Um pouco mais tarde, em 1960, conheci o filho, José de Almada Negreiros, com o mesmo nome do pai. Cumpríamos, com mais uns sete ou oito rapazes, o serviço militar obrigatório em Torres Novas, como aspirantes a oficial miliciano. Alguns tornaram-se figuras públicas. Um a que na altura não prestámos grande atenção chamava-se Belmiro de Azevedo, viria a fazer uma fortuna talvez maior que a nossa. Outro, o José Bernardino, ganhou fama como revolucionário e dirigente comunista. Constituía com os irmãos e demais família, um célebre clã, com sede na Avenida de Roma em Lisboa. Mais que residência era um verdadeiro centro de formação política e cultural de estudantes universitários, mormente do Técnico, e também de conspiração anti-fascista. José bernardino tínha-me recrutado para o PCP uns meses antes quando, na tropa em Cascais, fazíamos a recruta. Dois anos depois foi preso pela PIDE, foi terrivelmente torturado e passou na cadeia uns seis anos. Do Zé Bernardino dizia-se que na PIDE, no meio das torturas, não só não denunciara ninguém como nem sequer o nome dele declarara à polícia.
O convívio no quartel do GACA 2, em Torres Novas, o passar o tempo na vila, onde todos se encontram e as conversas nas viagens em conjunto, para Lisboa, deram para conhecer e fazer amizade com o jovem culto e fazedor de amigos que era o José de Almada Negreiros.
Cada um seguiu a sua vida mas em 1974 reencontrámo-nos. Ele queria conversar comigo sobre a clandestinidade donde eu acabara de sair. E eu queria voltar a conversar com ele. Com o Ernâni Pinto Basto, um dos aspirantes a oficial miliciano de Torres Novas, e amigo comum, fomos jantar ao Restaurante do Velho Moinho. Eu e o Ernâni chegámos nuns carritos plebeus de 1.200 cm3 de cilindrada e quase ao mesmo tempo chegou o Almada num vistoso Porsch que custaria tanto como uns dez dos nossos. Fingindo-se incomodado com a diferença de status exposta pelos carros (em 1974, com a revolução em crescendo, politicamente correcto era a igualdade. Igualdade por baixo, claro!) Almada depois dos abraços de quem não se vê há uns anos exclamou:
- Eu não tenho dinheiro para comprar carros desses. Não posso andar a comprar carros todos os anos! Tenho de comprar um carro que me dure uns quatro ou cinco anos.
2004/07/10
2004/07/02
Registo Civil na Clandestinidade

A experiência de dezenas de anos de clandestinidade transmitida no PCP de clandestino a clandestino, mostrava que se poderia, feito anónimo cidadão, ir a um registo civil e declarar a existência de mais uma portuguesa, registá-la com o verdadeiro nome que lhe destinávamos para uma vida bem aventurada e também com os verdadeiros nomes dos pais.
Dar nomes falsos dos pais defendia melhor a nossa situação. No entanto a probabilidade de os funcionários de um pobre registo civil de bairro terem no ouvido o nome de todos os clandestinos que a PIDE procurava era negligenciável. O que sabíamos é que declarar nomes falsos dos pais num registo implicaria mais tarde muitos trabalhos, quiçá vãos, para desfazer a bem intencionada tramóia e a criança arriscava-se a ficar com pais falsos. Talvez mesmo incapaz, no futuro, de traçar a sua árvore genealógica senão até Adão e Eva pelo menos até um avoengo suficientemente distante e incontrolável para o apresentar como bastante ilustre, jacobino ou de sangue azul, conforme os gostos.
A dificuldade estava, nas circunstâncias do nascimento da Nô, em resolver o assunto com os nossos verdadeiros documentos porque o meu bilhete de identidade, tinha ultrapassado há muito o prazo de validade. Teria de o renovar e isso não podia fazer. A Maria ainda estava pior pois só tinha a cédula de nascimento.
Fomos a um registo civil criteriosamente escolhido por estar numa zona sossegada da cidade e assim não nos expormos aos olhos de muitos e pouco fiáveis transeuntes. Revelei logo ao funcionário que nos atendeu as carências de identificação. Como prova das nossas boas intenções e confiabilidade, pouco mais podíamos apresentar do que o nosso bebé que, como bons pais, achávamos o mais belo do mundo. Que não havia problema adiantou-me o funcionário. Bastava levar comigo duas testemunhas. Agradeci-lhe o conselho considerei que era uma alternativa óptima e retirei-me não a buscar, como lhe disse, as inexistentes testemunhas, mas à procura de outro registo civil menos exigente. No segundo a empregada garantiu-me que os bilhetes de identidade em ordem eram absolutamente indispensáveis. Já arreliado e só para oferecer alguma resistência, insisti, falsamente claro, que lhe trazia duas testemunhas. Que isso não chegava, garantia-me ela. Os bilhetes de identidade eram indispensáveis, estava na lei.
Qual lei qual carapuça - comecei eu a argumentar irritado com a burocracia quando reparei já em retirada, que não era de minha conveniência dizer que acabara de vir de um registo em que me disseram exactamente o contrário - é claro que a funcionária me perguntaria então porque é que não ia a ele. Virei-lhe as costas com má cara e nem me despedi.
