acrescentou, venha cá daqui a três semanas. Três semanas? Três semanas... repetia eu alarmado - mas assim não posso ir a Paris. Expliquei meio escandalizado que era urgente. Urgentíssimo podia agora esperar esse tempo! Impassível a funcionária acrescentou: então assim é mais quinze escudos, pede urgência e é uma semana. Enquanto desembolsava mais aqueles escudos da urgência garanti à mulher que não podia ser. Que tinha vindo de propósito de Lisboa e tinha que partir hoje com a certidão. Já se afastava sem me responder quando a interpelei, desculpe, diga-me lá, que é que obriga a tanto tempo um simples papel com meia dúzia de linhas. Que operações é que necessita de fazer que levem oito dias. Ela então regressou ao balcão corrido, a madeira lustrosa dos muitos braços e cotovelos que por ali estadearam e disse-me descarada em surdina, leva meia hora se tanto. É ir ali buscar um dossiê e passar à máquina a sua certidão de nascimento. Ah - renasci de alívio. Então faça-me esse favor... mas ela não me deixou continuar e esclareceu - mas não posso fazer uma coisa dessas! Então ia lá agora ultrapassar as dezenas de pedidos que estão à sua frente. Cabra - rosnei para dentro - bem te percebo. Paris a esfumar-se e conclui pela necessidade de fazer o que tinha jurado nunca fazer. Escondi com o rabo de fora uma nota de vinte escudos na mão e em voz baixa e mansa informei-a que tinha a camioneta para Lisboa daí a uma hora. Uns dias depois parti em alvoroço, no Sud para Paris, com o Rui e o Laurentino

1946 - Na minha aldeia.

O Senhor Castanheira conversava com o meu pai e eu com 8 anos brincava com os filhos dele. Chamaram-nos para jantar e fiquei ali à espera que a conversa terminasse e o meu pai se fosse embora comigo pela mão. Era lusco-fusco e o que era só uma silhueta a trinta metros revelou-se ali ao pé já bem dentro da quinta, um homenzinho de chapéu na mão, uma reverência a cada passo de estudada aproximação. Dá-me vossa senhoria licença, senhor Castanheira? Ele fingia que não dava por ele e continuava a conversa com o meu pai. O homem pequeno fez mais uma vénia, curvou-se um pouco mais, baixou o chapéu na ponta da mão e pediu de novo licença. Que é? Diz lá depressa. Senhor Castanheira peço desculpa mas mandaram-me... o senhor sabe como é... e eu tenho de lhe entregar... peço desculpa... Cala a boca. E tirou-lhe de rompante o papel oficial com a multa que o outro segurava a medo entre os dedos. O Senhor Castanheira sem ler os dizeres da multa, levou a mão à carteira, puxou de duas notas que amachucou juntamente com o papel timbrado e atirou-as para o chão como quem atira uma pedra a um cão e voltou insensível a pegar na conversa que tinha com o meu pai.
O Senhor Castanheira ainda me pareceu, naquele momento, mais forte e maior do que já era para os meus oito anos de olhos assustados que, se não entendiam toda a extenção do que se passava, percebiam muito bem que o Senhor Castanheira era muito grande e o fiscal muito pequeno. Se o caso não me tivesse metido medo até me teria rido. É que o homem pequeno, o fiscal, ficou ainda mais pequeno agachado a apanhar o papel da multa e as notas e teve de dar uns passinhos corridos, quase de joelhos, porque o vento queria levar uma das notas de cinquenta mil réis. Uma nota que para ele era quase uma fortuna apesar de não chegar à quinta parte da multa. Mas tinha de a dividir com outros.
(O post foi corrigido em 3 de Setembro de 2006)




2006/07/08

Francisco Ariztia

Pintor chileno, radicado em Portugal, desde 1974, em cujo site [link] podemos ficar com uma ideia das suas belas pinturas, transbordantes de cor e poesia. Uma janela a revelar o homem de cultura e ideais humanistas.

2004


Acrílico s/ tela 50x50 cm

2003


"Hands up", acrilico s/ tela, 130x130cm galeria ARA, 2003.