Procurámos um terceiro Registo. Não era tão simples assim. Tinha de entrar num comércio de pouca clientela. Pedir a lista telefónica. Procurar a morada de mais um registo e arranjar uma desculpa para não telefonar. Depois começar a ver como deveríamos lá chegar. Estudar os caminhos. Táxi? Apanhá-lo onde? E sair do táxi em que local de pouco movimento? Tudo isto com o bebé ao colo. Por um lado atrapalhava os movimentos mas por outro melhorava as condições conspirativas. Nenhum pide iria pensar que clandestinos como nós, pudessem andar assim com total desfaçatez pela rua fora com um bebé verdadeiro ao colo.
Lá fomos. Mas também neste registo civil o funcionário que nos atendeu achou que nos faltava qualquer coisa e não se deu por satisfeito.
- O bilhete de identidade da mãe ainda podia dispensar mas o do pai... sabe, o pai é o chefe da família. É absolutamente indispensável. Argumentou.
- Mas com base em que lei? - Arrependi-me logo do meu ar reivindicativo, demasiado insolente para quem não tem vantagem nenhuma em dar nas vistas. O homem franziu o sobrolho e preparava já outra linha de exigências e explicações quando me rendi dizendo que se ele era isso pois então ia actualizar o bilhete de identidade.
Já desesperados entrámos em mais um registo. Ficava no Campo dos Mártires da Pátria. Não sei se o nome do Largo teve papel propiciador, o certo é que depois de várias explicações, consultas entre o funcionário e o conservador, choros do bebé, tentativas frustradas da mãe para o apaziguar já com a mama de fora, nos disseram que não era preciso nada. Bastavam as nossas declarações e o meu bilhete de identidade mesmo fora do prazo. Aos nossos ouvidos soou como música celestial. Suspirámos de alívio. Aconteceu-me até entrar, mas só um bocadinho! naquela euforia suicida dos mergulhadores que prolongam, temerários, a estadia no fundo dos mares quando o oxigénio começa a escassear. Assim eu com aquelas facilidades e a alegria de ver o problema resolvido o que me veio à cabeça dizer foi: mas que incompetência! Não exigem nada? Assim até um qualquer clandestino pode registar os filhos! Claro que não disse nada e até me assustei só de o pensar.
Tínhamos de fazer prova de casados para a rapariga ficar filha legítima. Decidimos ali mesmo prescindir dessa prova de respeitabilidade. O que queriamos é que a Ilda Leonor quando crescesse pudese ter pais e saber como lhes chamar. Dissémos ao conservador - com um ar entre o cúmplice e envergonhado - que não estávamos casados. Estávamos juntos.
- Sabe como é..., problemas que surgem. - Eu dava-lhe a oportunidade para ele imaginar mais um de entre tantos casos que todos conhecemos. Os pais da noiva que não querem o casamento. A falta de meios para fazer boda ou o "copo de água", arranjar enxoval, alugar casa, comprar mobília. Já não falo em dramas de Romeu e Julieta, Inês de Castro ou Amor de Perdição. Que nos tempos que corriam não havia dinheiro nem vagares para isso. O conservador, homem justo, disse que sim com a cabeça, que sabia como são estas coisas.
O futuro mantinha-se tão incerto, sabíamos lá como ia ser. Dávamo-nos por satisfeitos com a situação. Trazíamos de volta, registada, a nossa filha mas... ilegítima. Na situação em que estávamos legítima ou ilegítima tanto se nos dava. Afinal ou a ditadura nunca mais acabava e no nosso caso como não respeitávamos a sua legitimidade não nos sentíamos diminuídos ou ela vinha abaixo e então as legitimidades eram outras!
Assim era a legislação do fascismo. Se os pais não estavam casados podiam registar os filhos mas só como filhos ilegítimos. Uma vergonha. A vergonha não a assumimos como nossa, deixávamo-la para a ditadura.
Legitimámos a Nô, como nossa filha, quando legalizei o casamento em 27 de Novembro de 1975 e nesse mesmo dia registámos o filho que estava duplamente clandestino.
O país ainda estava longe de ter serenado e o nosso registo de casamento e a pequena festa que planeáramos ressentiu-se disso. Tinhamos marcado a data há muito tempo e não sabíamos que a revolução ia acabar em 25 de Novembro de 1975, com uma confrontação militar, dois dias antes do nosso casamento oficial. O registo foi na Avenida Guerra Junqueiro em Lisboa, perto do local onde estava, na Avenida Óscar Monteiro Torres, num local reservado. Por causa do 25 de Novembro. E porque a reunião era com Álvaro Cunhal, Jaime Serra e Ângelo Veloso.
- Camaradas, como vos disse, tenho de interromper a reunião. Tenho o registo do casamento marcado para daqui a um quarto de hora.
2004/06/28
REQUISIÇÃO CIVIL!! Voilá
A manhã já ia saída e era meio resignado que ouvia na Antena 1 as respostas dos ouvintes à pergunta do fórun. Era sobre a fuga do Durão. É claro. Um olho na rádio, um dedo na tecla e só comecei a prestar atenção ao Sr. Paulo Miranda já ele ia bem lançado.
Para se dar o devido valor ao que disse é preciso ouvi-lo. Vou tentar.
Parecia-me o género homem do povo. No bom sentido. Percebe-se o que quero dizer? Adiante.
O Sr. Paulo Miranda falava pausadamente, sem gaguejar, com convicção mas nenhum excesso de emoção ou vanguardismo político. E... hela! não era conversa para levar o voto ao seu moínho. Dizia que não achava bem isto do 1ºM ir, agora a meio do caminho, lá para Bruxelas. Que elE disse mal do Guterres e muito bem, por se ter ido embora e vai agora faz o mesmo. Pediu aperto do cinto porque o país ia mal. Ele até concordou, apertou o cinto. Houve sacrifícios e agora deixa tudo a meio numa desorientação.
Passei a ouvi-lo com toda a atenção. Em parte porque estava de acordo com tudo o que ele dizia. E por isso achava-o cheio de razão. Com palavras simples. Via-se que não era político, jornalista ou intelectual. Talvez um empregado. Não era do PCP, nem do Bloco. Pelo estilo. Até parecia que talvez tivesse votado no Durão e agora achava o abandono uma indecência.
Sempre sem aumento de voz e sem excessiva indignação que a crise já é tal que nem permite tais excessos. Até acho - continuava ele - até acho que ele não vai trazer grande coisa para o país como se ouve dizer. O que é que ele, como presidente do Parlamento Europeu, pode dar a Portugal? Não estou a ver. Não se pode comparar com um caso, por exemplo, se o Pinto da Costa fosse para presidente da FIFA. Aí sim eu acho que ele poderia arranjar alguma coisa a favor do nosso futebol. Mas agora Durão Barroso presidente do Parlamento Europeu! Não me parece.
Concluí que não tinha sido um lapsus linguae e que estava mesmo a fazer confusão com o Parlamento Europeu. Talvez até nem soubesse dessas miudezas da existência de uma Comissão.
Porque - argumentava, e foi aí que sem querer, soltei uma gargalhada que até acordei o meu neto. Porque foi uma observação genuina. Se fosse um espertalhão a fazer graça, enfim, teria esboçado quando muito um sorriso distraído. Mas dito pelo Sr.Paulo Miranda... Pareceu-me que falava do Algarve e pela aparência seria homem de trabalho aí com uns quarenta anos. E - dizia ele, placidamente - agora com o 2004... houve trabalhadores que quiseram fazer greve. Ora isso não podia ser e houve requisição civil. Achei muito bem e não houve greve. Por isso acho que agora também se devia aplicar uma requisição civil e não o deixar sair.
Para se dar o devido valor ao que disse é preciso ouvi-lo. Vou tentar.
Parecia-me o género homem do povo. No bom sentido. Percebe-se o que quero dizer? Adiante.
O Sr. Paulo Miranda falava pausadamente, sem gaguejar, com convicção mas nenhum excesso de emoção ou vanguardismo político. E... hela! não era conversa para levar o voto ao seu moínho. Dizia que não achava bem isto do 1ºM ir, agora a meio do caminho, lá para Bruxelas. Que elE disse mal do Guterres e muito bem, por se ter ido embora e vai agora faz o mesmo. Pediu aperto do cinto porque o país ia mal. Ele até concordou, apertou o cinto. Houve sacrifícios e agora deixa tudo a meio numa desorientação.
Passei a ouvi-lo com toda a atenção. Em parte porque estava de acordo com tudo o que ele dizia. E por isso achava-o cheio de razão. Com palavras simples. Via-se que não era político, jornalista ou intelectual. Talvez um empregado. Não era do PCP, nem do Bloco. Pelo estilo. Até parecia que talvez tivesse votado no Durão e agora achava o abandono uma indecência.
Sempre sem aumento de voz e sem excessiva indignação que a crise já é tal que nem permite tais excessos. Até acho - continuava ele - até acho que ele não vai trazer grande coisa para o país como se ouve dizer. O que é que ele, como presidente do Parlamento Europeu, pode dar a Portugal? Não estou a ver. Não se pode comparar com um caso, por exemplo, se o Pinto da Costa fosse para presidente da FIFA. Aí sim eu acho que ele poderia arranjar alguma coisa a favor do nosso futebol. Mas agora Durão Barroso presidente do Parlamento Europeu! Não me parece.
Concluí que não tinha sido um lapsus linguae e que estava mesmo a fazer confusão com o Parlamento Europeu. Talvez até nem soubesse dessas miudezas da existência de uma Comissão.
Porque - argumentava, e foi aí que sem querer, soltei uma gargalhada que até acordei o meu neto. Porque foi uma observação genuina. Se fosse um espertalhão a fazer graça, enfim, teria esboçado quando muito um sorriso distraído. Mas dito pelo Sr.Paulo Miranda... Pareceu-me que falava do Algarve e pela aparência seria homem de trabalho aí com uns quarenta anos. E - dizia ele, placidamente - agora com o 2004... houve trabalhadores que quiseram fazer greve. Ora isso não podia ser e houve requisição civil. Achei muito bem e não houve greve. Por isso acho que agora também se devia aplicar uma requisição civil e não o deixar sair.
2004/06/23
Nos Bastidores da Festa do Causa Nossa
A festa tinha o nome de Solstício de Verão e num post de Vital Moreira chegou mesmo a falar-se em festa PAGÃ! Que para mim foi uma primeiro aviso. Depois, a confirmar que a festa tinha muito que se lhe diga e não era tão inocente como uma leitura apressada poderia induzir, havia o facto de ao lado do LUX, mesmo mesmo ao lado estarem atracados os três navios (Navios Fantasmas?)do Roman Abramovitch (Três navios! Não era um ou dois. Atenção eram TRÊS!?) o Navio-Escritório-de-Negócios, o Yate-de-Luxo-Residência-Serralho-com-Helicóptero e o Yate-Navio-de-Apoio. É que podiam estar muito bem atracados noutro sítio. Mas não, estavam ali encostadinhos ao LUX. A tal ponto que uma pessoa até se engana.