2000




"Una vieja historia" díptico (as duas pinturas acima)acrilico s/ tela 300x150cm

1983


"La captura", acrílo s/ tela e lápis cera 130x130cm

1975


"Desde Quillota quitandome el sueno", acrílico s/ tela, 170x130cm

2006/07/01

NÃO APAGUEM A MEMÓRIA

Na concentração junto à ex-prisão do Aljube estiveram presentes ex-presos políticos que passaram por aquela prisão e muitos outros resistentes à ditadura alguns dos quais são figuras conhecidas da cultura, dos meios académicos, do Movimento das Forças Armadas, da política. Edmundo Pedro e António Borges Coelho evocaram a sua passagem pelo Aljube, o almirante Martins Guerreiro e Artur Pinto apresentaram uma perspectiva do Movimento. Entre os presentes estavam José Manuel Tengarrinha, Manuel Serra, Nuno Teotónio Pereira, o coronel José Fontão, Fernando Rosas, Mário de Carvalho, Garcia Pereira, Diana Andringa, Alfredo Caldeira, Fernando Vicente e Henrique de Sousa da Renovação Comunista.

Comunicado do Movimento Não Apaguem a Memória:
A cadeia do Aljube, instalada num edifício que resistiu ao terramoto de 1755, era a prisão utilizada pela PVDE/PIDE para encarcerar os presos políticos, no período da instrução do processo, conduzido por essa mesma polícia. Era nesse período de “instrução”, que podia durar até seis meses, que os presos eram interrogados, através de torturas, e submetido a rigoroso isolamento, potenciado pela escuridão, as estreitas celas tumulares e a péssima alimentação. A Reforma Prisional de 1936, pela qual, teoricamente, se devia reger a vida dos presos, sofria constantes atropelos nas cadeias políticas. Por exemplo, no Aljube, não havia qualquer local para recreio e as salas e celas eram impróprias para viver.

A «sala 2A» dessa prisão tinha uma só janela, gradeada e coberta por uma rede fina, com catres presos à parede durante dia, os quais, à noite tinham uma enxerga e duas mantas. Essa sala era, porém, bem melhor do que os catorze «célebres “curros” ou “gavetas” do Aljube», pequenas celas, «com cerca de um metro de largura, com catres basculantes, que, ao baixarem ocupavam todo o espaço, obrigando o preso a ficar sentado. Esses “curros” eram fechados por duas portas, uma gradeada e outra de madeira, normalmente fechada, apenas com um pequeno postigo, estando quase todo o dia mergulhadas numa semi-obscuridade.
Eram essas as instalações que a PIDE usava para manter os presos incomunicáveis, durante todo o período mais intenso dos interrogatórios, onde «a falta de luz estava associada a todo um quadro de tortura e de violência física e psicológica a que o preso estava submetido», conforme contou um ex-detido. Durante o primeiro período, o preso não tinha acesso a caneta, nem a lápis, nem a papel, nem a jornais, nem a livros, nem a relógio, nem sequer espaço para se mover. Havia ainda a cela disciplinar, n.° 14, onde o preso estava permanentemente às escuras, sem enxerga e, às vezes, a pão e a água.
No seu relato, o padre angolano Joaquim da Rocha Pinto de Andrade contou que, no Aljube, esteve encarcerado «numa enxovia estreitíssima, de um metro de largura por dois de comprimento, onde a luz e o ar entravam por um postigo de 15 x 20 cm., filtrados através de duas férreas portas, postigo, aliás permanentemente fechado». A «tarimba que lhe servia de cama era apenas provida de um enxergão sebento, duro como pedra, sendo proibido usar lençóis. «Sentado na tarimba, os joelhos roçavam a parede», isto tudo na penumbra. Devido a queixas várias, entre as quais da Amnistia Internacional, o Aljube acabou por ser fechado, em Agosto de 1965.
A cadeia do Aljube é pois um dos principais paradigmas e «ícone» da repressão exercida durante a ditadura salazarista/caetanista, pela PVDE/PIDE/DGS.
Por isso, o Movimento “Não apaguem a Memória!” considera que é um dos melhores locais para ser instalado um espaço museológico, sobre o que foi a violência do Estado Novo e da sua polícia política, mas também da luta contra a ditadura e pela liberdade.


Aljube: memórias de quem passou pela "mais
sinistra prisão do fascismo"



[RTP on line]