Por exemplo, eu ao chegar vi logo por ali o Vital Moreira e a Maria Manuel. Até para ser verdadeiro vi primeiro o Daniel Oliveira - Olá tás bom que é feito, só sei de ti pelo Barnabé quando é qu'apareces. Ah! Lá na Assembleia da República!! Ah tá bom atão vou lá um destes dias almoçar contigo. Ao restaurante dos deputados. O Vasco pulido Valente quando lá esteve dizia que se comia mal como um raio até tinha de ir almoçar ao Gambrinos.
Mas, voltando ao caso intrigante do Causa Nossa. Mal cheguei vi os barcos, quero dizer os navios (se algum oficial da Armada ouvisse chamar barco a um navio, aqui del rei...caía o Carmo e a Trindade) vi os navios e esqueci-me logo do LUX. Enfiei pelo Yate grande acima. Mas qual quê quando já via lá dentro odaliscas daquelas de fazer tremer Mães de Bragança, salta-me ao caminho um batalhão de seguras a dizer davai! davai! de kalachnikovs em punho que se não fosse eu a dizer izvinitz tavarichis, tavarishis nyet, emendei logo, lembrando-me que agora era Putin e não Brejnev. Voltei para trás e lá embiquei para o LUX.
Entrei, parecia tudo normal, aqueles bloguistas todos a conversar, a Ana Gomes explicava como foi aquilo em Jakarta, o Vicente Jorge Silva contava aquelas coisas todas que a gente sabe lá do Parlamento. Tudo aparentemente numa boa. Mas sentia-se no ar que alguma coisa de muito estranho percorria o LUX.
Eis senão quando com um ar muito natural a fazerem-se passar por bloguistas entra um tipo que devia ser o chefe, óculos escuros, mesmo ali, de noite, todo de preto da cabeça aos pés a faiscar dos anéis, das pulseiras e atrás, disfarsados, uma dúzia de capangas, metade mulheres, mas daquelas que se vê logo que sabem do karaté.
Como é que entraram? Pois eram italianos, sotaque napolitano e alguns claramente com sotaque siciliano, disseram para o porteiro Cosa Nostra? Cosa Nostra? Porteiros sem formação adequada ao pós 11 de Setembro, caiu logo na esparrela a julgar que eles eram convidados do Causa Nossa.
Só quem estava atento é que via. Espreitavam tudo. Uma até espreitava por detrás dos espelhos para ver se eram portas falsas, mas como quem compõe o baton. O tipo do bar que estava encarregado de nos dar uma cervejinha por conta do Causa Nossa e atenção da Sagres, não estava a ver nada do que se passava e também lhes deu umas fichas para a sagres. Primeiro iam a recusar depois viram que toda agente aproveitava também beberam.
Eles próprios não estavam a perceber nada do que se passava. Num primeiro tempo pensaram que o Abramovich convidara a quela gente toda para servir de biombo ao negócio e por detrás dos espelhos deviam-se abrir mangas, estilo aeroporto, que levariam directamente ao Yate-Grande-do-Serralho-e-helicóptero.
Quando perceberam no logro em que estavam sairam porta fora à pressa para procurar o dono do Chelsea directamente no Yate.
Tinham perdido muito tempo distraídos com a assistência, a reparar no José Magalhães, na Ana Gomes, no Paulo Querido, na Ana Prata, na Maria Manuel,que estava com um vaporoso vestido vermelho, no Roncinante do blog O Jumento. E isso foi-lhes fatal.
Mal saltaram na rua, quer dizer no cais, porque ali a rua era o cais, dez metros até os Yates-navios-russos. Quando avançam para os navios já não havia hipóteses, uma barreira fechada dos nossos homens do GOE, de pistola metralhadora em punho, cara tapada com uma meia preta, só os olhos à vista, que a bem dizer nem se viam bem. Um aspecto terrível que até para aquela gente Napolitana e Siciliana metia respeito. Eu segui-os como quem não quer a coisa a toscar tudo. Senti um certo orgulhozinho nos nossos homens do Grupo das Operações Especiais.
Os falsos bloguistas reuniram-se em círculo em torno do que devia ser o chefe, a planear a estratégia e segundos depois afastaram-se radialmente, em todas as direcções, menos na dos navios para evitar o choque com os Goes.
Lá na festa do Causa Nossa continuava tudo em festa sem se aperceberem de nada. Foi aí que me valeu por um lado conhecer o nome dum dos capitães do GOE. Dei um toque conspirativo num praça e pronunciei o nome do capitão. Não digo o nome para não o comprometer. Abriu-me logo passagem e lá em cima aos russos de má catadura abri um sorriso e repeti Causa Nossa Causa Nossa. Eles que percebem um pouco de siciliano calcularam que era Cosa Nostra apalparam-me de alto a baixo, viram que vinha desarmado, levaram-me directo ao Abramovich. Recebeu-me de braços abertos julgando-me emissário dos outros. Tentei falar com ele em russo mas pareceu-me que não dominava bem a língua - será Checheno ou é do meu russo? - pedi intérprete e vieram três loiraças (atenção três, sempre às três, como os navios!!! É um número cabalístico!!! disso sei eu). As loiras, meu Deus, aquilo é que são verdadeiras eslavas. Razão têm as Mães de Bragança em não andarem descansadas.
Numa pergunta bem calculada perguntei-lhe que raio era aquilo do GOE todo lá em baixo. Não fiz perguntas à toa era tudo perguntas com um segundo sentido ou que podiam ter muitas interpretações. Por isso o Abramovitch com um manto de arminho branco pelas costas, que a noite pusera-se fresca, numa pose entre o "negligé" e o Ivan o Terrível, do filme do Eisenstein, com certeza para me impressionar, a julgar-me um emissário do outro bando respondeu-me achando perfeitamente natural a pergunta, que os seus homens tinham visto o grupo esgueirar-se para o LUX em vez de irem ao barco pensou que estariam a tramar alguma, porque é claro nunca se sabe...
Pois - disse eu aguentando a parada - mas o GOE? O GOE é uma força especial da PSP do Estado Português, enfim são bófias. Bófias metidos nisto!? Qual não é o meu espanto quando ele me diz: comprei o GOE. Comprou o GOE? Disse eu de boca aberta quase interdito de espanto. Sim comprei-o com a Quinta das Àguas Livres e tudo. Sabe como eles estão aflitos com o orçamento. Esse Manuel Ferrer Lete. Ofereci-lhes um número que eles não podiam recusar. Já não tinha palavras, só abanava a cabeça.
Então e agora? Perguntava eu a ver se ele se descaía com qualquer coisa.
Agora? Então agora nada, o negócio está de pé, mantenho a minha. 51% para mim 49% para vocês. 51% repetia eu devagarinho sem atinar. Mas sempre é possível avançar? Dizia isto para não estar muito tempo calado e a tentar perceber de que raio se trataria. Está tudo bem encaminhado - continuou o Abramovitch de sorriso confiante. O Pinta da Costa está de acordo já falou com o Karlous Tavarichi e com o primeira ministro. Mantém-se o preço.
Aí fez-se luz no meu espírito. Olha os cabrões disse baixinho, comprou o GOE e agora quer comprar o Futebol Clube do Porto. Ah pois, pois - ia gaguejando eu já a levantar-me. Mas está incluido o estádio? Claro, está tudo. E assim aproveito o Yosef Mourinha para os dois.
Vim embora. Mas ainda consegui passar a mão pela intérprete mais a jeito. Só para ele não se ficar a rir. Uma coisa de nada assim como o Ieltsin, no palácio do Kremlin. Já nem voltei ao LUX. Se chego lá acima e conto isto...gente de blogs... nem perceberiam nada do que é que eu estava a falar. Além do perigo, claro.
Esta foi uma das centenas de cartas que aqui no Memórias do Presente recebi dos nossos leitores sobre a festa do Causa Nossa. Selecionei esta que me pareceu ter um certo interesse de Estado.
A carta é da Júlia Roberta e vinha acompanhada da seguinte observação: Ó Raimundo você que estava lá acha que isto tem algum jeito? Pode lá ser? O Jorge com esta ida ao Causa Nossa ficou mas foi meio passado da tola. Pode tirar-lhe estas patranhas da cabeça?
Sabe conta-me esta história toda pela manhãzinha eu ainda ensonada e a querer virar-me para o outro lado. Oh Júlia. Júlia! Tás-ma ouvir ou tás a dormir. Oh gaita. Tou a dormir. Deixa-me em paz. Acorda lá. Ontem não te contei nada mas não estou descansado com isto. Não posso guardar isto só para mim.
E no fim pergunta-me o que é que eu achava. Acho que estás maluco. Olha vai mas é tomar um banho frio e aclarar ideias. O Jorge foi e saiu porta fora já atrasado para o escritório.
O que é que acha, Raimundo? Terá sido pesadelo ou ele não estará bem?
Respodi à Julia, por email, que não achava nada. O Jorge lá sabe. Se ele diz... Sabe, acontecem coisas que a gente nem sonha.
Foi o que respondi. Não ia deixar mal o Jorge nem prejudicar o Mistério em torno do Causa Nossa. Mas cá para mim fiquei a meditar, a diferença que faz o capitalismo do socialismo! As oportunidades que cria!! Um self made man com 37 anos, num instante, a fortuna que faz! Até já parece a América.
Por exemplo, eu ao chegar vi logo por ali o Vital Moreira e a Maria Manuel. Até para ser verdadeiro vi primeiro o Daniel Oliveira - Olá tás bom que é feito, só sei de ti pelo Barnabé quando é qu'apareces. Ah! Lá na Assembleia da República!! Ah tá bom atão vou lá um destes dias almoçar contigo. Ao restaurante dos deputados. O Vasco pulido Valente quando lá esteve dizia que se comia mal como um raio até tinha de ir almoçar ao Gambrinos.
Mas, voltando ao caso intrigante do Causa Nossa. Mal cheguei vi os barcos, quero dizer os navios (se algum oficial da Armada ouvisse chamar barco a um navio, aqui del rei...caía o Carmo e a Trindade) vi os navios e esqueci-me logo do LUX. Enfiei pelo Yate grande acima. Mas qual quê quando já via lá dentro odaliscas daquelas de fazer tremer Mães de Bragança, salta-me ao caminho um batalhão de seguras a dizer davai! davai! de kalachnikovs em punho que se não fosse eu a dizer izvinitz tavarichis, tavarishis nyet, emendei logo, lembrando-me que agora era Putin e não Brejnev. Voltei para trás e lá embiquei para o LUX.