"Tinha um botão no chão e jogava, mas quase não podia mexer as pernas", descreveu à Lusa o historiador e membro do movimento cívico "Não Apaguem a Memória!" que quer transformar a antiga prisão do Aljube num museu da resistência ao fascismo.
Na cadeia do Aljube, perto da Sé, onde agora funciona o Instituto de Reinserção Social, permaneciam os presos políticos que estavam a ser interrogados na sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso.
Encarcerado em 1956 durante seis meses nos "curros", que descreve como celas do comprimento do seu corpo e da largura do tronco "mais um braço estendido", Borges Coelho, então com 26 anos, entretinha-se os seus imaginários jogos de futebol.
O antigo preso político lembra as "mantas horrorosas, que não eram lavadas" e que "guardavam vestígios de esperma de vários presos, que se foram acumulando".
"No isolamento, o tempo escoa-se e nós vivemos unicamente da memória, que atinge níveis completamente incríveis", diz.
Acusado de pertencer ao PCP, "o que por acaso até era verdade", Borges Coelho não chegaria aos seis meses de isolamento, já que o seu débil estado de saúde, depois de recusar a "comida quase podre, intragável", obrigaria a um internamento na enfermaria da cadeia.
No meio das "piores recordações" que tem do Aljube, Carlos Brito, antigo dirigente do Partido Comunista Português e actual membro do movimento Renovação Comunista, guarda uma memória "muito positiva":
a do dia 25 de Maio de 1957, em que conseguiu fugir da cadeia, acompanhado por outros dois companheiros.
Depois de serradas as grades, os presos percorreram um algeroz "muito estreito" no último andar do edifício, "com grande dificuldade de equilíbrio", desceram a pulso um vão de seis metros por uma corda de lençóis, caminharam sobre dois telhados, saltaram as águas-furtadas e atingiram o chão com uma escada ali colocada.
"É a cadeia que simboliza a repressão da ditadura de uma maneira mais evidente e mais gritante. Por isso senti tanta alegria quando consegui fugir", descreveu à Lusa.
Naquele lugar, que recorda como a cadeia "mais sinistra", Carlos Brito esteve em três ocasiões distintas, entre 1957 e 1959, a maior parte do tempo "incomunicável e em isolamento".
Numa das vezes, após ter sido espancado, ficou durante dias "sem colchão nem cobertores nem qualquer espécie de agasalho, em cima de um bailique (tarimba) de madeira". "Ali se passaram dos momentos mais lancinantes. Lembro-me de ver companheiros que não conseguiram resistir e estavam ali à beira do suicídio", conta.
O historiador José Manuel Tengarrinha observou uma dessas situações: quando, em 1961, regressou de um interrogatório na sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso, encontrou as manchas de sangue do seu companheiro de cela, que se suicidara cortando as veias. Tengarrinha sublinha que o Aljube era "a pior prisão do fascismo", onde permaneciam "em condições indescritíveis" os presos políticos que se encontravam em fase de interrogatório.
"Era duríssimo", garante.
"As condições eram concebidas de propósito para desmoralizar os presos", afirma, lembrando a "angústia" que sentia quando ouvia a carrinha da PIDE a chegar, sem saber se seria o próximo a ser levado para "a António Maria Cardoso".
Nos "curros" durante um mês e meio, Tengarrinha, então com 30 anos, passava a tempo a fazer peças de damas com miolo de pão, que usava para jogar sozinho.
"Houve uma barata que entrou na cela. Conservei-a como uma amiga, uma companheira, o único ser vivo que estava ali comigo", conta.
A única vez que fumou foi durante o isolamento no Aljube, durante cerca de um mês, recorda o socialista José Medeiros Ferreira.
"Não podia ler, não podia sair da cela. Tinha uma grande variação: fumava às 09:00, às 10:00, às 11:00, às 12:00 e, no dia seguinte, às 09:30, às 10:30, às 11:30", descreve com alguma ironia.
O antigo ministro do PS esteve três meses no Aljube, entre 1962 e 1963, acusado de realizar "actividades subversivas contra a segurança do Estado".
O antigo preso afirma que "a maior violência do isolamento é em termos psicológicos", por não haver nada para fazer.
Naquele período, a sua única companhia eram as vozes de "uma menina que cantava canções populares e a de um preso que cantava o `Menina Estás à Janela`".
Mais tarde, na sala comum, Medeiros Ferreira e os companheiros "iam ao cinema" todas as noites, com cada preso a relatar aos outros um filme que tivesse visto.
Na primeira vez que foi preso no Aljube, em 1934, Edmundo Pedro tinha apenas 15 anos e chegou a partilhar uma cela com o seu pai. Voltaria àquela prisão mais duas vezes, a última já com 43 anos, após o assalto ao quartel de Beja, uma tentativa de golpe falhada ocorrida em 1961.
Edmundo Pedro, hoje com 87 anos, atribui à "determinação, à auto-confiança e à imaginação" a força para suportar o isolamento:
recordava os livros que tinha lido, fazia cálculos matemáticos.
Através de uma abertura de um dos "curros" onde permaneceu, conseguia ver a Sé, onde observava os pombos a fazer os ninhos, as pombas a ter os ovos, os borrachos a nascer.
Mais tarde, foi levado para outro "cubículo", ao lado do qual estava um companheiro com quem jogava damas, apesar da parede que os dividia.
"Riscávamos a tabela do xadrez no chão e depois, com um código de batidas na parede, fazíamos um jogo", afirma.
Apesar da dureza da cadeia, Edmundo Pedro acredita que "não há heróis".
"Perante as situações, as pessoas não têm outro remédio senão adaptar-se. Por duas ou três vezes ouvi pessoas a berrar, devem ter enlouquecido. Mas a maior parte das pessoas acaba por resistir".
(Outras fotografias do movimento não apaguem a memória. link)