Entrei, parecia tudo normal, aqueles bloguistas todos a conversar, a Ana Gomes explicava como foi aquilo em Jakarta, o Vicente Jorge Silva contava aquelas coisas todas que a gente sabe lá do Parlamento. Tudo aparentemente numa boa. Mas sentia-se no ar que alguma coisa de muito estranho percorria o LUX.
Eis senão quando com um ar muito natural a fazerem-se passar por bloguistas entra um tipo que devia ser o chefe, óculos escuros, mesmo ali, de noite, todo de preto da cabeça aos pés a faiscar dos anéis, das pulseiras e atrás, disfarsados, uma dúzia de capangas, metade mulheres, mas daquelas que se vê logo que sabem do karaté.
Como é que entraram? Pois eram italianos, sotaque napolitano e alguns claramente com sotaque siciliano, disseram para o porteiro Cosa Nostra? Cosa Nostra? Porteiros sem formação adequada ao pós 11 de Setembro, caiu logo na esparrela a julgar que eles eram convidados do Causa Nossa.
Só quem estava atento é que via. Espreitavam tudo. Uma até espreitava por detrás dos espelhos para ver se eram portas falsas, mas como quem compõe o baton. O tipo do bar que estava encarregado de nos dar uma cervejinha por conta do Causa Nossa e atenção da Sagres, não estava a ver nada do que se passava e também lhes deu umas fichas para a sagres. Primeiro iam a recusar depois viram que toda agente aproveitava também beberam.
Eles próprios não estavam a perceber nada do que se passava. Num primeiro tempo pensaram que o Abramovich convidara a quela gente toda para servir de biombo ao negócio e por detrás dos espelhos deviam-se abrir mangas, estilo aeroporto, que levariam directamente ao Yate-Grande-do-Serralho-e-helicóptero.
Quando perceberam no logro em que estavam sairam porta fora à pressa para procurar o dono do Chelsea directamente no Yate.
Tinham perdido muito tempo distraídos com a assistência, a reparar no José Magalhães, na Ana Gomes, no Paulo Querido, na Ana Prata, na Maria Manuel,que estava com um vaporoso vestido vermelho, no Roncinante do blog O Jumento. E isso foi-lhes fatal.
Mal saltaram na rua, quer dizer no cais, porque ali a rua era o cais, dez metros até os Yates-navios-russos. Quando avançam para os navios já não havia hipóteses, uma barreira fechada dos nossos homens do GOE, de pistola metralhadora em punho, cara tapada com uma meia preta, só os olhos à vista, que a bem dizer nem se viam bem. Um aspecto terrível que até para aquela gente Napolitana e Siciliana metia respeito. Eu segui-os como quem não quer a coisa a toscar tudo. Senti um certo orgulhozinho nos nossos homens do Grupo das Operações Especiais.
Os falsos bloguistas reuniram-se em círculo em torno do que devia ser o chefe, a planear a estratégia e segundos depois afastaram-se radialmente, em todas as direcções, menos na dos navios para evitar o choque com os Goes.
Lá na festa do Causa Nossa continuava tudo em festa sem se aperceberem de nada. Foi aí que me valeu por um lado conhecer o nome dum dos capitães do GOE. Dei um toque conspirativo num praça e pronunciei o nome do capitão. Não digo o nome para não o comprometer. Abriu-me logo passagem e lá em cima aos russos de má catadura abri um sorriso e repeti Causa Nossa Causa Nossa. Eles que percebem um pouco de siciliano calcularam que era Cosa Nostra apalparam-me de alto a baixo, viram que vinha desarmado, levaram-me directo ao Abramovich. Recebeu-me de braços abertos julgando-me emissário dos outros. Tentei falar com ele em russo mas pareceu-me que não dominava bem a língua - será Checheno ou é do meu russo? - pedi intérprete e vieram três loiraças (atenção três, sempre às três, como os navios!!! É um número cabalístico!!! disso sei eu). As loiras, meu Deus, aquilo é que são verdadeiras eslavas. Razão têm as Mães de Bragança em não andarem descansadas.
Numa pergunta bem calculada perguntei-lhe que raio era aquilo do GOE todo lá em baixo. Não fiz perguntas à toa era tudo perguntas com um segundo sentido ou que podiam ter muitas interpretações. Por isso o Abramovitch com um manto de arminho branco pelas costas, que a noite pusera-se fresca, numa pose entre o "negligé" e o Ivan o Terrível, do filme do Eisenstein, com certeza para me impressionar, a julgar-me um emissário do outro bando respondeu-me achando perfeitamente natural a pergunta, que os seus homens tinham visto o grupo esgueirar-se para o LUX em vez de irem ao barco pensou que estariam a tramar alguma, porque é claro nunca se sabe...
Pois - disse eu aguentando a parada - mas o GOE? O GOE é uma força especial da PSP do Estado Português, enfim são bófias. Bófias metidos nisto!? Qual não é o meu espanto quando ele me diz: comprei o GOE. Comprou o GOE? Disse eu de boca aberta quase interdito de espanto. Sim comprei-o com a Quinta das Àguas Livres e tudo. Sabe como eles estão aflitos com o orçamento. Esse Manuel Ferrer Lete. Ofereci-lhes um número que eles não podiam recusar. Já não tinha palavras, só abanava a cabeça.