2006/06/29

Cuidado com o buraco


Dizem que é o maior buraco feito pelo homem. Está na Sibéria Central, Rússia, junto à cidade de Mirna. Tem 1.250 metros de diâmetro à superfície. Descendo pela rampa, em caracol, gigantescos camiões (só visíveis à lupa) descem aos actuais 525 metros de profundidade para trazer terra.
Não têm terra cá em cima? Aquela tem diamantes. Por aí a baixo.
À volta está a cidade que se foi construindo à compita com o buraco. Estará pavimentada a diamantes?

Escalas





2006/06/23

Isabel Magalhães


Mar de Maio, 2004, acrílico sobre tela


Margens do Douro, 2002, 73 x 60 cms, acrílico s/tela


Broadway; 1995; 46 x 33 cm; óleo sobre tela

Obra de IM aqui e aqui

2006/06/04

O papa Bento XVI em Auschwitz

Vasco Pulido Valente, no Público de 2006-06-04, acha que o Papa andou mal ao "perguntar “onde estava Deus” e por que “ficou silencioso” [perante Auschwitz], quando a pergunta necessária e certa é, evidentemente, e ele não ignora: “onde estava a Igreja” e por que “ficou silenciosa”?"

Eis o texto de VPV:

"A viagem do Papa à Polónia acabou mal. Em Auschwitz, declarou que um “bando de criminosos” tinha subido ao poder à custa do povo alemão e “usara e abusara” dele como “instrumento” da “sua sede de poder e destruição”. Esta horrível tese absolve o povo alemão e, principalmente, a Igreja Católica Apostólica Romana dos crimes do nazismo. Comecemos pelo povo alemão. Hitler chegou ao poder em parte pelo voto e em parte com a ajuda da classe dirigente imperial, que execrava a República de Weimar. Por indicação do núncio Pacelli, a Igreja manifestou o seu júbilo e apoio, e aceitou dissolver o partido e os sindicatos católicos, como em geral qualquer associação de ca- rácter “político”. Logo depois, em Março de 1933, resolveu assinar uma concordata com Hitler (também com o patrocínio de Pacelli). Em 1934, Hitler mandou pessoalmente liquidar algumas centenas de pessoas na chamada “noite das facas longas”. Ninguém protestou. A Igreja, em especial, não protestou apesar de uma das vítimas ser o secretário-geral da Acção Católica e outra o director da Organização Desportiva Católica. Não se ouviu também um murmúrio contra a legislação anti- semita, nem na Alemanha, nem na Igreja. Só em 1937, a encíclica Mit Brennender Sorge de Pio XI condenou as “doutrinas raciais” de Hitler e se queixou do incumprimento da Concordata. Mas, no ano seguinte, a chamada “noite de cristal”, em que se queimaram sinagogas e se destruíram sistematicamente as lojas de judeus para não falar nos milhares de judeus que se mataram no meio da rua) tornou a não comover a Alemanha e a Igreja.

"Em 1939, Pio XII (Pacelli) nem sequer comentou a anexação da Checoslováquia ou a invasão da Polónia, dois países católicos. Por esta altura, já milhões de alemães conduziam uma guerra de extermínio no leste: do marechal ao soldado raso toda a gente sabia, e muito bem, o que andava afazer. Como o sabiam os milhões (tropas da SS e regulares, ferroviários, técnicos, burocratas) que juntaram os judeus da Europa inteira até ao último minuto da guerra e os levaram para os campos da morte. Um “grupo de criminosos” que “usou e abusou” de “um instrumento”? Que grande “grupo” e que extraordinário “instrumento”! Verdade que o Papa Ratzinger precisa de “acreditar” no absurdo para explicar a total abstenção da Igreja durante a Shoah. Sem essa hipocrisia, como poderia ele perguntar “onde estava Deus” e por que “ficou silencioso”, quando a pergunta necessária e certa é, evidentemente, e ele não ignora: “onde estava a Igreja” e por que “ficou silenciosa”?"

2006/04/18

O POGROM DE LISBOA, EM 1506

Texto de Alexandre Herculano (1810-1877), historiador, escritor e poeta português, in História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (1854-1855).

"Era na Primavera de 1506. A irregularidade das estações nos dois anos antecedentes, irregularidade que se protraiu até ao ano seguinte, deu em resultado a fome. Ainda naquela época a falta de subsistências trazia, em regra, por companheiro um flagelo, então trivial, não só por esta, mas também por outras causas. Era a peste.
Desde Janeiro que a peste redobrava de intensidade em Lisboa, e nos princípios de Abril era tal o progresso da epidemia que a mortalidade subia em alguns dias ao número de cento e trinta indivíduos. Faziam-se preces públicas, a 15 do mês ordenou-se uma procissão de penitência, que, saindo da Igreja de S. Estevão, se recolheu na de S. Domingos, seguindo-se a celebração de preces solenes. Durante elas o povo implorava em gritos a misericórdia divina. No altar da capela chamada de Jesus havia naquele tempo um crucifixo, e no lado da imagem do Salvador um pequeno receptáculo, que servia de custódia a uma hóstia consagrada. No excesso da exaltação religiosa houve quem cresse ver aí, e talvez visse, uma luz estranha. Espalhou-se logo voz de milagre. Ou que os dominicanos, aproveitando a ilusão, realizassem artificialmente a suposta maravilha ou que a credulidade, fortalecida pelos terrores da peste, predispusesse cada vez mais a imaginação do vulgo para ver aquele singular clarão, é certo que ainda nos dias seguintes havia quem afirmasse divisá-lo perfeitamente. Todavia, o voto mais comum era que essa maravilha não passava de uma fraude, e ainda muitos dos mais crentes suspeitavam que o facto existira apenas nas imaginações encandecidas. Durante quatro dias a crença no prodígio foi ganhando vigor. No domingo seguinte ao meio-dia, celebrados os ofícios divinos, examinava o povo a suposta maravilha, contra cuja autenticidade recresciam suspeitas no espírito de muitos dos espectadores. Achava-se entre estes um cristão-novo, ao qual escaparam da boca manifestações imprudentes de incredulidade acerca do milagre. A indignação dos crentes, excitada, provavelmente, pelos autores da burla, comunicou-se à multidão. O miserável blasfemo foi arrastado para o adro, assassinado e queimado o seu cadáver. O tumulto atraíra maior concurso de povo, cujo fanatismo um frade excitava com violentas declamações. Dois outros frades, um com uma cruz, outro com um crucifixo arvorado, saíram então do mosteiro, bradando heresia, heresia!

O rugido do tigre popular não tardou a ressoar por toda a cidade. As marinhagens de muitos navios estrangeiros fundeados no rio vieram em breve associar-se à plebe amotinada. Seguiu-se um longo drama de anarquia. Os cristãos-novos que giravam pelas ruas desprevenidos eram mortos ou malferidos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que rapidamente se tinham armado, tanto no Rossio como nas ribeiras do Tejo. O juiz do crime, que com os seus oficiais pretendera conter o motim, apedrejado e perseguido, teria sido queimado com a própria habitação, se um raio de piedade não houvera momentaneamente tocado o coração do tropel furioso que o perseguia, ao verem as lágrimas da sua esposa, que desgrenhada, implorava piedade. Os dois frades enfureciam as turbas com os seus brados, e guiavam-nas com actividade infernal naquele tremendo lavor. O grito de revolta era: Queimai-os! Quantos cristãos-novos encontravam arrastavam-nos pelas ruas e iam lançá-los nas fogueiras da Ribeira e do Rossio. Nesta praça foram queimadas nessa tarde trezentas pessoas, e às vezes, num e noutro lugar, ardiam a um tempo grupos de quinze ou vinte indivíduos. A ebreidade daquele bando de canibais não se desvaneceu com o repouso da noite. Na segunda-feira as cenas da véspera repetiram-se com maior violência, e a crueldade da plebe, incitada pelos frades, revestiu-se de formas ainda mais hediondas. Acima de quinhentas pessoas haviam perecido na véspera: neste dia passaram de mil. Segundo o costume, ao fanatismo tinham vindo associar-se todas as ruins paixões, o ódio, a vingança covarde, a calúnia, a luxúria, o roubo. As inimizades profundas achavam no motim popular ensejo favorável para atrozes vinganças, e cristãos-velhos foram levados às fogueiras com os neófitos judeus. Alguns só obtinham salvar-se mostrando publicamente diante dos assassinos que não eram circuncidados. As casas dos cristãos-novos foram acometidas e entradas. Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancavam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés esmagavam-lhes o crânio nas paredes dos aposentos. Depois saqueavam tudo. Aqui e acolá, viam-se nas ruas alagadas de sangue pilhas de quarenta ou cinquenta cadáveres que esperavam a sua vez nas fogueiras. Os templos e os altares não serviam de refúgio aos que tinham ido acoitar-se à sombra deles e abraçar-se com os sacrários e as imagens dos santos. Donzelas e mulheres casadas, expelidas do santuário, eram prostituídas e depois atiradas às chamas. Os oficiais públicos que por qualquer modo buscavam pôr diques a esta torrente de atrocidades e infâmias escapavam a custo, pela fuga, ao ímpeto irresistível das turbas concitadas; porque além da gente dos navios estrangeiros, mais de mil homens da plebe andavam embebidos naquela carnificina. A noite, que descia, veio, afinal, cobrir com o seu manto este espectáculo medonho, que se renovou no dia seguinte. Mas já as hecatombes eram menos frequentes, porque escasseavam as vítimas. Os cristãos-velhos que ainda acreditavam em Deus e na humanidade tinham aproveitado o cansaço dos algozes para salvar grande número daqueles desgraçados, escondendo-os ou facilitando-lhes a fuga, inútil até certo ponto, porque ainda vários deles foram assassinados nas aldeias circunvizinhas. (…) À medida que faltavam alfaias que roubar, mulheres que prostituir, sangue que verter, a multidão asserenava, e os filhos de S. Domingos, recolhendo-se ao seu antro, iam repousar das fadigas daquele dia.”