Então e agora? Perguntava eu a ver se ele se descaía com qualquer coisa.
Agora? Então agora nada, o negócio está de pé, mantenho a minha. 51% para mim 49% para vocês. 51% repetia eu devagarinho sem atinar. Mas sempre é possível avançar? Dizia isto para não estar muito tempo calado e a tentar perceber de que raio se trataria. Está tudo bem encaminhado - continuou o Abramovitch de sorriso confiante. O Pinta da Costa está de acordo já falou com o Karlous Tavarichi e com o primeira ministro. Mantém-se o preço.
Aí fez-se luz no meu espírito. Olha os cabrões disse baixinho, comprou o GOE e agora quer comprar o Futebol Clube do Porto. Ah pois, pois - ia gaguejando eu já a levantar-me. Mas está incluido o estádio? Claro, está tudo. E assim aproveito o Yosef Mourinha para os dois.
Vim embora. Mas ainda consegui passar a mão pela intérprete mais a jeito. Só para ele não se ficar a rir. Uma coisa de nada assim como o Ieltsin, no palácio do Kremlin. Já nem voltei ao LUX. Se chego lá acima e conto isto...gente de blogs... nem perceberiam nada do que é que eu estava a falar. Além do perigo, claro.
Esta foi uma das centenas de cartas que aqui no Memórias do Presente recebi dos nossos leitores sobre a festa do Causa Nossa. Selecionei esta que me pareceu ter um certo interesse de Estado.
A carta é da Júlia Roberta e vinha acompanhada da seguinte observação: Ó Raimundo você que estava lá acha que isto tem algum jeito? Pode lá ser? O Jorge com esta ida ao Causa Nossa ficou mas foi meio passado da tola. Pode tirar-lhe estas patranhas da cabeça?
Sabe conta-me esta história toda pela manhãzinha eu ainda ensonada e a querer virar-me para o outro lado. Oh Júlia. Júlia! Tás-ma ouvir ou tás a dormir. Oh gaita. Tou a dormir. Deixa-me em paz. Acorda lá. Ontem não te contei nada mas não estou descansado com isto. Não posso guardar isto só para mim.
E no fim pergunta-me o que é que eu achava. Acho que estás maluco. Olha vai mas é tomar um banho frio e aclarar ideias. O Jorge foi e saiu porta fora já atrasado para o escritório.
O que é que acha, Raimundo? Terá sido pesadelo ou ele não estará bem?
Respodi à Julia, por email, que não achava nada. O Jorge lá sabe. Se ele diz... Sabe, acontecem coisas que a gente nem sonha.
Foi o que respondi. Não ia deixar mal o Jorge nem prejudicar o Mistério em torno do Causa Nossa. Mas cá para mim fiquei a meditar, a diferença que faz o capitalismo do socialismo! As oportunidades que cria!! Um self made man com 37 anos, num instante, a fortuna que faz! Até já parece a América.
2004/06/21
Nuno Gomes o nosso Nuno Álvares
Sim é um novo artigo. Mas, reparem, já é quase uma da manhã e amanhã é dia de trabalho. Pois fica para amnhã se houver tempo ou terça o mais tardar
2004/06/17
NASCER EM 2004 E NASCER NA CLANDESTINIDADE
maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.
Mas se não acompanharam o grande acontecimento familiar não perdem por isso porque o que eu queria mesmo contar é a diferença que fez o 25 de Abril. Sim sim, o 25 de Abril de 74. Porque o que vou contar é a diferença entre o nascimento do meu neto em 2004 e o nascimento do pai dele o meu filho José, 30 anos antes, estava eu... estava eu e estava ele! na clandestinidade.
Nunca mais lá tinha entrado. Na Alfredo da Costa. Não fora preciso. No entanto acompanhei ao longo dos anos a Maternidade. Passo muito por ali a caminho do Forum Picoas e outras vezes para deixar o carro no parque ao lado. Caríssimo! 2horas 500 escudos! 2€ e 50 cêntimos.
Com o meu neto foi como com toda a gente. Em resumo eram aí umas 8 horas da manhã, depois de sinais de parto, o José levou a mulher, de carro, à maternidade, identificou-se e a Filipa, com aquela barriga enorme a ameaçar bébé, entrou logo lá para dentro.
Há 30 anos em 11 de Março de 1974 o caso foi diferente mas só um pouquinho. Eu e a Maria Machado vivíamos em Odivelas com a nossa filha Leonor, já com quatro anos. Nomes falsos, bilhetes de identidade falsos. Tudo o que dizíamos aos vizinhos era falso. Tinha de ser. Às vezes pensávamos um para o outro: isto assim é uma vida completamente falsa, arre! As conversas com vizinhos eram o mínimo indispensável para parecermos uma família como as outras e era só a Maria a fazê-las porque especialmente deste 1972, com a minha fotografia posta nos jornais pela DGS (o nome que Marcelo Caetano deu à PIDE porque este não era nada simpático) desde 72 e especialmente desde 1973 quando voltaram a pôr a minha fotografia nos jornais e desta vez também na televisão com pedido de denúncia, só saía à rua de noite e com o máximo cuidado.