2006/03/31

O suave milagre de Santa Margarida

Miúdo, na aldeia, ouvir os mais velhos falar acerca da tropa e em especial sobre a ida à inspecção - dizia-se sortes, o Toino foi às sortes. E "sortes" porque havia sorteio e alguns livravam-se - ouvir, mais que ouvir bebíamos as palavras. E depois o sargento disse tira a porcaria das cuecas ou queres que te vá aí arrancar os cueiros. Estas e outras conversas verdadeiras ou inventadas maravilhavam-nos e até nos assustavam um pouco. Afinal só tínhamos 11 ou 12 anos e ainda faltavam uns seis ou sete para irmos, Cadete, em 1959
nós também, às sortes. E depois todos nos ríamos quando diziam o Jaquim tão fanfarrão... afinal tinha uma pichota que nem se via. E o Elias! É pá, agora é que se percebe o berreiro da Noémia na noite de casamento! Um chanfalho até ao joelho! Aquilo metia impressão. O sargento até rosnou este deve ter nascido nalguma cavalariça.

Agora estava eu ali, em Santa Margarida, na 3ª Divisão, a Divisão Nuno Álvares, orgulho da nação, em 1962, a responder ao chamamento da Pátria que requisitava os meus serviços neste momento em que os inimigos de Portugal assediavam Portugal em África e em que na Rádio se gritava, sincopadamente "Angola é nossa! É nossa! É nossa!" no programa "Rádio Moscovo não fala verdade", da Emissora Nacional.


Campo Militar de Santa Margarida.

estava no Campo Militar de Santa Margarida já como veterano e promovido a alferes. As primícias gastei-as em Vendas Novas, em 1959, como cadete. Cadete é aquele que, vindo da universidade, mas na fase de instrução não passa de um reles recruta, objecto de todos os caprichos do instrutor, para saber como é, para ganhar endurance, e para não se armar em doutor, intelectual e porras assim, depois de promovido, junto dos oficiais da Academia Militar . Mas cadete é também aquele instruendo que será daí a meses oficial que ganhará o direito a ter um impedido, um soldado feito seu criado, que lhe engraxa as botas, arruma o quarto, compra o tabaco e está ali sempre às suas ordens. E ao contrário do que se possa pensar o soldado-impedido não se sente, "criado" nem humilhado. Até prefere. Evita, os serviços de sentinela, de reforço, de faxina e se o oficial não é uma besta até pode ter alguns benefícios e bom trato. Chegado a oficial o cadete ganhará o direito a tratar com sobranceria, ou até com sadismo os soldados recrutas a si entregues para que deles “faça uns homenzinhos”. Ganhará o direito a frequentar a sala dos senhores oficiais e a ser tratado por Senhoria. Dá-me licença meu Aspirante, saiba Vossa Senhoria que ... em sentido e depois de bater a pala que é como quem diz depois de fazer a continência.
O segundo ciclo da instrução, dois meses e meio depois, já o fiz no CIAAC, em Cascais. A seguir o Exército mandou-me para o GACA 2, em Torres Novas. Aí sim, já feito Aspirante a Oficial Miliciano, isto é, oficial o que dá, da vida militar, uma perspectiva muito diferente!
Ninguém percebeu? Quer dizer Centro de Instrução de Artilharia Anti-Aérea e Costa e a outra sigla Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2. Grupo, porque se trata da arma de Artilharia. Porque se de infantaria se tratasse era batalhão e esquadrão no caso de cavalaria. É sempre bom aumentarmos a nossa cultura geral.
Contarei noutra altura essa inolvidável experiência de comandar homens. Conhecer jovens. As suas origens, os seus problemas, as suas vidas, as suas aspirações. Conhecer o país. O país dos homens e das mulheres. Na altura era só de homens. Há quem não aproveite esta rara oportunidade e trate os trinta soldados instruendos à sua conta como seres reduzidos a um número, que têm de aprender a marchar e a ser submissos perante os superiores. Deixo claro que, da minha experiência, concluí que os maus tratos ou formas menos dignas de tratar os soldados partiam em geral, não de oficiais do quadro permanente mas de alguns oficiais milicianos frustrados e de mau carácter.
Doze meses de serviço militar foi quanto me exigiram e logo me despacharam o que me fez muito jeito porque assim recomeçava sem grande perda de tempo a minha vida.
Não voltei ao logo ao Técnico em Lisboa, mas à Faculdade de Ciências, onde se podia fazer os três primeiros anos de engenharia no meio de imensas raparigas que rareavam indecentemente no IST.
Menos de um ano após, na sequência do início da guerra colonial, logo a Pátria requisitou de novo, a minha expertness militar e lá fui dar com os ossos na gloriosa Divisão Nuno Álvares. É talvez a partir daqui que passei a ficar um admirador do nosso antigo Condestável, um atrevido, corajoso, arrojado e meio doido, fidalgo de meia-tigela, desafiador de castelhanos, místico com visões de santos e do próprio Cristo, na origem da futura Casa de Bragança que viria a ser a mais importante Casa do reino e berço da quarta dinastia, de D. João IV a D. Manuel II.
Apesar dos apertos militares em Angola a minha vida ali era fidalga. No quartel-general não havia nada para fazer. A minha função era preencher um lugar orgânico bem determinado no organigrama da divisão. Oficial de operações. Deram-me uns manuais da NATO para traduzir e eu lá ia traduzindo, entre o almoço e o jogo de ténis com o chefe de estado-maior, entre umas braçadas na piscina do Campo de Santa Margarida ao fim da tarde e o jogo do King ou do póquer, na sala de oficiais, depois do jantar.
À quinta feira depois de almoço embarcávamos na carrinha para Lisboa que nem uns pardais em alvoroço, sequiosos de saias, que ali toda a semana, quando não quinze dias, se calhava um serviço ao fim de semana, só havia as das coronelas já completamente passadas aos nossos olhos então muito azougados e inexperientes.
Às vezes havia prestação de serviços de “intendência” mas isso era só para soldados. Os oficiais mesmo à fome, faziam má boca para aquilo. No meio dos pinhais ou numa arrecadação com vigilância à distância, uma que outra mulher de bom coração vinha por ali dar ânimo à tropa. Nos exércitos de quinhentos, seiscentos e depois, estas mulheres, as aguadeiras, seguiam em trupes, os exércitos e sem dúvida ajudavam-nos a manter senão a moral pelo menos o moral.

Em Santa Margarida, deitada de costas, de pernas abertas em cima dum cobertor a resguardar-lhe as viçosas nádegas do mato áspero, ali estava, numa tarde de Junho, mais uma vez, aquela alma benfazeja entre os 25 e os 35 anos. Por apenas vinte e cinco tostões à peça, que ali a clientala era de parcos haveres, aquela abnegada servidora do Estado prestava um meritório serviço público. Numa tarde despachava uns quarenta ou cinquenta sequiosos soldados formando bicha. O esquema organizativo, a rapidez e as moedas a crescerem, funcionava a seu favor porque se alguém se demorava com sofisticações despropositadas, logo os da fila, de arma em riste mas ainda embainhada, gritavam vá, vá, vá toca a andar, pá, que é isso agora!?