Era já noite quando fui buscar um táxi até à porta de casa para levar a Maria Machado. Uma coisa que se não deve fazer em circunstâncias normais. Mas a circunstância era anormal! Mesmo assim ainda fizemos um corte. Quer isto dizer que não fomos directamente para a maternidade Alfredo da Costa para não haver uma ligação entre a maternidade onde eu iria estar exposto e poderia ser reconhecido e a nossa casa. Tirando a matrícula ao táxi, interrogando o motorista, ficariam de imediato a saber onde morávamos. Depois os pides armavam-se em sonsos fazendo de conta que não tinham descoberto nada vigiavam-nos a casa e tentavam apanhar-nos a nós e aos outros clandestinos que comigo reuniam, ou seguiam-me até descobrirem outras casas e outras pessoas. Por isso mandei o táxi seguir para a maternidade Bensaúde ao Rego. Despachei o táxi com uma gorjeta modesta mas um bocadinho maior que as do costume e ainda à vista do motorista entrámos para a maternidade. Mas para de imediato sair e ir procurar outro táxi que nos levou finalmente à Alfredo da Costa já com a Maria muito queixosa.
Mal chegámos tendo em conta o estado dela deu entrada de imediato e eu fui para a salinha de espera. A sala dos pais que esperam.
Mas antes devo dizer que ao chegarmos pedimos para chamar a Dra Helena médica nossa amiga que estava avisada e à nossa espera. Era uma médica simpatizante do PCP de quem ficámos eternamente gratos e estava disposta a ajudar-nos e a correr riscos. Riscos muitos sérios. Se descobrem que nos estava a dar apoio… era a perda do emprego, prisão, tortura. A vida estragada. Era o que lhe podia muito bem acontecer se alguma coisa corresse mal. Felizmente tudo correu bem. Só umas aflições. A Maria com o parto e eu com o problema da nossa identificação por resolver
Encaminhei-me para a recepção da maternidade. A sala, mal iluminada, tinha um chão frio, de mosaico e à volta, bancos de madeira corridos onde outros pais, esperavam a vez para se identificarem. A sala tinha um aspecto lúgubre, impróprio para acolher quem naquele momento de desamparo necessita de um sinal de alegria e esperança.
Pensava mais uma vez em como haveria de resolver o problema da declaração da minha identidade. Agora a minha situação conspirativa era mais complicada do que quando nasceu a Leonor. Não me convinha mostrar nenhum dos bilhetes falsos que tinha, cada um para a sua função. Um para a casa que habitava, outro para a carta de condução, outro para a casa que servia de laboratório da ARA (é a Acção Revolucionária Armada). E por fim outro bilhete de identidade de reserva. Os BI estavam em casa. Comigo só tinha um para outras eventualidades.
Olhei à volta. Sentados ou em pé, de ombro encostado à parede, via outros homens na expectativa ansiosa de serem pais. Calados, cada um sozinho com os seus problemas. Que problemas, esperanças ou ansiedades povoariam aquelas cabeças? Pensariam na mulher que lá dentro dava à luz? Pensariam em como sustentar mais uma boca a chegar a este mundo? Pensariam no nome a dar ao rapaz ou à rapariga? Perdia-me em vãs conjecturas quando chamaram por um jovem cigano que se sentava na minha frente. Ao postigo de atendimento uma funcionária perguntou-lhe o nome. O jovem pai disse um nome qualquer, o dele com certeza, mas não consegui ouvir. A rapariga - a funcionária ainda era nova, dos quarenta para os cinquenta. Na altura achava-a velha mas agora acho que até se lhe podia chamar rapariga - pediu-lhe o bilhete de identidade. O cigano disse que não tinha. Eu mais do que escutava, bebia-lhe as palavras, tirando experiência, estudando a forma de me identificar sem me identificar. A mulher pediu-lhe então a carta de condução.
— Não tenho.
Foi simples, a resposta pronta.
— Bem, dê-me qualquer coisa que o identifique, o cartão do sindicato, por exemplo.
Aí o cigano riu-se e disse lampeiro que não tinha nada. Tinha lá agora isso de sindicato! Não tinha nada, nem isso nem coisa nenhuma, acabou-se. Disse peremptório achando completamente deslocadas senão mesmo parvas tais perguntas para mais num caso como aquele em que estava ali para ser pai e não para ser interrogado por coisas que sempre atribuem aos cidadãos da sua raça. Cidadãos digo eu agora porque nessa altura se a palavra existia caíra em desuso e ninguém se lembraria de a usar. Até poderia ser perigoso.
A funcionária face ao despautério de identificação nenhuma, não desatou a barafustar, não ameaçou, não chamou a polícia. Em boa verdade anotei mas muito disfarçadamente, nem protestou muito, apenas resmungou uns monossílabos do género isto é que são vidas e contentou-se.
Ora aí está, exultei, faço como o cigano. Era verdade que a minha pele demasiado branca não me dava um aspecto de irmão de raça do pai que me antecedeu. Pareceu-me por isso conveniente acompanhar de alguma desculpa a minha nudez identificativa.
— Peço desculpa mas com a pressa e atrapalhação não trouxe nenhum documento comigo! E disse um nome de que tomei então boa nota mas que depois se esfumou completamente na minha memória.
A funcionária não esteve para despender mais energias nem se agastar em admoestações. Terá feito o seu juízo do estado do mundo e anotou o nome falso que eu preparara para a paternidade do José.
E depois para tirar de lá o filho e a mãe?! Mas isso é já outra história. Talvez a conte mais tarde. Acham bem?
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