Alferes Miliciano no Quartel-General da 3ª Divisão, 1962

Mas o caso que eu queria contar era o seguinte: estávamos todos ali, no salão nobre do quartel-general a festejar qualquer coisa – havia sempre um pretexto honesto porque havia 900 contos (era dinheiro então) orçamentados para despesas de representação. Ora com a guerra colonial, os exercícios da NATO estavam suspensos mas não as despesas de representação. Na ausência das centenas de oficiais estrangeiros da Nato que anualmente estavam presentes em exercícios e festanças tínhamo-nos de nos sacrificar nós e cumprir escrupulosamente os orçamentos. Estávamos portanto ali umas dezenas largas de oficiais de todo o Campo a beber uns champanhes, a comer umas tapas com caviar, salmão e outras iguarias, enfim a festejar a Pátria enquanto não se malhava com o canastro em Angola! quando um estafeta me chega ali, eu de serviço por acaso, e me obriga a acorrer a uma qualquer emergência sem importância mas obrigatória.
Quando regresso e me dirijo, displicente, para uma mesinha de comes e bebes, reparo num sepulcral silêncio à minha volta, um silêncio que me fez parar e olhar em redor. Deviam ter combinado. Então o chefe de estado-maior, o ten-cor Guerra Júnior, na presença dos dois brigadeiros, dos comandantes e restante oficialagem do Campo, vira-se para mim e disse a modos que todos ouvissem bem "então afinal o nosso alferes Narciso é que é o comunista cá do Campo!" Julgo não ter sido fulminado por nenhuma síncope ou raio porque momentos depois dei por mim ainda ali especado mas… para morrer. Talvez fosse um instante mas na altura não fui capaz de avaliar. Na minha total estupefacção (porque o caso é que ainda que ninguém suspeitasse, não sendo eu "o" comunista lá do Campo era no entanto "um" dos poucos oficiais comunistas lá do Campo) comecei a pensar, julgo eu, que teria que dizer qualquer coisa. Ficar calado parecia-me pior. Mas dizer o quê? Sou sim senhor com muita honra? Era parvoíce e pouco engenho. Além de que, é claro... passavam-me a soldado e ia bater com os costados a Penamacor, ao batalhão disciplinar, ou talvez mais certamente ao forte de Caxias ou de Peniche, que a PIDE estava-se nas tintas para regulamentos da tropa. Juro que não sou e o meu Chefe é um grande mentiroso. Também não me pareceu resposta eficaz.

Deus Nosso Senhor ou a Virgem Maria ou o Santo Condestável, dada a nossa cumplicidade, socorreu-me naquele mortífero transe e pela minha boca disse descontraído: “ora meu chefe, se tivesse dito da maçonaria, então é que acertava!” Ainda eu ouvia assustado o resto das minhas palavras quando explode uma gargalhada geral que só a seguir percebi porquê. É que toda a gente sabia (menos eu) ou se não sabia pelo menos dizia que um dos brigadeiros era "irmão" e usaria o legítimo avental dos pedreiros livres nas cerimónias da praxe. O próprio chefe de estado-maior se virou para ele e riu a bom rir. Um milagre! Se há milagres aquilo foi um milagre! Milagre que ainda hoje, agradecido ao Condestável, recordo.

Artes plásticas e poesia



O poster é de Olbinski, como se percebe, mas o poema... esse é da minha amiga Monalisa, no Sítio da Saudade:

Se olhar para cima talvez ainda veja
Um resto do céu do dia de hoje

As tardes chegam depois
Cada vez mais tarde

E eu?

Saberei o caminho de novo?

Olbinski: "Homenagem a René Magritte"


René Magritte "A Assinatura em Branco"- 1965. [link]

Olbinski, Rafal  Posted by Picasa

Olbinski, Rafal

2006/03/29

O Museu Hermitage em S. Petersburgo

São Petersburgo. Vista da praça do palácio de Inverno (à direita), com o Edifício do Estado Maior General, à esquerda, integrado no complexo do Museu Estatal do Hermitage, constituído por 5 palácios.
Ao centro vista do Palácio de Inverno do lado da praça e em baixo vista do Palácio de Inverno do lado do Rio Neva.

O museu tem mais de 3 milhões de obras de arte, desde a pré-história aos tempos actuais e desde arte europeia, Médio e Extremo Oriente. [link]

S.Petersburgo, depois Petrogrado e a seguir à revolução de Outubro de 1917 Leninegrado, voltou ao nome primitivo após o fim da União Soviética e foi a capital dos czares até à revolução comunista.

É a segunda maior cidade da Rússia, depois de Moscovo. Foi fundada por Pedro, o Grande (1682-1725), para consolidar a conquista de território até ao mar com o objectivo de abrir à Rússia o caminho do Ocidente. Construída numa zona pantanosa, sobre 100 ilhas, no delta do Rio Neva, abre-se para o Golfo da Finlândia. Os canais e as 700 pontes estão na origem da designação de Veneza do norte.



Algumas obras de arte do Museu Hermitage